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A paralisia da guerra e seu distante fim

7 de fevereiro de 2010


Quando vi o filme, ele não estava nem nos cinemas, foi lançado aqui no Brasil em forma de DVD. Repousava na locadora do bairro, no meio de um monte de porcarias, me esperando imapacientemente. Na árdua tarefa de garimpar alguma coisa para ver no final de semana, me deparei com aquele título (em português off-course) , gasto e apelativo : “Guerra ao Terror“(The hurt locker). Pensei : - Mais um filme chinfrim sobre essa guerra infame.Gastei dois adjetivos e peguei a embalagem para ler os créditos - confesso que só levei para casa porque no elenco aparecia o nome de Ralph Fiennes . Explico, não sou fã desse ator, mas tinha visto um par de filmes em que ele atuava, e não eram propriamente”lixos” culturais como é a grande parta da produção hollywoodiana - é claro que seu nome funciona como uma grife que confere status a alguns produtos da indústria cultural. Foi mesmo na contramão que me vi levando esse produto duvidoso naquele saquinho preto junto com um filme francês antigo. É que ando como maluco atrás dos filmes comentados por François Truffaut no livro (que comprei num sebo) “Os Filmes de Minha Vida” - que reúne uma seleta dos artigos que ele escreveu entre 1954 e 1975. Nada como uma boa viagem ao passado para refrescar a cuca e ver o cinema que se faz hoje com outros olhos, mas isso é assunto para uma tese. Portanto, foi dentro desse paradoxo subjetivo, que comecei a assistir “Gerra ao Terror”. O filme tem (desculpe a piada) pavio curto - não demorou muito tempo para ser capturado pela tensão, e sensação de asfixia que essa fita transmite. Um de seus méritos (pois é, decobri depois que ele tinha muitos méritos) é ter uma direção que trabalha a câmera de um modo que te joga dentro da ação, que não é feita do movimento de grandes combates, de cenas espetaculares, da corrida de gato e rato, mas , por incrível que pareça, extrai sua força da paralisia, do pântano em que se transformou aquela guerra equivocada,- em contraposição a pequenos movimentos, que se não forem feitos com precisão, provocarão curtos-circuitos que vão explodir tudo.
Nessa altura do campeonato, todo mundo deve estar por dentro do roteiro: Um grupo de soldados está com os dias contados para deixar o Iraque - mais particularmente um grupo que tem por função limpar os furúnculos da guerra, ou melhor, identificar e desarmar artefatos complicados que detonam explosivos - desde minas até homens-bombas. A perspectiva de sair daquele atoleiro em poucos dias se vê complicada por um aumento na escalada dos atentados - o que leva o pessoal à beira da insanidade.
O filme é adrenalida pura junto com a nitroglicerina ficcional. Quase que está além do bem e do mal, pois a obra procura não julgar, foge do maniqueísmo, embora esbarre com um ou outro lance de preconceito em relação ao inimigo. É evidente que não pode haver neutralidade, quando se vê o filme com os olhos do invasor. Não tem jeito, os insurgentes sempre serão vistos como os “terroristas” . Mas o filme não pesa a mão nesse aspecto. É claro que não se questiona o discurso do Estado que instaurou conceitos tais como esse de “terror”, de “eixo do mal” etc.- do qual essa guerra resultou - uma mistura de mentiras e decisões da administração Bush que contrariram posições da ONU e lançaram os EUA numa aventura à la John Wayne. O problema daqueles caras do filme é achar a bomba, desativar a bomba. Uma boa metáfora para a era Obama. Apesar de não ser um filme de reflexão, no geral, ele procura encarar a circunstância e o evento da guerra como uma tragédia - uma infelicidade que atinge a todos e que parece não ter fim. Mas há um prazer mórbido nisso quando se vê mais de perto a figura do herói, que é questionada- de forma a pensá-lo no contexto da loucura que a tudo preside num cenário totalmente estranho, cheio de arestas, onde cada cidadão “nativo”, pode representar o seu fim. Existe até uma certa visão que mostra o herói como um viciado em adrenalina…mas essa é outra história.
