youPode

Arquivo para a categoria ‘crônica’

G - passa do ponto

11 de janeiro de 2010


Querida, você sabia que acabam de dizer que o ponto G não existe, que toi tudo invenção do tal do Dr. Ernst Gräfenberg?
- Tô sabendo, li numa revista - ou foi na TV?
- Pois é, esta foi a conclusão de uma pesquisa. Uma psicóloga chamada Andrea Burri jogou o ponto G no lixo, não sei se isso é bom ou ruim. Mas uma coisa tá me perturbando a cachola: você fingiu esse tempo todo, Gisela?
- Fingi o quê, Geraldo?
- Os orgasmos múltiplos… essa coisa toda de que eu te levava ao céu, que você via estrelas, até os anéis de Saturno???!!!
-Peraí Geraldo! Tá certo que em algumas vezes eu não cheguei lá, confesso que simulei um prazer multiplicado, mas, vamos dizer que em 65% das vezes a coisa funcionou e eu me diverti bastante.
- Então quer dizer que nos 35% eu fracassei?
- Calma, meu bem, isso deve ter acontecido com todo mundo. Você não devia pensar assim. O homem não tem obrigação de proporcionar à mulher, digamos tecnicamente, uma multiplicidade de orgasmos. Muitas vezes, um orgasmozinho já dá conta do recado.
- Estou perplexo, fui enganado pela medicina e pela minha mulher. Agora fico diante de um dilema: quando vou ter certeza se estou sendo satisfatório ou não para com sua, digamos, economia libidinal, Gisela?
- Deixe de formalidades, Geraldo, sejamos diretos - é a mesma coisa que aquele negócio de que suco de berinjela com laranja, que alguém disse que tomado em jejum abaixa o colesterol …pelo menos o fictício ponto G não causa uma úlcera…
- Mas poderia me causar uma estafa. Porque essa procura por esse minúsculo ponto super erótico exigiu muito tempo, esforço e dedicação. E agora descubro que no fundo, causou - no máximo uma “cosquinha”…um exercício teatral ritmado!!!!
- Não seja dramático, Geraldo. Eu confesso que no começo também acreditava no ponto G. Juro que tentei sinceramente me convencer. Fiz esforço para chegar lá, mas num determinado trecho do caminho vi que era um programa de índio - senti que era inútil continuar nessa “pilha”. Então, para não desagradar e não causar polêmica, dei uma fingidinha-, e uma vez ou outra, exagerei em alguns momentos de prazer. E olhe que muitas vezes até entrei “numas” e no embalo, realmente cheguei a ver estrelas.
- Quer dizer que sou um zero a esquerda? Que meu desempenho pouco conta na hora do “vamos ver” ?
- Nada disso! Tire isso da sua cabeça! Sua participação foi fundamental no jogo amoroso. Só que você tem que combinar o resultado com o adversário, né… Peraí esta foi mal…Digamos que como a sexualidade feminina é mais complexa, e depende de vários fatores, entre eles uma boa dose de fantasia, um certo relaxamento da mente, uma disposição para o “futebol” y otras cositas más. A gente vai para a cama como se fosse para uma festa e não para um campo de batalha. Os pontos erógenos estão no corpo todo, mas é o cérebro que comanda. A cuca tem que estar legal. É uma coisa lúdica, meu amor, é preciso jogar, sem compromissos com os resultados. Nesse jogo, os dois ganham.
- Acho que vou deprimir, Gisela, eu que achava que era bom de cama. Posso dizer que para mim um paradigma caiu. Meu mundo caiu… Me passa meu remedinho, por favor!
- Que é isso, Geraldo, chega mais aqui, que vou te mostrar o meu ponto G de verdade, e olha que não é ponto de tricô, nem de doce de goiaba, me tem lá seu mel. Vem cá que vou te dar o seu “remedinho”,o ponto G de Gisela!
- Não podia ser ponto G de Geraldo, não é mesmo? Porque seria um pontinho, né!?
- Quer saber de uma coisa? Vamos botar um ponto F nesse assunto, um ponto final, meu garanhão!

Espírito de porco Olímpico

2 de outubro de 2009

Entrei no espírito Olímplico! Arremessei a conta do condomínio aqui no play ground, e ele foi parar lá longe, acho que  uns 200 metros de distãncia.  Numa corrida de obstáculos, saltei sobre as contas de luz, gás e telefone. Ah,  dei um mortal carpado em cima do plano de saúde que está na estratosfera!  Corri feito louco dos credores, e os venci nos 100 metros rasos, nos fundos e na maratona de juros sobre juros. Só perdi para uns pivetes que fugiam da polícia , mas isso mostra que nossa juventude está se preparando a todo vapor para as Olimpíadas de 20l6. Falando em pivetes, já estou pensando em investir uma grana em camisetas para turistas que virão assistir aos jogos . Nelas vai estar escrito bem em cima do peito: - Não sou seu tio, não tenho dinheiro, mas gostaria de ter.
Quanto às nossas possiblidades de êxito nos jogos, acredito que na modalidade “arrastão em túneis“, nós vamos arrebentar, e no quesito “tiro ao alvo com balas perdidas” , acho que não vai ter para ninguém.
Quando anunciaram que o Rio tinha vencido Madri, eu vi um velhinho gritar:  - Iés uí cam!  Ele não tinha um dente na boca feliz e olhe que estava há horas  numa fila de um posto médico e saiu de lá com um pedido de exame que vai ser marcado só para fevereiro do ano que vem! . Sem dúvida, esta é outra modalidade de esporte que  acrescentaremos aos jogos que se realizarão em nosso território pátrio: “Resistência em fila de Hospital“. Um rapazola que estava passando no local,  em que o idoso gritou de felicidade , acrescentou que deveríamos também botar uma prova de “re- vazamento“, já que ele tinha gastado todas  suas baterias etudando para o Enem , mas necas,   a prova tinha vazado e tudo foi pro brejo. Ele disse que nunca viu tanto vazamento no país. Toda hora vaza alguma coisa para a imprensa…
De qualquer forma, estou feliz. Não sei porque, mas acho que todos os cariocas que vibraram também não sabem. A alegria aqui é uma pandemia!  Também, não é qualquer prefeitura que decreta ponto facultativo numa sexta-feira só pro pessoal ir para Copacabana assistir à eleição do COI e ter um show “de grátis”.
Talvez possamos criar uma organização para controlar os gastos dos investimentos nas obras - um portal-transparência, para evitar a mão grande na hora das contas. Talvez até 2016 tenhamos uma campanha do tipo :  Fora corrupa!  Só espero que essas Olimpíadas ajudem o Rio a retomar sua autoestima, resolver a encrenca do transporte público, da saúde, o problema das comunidades carentes, da segurança do cidadão e que se reestabeleça a paz na cidade partida.
Só não entendi uma coisa: Por que a população de Chicago rejeitou sediar os jogos Olímpicos de 2016 e o pessoal de Tóquio não se interessou muito por essa parada?
Confesso que fiquei com a pulga atrás de orelha, e olha que ela é uma saltadora “medalhada”!
Bem, vou parar por aqui, que já cansei dessas Olimpíadas…Ufa!!!

