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A morte de uma velha senhora

21 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

(Hoje é dia da árvore. Aproveito para publicar uma croniqueta que está na gaveta faz algum tempo. É que ela sempre me parecia provocação comparada ao gritante noticiário político policial do Brasil.)
Assisti de camarote a tortura e o assassinato de uma árvore, uma senhora que estava perto dos seus 7o anos. Não fiz nada para impedir a sua destruição. Se fizesse, creio que seria preso ou internado num manicômio. Lembro-me do cineasta Roberto Santos que dirigiu o maravilhoso “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” baseado no conto de Guimarães Rosa. Ele, um dia, para evitar a remoção de uma árvore que ficava perto de sua casa, subiu nela e lá ficou em protesto.
Diz aquele ditado popular que todo homem para se sentir realizado deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Quanto ao assunto filhos, só posso dizer que estou contente com os meus, mas a questão é polêmica. Um personagem de Machado de Assis, parece que, expressando seu pensamento, disse que não deixaria o legado de sua miséria neste mundo. O poetinha Vinicius de Moraes dizia que seria melhor não tê-los, mas se questinonava como sabê-los sem tê-los? Conheço muitos livros péssimos,mas nenhuma árvore má. Apesar dos homens usarem os galhos de algumas para enforcar outros, acusados de serem bandoleiros, ladrões de gado, como nos filmes do velho Oeste. As árvores são sempre benéficas, mesmo quando com suas raízes ameaçam as tubulações de um edifício ou derrubar os muros que o homem constrói, como diz o biólogo Kinsey à sua esposa no filme que leva seu nome, as árvores são sempre felizes com suas raízes firmememente plantadas na terra.

Enquanto viajava nesses pensamentos, os homens do Departamento de Parques e Jardins faziam seu trabalho. Parece que a poderosa árvore a que me referi no começo dessa crônica estava ameaçando os alicerces da casa que um dia foi abandonada por um homem e agora tinha sido comprada por outro, que estava salvando seu capital investido naquela ruína.Não adiantaria argumentar que a casa é só daquele homem e a árvore é de todos, principalmente dos passarinhos que se lamantariam no dia seguinte com seus cantos tristes… Haverá quem diga que isso é coisa de poeta, de desocupado, mas pergunto: o que substituirá aquele espécime único? Ela que todos os dias era, enquanto viveu, a alegria das minhas manhãs com o seu verde esperança. Nos dias de sol de rachar catedrais, amenizava o calor com sua generosa presença e se tornava mais alegre com as centenas de pássaros que nela se abrigavam ou faziam pouso para novos voos, A música que deles vinha emocionaria o mais frio burocrata, garanto! Acredito que algum dia, com o avanço tecnológico que temos, será possível “remover” árvores - sem abatê-las. Ela está causando problemas aqui, então transfere a árvore para um lugar onde ela continuará a ser útil.
Sei que deveria falar de política, de bandalheira, de desvio, de quebra de decoro. Preferi falar da tristeza imensa que habitou minha paisagem sem ela, a majestosa árvore para a qual, um dia escrevi este modesto adeus.

Vizinha chavista detona Viver a Vida

18 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

Ela não aguentou dois capítulos e ligou lá do spa onde está internada para se recuperar do bombardeio da mídia. Não lê mais jornais, evita o noticiário televisivo. Segundo ela, cansou de ficção barata e por isso se refugia nas novelas, mas pelo que parece não gostou da nova obra do Manoel Carlos.
- Olha aqui meu filho,bote lá no seu “grogue” que essa novela nem parece novela.Tá faltando aquela “pegada”, entende? Ela tenta ser realista e fica no meio termo, soa falsa como uma garrafa de uísque do Paraguai. Tá muito cheia de pose. Numa coisa o Maneco acertou no alvo: pobre gosta de assistir a vida dos ricos, e pobre só aparece como problemático- ou é drogado ou é invejoso, cara ruim, inocente inútil, ou tá metido em encrenca, das brabas.
Pra mim, quem vai dominar essa novela vai ser a filha barraqueira do Zé Mayer. Essa menina, a Alinne Moraes é fogo! Além disso o personagem que deram pra ela é um presente embrulhado em papel cor de rosa com fita verde…dá até para ouvir o sininho da carroça do papai Noel. Aquilo é carroça né?Puxada por um bando de bambis?! Tlim tlim tlim…
O resto do elenco é razoável, mas fica no meio de papos bobos, travam diálogos que me parecem frouxos, frívolos. Onde já se viu uma médica que falta no hospital porque está com dor de cabeça! Onde meu filho????
E aqueles gêmeos, clones do falecido Bôscoli? Um , com aquelas gracinhas fora de hora e o outro sisudo, moço bem comportado e ressentido . Será que o ator está ganhando dois salários. Será que a ótima Bárbara Paz, que enche a cara em todos os capítulos acha que os dois são um só e ela que tá vendo coisas? Se essa vai ser uma novela de superação, acho que a gente é que vai pagar o “parto”, a gente é que vai ter que superar a fragilidade dessa história. O pior é que no spa só servem suco de maracujá!
***
Desligou novamente na minha cara. Nem deu tempo de eu tentar defender a novela. Dizer que temos que dar um tempo a ela. Que ela é a modernidade vista do Leblon, mas é modernidade, poxa! Mas tenho que confessar que senti no meio dessa novela uma tremenda saudade da família do Opash Ananda. De repente o Rajastão ficou tão perto e Búzios tão longe…