Pode-se dizer que Kathryn Bigelow fez um bom filme. Nada que se compare à visão dos filmes que Clint Eastwood fez sobre a segunda guerra, nem a profundidade do melhor filme sobre a questão da “Guerra do Iraque”(que se passa todo em território americano e que é potente na sua crítica ao sistema todo que envolve essa longa marcha da insensatez), que é o fabuloso “No Vale das Sombras” (In the Valley of Elah) de Paul Haggis.
Curioso saber que ela concorre com Cameron, seu ex, que também fez em “Avatar” - ao que parece - também um filme de guerra. (Ainda não vi o filme).
Suspeito que inconscientemente, ou muito conscientemente Cameron usou o recursos brechtiano do distanciamento para falar de um problema que nós vivemos aqui e agora - o que não é o caso desse fragmento que Bigelow dirigiu com maestria. “Guerra ao Terror” é uma porrada! E como em “Avatar”, lá no Iraque, tudo é estranho, inclusive a armadura (quase medieval) que o “especialista” usa para se proteger das explosões. Mesmo assim não consideraria essa obra como um forte candidato ao Oscar de melhor filme. Talvez de melhor direção e de economia, pois foi feito com muito capricho, contou com uma câmera preciosa e uma edição de deixar o espectador sem fôlego- isso tudo feito com baixo orçamento - pelo que soube- foi filmado em Los Angeles mesmo. De qualquer forma, se constituiu numa boa uma surpresa. Só não concordei com um lance do filme, mas não vou contar para não estragar a sessão pipoca.(Só volta a falar desse filme depois de ver Avatar)

O estranho mundo de Tony Manero

19 de abril de 2009

O filme Tony Manero de Pablo Larrain  é  incômodo, duro de assistir, sombrio, frio, violento, cruel. Mostra algumas facetas  do ser humano que são difíceis de engolir. Sua miséria física e emocional é explícita, sobra escatologia, demência, promiscuidade…coisas que não gostamos muito de ver alí, dolorosamente expostas na tela. Teve gente que levantou e saiu do cinema, e olhe que nem tinha chegado o meio da sessão ainda. Confesso que não sei ainda se gostei desse filme. Desculpem, mas vou -mais do que expressar minha opinião- deixar a contribuição das minhas dúvidas.
A idéia de fazer um filme sobre um sujeito de meia idade -( Raul Peralta , vivido por Alfredo Castro) que é obcecado por imitar o personagem Tony Manero de John Travolta em” Embalos de Sábado à noite ” (Saturday Night Fever) é uma boa idéia. O problema está aonde ele nos leva.
Há aí, é claro, um humor mórbido que fica mais evidente no contraste do perfecionismo obsessivo  do personagem com a carência material e as soluções “criativas paupérrimas” para montar um mundo “travoltiano”( com ladrilhos de vidro de um depósito de material de construção usado e cacos de espelho colados numa bola de futebol para criar a esfera luminosa do filme). Isso é, em certos momentos,  bastante risível, mas a coisa não para aí, ela é mais complicada pois existe  um outro nível de contraposição.  A história particular do desejo que move esse personagem tem como contexto -  a situação real da sociedade expressa na degradada da periferia do Chile de 1978 quando o regime instalado por  Pinochet, apesar dele já estar 5 anos no poder,  ainda não tinha se consolidado plenamente. Um mundo perigoso onde um Estado policial repressivo  estava fora de controle -  como diria- Elio Gaspari: a “tigrada” estava solta, cometendo toda sorte de barbaridades para neutralizar a mínima oposição e outros se aproveitando dela para conseguir seu butim. (É preciso lembrar que o golpe de estado contra Allende foi dado em 11 de setembro de 1973 - resultando na sua morte e numa das ditaduras mais sangrentas da América Latina )
Não estou inteiramente convencido, mas parece que o desejo de Raul Peralta- sua obsessão, é algo que nos foge, e creio que é muito mais complexa, vai além da mera imitação de Tony Manero. Ele prossegue célere em seu projeto, apesar de todas as diferenças  com o modelo vivido por Travolta (de idade, idioma e mesmo de fisionomia) ). Na verdade, tudo indica que ele quer ser o próprio Tony Manero- não o ator, mas o ícone gravado no celulóide. Ele quer possuir aquela identidade “fantasmagórica”.
