O que o Mal de Parkinson tem a ver com o intestino?
Pesquisas revelam conexão entre sistema digestivo e doença que afeta 200 mil brasileiros

Há casos em que a constipação intestinal crônica pode ser mais do que um desconforto digestivo, representando o primeiro sinal de uma condição neurológica que só se manifestará claramente anos depois. É o que sugerem pesquisas recentes sobre a doença de Parkinson, que tem levado cientistas a olharem além do cérebro para compreender as origens da patologia.
Um estudo norte-americano publicado no JAMA Network Open constatou que pessoas com histórico de lesões no revestimento gastrointestinal têm risco 76% maior de desenvolver Parkinson em comparação àquelas sem esses danos. Para pessoas com predisposição genética à doença, uma das sugestões de especialistas é fazer teste genético para identificar possíveis variantes associadas ao Parkinson, especialmente quando há casos na família.
“Muitas pessoas apresentam sintomas gastrointestinais, como constipação e náusea, por anos – até mesmo décadas – antes de problemas motores, como dificuldade para caminhar ou tremores”, afirma a neurogastroenterologista Trisha S. Pasricha, que integra o Instituto de Pesquisa Intestino-Cérebro vinculado ao hospital universitário da Faculdade de Medicina de Harvard (BIDMC).
A pesquisa norte-americana detectou que, em média, o diagnóstico de Parkinson ocorre 14,2 anos após as lesões na mucosa intestinal terem sido identificadas em exames endoscópicos. Em complemento, um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) demonstra que o sistema digestivo abriga a segunda maior concentração de neurônios do corpo e mantém comunicação constante com o cérebro. Essa via de mão dupla, o chamado “eixo intestino-cérebro”, pode ser determinante no desenvolvimento da doença.
Desequilíbrio da microbiota e vitaminas do complexo B
O cenário intestinal de pacientes com Parkinson apresenta características peculiares. Cientistas japoneses, em estudo publicado na NPJ Parkinson’s Disease, identificaram uma redução nas bactérias responsáveis pela produção de vitaminas B2 (riboflavina) e B7 (biotina), ambos compostos considerados essenciais para combater o processo inflamatório característico da doença.
A pesquisa também detectou níveis reduzidos de ácidos graxos de cadeia curta e poliaminas, substâncias que preservam a integridade da barreira intestinal. “Essa maior permeabilidade expõe os nervos a toxinas, contribuindo para a agregação anormal de alfa-sinucleína”, explica o pesquisador e coordenador do estudo, Hiroshi Nishiwaki, em entrevista à imprensa.
A alfa-sinucleína, proteína associada ao Parkinson, pode ter sua agregação iniciada pela bactéria Akkermansia muciniphila, encontrada em maior quantidade no intestino dos pacientes. Especialistas sugerem que o consumo do psyllium, um suplemento rico em fibras solúveis, pode ajudar a regular a função intestinal e fortalecer a barreira mucosa.
Novas abordagens terapêuticas
A relação intestino-Parkinson abre portas para novas abordagens de tratamento. Hiroshi Nishiwaki sugere que a suplementação de riboflavina e biotina pode representar uma via promissora para aliviar sintomas e retardar a progressão da doença.
Entre as terapias mais promissoras está a estimulação cerebral profunda, um procedimento cirúrgico que implanta eletrodos no cérebro para controlar os sintomas por meio de pulsos elétricos direcionados.
Fator genético e possibilidades de prevenção
Apesar da relevância da conexão intestinal, o Parkinson continua sendo uma doença multifatorial. Levantamento publicado na revista Brain mostra que cerca de 15% dos pacientes apresentam variantes genéticas potencialmente relevantes para a doença. O percentual salta para quase 27% entre aqueles com diagnóstico precoce (antes dos 50 anos) e histórico familiar.
As estratégias de prevenção envolvem atividade física regular, controle do tabagismo e hábitos alimentares que reduzam riscos de síndrome metabólica, diabetes e obesidade. Uma dieta rica em fibras ganha destaque por seu papel na preservação da barreira intestinal.
Fungos e café: novas pistas sobre a doença
Mas não são apenas as bactérias que desempenham papel na equação. Pesquisadores da Unicamp apontam que fungos e leveduras na microbiota intestinal também podem ser determinantes na evolução do Parkinson. A revisão bibliográfica realizada pelo biólogo Dionísio Pedro Amorim Neto, publicada no Fungal Biology Reviews, traz informações sobre o tema.
“Algumas espécies do gênero Candida encontram-se em maior número no intestino de pacientes com Parkinson”, observa Amorim Neto. “A alteração na composição desses microrganismos pode influenciar o curso da doença.”
Curiosamente, o café, que já tinha sido associado à redução do risco de Parkinson, pode dever seus efeitos protetores não apenas à cafeína, mas também aos microrganismos presentes em seu processo de fermentação.