Vizinha chavista detestou final de Caminho das Índias

12 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

Minha vizinha chavista me ligou tiririca da vida depois do último capítulo de Caminho das Índias.
É bom lembrar que ela está num spa tentando se recuperar da crise das TVs, na qual se degladiaram Record e Globo.
- Olha, só liguei pra que você bote no seu “grogue” (ela não consegue falar blogue) que não gostei do capítulo final da novela da Glória Perez. Alguém lá na Vênus Platinada estava com muita pressa e encurtaram a história. Ficou um monte de fio solto. Eu não entendo mais nada na TV! Uma novela que está bombando é encurtada e tem um final tão bola murcha!
Nessa pressa não se preocuparam com do destino de muita gente, a pobre da Dayse (vivida por Betty Gofman) ficou sem o guarda que voltou pra Norminha. A fã do guru da Lapa ficou mais por fora que umbigo de vedete.
Jogaram a pobre Ciça (Aninha Lima) na vala das encalhadas. Dona Wal (Walquíria) vivida por Rosage Gofman só se abanou o tempo todo. Ademir (vivido muito bem por Sidney Santiago) ficou como “o esquizofrênico pobre” dançando literalmente, enquanto o esquizofrênico rico - o Tarso se deu bem com a maluca da Tônia, que abandonou uma bolsa na Alemanha por amor e uma cobertura na Barra, ao som de Maluco Beleza. E o cara que deu o sêmen para Ruth (Cissa Guimarães)? O sujeito sumiu do mapa!
A Yvone se deu bem, teve seu grande momento, mas o infeliz do Mike ( (Odilon Wagner) também mergulhou nas sombras e nem teve tempo de dar um tchauzinho.
O Bahuan coitado só apareceu rapidinho em cima de um elefante ao lado da sua noiva milionária - não teve nem fala no final. A pobre da Chiara (Vera Fischer) acho que vai virar monja no fim da história.
Tudo ficou muito mal costurado. Aquele negócio da Leinha (Júlia Almeida) ser descoberta por um head hunter num boteco e indicada para Hollywood foi demais para mi pobre cabecita! E a pobre amiguinha da Deva que ficou segurando vela ao lado de Namit (Chico Anysio) e o criado dele. Surya que foi a grande vilã da parte da Índia também ficou apagada, encostada numa coluna da casa de Opash, assistindo o show de Tony Ramos.
Ficou ruim esse final, mas pelo que eu li na imprensa, deu Ibope. Que vou fazer se o povo engole qualquer coisa? A novela era boa até os 45 minutos do segundo tempo, mas nos acréscimos ficou devendo. E olhe que foram muitas rupias!

***
Aí desligou na minha cara e me deixou sem palavras. Concordo com ela em parte, mas de que adianta agora falar alguma coisa? O negócio é viver a vida, né Maneco?