Gente que gosta de imitar celebridades existe em vários países. Não tenho cifras, mas acredito que são milhões que buscam novas identidades, nem sempre para se compensar a precariedade das suas. Uns imitam Elvis, outros Michael Jackson, e há os que copiam personagens de histórias em quadrinhos japonesas. (os cosplay)
O interessante da história de Raul Peralta/Tony Manero é que essa identificação  entra no território da psicopatologia. Ele  se transforma num ser autocentrado com características de homicida - que vai eliminando quem estiver no caminho da sua procura de satisfazer esse desejo de ser apenas e tão somente aquela figura rebolativa de Tony Manero - o que implica ser reconhecido pelos “outros” como o próprio Tony. A questão vai ficar pior quando ele decide que esse reconhecimento não é mais necessário… Esse lance inconsciente desse “Tony Manero dos pobres” é que toma a cena principal desse filme.  A história é claro conta com outros personagens que são coadjuvantes  dessa busca demente do rebolado perfeito.  Esse sujeito em transe vive num quarto de uma espelunca- meio casa e meio botequim de uma mulher de meia idade . Nesse bar rola uma atividade dançante e acontecem shows num pequeno palco caindo aos pedaços .Raul Peralta, é o bailarino-chefe e tem como parceiros no projeto embalado, sua namorada - uma mulher que está perto do 40 anos,  sua jovem filha e um rapaz que também alimenta o sonho de ser um “Manero” . No início, o projeto de Peralta/Manero era uma apresentação no botequim, o que o leva a um trabalho duplo. Assistir à exaustão o  filme “Fiebre de Sábado por la Noche” -   num cinema poeira da periferia de Santiago e conseguir os materiais para preparar o palco para uma apresentação retumbante. Durante as várias projeções do filme ele repete a falas de Travolta num inglês espanholado, gesticula como que capturando o gesto . O olho capta o ambiente- a iluminação do chão que se movimenta com a dança do personagem e a famosa bola de espelhos comuns nas pistas de “disco dancing”.  Seu trabalho de replicar Tony Manero tem que reter tudo- alem das falas , gestos, e coreografia estão os detalhes da indumenária. Tem um lance em  que ele vacila ao não perceber o número de botões e a posição deles na calça branca do personagem.
No meio desse projeto surge então a TV- um programa de auditório e um concurso para eleger o melhor Tony Manero do Chile - aí a coisa pega fogo. O resto não vou contar para não estragar o desprazer de ver esse filme.
Não sei porque cargas dágua eu me lembrei daquele personagem absurdo de Borges que queria escrever o Quixote como Cervantes.(Pierre Menard, a autor de Quixote em Ficções) Não há  muita diferença no desejo: o personagem borgeano não quer apenas imitar Cevantes - ele quer escrever como Cervantes escreveu - no fundo ele quer ser Cervantes.