O golpe e o pijama

30 de setembro de 2009

É golpe. No início, eu não tinha dúvidas por instinto, depois veio a condenação da comunidade internacional. Mas até aí morreu Neves, a comunidade internacional demora demais nos discursos.

Porém se ainda alimentava alguma dúvida lá no meio da minha cachola destrambelhada , o artigo do Professor de direito constitucional Pedro Estevam Serrano esclareceu tudo. Foi golpe, é golpe, será para sempre golpe e entrará para a História da América Latina como golpe de Estado, aquilo que aconteceu em Honduras. Da leitura desse artigo, publicado na Folha de São Paulo de hoje, a gente fica por dentro da carta constitucional hondurenha,  onde não existe nenhuma linha que justifique,  que dê  uma base jurídica para essa trapalhada golpista de retirar um presidente da cama e mandá-lo de pijamas para fora do país. Na mesma Folha, Elio Gaspari aprova a atitude de Lula de aceitar Zelaya na  Embaixada do Brasil em Tegucigalpa.
Não vamos entrar aqui na análise do presidente deposto, no fato dele usar o território “brasileiro” em solo hondurenho para fazer política com aquele chapelão folclórico. Nem das suas intenções de tentar mudar a lei que não permite reeleição em seu país - a Constituição lá deles não diz que deve-se tomar o poder na base da força em nenhuma hipótese e nem abre a possibilidade de um processo legal para a deposição do presidente no caso dele tentar fazer um plebiscito, ou coisa que o valha. Não vamos falar também da ambiguidade do governo dos EUA em relação ao caso  e sua preguiça em tentar resolvê-lo. Se os EUA tivessem a intenção de dar um fim ao imbroglio , decerto ele nem teria existido - Chomsky em entevista para o site G1 mata a cobra e mostra o pau.
O que me deixa intrigado é o fato de quase todas as notícias e análises que procuram botar o fato em perspectiva utilizam a imagem do “presidente de pijamas“  ou (seria em pijamas?-  não seria só pijama?).
Tudo leva a crer que um homem de pijama é um ser que está em grande desvantagem. Lembra a imagem ” trajes menores” que evoca uma certa fragilidade do ser humano. Talvez se estivesse só de cuecas a situação ficaria muito pior, se tornaria cômica. Pois, creio que devem existir presidentes que dormem de cuecas. Mas de pijama, de qualquer forma é uma situação que mostra uma certa pressa das forças depositoras nesse episódio lamentável. Uma urgência desmedida - não deixaram o homem nem  botar um terno, ou um casaquinho e umas calças compridas. Deve ter saído da cama e procurado suas chinelas, ou será que foi só de meias, ou descalço? Seria cômico também se estivesse de bermudas pois aí se estabeleceria uma confusão dos diabos nas agências internacionais de notícias, pois existe um país chamado Bermudas e muita gente iria pensar que o golpe tinha sido lá e não em Honduras.
De qualquer forma, uma autoridade ser tocada pra fora de pijama é algo contraditório, se por um lado  humilha o sujeito de pijama, ao mesmo tempo dá um tom sombrio de coisa feita na “calada da noite” , que mostra o caráter sujo da operação.
Mas agora a meleca está feita, o Tegucigolpe  foi dado, o homem já está recomposto com roupas de vaqueiro, dormindo vestido na nossa Embaixada. Não cabe ao nosso presidente resolver esse problema. A encrenca é da América, da OEA, da ONU.
Mas se Lula quisesse resolver a querela, seria o caso de propor um jogo amistoso entre a Seleção brasileira e a hondurenha. Não fizeram um espetáculo semelhante no Haiti? Se a Seleção de Honduras perder, o Zelaya volta ao poder e promete ficar quietinho dentro do seu pijama, dormindo tranquilo na sua casa, até  passar as próximas  eleições. Se o selecionado canarinho perder, o Zelaya volta no mesmo avião para o Brasil e depois vai para a Venezuela onde poderia montar seu governo no exílio. (Nos anos 60 Paris comportou vários governos no exílio).
Tem gente que vai achar que não é uma solução justa, mas sabe como é que é: futebol é uma caixinha de surpresas, no entanto é uma instituição civilizada( veja ensaio de Norbert Elias e Eric Dunning), mesmo com zagueiros violentos, é muito melhor que certas “políticas” que se praticam no nosso continente.

