Tristes ecos do III Salão da Leitura de Niterói
Encerrado no último sábado, 30 de junho, depois de nove dias de angústia e prejuízos para os seus expositores, o III Salão da Leitura de Niterói nos deixa uma triste lição de como não se deve organizar um evento literário. Reverberado pelo vazio dos corredores e estandes durante a maior parte do tempo, ecoa ainda hoje o protesto dos participantes que investiram tempo e dinheiro no evento, ao cabo do qual deixaram apressadamente o Caminho Niemeyer em sua maioria com a promessa de não mais voltar.
A maior proeza dos organizadores - leia-se Fundação Municipal de Educação - ficou, porém, reservada ao balanço estatístico feito no final. Já vi, ao longo da vida, muita maquiagem de números, muito chute de estimativa de público em eventos e conglomerados humanos, mas nunca, confesso, com tanta cara-de-pau como a dos que anunciaram a presença de 90 mil pessoas no salão, conforme publicado em O Fluminense no dia 30 de junho e reafirmado na edição do dia 2 de julho.
Curioso como o mesmo jornal publicara na terça-feira, dia 26, ou seja, quando a feira já se encaminhava para a sua metade, que “até ontem, mais de 2 mil pessoas já visitaram os estandes”. Como teria sido possível a visitação do salão ter dado um salto de mais de 4.000% na metade restante de sua temporada?!
O público do evento foi composto basicamente pelos 6.400 alunos da rede que a Secretaria Municipal de Educação prometera levar (alegaram não ter condições de transporte para conduzir mais crianças, de forma que muitos alunos ficaram de fora). Público, mesmo, só nos eventos com os astros da música convidados pela curadoria (Maria Bethânia, Martinho da Vila, Luiz Melodia, Adriana Calcanhoto, Moraes Moreira…). Mesmo assim, cada aparição de um desses astros estava limitada à capacidade de 400 lugares do Teatro Popular, que não teve mais do que cinco ou seis atividades realmente concorridas dentro da programação.
O delírio dos organizadores chegou ao ponto de afirmar, com esses números, que esta edição teria mais do que dobrado o público do II Salão da Leitura - que levou 40 mil pessoas ao Caminho Niemeyer em 2008, com forte presença de leitores de todas as idades e bons resultados para os expositores - ou chegado a quase uma sexta parte dos 600 mil participantes da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o maior evento do mercado editorial brasileiro.
Vou dizer sem medo de errar e desafio que provem o contrário: este III Salão da Leitura de Niterói não recebeu mais do que 10 mil visitantes. A Nitpress foi a editora que programou o maior número de eventos da feira. Foram 14 atividades - entre lançamentos e relançamentos de livros, palestras, debates, saraus poéticos -, das quais duas não se realizaram por falta de público e em duas outras os participantes não conseguiram chegar, certamente porque o bloqueio dos ônibus por trás do Terminal Rodoviário João Goulart, no final das tardes, impedia a aproximação por carro, sem que houvesse qualquer esquema de trânsito para minorar o problema.
Razões do fracasso
O único dia em que vimos uma circulação um pouco maior de pessoas foi o último, sábado passado. Já era esperado. Aos poucos uma parte da população da cidade descobriu, pela propaganda boca-a-boca, que uma feira de livros estava acontecendo no Caminho Niemeyer, o que não foi anunciado devidamente pelos organizadores. Porém, já era tarde para salvar o salão do fracasso. Faltou divulgação - mídia urbana, principalmente, além de sinalização viária - mas faltou, sobretudo, articulação com as demais escolas, estaduais e particulares, e com as universidades, que ignoraram o evento por falta de informação.
Mas o tom maior da inépcia ficou por conta da programação oferecida pela curadoria, confundindo música com leitura. Deveria, por sinal, ter-se chamado salão da música, e não da leitura, tantas foram as atrações com astros musicais que, eventualmente, podem ter publicado livros, mas não são escritores de ofício. Ora, uma feira de livros é, essencialmente, um evento do mercado literário, que possui o objeto central da leitura - o livro. Para que esse evento seja bem sucedido, é fundamental buscar o público leitor, atraído pelos livros, não necessariamente o mesmo mobilizado pelos artistas.
Outro grave pecado da curadoria foi o desapreço demonstrado pela literatura fluminense e a rica produção editorial de Niterói, com seus mais de 300 escritores em atividade, Luís Antônio Pimentel à frente, no auge dos seus 100 anos de idade. Fiquei chocado ao perceber, ao cruzar pelo curador, que ele desconhecia Pimentel, que caminhava ao meu lado para participar de um evento que organizamos em sua homenagem, no primeiro sábado da feira. Se o conhece, a constatação, então, é pior; despreza-o, a julgar pela indiferença - refletida na programação - demonstrada diante do mestre centenário, introdutor do haicai no Brasil e um dos maiores nomes da nossa literatura contemporânea.
