youPode

Posts com a tag ‘futebol’

O futebol não pode se transformar numa caixinha sem surpresas

7 de dezembro de 2009

Antes de mais nada, quero parabenizar o Flamengo , legítimo campeão deste brasileirão. Ganhou por seus méritos, em campo, por ter conseguido dar nas últimas rodadas uma arrancada, na base da raça e da técnica, graças à direção do grande mestre Andrade,  que botou um ponto final numa interinidade injusta, mostrando que entende do riscado, com sua humildade e sua grandeza. Sua torcida também está de parabéns, lotou o Maraca e se manteve alegre e participante como um 12º jogador.

Não quero aqui jogar aqui água no chope do Flamengo, mas fazer umas perguntas e constatar algumas coisas que me parecem fora do lugar.

Não entendi direito uma decisão  de “alguém” lá do Grêmio que, ao que parece, expôs seus jogadores a uma situação complicada e perigosa.  Os bravos rapazes da equipe gremista entraram em campo, no domingo, contra o Flamengo, com uma missão difícil de entender.Não deu para compreender  por que mandaram somente 4 titulares,- o restante do time era composto por reservas, alguns garotos ainda? Esses jogadores, devem ter ficado confusos, ou no mínimo com algumas dúvidas básicas na cabeça: Afinal, por que no jogo mais importante de todo o campeonato, botaram a gente dentro do Maracanã, para enfrentrar justamente o Flamengo, se durante todas as rodadas  ficamos no banco, ou nem mesmo nele sentamos?
Como devemos nos portar em campo? Devemos jogar para ganhar, ou devemos só tocar a bola como quem não quer nada? Somos jogadores, não é certo?
Pelo que vi, esses rapazes, botaram as dúvidas para escanteio, honraram a camisa de seu time e jogaram com brilho e disposição, para vencer, e quase complicaram a vida do Flamengo.

Porém uma outra dúvida persiste. Por que esse “alguém”(ou “alguéns”) do Grêmio não mandou o time completo para um jogo tão importante?   A intenção pareceu clara até para o poste daqui da minha rua, que é meio tapado, mas entende alguma coisa quando o pessoal abusa da sua paciência de poste.

O poste disse: - Queriam esculachar a vitória do Mengão , mas antes disso não queriam  que o Internacional fosse campeão!

E não é que parece que o poste tem alguma razão! Mandar um pessoal da “reserva” para enfrentar  um time do tamanho do Falmengo, parece no mínimo uma tentativa de “desqualificar” o jogo.  Mas talvez o poste tenha mais razão quando disse que o objetivo era barrar o rival local (Internacional) no caminho em direção à taça de campeão.
Segundo o poste, parece que  esse rancor contra o “adversário do bairro”, ficou acima do espírito esportivo. . Mas, pior que isso, foi ver torcedores do Grêmio no aeroporto Salgado Filho, recepcionando negativamente os valorosos rapazes de seu time, só porque jogaram um bom futebol contra o Flamengo . Os briosos rapazes foram destratados, chamados de mercenários e oscambáus. Para esses torcedores, o time tinha que entregar o jogo, fazer corpo mole, não jogar futebol. Onde fica a tradição do clube? Onde fica a moral dos jogadores? Onde fica a confiança de milhões de telespectadores que assistiram ao jogo? Onde fica a confiança das pessoas que gostam de futebol em relação aos próximos campeonatos? Serão jogos para valer, ou serão para “entregar”?