O Senhor Embaixador

26 de setembro de 2009

Confesso que sou distraído . Em geral me perco olhando bobagens, detalhes da arquitetura de um prédio, o desenho de uma árvore, borboletas a dançar na Candelária…  Quando estou no meio de muita gente, como, por exemplo, numa vernissage, luto para não fugir dali, mas quando é invevitável ficar, sinto que ponho em perigo todos que estão em volta com minhas trapalhadas de homem tímido. Foi o que aconteceu num verão de 1992,  por ocasião de uma exposição coletiva de cartuns, em Buenos Aires, mais precisamente no centro cultural que fica num antigo ex-mosteiro, no simpaticíssimo bairro de La Recoletta. Dizem que esse bairro é tão bacana, que até o cemitério não mete medo. Em todo caso não fui conferir.
Minha aventura começou logo na madrugada do dia da viagem. O despertador me acordou de um sono que eu não tinha dormido, de tão tenso que estava. Peguei um táxi e fui voando para o aeroporto onde embarquei, morto de medo  num avião da Varig. Nessa hora já se descortinava uma manhã de sol lindo no Rio de Janeiro. Quando o avião levantou voo, olhei pela janelinha e vi  um céu de brigadeiro que anunciava que tudo iria dar certo. Coitada da simpática mocinha que sentou ao meu lado, teve que ouvir minhas histórias  em portunhol, já que tinha esquecido “Fenomenologia do Espirito” em casa. ( eu tenho um medo real de voar e compenso de várias formas, ou falando ou lendo Hegel)
A pobre garota, que no íntimo, deve ter me achado um chato de galocha, me perguntou no meio da conversa se eu era originário da Galícia, onde se fala um português misturado com espanhol, fingi não entender a ironia.  Porém a garota foi generosa e me aturou, talvez compreendendo o pavor - que devia estar estampado em letras garrafais em meu rosto.
Minha aventura continuou no Aeroporto Ezeiza, onde com um pesado portafólio cheio de desenhos debaixo do braço e um blazer escocês de inverno, sob um sol de fritar ovo frito no asfalto, embarquei num ônibus de linha comum em direção ao centro da cidade. O referido coletivo fez um verdadeiro tour pelos bairros periféricos de Buenos Aires onde conheci uma avenida que é cortada por várias  ruas com nomes de poetas. Um encanto!
Depois de horas saltei perto da calle Marcelo T. Alvear onde , uma amiga jornalista , corresponsal  (como se fala por lá) do jornal onde eu trabalhava  tinha feito a gentileza de reservar um quarto num Hotel por um preço módico.
Tomei um banho quente e afundei num sono justíssimo,  para saldar o débito  que tinha acumulado entre a minha cama do Rio e aquela de Buenos Aires.  Fui acordado por Rrulio, meu querido amigo que organizou a exposição . Ele me convocava  para comparecer a um programa de TV naquele exato momento. Eu, bêbado de sono, disse que não me encontrava em condições de pensar, que estava catatônico, que Tico no hablava com Teco naquela altura do campeonato. Ele foi compreensivo,  e então combinamos que eu participaria  de um encontro com os cartunistas-expositores num programa de uma rádio local. Em seguida  participaríamos de um progama de TV onde faríamos a divulgação da nossa mostra de cartuns.
E foi o que aconteceu. Encontrei um time fabuloso de desenhistas de humor de nuestra América  e nos divertimos a valer num progama de rádio muito descontraído. Num determinado momento me perguntaram o que eu achava do governo Collor (que já provocava polêmica e uma certa curiosidade pelo seu fraseado) e eu disse que responderia se eles me dissessem o que significava a expressão “Duela a quien duela” que nosso ex-presidente tinha usado naquela época - não me lembro em relação ao que. Como eles não souberam responder qual o sigificado dessa frase lapidar, eu disse que esse era o problema do governo collorido, ninguém conseguia entender o que ele hablava. Depois gastei meu portunhol num programa de TV - desses que fazem a delícia das tardes das donas-de-casa, onde se discutia o tema da “mulher separada” que era a última moda que chegava tradiamente ao território portenho.  A mulher de um dos desenhistas argentinos, que estava no nosso time, disse mais tarde, que viu o programa na TV com muita atenção, mas não entendeu nada do que eu falei.
O que importa é que saimos vivos do estúdio, porém quase morremos afogados depois que uma tromba d’agua se abateu sobre a cidade. Nunca pensei viver uma enchente na Londres do Mercosul!
Voltei todo molhado para o hotel, tomei um banho quente para afastar o resfriado e botei minha fatiota para a noite de glória.
No centro cultural de La Recoletta tava uma animação danada, lá vi meu cartum com modura e tudo , pendurado  ao lado dos meus companheiros de traço e entre eles, o do magnífico Quino, nosso herói, que ainda não tinha pintado por lá e era aguardado com grande expectativa por todos.
De repente Rrulio me pega pelo braço e diz , Bruno, você tem que conhecer o embaixador da Itália , venha comigo… e lá fomos para a porta de entrada . Eis que um homem meio calvo, de óculos de aros grandes , dentro de um terno bem cortado, com uma gravata esplendorosa vinha subindo a escada e eu sem mais nem menos cumprimentei:
- Seja benvindo Senhor embaixador!!!!
Riso geral….Rrulio recuperado da gargalhada me disse:
- Bruno , você acabou de saudar Quino….qua qua qua…
Tratei de me refazer rapidamente da gafe e mandei essa:
- E Quino não é nosso embaixador do humor?!
Confesso que  essa saída foi meia boca, mas  Quino foi muito simpático, disse que eu parecia com um dos personagens dele- e para minha surpresa, fez questão de conhecer meu cartum …Pois é foi assim que paguei um belo mico na bela ciudad de las cupulas ao confundir o grande Quino , ou melhor o grande Joaquín Salvador Lavado com o embaixador da Itália.
***
Faz pouco tempo, soube que inauguraram uma estatueta de Mafalda em San Telmo , bairro onde Quino passou sua infância. Eu o vi numa foto ao lado de sua personagem. Fiquei imensamente feliz de ver que ele não tinha mudado em nada.

A morte de uma velha senhora

21 de setembro de 2009

(Hoje é dia da árvore. Aproveito para publicar uma croniqueta que está na gaveta faz algum tempo. É que ela sempre me parecia provocação comparada ao gritante noticiário político policial do Brasil.)
Assisti de camarote a tortura e o assassinato de uma árvore, uma senhora que estava perto dos seus 7o anos. Não fiz nada para impedir a sua destruição. Se fizesse, creio que seria preso ou internado num manicômio. Lembro-me do cineasta Roberto Santos que dirigiu o maravilhoso “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” baseado no conto de Guimarães Rosa. Ele, um dia, para evitar a remoção de uma árvore que ficava perto de sua casa, subiu nela e lá ficou em protesto.
Diz aquele ditado popular que todo homem para se sentir realizado deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Quanto ao assunto filhos, só posso dizer que estou contente com os meus, mas a questão é polêmica. Um personagem de Machado de Assis, parece que, expressando seu pensamento, disse que não deixaria o legado de sua miséria neste mundo. O poetinha Vinicius de Moraes dizia que seria melhor não tê-los, mas se questinonava como sabê-los sem tê-los? Conheço muitos livros péssimos,mas nenhuma árvore má. Apesar dos homens usarem os galhos de algumas para enforcar outros, acusados de serem bandoleiros, ladrões de gado, como nos filmes do velho Oeste. As árvores são sempre benéficas, mesmo quando com suas raízes ameaçam as tubulações de um edifício ou derrubar os muros que o homem constrói, como diz o biólogo Kinsey à sua esposa no filme que leva seu nome, as árvores são sempre felizes com suas raízes firmememente plantadas na terra.