Vizinha chavista elogia Caminho das Índias e Oliver Stone

11 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

Desta vez fui eu que telefonei para o spa onde minha vizinha chavista está internada, se recuperando da guerra televisiva entre a Globo e a Record.
Disse a ela que estava com saudades das suas críticas. Que “Caminho das Índias” terminava hoje e nós não podíamos ficar sem a sua última crítica. Falei pra ela que constatei com meus próprios olhos e ouvidos que a terra uma dia há de comer, que a novela foi um sucesso estrondoso. Meu depoimento foi tão veemente que percebi um leve lacrimejar, do outro lado da linha. Contei o que ouvi, quando estava no meio daquela multidão que disputa os quibes e esfihas da Lanchonete “libanesa” da galeria do Largo do Machado - era um frase, ou o fim de uma frase: -”…é aquela naja ! Não, não é a naja novinha da Surya, é daquela naja velha que eu estou falando!” Virei minha cabeça nebulosa para o lugar de onde vinha aquele papo “indiano” e vi que eram três mulheres de meia idade - provavelmente na hora do almoço- que discutiam animadamente assuntos relativos à intimidade do serpentário da famíla Ananda. E falavam especificamente de “mamadi”, a mãe do conservador Opash.
-Pois é meu filho, essa novela apesar de “esculhambar” (na boa) a Índia e seus costumes, caiu no gosto popular. Tudo por causa da competência da Glória ( ela se refere a “novelista” ( ou será noveleira?) Gloria Perez- minha vizinha chavista tem por hábito chamar as celebridades pelo primeiro nome).
-Glória é realmente muito boa nesse negócio de novela, menino! Palmas pra ela e para o elenco da novela, e por tabela para a emissora, a grande Rede Globo, que um dia nós, do movimento bolivariano da zona sul, ainda vamos tomar e transformar numa produtora exclusiva de novelas para atenuar o sofrimento dos nossos companheiros cubanos.
Falando em Cuba, estou na verdade, me preparando para ver o documentário que o Oliver Stone fez sobre o nosso líder - o Presidente Chávez. Dizem que é muito bacana, que ele mostra comos os poderosos dos EUA tentam esculhambar os verdadeiros líderes na nossa sofriada América Latina, o quintal deles..

Perguntei se ela vai assistir à nova novela de Manoel Carlos.
-Se ele vier de novo com esse negócio de”novela- bairro” (leia-se, Leblon - ela faz uma ironia com o antigo programa de César Maia que tinha por nome “favela-bairro”), aí é que não vou ver. Mas parece que eles foram para Jordânia, para Israel etc. Novela das oito da Globo agora começa sempre “la fora”, depois vai pro Projac mesmo, que a grana anda curta!
- Você vai me desculpar, mas vou para minha sessão de hidroginástica. Escreva aí no seu “grogue” que a Glória é uma guerreira e acertou na mosca com essa novela que acaba hoje. Que as grandes discrepâncias da novela só aparecem para os críticos , esses literatos frustrados, que um dia acalentaram o sonho de escrever o grande romance redentor da modernidade tardia e não conseguiram. Que o povão mesmo, como dizia o filósofo Joaozinho 30, gosta mesmo é de luxo, muito sari, muita “bijuteria” barata de Delhi.
E foi aí que sem mais, nem menos, desligou na minha cara.
Nem deu tempo de comentar a terrível situação financeira da excepcional fotógrafa de celebridades Annie Leibovitz.
Voltei me então para a leitura de “Modernidade Líquida” do sociólogo Zygmunt Bauman, que virou arroz de festa e até já deu entrevista para a revistinha de domingo do Globo. Não sei se aumentou a tiragem do jornal nesse dia, de qualquer forma, a sociologia está se tornando popular. Quero ver o caderno de esportes analisar a interação dos clubes cariocas no universo social light da “segundona”.

Heliópolis é um alerta

2 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

Heliópolis seria grosseiramente traduzida como “Cidade do Sol”, que lembra a “cidade radiante” de um utópico arquiteto modernista, mas o que se vê na TV são chamas na noite, automóveis e ônibus queimados, protestos, gente se agitando e o holofote de um helicóptero da polícia. Pedras são arremessadas na tropa de choque, que revida com tiros de balas de borracha.Tudo explodiu a partir de um acontecimento terrível, que foi a morte de uma jovem estudante por uma bala que se perdeu num tiroteio entre as forças da ordem (guarda civis metropolitanos de São Caetano do Sul) e supostos fora-da-lei em rota de fuga de um assalto.  Esse acontecimento  se repete de forma brutal no Brasil dos dias de hoje.
O ritual é o mesmo: um jovem morre numa comunidade carente, por causa de uma bala perdida (forma que a linguagem usou para esconder a realidade da palavra favela - um tapume pós-moderno?) depois explode o protesto.  No dia seguinte os jornais estampam as fotos, e a vida segue como se fosse normal até um próximo tiro ser disparado, uma bala se perder e….