Fica difícil explicar (e entender) a paixão por uma cor, ou uma camisa, ou um time. Uma certa sociologia explica que o ardor na defesa de uma bandeira ou de uma agremiação é um aspecto de um longo processo civilizatório - uma forma de desviar a agressividade das massas para uma forma de competição saudável. Desloca-se o primevo instinto guerreiro do clã, para uma torneio agradável e inofensivo. Diante de um mundo de tédio e passividade, as energias são gastas na busca da excitação em estádios , onde livremente as massas podem exercer sua paixão,  - tolerada - com o uso de bandeiras, danças, hinos, gritos e rituais que lembram antigos combates, mas são socialmente aceitos.  O problema é que esse caldeirão de emoções pode descambar em histeria e adentrar o gramado da patologia.
Muito mais difícil de entender, é quando a diferença com o adversário toma o caminho da irracionalidade a ponto de torcedores pedirem para seu time perder (não jogar o jogo) para prejudicar o “inimigo”. Aí é o reino do vale tudo -( o se negar para o outro não vencer)- a inversão dos valores. Se o normal e aceitável é a gente torcer para o nosso time ganhar, perder não traria satisfação, e sim frustração. Agora  perder para prejudicar um “terceiro” é algo que foge à lógica do jogo, é tirar satisfação da auto-negação, algo fora da ética esportiva,- enfim fora de tudo que é racional. Isso lembra o delírio de Medéia que mata os filhos para se vingar do marido traidor. O ódio e a vingança, (valores negativos) são mais fortes do que o desejo de ver seu time vencer, fazer uma jogada bonita, um drible desconcertante mesmo que não ganhe a taça - no caso de Medéia, o prazer de ver as crianças saudáveis, crescendo e cumprindo o ciclo da vida.  Mostra que a sociedade está com um grave problema, pois o esporte espelha muito o que ocorre na sociedade. A pauta hoje na sociedade e na política do país parece ser a do vale-tudo. A vitória ( o sucesso) a qualquer preço. No caso analisado, a derrota do “inimigo” a qualquer preço - mesmo que isso desqualifique seu time, ou a  vitória do time adversário ou mesmo o campeonato.
Não li todas as resenhas do jogo, mas das que li, não vi nenhuma linha da crítica esportiva tocar nesse assunto incômodo depois do jogo.  Parece que foi natural o que aconteceu no Maracanã e nesse aeroporto do sul do país!  Ao que me parece, estamos no caminho de uma “descivlização”.
Não vamos nem comentar a guerra de Curitiba, o quebra-quebra no Rio depois do jogo, nem as ocorrências desagradáveis que durante a semana cercaram o Parque Antártica. A violência faz parte desse cenário da doença que se abateu sobre o país do futebol. Estamos só diante de um sintoma. Não temos o diagnóstico, nem o caminho para a cura. Mas é bom começar a pensar …Tenho receio de que, nesta era de epidemias letais, estejamos em plena peste emocional- aquela que liquidará nosso espírito.

O fim da paradinha

17 de outubro de 2009


A FIFA  quer acabar com a tal da “paradinha” na hora do pênalti. Pelo menos é o que Joseph Blatter disse quando esteve aqui no Brasil. Não sei se a nova lei contra a “paradinha” já vai entrar em vigor na próxima Copa, ou se vai valer apenas na que vai se realizar em terras brasileiras. Tudo vai depender da reunião que a International Board realizará no dia 20 de outubro em Zurique.
Para Blatter que considera a “paradinha” uma coisa injusta e jogo sujo, a sua proibição e punição contra quem “parar” na hora do pênalti já entra em vigor a partir de novembro.
Não sei quem inventou a tal da “paradinha” que andou meio fora de moda, e voltou recentemente aos gramados brasileiros. Só sei que Pelé a imortalizou. Pode ser muito engraçada, mas concordo com Blatter, é injusta com o goleiro. O pobre coitado já tem que tomar conta daquele tremendo espaço entre as duas traves- a chamada meta, gol ou baliza -que tem  7 metros e 32 centímetros de largura e ainda tem aquela altura que é de 2,44m - para defender e além disso existe aquela marra que diz que bola na área é do goleiro etc e tal …Aí um dia apareceu um cara que na hora do pênalti  esculacha, dando aquela “paradinha” que além de desnortear, humilha o ser humano que carrega o nº 1 nas costas…tenha dó! Parem com essa “paradinha”!
Outra coisa que deveria ser avaliada pela International Board é a “bola na trave”. Para mim quem acerta a trave é um herói. Raciocinem: com todo aquele espaço que a meta tem (que já foi citado acima) e o jogador, em vez de marcar o gol, acerta a trave - tem algo errado nessa questão geométrica. Para mim o cara que “acerta a trave” merecia um prêmio -o seu ato deveria valer meio gol. Isso mesmo: cada bola trave, deveria valer meio gol. Pelo grau de dificuldade, deveria até valer um gol e meio.
Se tal regulamento não for aprovado, então, os técnicos deveriam mudar o preparo de seus times e treinar “bola na trave” - o objetivo do treino e do jogo deveria ser acertar a “bola na trave”. Acredito que com esse novo e revolucionário tipo de treinamento , com essa nova perspectiva,  com esse novo paradigma, aconteceriam mais gols, pois o atacante, ao visar a trave, terá muito mais chances de acertar os chutes dentro do gol e estufar mais vezes o véu da noiva. Seria uma revolução copernicana no futebol!  Digo isso porque estou cansado de ver jogos em que na maior parte do tempo, os atacantes desperdiçam chutes acertando a trave - o que - convenhamos, é muito mais difícil - pelo menos teoricamente.
Bem chega de papo furado. Bola pro mato que o jogo é de campeonato!