Nessa viagem dentro do filme de Pablo Larrain lembrei muito de “Caro Diário“  de Nanni Moretti . Em particular a primeira parte do filme ( que é composto de três histórias : “Na Vespa”, “A ilha” e “Médicos”) . Em “Na Vespa”, Moretti sai pelas ruas de Roma, mostrando suas belezas montado numa “motorina“. Ele vai  falando sem parar, refletindo sobre a arquitetura, o urbanismo, as coisas da história da cidade, dos seus subúrbios e num certo momento ele resolve falar de cinema- de seu amor pelo que foi produzido pelos americanos e pelos italianos.  Recordo que faz uma crítíca violenta a um certo tipo de filme que, segundo ele,  não deveria ser feito.( e enquanto vai falando, exemplifica com cenas dessse filme) - Ele se refere  especificamente a um que eu tinha visto na época, e achei terrível e confesso que concordei com ele: era um filme que não precisava ser feito.  O filme em questão se chama “Henry: O Retrato de Um Assassino” (Henry: Portrait of a Serial Killker) de John McNaughton- foi realizado em 1986. É baseado na história de um sujeito real - Henry Lee Lucas  que  não economizou violência e cometeu toda espécie de  crimes bárbaros . Harry é um  ser totalmente desprovido de sentimentos, uma abominação que não tem explicação. Ele que bota por terra aquela história que é repetida nos filmes de “serial killers” que sempre conta alguma coisa do passado do sujeito que justifica a carnificina metódica. É um dos filmes mais brutais que já vi. E parte dessa brutalidade está na forma “natural” como os crimes “acontecem” e se repetem e criam um padrão ou se desviam dele e contaminam aqueles que se aproximam. Henry parece ser um Raul Peralta sem projeto.
Fiquei na dúvida se “Tony Manero”  não figuraria  entre esses filmes que não deveriam ser feitos, porque nada acrescentam a não ser mais bestilidade e horror. Seu autor (Pablo Larrain) disse numa entrevista - em outras palavras - que seu filme seria uma metáfora da degradação política chilena daquela época- importadora de modelos estrangeiros . Uma espécie de retrato de um monstro colonizado que refletiria a monstuosidade de seus criadores: a ditadura, o governo, os políticos oportunistas e creio , por tabela a mídia conivente com esse regime bestial. Mas existe uma distância entre a intenção e o gesto. O filme nos faz mergulhar na atmosfera irrespirável da vida daquelas pessoas que depois da derrocada de um projeto coletivo, estavam mergulhadas num egoismo de dar dó: oportunismo, traições - e no meio disso o narcisismo demente aflorando. Mas a conexão com a deterioração da sociedade chilena daqueles dias não fica muito clara no filme. Há apenas justaposição. Manero é um um rato psicopata (ou sociopata?) que se alimenta da degradação que acontece ao seu redor. Ele vive com um pé no sonho impossível e com o outro ele pisa nos excrementos da realidade terrível do período Pinochet. Existe a possibilidade  um elo a ser construido na mente do espectador justamente  ao pensar na ironia que  o filme distila  ao mostrar  brutalmente que seus assassinatos, ao que parece não são apurados, pois não significam nada naquele regime totalitário, O que  o que importa para aqueles que devem cuidar da ordem é quem está produzindo, panfletos contra o ditador. Quem está sabotando o regime. Quer dizer, sua barbárie particular se dissolve na barbárie geral.  Raul/Tony Manero não é um “serial killer“, é um outro tipo de monstro, um sonhador- narcisista produzido pela  indústria pop, respirando numa atmosfera própria, numa situação anômica onde se exerce o vale-tudo.
Nós vivemos aqui no Brasil aquela cultura do “que importa é levar vantagem” que se cultivou nos anos de Chumbo.  Talvez a vivamos ainda que geneticamente modificada. Como podem ver, esse Tony Manero me levou por labirintos horríveis. E ainda permaneço com a dúvida se esse filme é mesmo necessário. Quero logo sair desse pesadelo.
Te cuida Travolta!
NR- Curiosidade, li num artigo da internet( não me lembro qual) que o ator Alfredo Castro que faz o papel de Raul Peralta é parecido com Al Pacino. Concordo com essa observação - só que um Al Pacino mais velho e creio que se o ator americano fizesse esse filme, o faria de maneira exagerada - aos berros. Alfredo Castro é só sussurros e tem uma atuação “perfeita”. Te cuida Pacino!