No caso de Heliópolis , este que vejo agora na TV ( e sobre o qual escrevo de imediato- sem pensar de forma clara ) é o segundo protesto, algo que parece organizado: o repórter informa que a manifestação foi convocada com panfletos que foram distribuidos durante o dia.    Há algo neste acontecimento que exige a imediata decifração. É um alerta! É mais do que um caso de “polícia”, um caso onde deve-se apurar as responsabilidades etc…É urgente  que a sociedade perceba  que há algo de podre na selva de asfalto e concreto. A “cidade que não pode parar” tem que parar para pensar. Que tipo de sociedade estamos criando, que civilização é esta? Pensar de forma, vamos dizer, sociológica sobre a questão é algo que pode revelar o caráter do imbroglio em que todos estamos metidos.  Existem no centro deste fato terrível, indícios de que predominou  um tipo de visão distorcida do ser humano que habita os territórios excluídos da cidade. De que ele não é visto como cidadão, e que portanto não age assim. Foi na tentativa de entender o horror disso tudo : - a bala perdida-  o protesto, a ausência de cidadania, a violência que tudo envolve que me deparei com  a advertência de Laymert Garcia dos Santos fez no texto “São Paulo não é mais uma cidade“(constante do livro Cidade e Cultura esfera pública e transformação urbana - Estação Liberdade).  Lá ele tenta decifrar no que se transformou a “não cidade” de São Paulo. Ele diz que  deveríamos, “talvez, que começar a tentar verificar o que acontece numa cidade quando ela já se transformou, não numa cidade morta, mas que não passa a expressar a morte da metrópole moderna.”
Ao longo do texto se fala de que não existe mais “espaço humano” em São Paulo- surge até o conceito de “metrópole-necrópole” - que São Paulo “é uma cidade que é a morte da cidade”.
Parece estranho? Sim, porque mostra que ao lado  da agitação, do turbilhão que move essa “cidade” está também sua condenação. Laymert fala de que essa metrópole que foi promovida a metrópole global, pode -se dizer desabitou seus habitantes: “A cidade deixou de ser porque o espírito da cidade não habita mais seus moradores”.
E aqui digo eu, o capitalismo nessa sua nova forma especulativa e brutal violentou tudo, criou ilhas de riqueza e um oceano de miséria - na cidade sob seu signo, tudo se mistura, se esgarça, se decompõe. E o pior é que a maioria dos que a habitam se negam a ver a agonia em que estão metidos. Parece que não há mais tempo para conter o processo condenatório.
Ele diz que esse espírito da cidade se esvaneceu não porque a cidade cresceu demais, explodiu, nem que ela “careceu tanto de planejamento urbano que agora tornou-se “impossível” . Ele fala de uma outra explosão e de um implosão, de um estilhaçamento da cidade fundindo tudo num “magma caótico”.
Claro que isso é bastante abstrato, mas quando ele mostra que os privilegiados “desertaram”  se instalaram em “bunkers”, se refugiaram em locais vigiados, gradeados, em shoppings, edifícios controlados por seguranças etc…”Isso fica claro quando afirma que uma parte da elite abandonou a rua” e outra parte se mandou para Miami.  Os que ficaram passaram a ser transportados pela cidade em blindados.(que se tornou acessível à classe média). Eu digo que outros só circulam em helicópteros, bem por cima, entre as antenas e torres do capital.
Talvez quando seu texto  se torna mais concreto e fala mais de forma rude, talvez se entenda o que está acontecendo:
” Agora, com a saturação do tráfego, a pane dos serviços , a escalada da criminalidade, o assédio dos miseráveis, a proliferação das máfias e a corrupção e falência do poder municipal (ele escreveu esse texto em 2002), a elite parece ter desistido da cidade mesma”.
Quando a elite desistiu da cidade, ele afirma, “passou a conceber o espaço urbano como um terreno baldio, onde se pendura as mensagens e imagens que quer vender para “os outros”. São os que estão por cima.
Ele chega a falar das periferias ( não fala das favelas que a cidade oculta da foto turística), ele se concentra nesse abandono da cidade (na fuga da elite para seus territórios protegidos) e na imposição  de uma “imagem de cidade” (vulgar e obscena) sobre o espaço urbano agonizante. Fala sim dos sujeitos concretos que estão por baixo, que foram transformados em “não pessoas” (ou sujeitos monetários sem dinheiro como foram definidos por Robert Kurz).  Fala dos trabalhadores que  se situam entre os que desertaram e os deserdados, massa urbana que se aperta nos coletivos , para os quais a cidade é o “longo e cansativo trajeto de casa ao trabalho, ao tempo perdido do transporte”.  Toda essa paisagem que  foi identificada como “pornográgica” por um antropólogo.
Pelo jeito, São Paulo já não é mais o “lugar” onde se aplica aquela solução que Italo Calvino  lançou no fim de seu livro “Cidades Invisíveis” : “Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber e reconhecer que e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”
Para Laymert “São Paulo não é uma cidade em ruínas, pois uma cidade em ruínas sempre pode ser reconstuída. Aqui estão sendo destroçados o conceito e a possibilidade mesma de cidade”. E finaliza : “São Paulo é a morte da aura da cidade“.