Enquanto viajava nesses pensamentos, os homens do Departamento de Parques e Jardins faziam seu trabalho. Parece que a poderosa árvore a que me referi no começo dessa crônica estava ameaçando os alicerces da casa que um dia foi abandonada por um homem e agora tinha sido comprada por outro, que estava salvando seu capital investido naquela ruína.Não adiantaria argumentar que a casa é só daquele homem e a árvore é de todos, principalmente dos passarinhos que se lamantariam no dia seguinte com seus cantos tristes… Haverá quem diga que isso é coisa de poeta, de desocupado, mas pergunto: o que substituirá aquele espécime único? Ela que todos os dias era, enquanto viveu, a alegria das minhas manhãs com o seu verde esperança. Nos dias de sol de rachar catedrais, amenizava o calor com sua generosa presença e se tornava mais alegre com as centenas de pássaros que nela se abrigavam ou faziam pouso para novos voos, A música que deles vinha emocionaria o mais frio burocrata, garanto! Acredito que algum dia, com o avanço tecnológico que temos, será possível “remover” árvores - sem abatê-las. Ela está causando problemas aqui, então transfere a árvore para um lugar onde ela continuará a ser útil.
Sei que deveria falar de política, de bandalheira, de desvio, de quebra de decoro. Preferi falar da tristeza imensa que habitou minha paisagem sem ela, a majestosa árvore para a qual, um dia escrevi este modesto adeus.

As palavras e as coisas

3 de agosto de 2009

(Peguei lá no fundo do baú uma croniqueta pra funcionar de step enquanto boto umas coisas em ordem no meu HD - espero que gostem. Esta vai sem ilustração por motivos óbvios)

Acredito que as palavras são fonte de permanente
mistério, fora o fato de que geram os famosos mal
entendidos, que têm sido tão mal interpretados,
coitados! Se não fossem eles, o que seriam dos
boleros, da dor-de-cotovelo e da dor-de-corno por
supuesto? Palavras existem para nomear as coisas,
expressar sentimentos e, na maior parte das vezes,
dizer bobagens. O principal problema é essa mania de
interpretação. Não dos boleros, mas do que se diz.

Creio que uma outra fonte de confusão está na própria
mecânica do ato de falar. As palavras são antes de
mais nada sons (grunhidos?), que uma vez emitidos
surfam em ondas e vibram no ar até chegar aos ouvidos
nem sempre atentos. Vai daí que uma coisa dita, mesmo
que seja bem dita, pode ser entendida de forma mal
dita (maldita?) Nesse entroncamento se situa um rico
manancial de coisas ouvidas erroneamente, que ao meu
ver (ouvir) constituem um sinal da extraordinária
criatividade do ser humano - e que o diferencia do
papagaio e de alguns cachorros amestrados.

No Brasil, isso é de uma riqueza sem fim. Para
começar, ouça (veja) o caso de uma menina
recém-entrada na universidade que chegou em casa toda
pimpona e disse ao pai: “Meu professor falou de um
novo autor hoje, um tal de Maiquéu Fucô” (ela se
referia a Michel Foucault, claro, e produziu um riso
hilário no pai). Nesse caso ela ouviu e leu o
professor escrever Michel (Mixéu) , mas seu
inconsciente moldado por Disney e a família Jackson a
fez registrar o nome Michael (Maiquéu).

Ouvir palavras e repeti-las de forma errada pode
acontecer com todo mundo. Solange, a ex-famosa
participante de um irreality-show (alguém ainda se lembra dela?)
foi uma mestra nessa alteração de todos os sentidos das palavras.
O seu “Uiárniuôr,
Uiuarnsilver.”, que virou CD e animou muito baile funk por
aí, na verdade queria dizer: “We are the world, we are
the children.”, da música cantada recentemente por vários artistas no funeral de um de seus compositores, o genial  Michael Jackson que fez essa obra com  Lionel Richie  para uma campanha em
favor dos pobres da África, se não me engano. Não é à
toa que o pessoal já cantava “Uh! Tererê!”, em vez de
“Hoop there it is”, da música Space Jam, do grupo Quad
City DJ’s.

Sem dúvida, o jeito moleque do povo brasileiro faria Michel
Foucault morrer de rir antes de a dama sinistra passar
o cerol nele (nossa crônica, por sinal, leva o título
de um de seus livros). Tocando as maracas da
interpretação, creio que ele curtiria muito essa
capacidade de adaptacão do nosso povo, sua
criatividade alucinada.

******************************************************

Há algum tempo venho fazendo
(com o auxílio luxuoso de alguns amigos),
uma pequena coletânea de palavras
que são usadas fora e às vezes muito dentro do
contexto. Abaixo vão alguns exemplos
:

1) O menino ia atravessando a rua quando o caminhão
vasculhante quase atropelou o desinfeliz.

2) O emprego dele é muito bom, tem até adicionário
noturno.

3) A febre baixou, mas só quando usou um sucusitório.

4) A injeção foi bem no glúten dela.

5) O requerimento do advogado foi aleijado do
processo.

6) Ela teve condolências do rapaz.

7) A última vez que vi o velho ele estava bem nítido,
(esta já citada por um outro cronista, mas juro que
descobrimos antes).

8) O pobre só apresentava uns sinais de
estereosclerose.

9) Aí, bateram um elétrico, mas já era tarde e o
coitado tinha tido um ABC (em vez de AVC).

10) Tive que fazer um xerox vice-versa do atestado de
óbito.

11) O jornal diz que lá no Iraque tem muito
frango-atirador.

12) E aquela que foi no motel e só ficou usando a
banheira de vidro massagem?

13) Ainda bem que todo o gasto da viagem foi
debilitado na conta da firma.

14) O menino ficou tão contente depois que ganhou um
videogay .