(Faço um parêntesis para revelar que ofereci aos organizadores a peça “12 dias com Leviana”, de Luís Antônio Pimentel, adaptada e produzida por mim em março, no Teatro Municipal de Niterói, para ser encenada no Teatro Popular, dentro da programação oficial do III Salão da Leitura; e, mesmo tendo, eu e Pimentel, aberto mão de nossos direitos, a oferta foi recusada sob a alegação de não haver verba para a montagem.)
Não por acaso, farejando o prejuízo certo, as principais editoras desconfiaram e declinaram do convite para participar do salão. A única dentre as de maior porte presente foi a paulista Melhoramentos, certamente movida menos pelas expectativas da feira e mais pelo pragmatismo comercial. Afinal, foi a única editora que abocanhou, sozinha, em 2009, um fornecimento para a Secretaria Municipal de Educação de Niterói, com dispensa de licitação, de mais de 110 mil livros, com valor superior a R$ 2,8 milhões (Processo 210/4729/2009).
A maioria dos estandes foi ocupada por distribuidores e editoras de livros infantis com atuação especializada em feiras, que oferecem material de baixo custo e de duvidosa qualidade, sempre de olho nos vales-livros emitidos pelas secretarias de educação. Mesmo estas não puderam sair satisfeitas com os vales de R$ 10,00 dados pela FME às crianças, num total de R$ 64 mil. Apenas como base de comparação, enquanto começava o III Salão de Niterói, terminava uma feira de livros organizada pela Liga Brasileira de Editoras (Libre) em Osasco, São Paulo, cuja secretaria de educação disponibilizara vales de R$ 30,00 para alunos e R$ 100,00 para professores, num montante superior a R$ 1,4 milhão. As duas cidades estão praticamente na mesma faixa orçamentária.
Quanto às editoras de Niterói, agora congregadas na Associação Niteroiense de Editores de Livros (ANEL) recém criada, a nossa posição inicial era de não participar do salão em razão dos altos custos - o preço do espaço competia com o da Bienal - e do desinteresse da organização em dialogar com o mercado. Lembro que nas edições anteriores (2006 e 2008) os editores e livreiros foram convocados pelo então secretário de educação de Niterói, Waldeck Carneiro, criador do evento, para debater de forma propositiva o modelo do salão. Esse diálogo não se repetiu agora.
Ao saber da decisão da ANEL, a secretária Maria Inês nos chamou para uma reunião em que ofereceu, muito gentilmente, um espaço gratuito para as editoras de Niterói. Quatro editoras - Nitpress, Editora da UFF, Intertexto e Muiraquitã - foram acomodadas em um estande de 18 metros quadrados e contribuíram com a realização de mais de 20 eventos. Ainda assim, o prejuízo foi inevitável, dada as despesas operacionais de uma feira de longa duração.
O prejuízo maior, no entanto, foi da cidade, pelo desperdício de recursos e energias em um evento praticamente sem a presença da população, e da imagem do próprio Salão da Leitura, uma conquista do município de Niterói que todos nós - editores, livreiros, escritores e, principalmente, os responsáveis por sua organização - temos o dever de apoiar e fortalecer com diálogo, competência, profissionalismo e, sobretudo, respeito aos livros e ao público.
Reproduzo, a seguir, alguns comentários de jornalistas, escritores, acadêmicos e simples leitores sobre este salão, postados no blog Literatura-Vivência, de Roberto Kahlmeyer-Mertens:
“Para ser sincera, fiquei por fora em termos de estímulo. Encontrei Cecchetti na Moreira César e falei com ele como me sentia sendo da cultura e não sabendo nada, não tendo nenhuma sugestão acerca dos eventos, etc…Cecchetti me falou que daria uma palestra sobre haicai e me disse o dia. Eis a única comunicação direta que tive do evento. Pensar que corro atrás pra divulgar cultura o tempo todo! Eta cidadezinha estranha. Recolho-me ou vou pra outras bandas?”
Belvedere“Esse 3ºSalão de Leitura foi muito fraco. Os dois anteriores foram bem melhores. Houve público nas palestras e eventos com as estrelas: Bethânia, Adriana Calcanhoto, Ruy Castro, Affonso Romano e Roberto da Matta e outros grandes que lá estiveram e levam público onde quer que estejam. No Salão, no interesse pelos produtos apresentados, o público teve escassa presença, havia “gatos pingados”, mais curiosos do que qualquer outra coisa, chegou a ser desanimador. Nos meus plantões, dias 23, 25 e 27, a maior parte do público circulante entre os stands era gente de crachá no peito, ou seja, pessoas que estavam trabalhando ali. Houve algum problema com o planejamento desse 3º Salão. Acredito que um acontecimento cultural como esse deveria trazer muita gente, não há outra saída para um evento desse tipo, a não ser “acontecer”, e esse 3º Salão não “aconteceu”. Achei esse fato péssimo para a cidade.”