O golpe e o pijama

30 de setembro de 2009

É golpe. No início, eu não tinha dúvidas por instinto, depois veio a condenação da comunidade internacional. Mas até aí morreu Neves, a comunidade internacional demora demais nos discursos.

Porém se ainda alimentava alguma dúvida lá no meio da minha cachola destrambelhada , o artigo do Professor de direito constitucional Pedro Estevam Serrano esclareceu tudo. Foi golpe, é golpe, será para sempre golpe e entrará para a História da América Latina como golpe de Estado, aquilo que aconteceu em Honduras. Da leitura desse artigo, publicado na Folha de São Paulo de hoje, a gente fica por dentro da carta constitucional hondurenha,  onde não existe nenhuma linha que justifique,  que dê  uma base jurídica para essa trapalhada golpista de retirar um presidente da cama e mandá-lo de pijamas para fora do país. Na mesma Folha, Elio Gaspari aprova a atitude de Lula de aceitar Zelaya na  Embaixada do Brasil em Tegucigalpa.
Não vamos entrar aqui na análise do presidente deposto, no fato dele usar o território “brasileiro” em solo hondurenho para fazer política com aquele chapelão folclórico. Nem das suas intenções de tentar mudar a lei que não permite reeleição em seu país - a Constituição lá deles não diz que deve-se tomar o poder na base da força em nenhuma hipótese e nem abre a possibilidade de um processo legal para a deposição do presidente no caso dele tentar fazer um plebiscito, ou coisa que o valha. Não vamos falar também da ambiguidade do governo dos EUA em relação ao caso  e sua preguiça em tentar resolvê-lo. Se os EUA tivessem a intenção de dar um fim ao imbroglio , decerto ele nem teria existido - Chomsky em entevista para o site G1 mata a cobra e mostra o pau.
O que me deixa intrigado é o fato de quase todas as notícias e análises que procuram botar o fato em perspectiva utilizam a imagem do “presidente de pijamas“  ou (seria em pijamas?-  não seria só pijama?).
Tudo leva a crer que um homem de pijama é um ser que está em grande desvantagem. Lembra a imagem ” trajes menores” que evoca uma certa fragilidade do ser humano. Talvez se estivesse só de cuecas a situação ficaria muito pior, se tornaria cômica. Pois, creio que devem existir presidentes que dormem de cuecas. Mas de pijama, de qualquer forma é uma situação que mostra uma certa pressa das forças depositoras nesse episódio lamentável. Uma urgência desmedida - não deixaram o homem nem  botar um terno, ou um casaquinho e umas calças compridas. Deve ter saído da cama e procurado suas chinelas, ou será que foi só de meias, ou descalço? Seria cômico também se estivesse de bermudas pois aí se estabeleceria uma confusão dos diabos nas agências internacionais de notícias, pois existe um país chamado Bermudas e muita gente iria pensar que o golpe tinha sido lá e não em Honduras.
De qualquer forma, uma autoridade ser tocada pra fora de pijama é algo contraditório, se por um lado  humilha o sujeito de pijama, ao mesmo tempo dá um tom sombrio de coisa feita na “calada da noite” , que mostra o caráter sujo da operação.
Mas agora a meleca está feita, o Tegucigolpe  foi dado, o homem já está recomposto com roupas de vaqueiro, dormindo vestido na nossa Embaixada. Não cabe ao nosso presidente resolver esse problema. A encrenca é da América, da OEA, da ONU.
Mas se Lula quisesse resolver a querela, seria o caso de propor um jogo amistoso entre a Seleção brasileira e a hondurenha. Não fizeram um espetáculo semelhante no Haiti? Se a Seleção de Honduras perder, o Zelaya volta ao poder e promete ficar quietinho dentro do seu pijama, dormindo tranquilo na sua casa, até  passar as próximas  eleições. Se o selecionado canarinho perder, o Zelaya volta no mesmo avião para o Brasil e depois vai para a Venezuela onde poderia montar seu governo no exílio. (Nos anos 60 Paris comportou vários governos no exílio).
Tem gente que vai achar que não é uma solução justa, mas sabe como é que é: futebol é uma caixinha de surpresas, no entanto é uma instituição civilizada( veja ensaio de Norbert Elias e Eric Dunning), mesmo com zagueiros violentos, é muito melhor que certas “políticas” que se praticam no nosso continente.