15) Nessas novelas, agora, estão com essa mania de
botar mulheres mésblicas. É um tal de mesbla se
agarrando…

16) Com esse hábito de de não usar fio dental eu
fiquei com o gengibre inflamado.

**********************************************************

Uma idéia maluca é fazer uma dicionário desse novo vocabulário,
incluindo nomes próprios que mudaram devido ao
entendimento diferenciado do escrivão na hora do
“resistro” (mas acabei desistindo da idéia).
E, para finalizar, uma frase que um amigo meu registrou e
que é um fenômeno a espera de decifração
Trata-se de um cartaz de beira de estrada,
onde se verifica uma nova forma no uso do pronome. Lá
está escrito: “Vende peixe-se“. Nesse caso, sem
dúvida, trata-se de uma revolução linguística.

Kerouac, quem diria…

19 de julho de 2009

( A história que vou contar aí embaixo é uma versão atualizada de uma  outra que já contei em  cantos remotos da web.  Tem a pretensão  de significar talvez o fim de uma era, e quem sabe o destino do livro nesse mundo louco da informação instantânea e do perigo que ronda até os cemitérios )

Esse não morreu de ‘overdose’, como um autêntico dinossauro . Apesar de ter sido um daqueles espécimes raros que viveram na era ‘lisérgica superior’( estágio civilizatório marcado pelo festival de Woodstock), nosso herói teve uma morte comum.
Saiu desta para melhor , da maneira mais convencional, como ele mesmo diria: ‘careta’ . Um simples enfarte fez com que o ‘relógio’ parasse de bater . Foi encontrado pelo filho na sala do minúsculo apartamento que tinha alugado em Botafogo, onde morava com seu ‘caos particular’. Assim ele chamava seu habitat . De fato era a uma bagunça de respeito : livros espalhados por todo canto, discos de vinil,uma velha vitrola ‘Garrard’ , jornais da déca de 60 , uma Olivetti portátil onde faltava a tecla b, pastas com artigos , ensaios ,crônicas, rascunhos de livros , um poster de Dubrovnik compunham a cena de um verdadeiro museu de quinquilharias onde se destacavam um narguilé e o esqueleto de uma barraca de camping. No meio disso tudo, ele ,trajando uma cueca samba-canção, jazia de bruços, com o livro ‘On the road’ de Jack Kerouac na mão.
Era uma tarde quente, o ventilador estava ligado e sobre uma cadeira , um cubinho de gelo ainda derretia dentro de um copo de mate.
O rapaz ligou para sua mãe, que muito prática , logo passou a a organizar o funeral , listando uma série de providências que deveriam ser tomadas… A irmã chorou um pouco , depois disse que não demoraria a chegar.
O rapaz , enquanto vestia o falecido pai, de repente , começou a rir ,quando lembrou de um pedido que o velho fizera num dia em que pegara a famosa gripe de Sidney .( como vocês podem ver, sempre tem uma gripe rondando o símio que pensa que evoluiu).
-Quero que toquem ‘Little Wing’ no meu enterro. Com o Hendrix solando aquela guitarra maluca! O velho tinha dito. Entre um espirro e outro, lembrou que teve essa idéia ao ver o filme ‘O reencontro’(The Big Chill), do Lawrence Kaskan , em que velhos companheiros de escola dos anos 60 se reúnem no funeral do mais pirado amigo: - Eles tocaram uma música dos Rolling Stones enquanto velavam o morto, eu me lembro….
Todos riram naquela ocasião, a morte , decerto tinha outros encontros marcados na sua agenda e não deu as caras . A gripe australiana se mandou e o nosso herói continuou sua vida jurássica , preso aos fragmentos dos anos em que se dormia num ‘sleeping-bag’ na beira de uma estrada e isso era considerado ‘um grande barato’.
A filha chegou com os olhos vermelhos e encontrou o pai vestido . Estava sentado no sofá, parecia que estava cochilando.A garota se assustou e logo tratou de deitá-lo: - Ajude aqui, temos que esticar o corpo dele, senão fica durinho nessa posição e nós vamos ter que enterrar o papai numa cadeira! Em seguida perguntou: -Tem certeza que ele vai vestido de jaqueta ,calça blue jeans e tênis?
-Achei que ele iria gostar, disse o rapaz. - Depois não encontrei nenhuma coisa que se parecesse com um terno no guarda-roupa? Mas tem uma outra coisa que me preocupa. Lembrei que ele queria aquela música do Hendrix no velório.
- ‘Little Wing’? Você se lembrou disso? Dessa vez ela riu também, e logo emendou: - Não! Papai que me desculpe, mas não vou pagar esse mico!
O irmão concordou que seria uma extravagância. Apesar da música ter uma levada suave , lembrou até que ela tinha uns sininhos tocando no fundo e um solo fantástico, mas definitivamente iria chocar a galera.

- É , mamãe também não ia gostar, eles não curtiam as mesmas coisas. Ela só ouve os clássicos!
Mas e a promessa que tinham feito ao pai “semi-moribundo!…. Os dois se olharam por uns minutos e um sorriso iluminou o rosto do rapaz. -E se enterrarmos ele com o livro do Kerouac ? Ele adorava o ‘On the road’, e além disso, parece que ele tinha apanhado esse livro na estante quando aconteceu….
-É , a gente espalha uns incensos também pela sala do velório, fica um clima bem hippie e depois camulfla qualquer odor desagradável.
-Fechado! Disse o filho.
No final da tarde o corpo já estava dentro de um caixão numa das salas de velório do cemitério . Apareceu muita gente ,várias ex-namoradas , amigos de redação, alguns malucos que abraçam árvores no Jardim Botânico, um grupo de ‘tai chi’, restos de beatnicks , umas garotinhas vestidas roupas de Bali , e um bando de curiosos.
- Acho que alguém lia aqueles artigos de seu pai no “Natureza Louca”! Disse a ex-mulher .
O pessoal, no entanto, foi logo se despedindo quando anoiteceu.
- Sabe como é , essa onda de assaltos, essa violência toda da cidade……. Só restou a família, que também “não deu mole pra Kojak” e bateu em retirada, deixando o morto aos cuidados do vigia. Ficou combinado que o enterro seria às 11 horas do dia seguinte .
Ele, por incrível que pareça era o único defunto que apagara naquela tarde. Ficaria , portanto, ali sozinho com seu livro preferido . O ‘segurança’ foi tirar uma soneca numa outra sala. Talvez chegasse carne nova naquela madrugada, mas enquanto isso não acontecia , nos braços de Morfeu ele sonhava com bifes acebolados e batatas fritas , frangos assados , pudins em calda, ameixas pretas, sorvetes de chocolate, chantili……Na cena de seu sonho gastronômico não estavam incluidos dois convidados que se aproximaram respeitosamente do morto e sussuraram felizes:
- Cara, que pano maneiro!
Enfim um presunto com roupa que a gente gosta!
- Ó  o tênis do cara. Aí, tira ele!
E não é que me serve!!??
Assim, foram despindo o defunto. No fim um deles notou: - Tem um livro aqui!?
-Qual o ‘titlo’? Perguntou o outro , vestindo a jaqueta Lee.
- ‘On te roade’,…
- Que negócio é esse ?
- É inglês, Mané!
-Vamos levar o livro?
- Não. Cobre as ‘coisa’ do cara com ele !
Assim , o nosso herói ficou nu ,com o livro de Kerouac servindo de tapa-sexo.
Enfim teve um enterro mais afinado com suas idéias…