Che - o mito de novo na praça

13 de abril de 2009

Vou fazer uma crítica fragmentária sobre o filme Che ( na verdade a sua primeira parte) ainda em exibição nos nossos cinemas. Desculpem qualquer vacilo, mas escrevi  direto, depois que vi o filme e nem fiz revisão. Se Tico não falar com Teco, espero que me perdoem.
Não gostei do filme de Steven Soderbergh.  Acho que ele não dá uma dimensão muito clara da Revolução Cubana e a importância do personagem Che nela. É pretensioso, o que não é uma coisa negativa, mas não chega lá. Creio que cai no esquematismo barato do mocinho versus bandido. Nada contra o nosso querido “Comandante”, mas o tratamento dado a ele é que é problemático.
É difícil contar a história de um mito sem aderir a ele. Este é o problema da primeira parte do  filme de Steven Soderbergh- Che (Che. Part One “The argentine“) que relata um momento crucial da vida de Ernesto Guevara de la Serna e o coloca dentro da história do Século XX.  Por mais que o roteiro  tenha se fundamentado em documentos como as memórias de Ernesto Guevara (”Pasajes de la guerra revolucionaria”- Edición Autorizada (Ocean Sur), publicada em português como “Cuba - Guerra Revolucionária” - pela edirora Edições 70 em 1975) e talvez testemunhos, é muito forte a tendência para enxergar apenas o lado sobre-humano do personagem.( Benício Del Toro chegou a entrevistar , Carlos Ferrer, o “Calica”. amigo de Guevara e companheiro de sua segunda viagem pela América que acabou de publicar o livro  “De Ernesto a Che: a segunda e última viagem de Guevara pela América Latina”(Editora Planeta). Del Toro queria saber de Calica se o guerrilheiro era parecido com ele (Benicio) e se preocupou muito com seu sotaque - que é porto-riquenho, e estudou para imitar um espanhol que deveria ser bem falado, já que Guevara era um sujeito da elite, um médico e também um intelectual que lia sem parar, mesmo nos intervalos das batalhas, e não falava naturalmente como um  cubano.Temos que considerar que em Cuba existem vários “dialetos”. Um é das ruas de Havana e existem outros sotaques das cidades do interior da Ilha e um particular da região de Santiago de Cuba onde está a lendária Sierra Maestra).
Na verdade, a mitologia em torno de Che é até maior do que a história da Revolução Cubana. Quanto a isso Sodergergh foi bem claro quando disse: “Cuba é um assunto que me interessa menos do que Che”.
Desta forma a Revolução é contada desde os encontros de um grupo pequeno de rebeldes no México- 82 combatentes - no qual se inclui Guevara - sem mostrar o  fiasco do primeiro combate, quando da chegada do iate Gramna à Província de Oriente em dezembro de 1956- , ocasião em que são quase dizimados pelas forças do ditador Fulgencio Batista que com seus aviões, metralhou e só deixou vivos- e em situação difícil,12 rebeldes perdidos na mata .  O curioso deste fato é que o governo cubano noticiou que havia liquidado os rebeldes, inclusive Dr. Castro, coisa que foi desmentida por um repórter furão (apesar de já estar aposentado) numa matéria para o New York Times. Isso não está no filme.  Desta forma ficamos sabendo chongas sobre como um “paiseco”- uma ilha, conseguiu fazer uma revolução nas barbas - e com ajuda  mesmo dos EUA que tem uma diretriz claríssima de sua política para as Américas:  não deixar ninguém crescer o suficente para não ofuscar sua importância estratégica na região.
A história foca na figura do herói - que supera sua fragilidade (a asma) e mostra suas qualidades , primeiro como médico , depois como guerrilheiro em Sierra Maestra e finalmente como comandante vitorioso quando toma de forma impetuosa Santa Clara. Esta parte do filme termina com a chegada triunfal em Havana.