Vizinha chavista detona Jornal Nacional

1 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

(Vou fazer uma pausa no ensaio que tem a pretensão de explicar quando o Brasil se estrepou, para botar no ar, a crítica  de TV de minha radical correspondente bolivariana)

Minha vizinha chavista ligou do spa onde está se recuperando de um ataque de nervos que teve, quando começaram as súbitas mudanças das grades das TVs e o troca troca de apresentadores. Na verdade, o referido “siricutico” ocorreu no meio daquela guerra midiática que tomou conta do horário dos noticiários junto com o intercâmbio de ofensas no Senado. O esforço para advinhar os novos lances dessa contenda afetou seus neurônios, quer dizer fundiu sua cuca.
É, o esforço mental foi demais para ela, e hoje, na clínica de repouso, ela repensa o plano que alimentou durante anos : tomar a Globo e transformá-la numa emissora somente de novelas para aliviar o sofrimento dos companheiros cubanos. Diz ela que a ameaça da Record à hegemonia da Globo complicou tudo. Confessou que precisa elaborar urgentemente um plano B.
Mas vamos ao que interessa: ela ligou no meio da noite, para pedir que eu escrevesse nos meus “grogues” que não gostou nada da nova paginação do Jornal Nacional.
-Aquele globo rodando no fundo me deixa tonta. Ataca minha labirintite, entende, meu filho? Não sei se presto atenção no William ou na Fátima, e fico vendo aquele globo azul rodando, rodando…parece que estou numa “discothèque. No fim das contas nem sei mais o que foi noticiado.
Acho que isso tem uma explicação maquiavélica. Como eles não tem mais o que noticiar, pois o Congresso não trabalha e só bate-boca e o mundo anda muito chato, mesmo com eleição japonesa, eles botaram aquele mundo girando só para tirar a atenção do telespectador do vazio total, da insignificância das nossas vidas, do sumiço do Belchior, das suposições sobre a morte do Michel Jackson…Pois é, meu filho, não existem mais fatos, só versões…prefiro novelas, são mais verdadeiras…

Clique! Desta vez fui eu quem desliguei o telefone e mantive fora do gancho. Cáspite! Era muita zorra para meu pobre ouvido, confesso que agora sou eu que estou começando a ficar tonto. Aonde é a saída mesmo?

Do suicídio ao caos organizado

30 de agosto de 2009 por Bruno Liberati

Capítulo 2 – Do suicídio ao caos organizado

(Continuação do “ensaio” que tenta achar o nó da questão de quando o Brasil se estrepou)

Diz uma teoria que “episódio da rua Toneleros”(no qual pistoleiros contratados pelo chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, Gregório Fortunato, erraram o alvo, e em vez de atingir Lacerda, acabaram por matar o major Rubens Vaz da Aeronáutica) deu curso a um golpe de Estado, que foi abortado pelo suicídio do Presidente, que com um tiro no peito retardou essa onda golpista, que foi vingar somente em 64. Mas antes disso, o clima se tornou mais leve, com Juscelino, apesar de umas revoltas, que o chamado Presidente bossa-nova soube driblar. Dizem as más línguas, que com sua conversa mole, e rodas de seresta ele escancarou as portas para o capital estrangeiro. Não resta dúvida que o sorridente JK tentou refundar um outro país na base da indústria automobilística deixando de lado outras formas de transporte,(por ex. uma rede ferroviária e as alternativas de transporte por nosso imenso litoral e nossos rios). Pode-se dizer que usou a “infra” que Getulio tinha construído desde 30 e quis mudar tudo fazendo 50 anos em 5, isso teve consequências funestas.

O presidente Bossa-Nova meteu o jazz no samba, misturou chiclete com banana e mudou a capital, construiu Brasília no centro do país, que é uma jóia do modernismo, mas tirou o poder de perto do povo e aumentou a nossa dívida externa. Facilitou a vida de grupos que se apropiaram de cargos e territórios, como se fossem capitanias hereditárias.