A maldição de Wim Wenders

11 de julho de 2009

(Esta crônica, conto, não sei bem o que é, só pode ser lida por quem ama ou odeia o cineasta alemão acima citado)

Maldito Wim Wenders ! Ele resmungava e socava a mesa de bar, cheia de garrafas de cerveja vazias que tremiam e faziam um ruído irritante.
- Ô Zaca, desce mais uma !
E lá vinha o dono do estabelecimento com uma Antártica geladinha, casco escuro, senão ele mandava de volta, dizia que era mijo invertido…
- Pois é, eu imaginei que tudo tinha começado com aquele filme… (Ele falava para um ouvinte invisível , pois o Zaca nem estava aí para o que ele estava falando, de olho fixo na TV , admirava uma mulata rebolativa que fazia o coro de um cantor de pagode da moda)
- Sempre achei que o veneno estava ali. Que foi com ele que matei aos poucos nosso casamento. Também, tinha que botar ela pra assistir três vezes “O medo do goleiro diante do pênalti”?
É preciso ser macho para aturar aquilo, e não foi só isso: inventei de levar ela pra ver “O Estado das Coisas” que estava passando numa sessão da meia noite do Cinema 1, coitada …Aquilo deve ter sido dose, mas não foi gota d’água, ainda não foi esse filme o que terminou com as coisas entre nós.
O rapaz estava de fato muito bêbado e parece que indeciso se botava ou não a culpa no cineasta pelo fracasso do seu casamento.
- Deve ser porque um dia eu falei pra ela que essa história de sujeito não existe. O sujeito da relação sujeito, objeto, entende? Falei mais, disse que a gente é uma indeterminação, um fluxo de vários discursos. Mandei na cara dela um papo de que somos produtos da linguagem. Que o autor morreu…E aí, Zaca, tá entendendo alguma coisa desse papo?
- Tudo, meu amigo, tô entendendo tudo.
-Não, você não está entendendo porra nenhuma, Zaca. Não vou ficar aqui citando autores. Basta dizer que é tudo francês e lembra “Quantrô”, que se escreve C-o-i-n-t-r-e-a-u, sacou? Falando nisso, desce um “Quantrô” aí, Zaca !
-Esse daí não tem não. Falou o homem, passando em revista as bebidas atrás do balcão.
- Então manda um Steinhaeger mesmo, que eu vou de submarino!
Zaca disse que esse também não tinha.
Então manda um “Fogo Paulista ” , que desta vez eu me acabo.
Zaca botou a bebida num copinho e o rapaz tomou num só gole. Em seguida arrematou com cerveja. Uma mistura explosiva, sem dúvida, mas que dava para avaliar o desespero do cara. Ele nem fez cara feia quando aquela química dos diabos invadiu seu estômago, continuou seu discurso encharcado.
-”Paris, Texas” ela até que achou legal. Caramba, tinha o roteiro do Sam Shepard , a trilha era do Ry Cooder em cima do “Dark Was the Night” do Blind Willie Johnson, aquela guitarra riffando bacana com as cordas soltas sob o dedo, presas num anel de aço como fazem os bluseiros. E tinha aquela coisinha maravilhosa que é Nastassja Kinskie. Ah, e para variar tinha o Wilson Grey deles, o tal de Harry Dean Stanton. O bicho estava em todos os filmes “cults” que fizeram naquela época….Porra, acho foram esses filmes que acabaram com tudo… maneira de dizer, mas no fundo creio que fui eu que devo ter virado um ser estranho naquela casa. Mas ela gostou de “Paris, Texas”, Zaca! Também pudera, Paris, Texas é um puta filme! E não é um filme cabeça…deve ser isso…acho que ela não curtia filme cabeça, Zaca!
Mas tinha a questão teórica, e eu era uma besta. Nem percebi que ela me olhava perplexa, enquando eu desconstruia as coisas que ela dizia, e me metia a falar de simulacros e simulações. Me lembro de um dia em que eu comentava que a realidade era uma ficção e ela estava falando alguma coisa sobre o supermercado. Aí eu acho que empombei e disse que esse sim era um grande exemplo do da sociedade se rendendo ao consumo , o supermercado como o templo do consumo. Puta clichê, Zaca! Como eu me afundei nessa… Olhe que nem falei dos shoppings, falei do grande fator diluidor que reside no núcleo dos supermercados - alcachofras ao lado de pasta dental e camisinhas. Produtos iguais na desigualdade, gôndolas, caixas registradoras, seguranças, uma prisão de prazer, uma prisão do consumo. E as meninas diante das caixas registradoras, todas naqueles uniformes de colégio interno…No fundo mais uma prisão. Ah! meu Deus, ela só queria que eu comprasse umas fraldas descartáveis e um pote de Hellmann’s! E eu cheio de conceitos.
Mas aí veio “Asas do Desejo” , depois “O Céu de Lisboa” , e teve também “Até o fim do mundo”….
Cacete, eu devia ter levado ela pra ver filmes da Meg Ryan!
Quando entrei numa de explicar o pós-moderno, ela aguentou firme . Só chiou um pouco quando eu disse que era o fim das grandes narrativas. Mas acho que o bicho pegou mesmo quando apareci com o vídeo “O fim da violência” para a gente assistir depois do Fantástico. Ela , eu creio, dormiu durante o filme. De qualquer forma, não entendeu o final e ficou me olhando com uma cara de bunda. Eu tentei explicar, e quanto mais eu explicava, mais ela se irritava, o caçula começou a chorar lá no quarto, eu acendi um cigarro, na chama do fogão que esquentava a mamadeira, ela mandou eu apagar, eu mandei ela para aquele lugar e acho que aí foi o fim. Cacete, e eu nem percebi… Muito tempo depois a gente resolveu dar um tempo. Sabe como é, desgaste da relação, coisas de casal…Em uma semana as coisas estariam consertadas. Passaram 3 anos…
Ontem, por acaso encontrei com ela no Estação Botafogo, tava com seu novo marido na fila de “Cada Um Com Seu Cinema” que é uma coletânea de 34 curtas de vários diretores. Cada um deles filmou 3 minutos- coisa muito avançada.Mas ela fez questão de me dizer que veio mesmo para ver a parte feita pelo Wim Wenders, os 3 minutos de “War in Peace”. Foi aí que eu pirei, “mermão”!
Zaca disse que não era bem assim, que certas coisas não se explicam. Sem que o rapaz pedisse ele abriu mais uma cerveja e desta vez botou um copo pra ele também. Como era o nome do cara mesmo?
- Que cara, Zaca?
- O que acabou com seu casamento?
- Tavinho, eu mesmo, seu criado…
E assim trincaram os copos num brinde melancólico.
Corta!