Carlos Rosa Moreira“Endosso na íntegra o comentário do Carlos Rosa.
Não fosse comparecimento das crianças das escolas municipais, certamente para lá conduzidas, e o públco teria sido mais fraco ainda.”
Gilson Rolim“Concordo com os desalentadores comentários, mas é necessário que tais eventos devam prosseguir.Cultura também é mercadoria.Deve ser divulgada. Anunciada. Posta à venda.
Compareci a três plantões pela ANL. Só vendi um (1) exemplar. E o comprador fui eu mesmo.”
Luiz Calheiros“A imprensa vendida ainda divulgou que o Salão teve 90000 passoas! Os vendedores de livros estavam fulos e garantem que se teve 5000 foi muito!”
Adalberto Nunes“Hahahahahah! Mais é CLARO que não houve noventa mim pessoas no Salão, isso é manipulação dos dados. Esta quantidade de gente, no ritmo que foi, eles não conseguiriam nem no mês inteiro!”
Rodrigo A. Netti“Caro Roberto, lastimo que não haja (pelo que se viu) pessoas mais competentes, ou com certo eufemismo, mais entusiasmadas, para o essencial trabalho de divulgação… Não se negue que deve ter concorrido, para realização do evento, um certo “ar” político: mas isso não é mal, desde que cada evento cumpra o seu objetivo, alcançando o público-alvo. Vendo-se a bela organização do seu Blog, tem-se uma idéia diferente da realidade. É pena… tudo estava arrumado para uma bela ocasião de movimento cultural na nossa cidade. Inegavelmente faltou organização, ou seja, movimentação interna anunciando os eventos… faltou DIVULGAÇÃO PRÉVIA, leve-se em conta a beleza do lugar, a visão da Guanabara etc. Entretanto para chegar-se até lá, a coisa era como já foi dito penosa… (total falta de indicação) Participei dos Salões anteriores, e meu parecer não me parece gratuito. Todavia, é preciso ressalvar o bom animo de todas as pessoas que trabalharam nos estandes, cuja paciência, confraternização e pontualidade marcaram um dos lados bons. Os palestrantes (poucos) souberam valorizar os temas escolhidos, tentando atrair um público, que afinal prestigiou com boa vontade. Resta perguntar aos Editores qual é, na sua opinião o resultado final. Por fim , agradeço aos confrades e às pessoas que conhecí por lá, os momentos de agradavél convivência. Parabéns aos palestrantes. Registro uma coisa bonita - o afetuoso trabalho das professoras com a criançada, que pode correr com visível satisfação, entre dezenas e dezenas de livros infantís. Outro belo registro - a sempre tocante presença de LUÍS ANTÔNIO PIMENTEL.”
Renato Augusto Farias de Carvalho“Roberto, de fato, a divulgação foi deficiente. Só quase ao término da semana, fiquei a par dos detalhes. Assim mesmo, já bem no “finalzinho”, através do seu Blog, após ter-lhe solicitado informações. Não assisti à sua conferência, exatamente por ter ido parar em local errado, fechado! E olha que estava interessadíssima em ouvi-lo. Além da sua fala, só tomei conhecimento dos outros encontros já após realizados. Contudo, apesar da falência na divulgação, Niterói está de parabéns! Será a nova Paraty. Valeu o ingente esforço de todos vocês, heroicos Paladinos da Literatura!”
Dalma Nascimento


5 de julho de 2012 às 22:44
Realmente lamentável o resultado deste Salão de Leitura, caro Luiz Erthal. Eu mesma, escritora ligada à cultura de Niterói, obtive parca divulgação do evento, nenhum convite por parte de seus organizadores, e o tempo todo fiz confusão entre o que haveria de leitura e o que haveria de música, pois a divulgação se ateve majoritariamente às atrações musicais que estariam presentes, e nunca aos escritores/poetas/palestrantes ligados à literatura que fariam parte do evento. Esta foi a maior razão pela qual eu mesma, sendo pessoa, teoricamente, evidentemente interessada na participação efetiva no tal evento, não me senti diretamente envolvida com o assunto, e cheguei a comentar com meus colegas escritores que o tal festival parecia mais de música do que de literatura, e todos achavam que não haveria espaço para declamação de poesias, como era de nosso interesse. Com exceção dessa Nitpress que, sabidamente, luta incansavelmente pelos interesses culturais de nossa cidade, lamento profundamente os resultados aqui relatados, ressaltando que, no que depender dos inúmeros talentos literários em plena produção em Niterói, a começar por nosso grande poeta Luiz Antonio Pimentel, continuaremos a lutar pela expansão de nossa arte e cultura neste município tão belo quanto repleto de gente que cria e faz arte diariamente. Para finalizar, solidarizo-me e parabenizo a editora Nitpress pelo grande trabalho que vem desenvolvendo.