Depois veio Jânio, com uma vassoura como símbolo e uma proposta moralizadora, teve um governo atípico, não ficou 6 meses com a faixa, renunciou tentando dar “uma volta” no Congresso e mergulhou o país numa crise que foi se resolver de forma dramática mais tarde, com aquele outro golpe, que tinha sido adiado quando Gegê saiu desta vida para entrar na história…Pobre do Jango( que era o vice do Jânio), mal teve tempo de esquentar a cadeira. Foi arrastado por um “redemunho” – e na iminência de um conflito aberto entre as forças de esquerda e da direita organizada, preferiu uma solução sem derramamento de sangue e teve que se exilar.

Aí tome 20 anos de regime militar! O modelo americano se instalou confortavelmente , um estranho milagre econômico criou as bases para o endividamento do país e sua satelitização. Quando voltaram os civis numa espécie de democracia tutelada, por eleição indireta de um colégio eleitoral cordeirinho, o país tinha um bruta parque industrial, mas estava sem rumo. A tênue democracia que “aconteceu” não conseguiu dominar a selva em que essa terra tinha se transformado…nenhuma ética ou instituição que desse um norte decente conseguiu se impor…Encontrou-se um terreno pantanoso onde havia se instalado uma luta tipo vale –tudo que parece contiunua até hoje.

A sociedade que sobrou era composta por u’a massa crescente de pobres e miseráveis ( o atualmente chamado “sujeito monetário sem dinheiro”- conceito inventado por Robert Kurz) de um lado e do outro o capital financeiro dominando,o FMI impondo as regras feitas pelos ‘Chicago boys’ e suas teorias de ajuste econômico, e no meio desse sanduíche, uma classe média desesperada,vendo seus sonhos de curtir um verão em Miami rolarem ladeira abaixo.Para complicar tudo, o país aos poucos foi tomando a feição de uma “Colômbia continental” segundo os temores do mesmo Vargas Llosa ,do qual retiramos o mote para esta croniqueta…(continua)

O dia em que o Brasil se estrepou

24 de agosto de 2009 por Bruno Liberati


(Aviso aos navegantes: esta croniqueta é antiga e vai nos servir para lembrar Getúlio Vargas no 55º ano de sua morte. É um texto muito pretensioso que tenta pensar a crise brasileira. Como é longo, vai ser dividido em capítulos).
Capítulo 1 - Os tiros errados e um tiro certeiro
No começo de”Conversa na Catedral(1), obra prima de Mario Vargas Llosa, o personagem Santiago, olha o cenário desolado de Lima,onde vê “automóveis, edifícios irregulares e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos flutuando na neblina, o meio dia, cinzento” e se pergunta: Em que momento o Peru tinha se estrepado?
Na verdade ele usou uma expressão mais forte e a tradutora manteve o similar brasileiro,que por um certo pudor não trascrevi aqui. Ao ler este romance ficamos de queixo caído com a sua qualidade.É uma obra prima, e toca num assunto que não muda ,os “podres poderes”da America Latina.
A pergunta de Santiago nos leva a pensar no nosso país: Afinal,(guardadas as proporções em relação à melancólica realidade peruana) quando o Brasil se estrepou?
O historiador Sérgio Buarque de Holanda, deve ter se perguntado isso também quando escreveu em “Raízes do Brasil”: “Trazendo de países distantes nossas formas de vida, nossas instituições e nossa visão do mundo e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos uns desterrados em nossa terra” Já é uma dica. É uma tentativa de explicar porque o país é dessa maneira.  E confirma teses fatalistas de que o país não foi feito para dar certo. Existe toda uma literatura que tenta explicar o Brasil e a gente vê que a coisa é complexa e não vai ser uma croniqueta que dará conta do recado, mas não custa ensaiar (embora ensaio não ganhe o estandarte de ouro e nem treino ganhe jogo).
Muita gente tentou responder esta questão incômoda.
A resposta mais óbvia contempla 1964, como momento chave de destruição de um projeto nacionalista autônomo.
Mas, uma outra teoria me seduziu. Ela afirma que tudo foi para o brejo no dia em que Gregório Fortunato mandou matar Carlos Lacerda , que era uma pedra no sapato de Getúlio Vargas. Uns pistoleiros, contratados para fazer o serviço de sangue, numa história mal contada, numa trapalhada sensacional, acertaram o Major Vaz, da Aeronáutica e deu um bode danado que pode ser pesquisado digitando “República do Galeão”. Alí, dizem os defensores dessa teoria paradoxal, se abriu uma porta para um grupo que queria transformar o Brasil no que ele é hoje, um negócio privado, um clube de ricos, não importa que ele tenha virado um país dependente, arruinado, violento onde lamentavelmente vemos no dia a dia o domínio de vários tipos de crime sobre a sociedade chamada civil que desarmada, tenta se proteger botando muros, circuitos internos de tv ou rezando… Na base deste clube, uma massa despolitizada funcionando como serviçais, compostas como classes subalternas, exército de reserva de mão de obra, excluídos e invisíveis em geral.
Com Getulio,o nosso “querido ditador” (como canta um samba enredo da época) que tinha sido amansado depois da guerra de 45, quando ele entrou naquele restaurante de frutos do mar, ”O ostracismo”, o país poderia ter se transformado numa nação próspera e independente. Essa teoria diz que apesar do populismo, personalismo e a maledetta mania de fazer a revolução antes que o povo a fizesse, Gegê tinha um projeto para o país. Sem dúvida, ele havia construído algo naquele páramo que antes de 30 era um fazendão brabo… Orientou uma burguesia apática sem apetite para a modernidade. Com um tiro no coração, ele saiu da vida e entrou para a história e numa tabelinha abortou um golpe que iria dar trabalho, e muito trabalho, alguns anos depois…mas aí também morreu Neves…