Traição e relação aberta

18 de junho de 2009

Vi hoje na TV que fizeram uma grande pesquisa sobre o hábito da traição no Brasil. A história que vou  recontar aqui pertence ao mundo antigo, quando numa certa época, para um pequeno grupo muito folclórico, não existia essa de pular a cerca.

Foi numa barraquinha de incenso da Carioca que ouvi esse “causo” amoroso. Um senhor grisalho, cabeludo e barbudo, de óculos redondos à la John Lennon, contava: “É isso aí, bicho, dos anos 60 aos 70, costuma-se dizer que rolou de tudo. Não quero nem lembrar, e mesmo que quisesse, meu camarada, não ia dar pé. Bateu um sudoeste na minha memória “mermão”. Mas, cara, acho que o anti-barato dessa época, aqui no Patropi foi que o pau comeu na casa de Noca, foi uma dieta-dura militar que não deixou saudades. Sai de baixo! Tem nego que foi e não voltou, teve nego que tomou um taxi na praia de Copacabana, saindo do “pier” e disse: -Toca pro Recife! Pois é, malandro, foi uma era “já –era” de experimentalismo tanto químico como místico. Tinha o Carlos Castañeda e sua erva do diabo , um cabôco do Mojave que baixava e a doutrina de que você deveria achar o seu lugar no mundo,o seu ponto místico geográfico, coisas assim, etc e tal… ou não!
Teve Woodstock e o hino americano explodindo na guitarra de Jimi Hendrix. No meio daquelas cabelos encaracolados, bandanas, roupas espalhafatosas, cheias de desenhos “lisérgicos”, florais e tendendo sempre para espirais , camisetas feitas artesanalmente com anilina  com calças boca de sino, muito “Are you experienced?” e Janis Joplin tocando sem parar na vitrola, que Carlão do violão conheceu Soninha da flauta. Na flauta mesmo, ela só tocava “Greenleaves” e adorava aquele filme sueco Elvira Madigan em que a heroina morre comendo frutinhas silvestres, se não me engano. A união dos dois pombinhos rolou numa praia, teve troca de alianças, na qual resolveram ter um casamento aberto….Eram tão hippies, que seus amigos os chamavam- ele de Amor e ela de Paz . Concordavam em tudo, inclusive no time, o Fluminense, que era a única caretice que ele cultivava, e ela acompanhava só para exercitar sua solidariedade universal.
Paz & Amor. O casamento perfeito! Uma relação que começou aberta e acho que terminou escancarada. Enquanto durou, eles curtiram adoidado contar como foi com os outros, com os quais dividiram a cama. Nada de promiscuidade. Não! Isso não rolava, não. Não curtiam um “ménage à trois”, mas transavam à vontade com parceiros que encontravam em noitadas, acampamentos, ou em bares onde pintava de tudo, inclusive um sujeito que só bebia coca-cola e um outro que olhava detalhadamente uma caixa de fósforos e dizia:- Gêeenio!
A química era essa: Carlão, ou melhor, “Amor”, se excitava com as aventuras sexuais dela e ela idem, idem e o relacionamento deles esquentava pra valer. Mas o diabo sempre se mete no meio desses relacionamentos felizes, e um deles apareceu e botou um sujeito bacana demais na vida de “Paz”. Como se disse depois, o cara parece que tinha pegada . “Amor” nem desconfiou, deliciado em saber como foi que o tal bacana fez “Paz” beijar o céu. Surfou na rebarba, feito mané-gostoso até que num domingo, ela disse que tinha que sair mais cedo, pois ia ao Maraca ver um jogo do Mengão. Do Mengão? – Que é isso, “Paz”? Você mudou de time? E o nosso Flu, para onde foi?
Ela hesitou….- É que o cara bacana que eu encontrei, sabe…pois é,… ele torce pro Flamengo.
Nesse exato momento  Amor percebeu que perdeu a Paz , o sonho tinha acabado definitivamente, e Santa Teresa nunca mais seria a mesma”.
Fim da história. Ainda bem, aquele cheiro de incenso estava demais para minha alergia.

Divina tatuagem

12 de junho de 2009

(Especial para o dia dos namorados)

Tatuagens podem ser consideradas marcas do nosso tempo. Sinais que envelhecerão com o corpo, e talvez se tornarão irreconhecíveis um dia, como as rugas. Antigamente ( em meados do século passado ) as tatuagens eram consideradas coisa de marinheiro ou presidiário. Significavam um estigma - um traço negativo, algo condenado pela boa sociedade. Das classes trabalhadoras à burguesia, passando pelas classes médias, havia um consenso de que tatuagem era coisa de marginal. Hoje quase todo mundo estampa na pele aquilo que bem entende e creio que no futuro, somente gente anormal não as usará.
Patricke era um rapaz que não se situava nem no mundo antigo,  da antitatuagem, nem no mundo digamos moderno da quase pós-tatuagem. Era um rapaz de bem com a vida, gostava de pagode,  música pop-sertaneja, de uma pelada no final de semana,  de feijoada,  churrasco, cervejinha, cinema de ação e corrida de fórmula 1. Seu único problema eram os dentes. Fracos viviam cheios de cáries, apodreciam com facilidade. Maltratados por dentistas distraídos, foram se perdendo, até que um mais atento, resolveu inserí-lo na era do pivô. Foi pivô pra cá, pivô pra lá e ele ficou com uma esplêndida dentição híbrida, por assim dizer.