(1) Neste livro, Mario Vargas Llosa fala de forma implacável sobre a sociedade peruana  da época de Manuel Arturo Odría ,o ditador que tomou o poder em 1948 e tornou-se presidente da República de 50 a 56 Gostaria também de elogiar a ótima traducão de Olga Savary

Vizinha chavista detona Caminho das Índias

13 de agosto de 2009 por Bruno Liberati

Minha vizinha chavista me telefonou do Spa onde está se recuperando de um siricutico que a acometeu depois da troca de farpas entre a Globo e a Record.
- Foi demais para minha cabeça! Preciso equacionar uma nova estratégia para a revolução bolivariana nas comunicações…mas não é isto que quero que você bote no seu “grogue”…
- Bote no seu grogue que eu gosto da novela da Glória(ela fala da autora da novela Caminhos das Índias). Eu gosto dessa novela porque ela é um ruim, sacou o paradoxo?
As deficiências da novela é que a tornam um must.
Mas o golpe da dupla de trambiqueiros composta pelo Mike
(vivido pelo ator (Odilon Wagner) e pela Yvone (vivida por Letícia Sabatella) foi muito mal imaginado: veja só, meu filho, uma dupla sinistra pra valer não faria uma chantagenzinha com a pobre Nanda (papel vivido por Maitê Proença) só exigindo R$ 500 mil pela fita onde ela aparece transando com o tal Mike. Isto é risível, decepcionante para uns tipos gabaritados de trambiqueiros intenacionais como eles deveriam ser. Numa novela bem tramada eles exigiriam mais dinheiro…E que tipo de golpe Yvone quer dar no Ramirinho? Um par de brincos e um anel? Peraí, tão abusando da minha paciência!
Vamos supor que eles exigissem a grana que o marido da Nanda
(Haroldo, vivido por Blota Filho) botou (ficcionalmente é claro) num paraíso fiscal, uma grana mais alta, isso até passava, mas só quinhentinhos,em reais! Convenhamos que ficou muito chinfrim, coisa de trombadinha… a dupla de 171 perdeu a graça!
Ah, tem mais uma coisa: o chale, ou casaquinho que a Leinha
(vivida por Júlia Almeida) estava usando na novela anteontem, é o mesmo que a Ana Maria Braga trajava na chamada para o seu programa! Se tá faltando pano lá no Projac, eu mando um casaquinho que comprei na Catalunha que é divino! Tem até o cheiro de um toureiro espanhol que deixei em Sevilha, ele me deu até uma orelha de touro,para eu me lembrar dele, mas isso não vem ao caso… E essa facilidade com que o Gopal ( interpretado por André Gonçalves) consegue emprego, é uma maravilha, é sinal que a crise passou mesmo e qualquer estrangeiro que chega aqui consegue se ajeitar…
Foi aí que ela desligou na minha cara e não fiquei sabendo nada sobre sua posição na chamada guerra televisiva que se esboça neste país tão interessate.

As palavras e as coisas

3 de agosto de 2009 por Bruno Liberati

(Peguei lá no fundo do baú uma croniqueta pra funcionar de step enquanto boto umas coisas em ordem no meu HD - espero que gostem. Esta vai sem ilustração por motivos óbvios)

Acredito que as palavras são fonte de permanente
mistério, fora o fato de que geram os famosos mal
entendidos, que têm sido tão mal interpretados,
coitados! Se não fossem eles, o que seriam dos
boleros, da dor-de-cotovelo e da dor-de-corno por
supuesto? Palavras existem para nomear as coisas,
expressar sentimentos e, na maior parte das vezes,
dizer bobagens. O principal problema é essa mania de
interpretação. Não dos boleros, mas do que se diz.

Creio que uma outra fonte de confusão está na própria
mecânica do ato de falar. As palavras são antes de
mais nada sons (grunhidos?), que uma vez emitidos
surfam em ondas e vibram no ar até chegar aos ouvidos
nem sempre atentos. Vai daí que uma coisa dita, mesmo
que seja bem dita, pode ser entendida de forma mal
dita (maldita?) Nesse entroncamento se situa um rico
manancial de coisas ouvidas erroneamente, que ao meu
ver (ouvir) constituem um sinal da extraordinária
criatividade do ser humano - e que o diferencia do
papagaio e de alguns cachorros amestrados.

No Brasil, isso é de uma riqueza sem fim. Para
começar, ouça (veja) o caso de uma menina
recém-entrada na universidade que chegou em casa toda
pimpona e disse ao pai: “Meu professor falou de um
novo autor hoje, um tal de Maiquéu Fucô” (ela se
referia a Michel Foucault, claro, e produziu um riso
hilário no pai). Nesse caso ela ouviu e leu o
professor escrever Michel (Mixéu) , mas seu
inconsciente moldado por Disney e a família Jackson a
fez registrar o nome Michael (Maiquéu).

Ouvir palavras e repeti-las de forma errada pode
acontecer com todo mundo. Solange, a ex-famosa
participante de um irreality-show (alguém ainda se lembra dela?)
foi uma mestra nessa alteração de todos os sentidos das palavras.
O seu “Uiárniuôr,
Uiuarnsilver.”, que virou CD e animou muito baile funk por
aí, na verdade queria dizer: “We are the world, we are
the children.”, da música cantada recentemente por vários artistas no funeral de um de seus compositores, o genial  Michael Jackson que fez essa obra com  Lionel Richie  para uma campanha em
favor dos pobres da África, se não me engano. Não é à
toa que o pessoal já cantava “Uh! Tererê!”, em vez de
“Hoop there it is”, da música Space Jam, do grupo Quad
City DJ’s.

Sem dúvida, o jeito moleque do povo brasileiro faria Michel
Foucault morrer de rir antes de a dama sinistra passar
o cerol nele (nossa crônica, por sinal, leva o título
de um de seus livros). Tocando as maracas da
interpretação, creio que ele curtiria muito essa
capacidade de adaptacão do nosso povo, sua
criatividade alucinada.

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Há algum tempo venho fazendo
(com o auxílio luxuoso de alguns amigos),
uma pequena coletânea de palavras
que são usadas fora e às vezes muito dentro do
contexto. Abaixo vão alguns exemplos
:

1) O menino ia atravessando a rua quando o caminhão
vasculhante quase atropelou o desinfeliz.

2) O emprego dele é muito bom, tem até adicionário
noturno.

3) A febre baixou, mas só quando usou um sucusitório.

4) A injeção foi bem no glúten dela.

5) O requerimento do advogado foi aleijado do
processo.

6) Ela teve condolências do rapaz.

7) A última vez que vi o velho ele estava bem nítido,
(esta já citada por um outro cronista, mas juro que
descobrimos antes).

8) O pobre só apresentava uns sinais de
estereosclerose.

9) Aí, bateram um elétrico, mas já era tarde e o
coitado tinha tido um ABC (em vez de AVC).

10) Tive que fazer um xerox vice-versa do atestado de
óbito.

11) O jornal diz que lá no Iraque tem muito
frango-atirador.

12) E aquela que foi no motel e só ficou usando a
banheira de vidro massagem?

13) Ainda bem que todo o gasto da viagem foi
debilitado na conta da firma.

14) O menino ficou tão contente depois que ganhou um
videogay .

15) Nessas novelas, agora, estão com essa mania de
botar mulheres mésblicas. É um tal de mesbla se
agarrando…

16) Com esse hábito de de não usar fio dental eu
fiquei com o gengibre inflamado.

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Uma idéia maluca é fazer uma dicionário desse novo vocabulário,
incluindo nomes próprios que mudaram devido ao
entendimento diferenciado do escrivão na hora do
“resistro” (mas acabei desistindo da idéia).
E, para finalizar, uma frase que um amigo meu registrou e
que é um fenômeno a espera de decifração
Trata-se de um cartaz de beira de estrada,
onde se verifica uma nova forma no uso do pronome. Lá
está escrito: “Vende peixe-se“. Nesse caso, sem
dúvida, trata-se de uma revolução linguística.