Numa  quermesse do bairrro,  Patricke e sua dentição perfeita conheceram Madalena - morena de endoidecer, como diz a música de Djavan. Cabelos longos, magníficos olhos verdes, corpo escultural (todos os clichês da mulher gostosa).  Foi amor à primeira vista, coisa genética, como entre as moscas estudadas pela Universidade de Cornell (o que esta informação está fazendo aqui?). O que importa é que ele deu um “cerca lourenço” na moça, e com muita lábia, conseguiu marcar um encontro.  Investiu a grana da poupança num restaurante metido a italiano e o espagueti com vinho rosé rendeu umas saídas . Nesse período ele a levou ao cinema para ver filmes de amor- que não era a dele, mas sabe como são as coisas, é necessário algum sacrifício antes do “Exterminador do Futuro 4 - A salvação”- entrar em ação. Começaram a namorar nos conformes, ele falava até em noivado, casamento, filhos, o projeto da casa. Meses depois , estava tão apaixonado que resolveu fazer uma surpresa para a beldade - uma homenagem em forma de tatuagem. Pediu uma foto bacana dela e levou para um tatuador dos bons. O artista  fez o retrato do rosto da morena no ombro dele, sobre a superfície do músculo deltóide.
Agora, quando ele marcava gol na pelada, arregaçava a manga da camisa do time e depois de beijar sua mão, esfregava na tatuagem do rosto da namorada, que na arquibancada se sentia osculada …. O tempo passou, sem muitas intempéries . E num dia - o dos namorados, num arroubo de motel ele deu um beijo nela, daqueles de desentupir pia, e aconteceu uma tragédia, um pivô, que estava de bobeira, se deslocou da sua fabulosa dentição e foi no fluxo da paixão  se alojar na garganta da moça . Ela engasgou, correu para o banheiro, aflita, fez gargarejo, tentou botar o bicho para fora, mas no fim das contas, não teve jeito, acabou engolindo a obra de arte do atento dentista…
Paritcke ficou com cara de tacho, nem tentou dar explicações, só esboçou um  sorriso ecabulado que fez sua desgraça, pois  deixou à mostra  o vão, a vaga, a imensa garagem no seu antes impecável estacionamento dentário.  Exibiu-se como o mais novo sem-dentes da praça, um banguela de festa de São João. Foi o pontinho no nariz, um único pontinho que mostra a decomposição do cadáver intacto de que fala Barthes citando Dostoievski nos seus  “Fragmentos de um discurso amoroso” - que não tem nada que se meter aqui, mas que quer dizer o seguinte:  que o dente foi o fungo no enorme painel do amor,  que fez tudo craquelar. E foi rápido, logo surgiu no horizonte um outro rapaz, com dentes saudáveis de anúncio de Kolynos e ela se encantou.  Adeus Patricke!
Frívola? Não. Nada disso.  Essas coisas acontecem. Não é todo dia que se engole um dente, mas  o que aconteceria no próximo beijo, talvez deslocasse um ponte, sabe-se lá?
De Madalena só sobrou o retrato tatuado no ombro do banguela. Ele sofreu demais, mastigou o pão que o diabo amassou. Ainda bem que a família do rapaz resolveu mudar de bairro. Foi morar na zona Leste. Mas,  aquela tatoo começou a pesar, não só pela saudade, e ele tratou de escondê-la de todas as maneiras. Num calor de fritar ovo no asfalto, ele saia de camisa de manga comprida. Nos  dias de pelada,  só se trocava quando o último jogador saia do vestiário. Voltava para casa vestindo o uniforme do time por baixo da roupa. Um dia conheceu Aline, uma linda lourinha, muito religiosa, cheia de mais mais, que ele começou a namorar firme, mas só de portão e sofá. Passado um ano, a donzela topou, depois de muita saliva, ir para um motel- mesmo assim só depois de agendar noivado e oscambáus.  Marcaram de ir  no  dia dos namorados, para ficar mais romântico.
E aí veio aquele problemão , o retrato de Madalena tatuado teria que ser removido. Não podia correr nenhum risco. Fazer amor no escuro, nem pensar! Vai que num lance, a luz do abajur  revelasse o rosto sua ex…justamente na hora H. Que vexame! Ele imaginava e sofria…
Pensou em raspar. Disseram que o processo era caro e doloroso. Coisa feita com laser, preço que só bacana podia bancar, mesmo assim iria ficar cicatriz. Imaginou  simular um acidente, botar esparadrapo, bandagem… Não ia dar certo! Temia que a moça pudesse dar pra trás só para não machucá-lo mais…
Foi então que apelou para as forças celestes, foi até o quarto da mãe onde tinha oratório com santinhos e um crucifixo.  Começou a rezar  para ver se vinha uma luz na sua idéia. Foi aí que surgiu a solução: no bruxuleio da vela, ao fixar o rosto do filho do Senhor, ele viu a salvação… Saiu em disparada chegou no ateliê do tatuador e pediu: tasca um Jesus em cima do retrato da Madalena. O homem nem discutiu, e até  que foi fácil:  botou barba e bigode, engrossou as sobrancelhas e caprichou numa coroa de espinhos. E  foi assim que, num passe de mágica, Madalena virou Jesus.
Não preciso dizer que Aline adorou.
- Ficou divino, Patricke, você é mesmo um amor! Disse ela abraçando o rapaz sob os lençóis do motelzinho de beira de estrada da Zona Oeste. Estranhou apenas que Patricke beijava devagar, sem muito ardor.
- Vai ver que é o estilo dele! Pensou toda carinhosa. Só faltou música do Wando para tudo ficar perfeito.