O problema do herói é que  ele está sempre acima da gente comum, quase inacessível - isso é da natureza dos mitos. Mas Che é um mito moderno, ele é bastante acessível aos seus companheiros, com seus cuidados, conselhos e mesmo chegando a alfabetizar um garoto em meio à dura realidade dos treinamentos e do combate. A figura política central de Fidel é ofuscada - aparece sempre em segundo plano , mesmo que tenham tomado cuidado em mostrar que ele era o grande  e verdadeiro líder- a cabeça política por trás do movimento guerrilheiro. Na parte em que aparecem as conexões com outras forças revolucionários da ilha, a coisa fica meio enrolada - já que não há um preparo para o público entender os partidos envolvidos na luta naquele momento histórico. O que  mostra que o que importou no caso foi a figura do mito. Tudo o que acontece em volta dele fica meio anedótico - menor - difícil de entender dado o seu esquematismo. Não tem contexto- só ação. A complexidade do fato histórico foi para o vinagre. O que resultou foi um bando  de cabras machos e barbudos que com muita coragem tomaram na porrada o poder- conquistando várias cidades e finalmente dominando a capital. Necas de política na parada, o negócio foi fuzil e bazuca. Pára a gaita gaiteiro, las cosas no fueram bien así! Vamos pegar o chimarrão e contar direito essa história!
Quando a figura é de um ser humano tratada de modo ficcional como os heróis homéricos( Ulisses, Aquiles, Heitor…etc) é até mais fácil aceitá-los. Tudo neles pode ser exagerado e a aceitação das propriedades sobrenaturais neles é uma passagem  tranquila por parte do público  que entende que está assistindo a uma fábula. Estabelece-se aquele pacto que permite a ficção nos levar a viajar por mundos imaginados e jamais sonhados também. Apesar de que  nada no herói mítico é comum, apesar de que alguns apelam para as astúcias para se safar de situações complicadas, isso faz parte do jogo- o mito é astuto!  E mesmo que muitos não se mostrem mortais, ou vulneráveis como Aquiles e seu maledetto calcanhar, , a coisa é contada dentro de uma narrativa que o eleva. O enredo de seus prodígios é que importa. Se ele morre, é algo que o imortaliza de vez. Viverá para sempre na memória dos que viverão e sua história será contada e recontada e cada vez que isso for feito, mais ele vai adquirir novas qualidades- ele entra para o território sagrado. Mas quando ele é nosso contemporâneo e chegou a se transormar em ícone pop , a coisa fica muito complicada. A crítica exige mais do que o retoque na figura mitológica - principalmente quando o tratamento dado à obra cinematográfica tenha imitado o documentário- ou feito um “docudrama”(não curto essa classificacão). No caso do herói contemporâneo,  temos testemunhas, versões do “atual”. É possível surgirem  imperfeições que podem macular esse mito. Ele pode ter máu hálito, ou ser um grande guerreiro, um grande amante, mas péssimo pai, por exemplo. Concordo que  contar sua história não é tarefa fácil. Soderbergh defendendo seu herói disse que conhecia bem o discurso dos adversários de uma visão positiva de Che e que sabia que ” qualquer quantidade de barbaridades que incluíssemos nesse filme não seria suficiente para satisfazê-los”.
Nada contra dar uma visão positiva do guerrilheiro. Mas, tem  uma coisa que complica em demasia o caso de Che. O público de antemão já  está careca de saber que ele é um herói que morre , que é sacrificado por uma causa. Este fato vai sempre de encontro a um mito fundador da nossa ocidentalidade - o Cristo. Mesmo que Jesus não tenha morrido lutando - é sempre referência do herói sacrificado. Ernesto Che Guevara chega perto disso - seu amor pela humanidade, pelos despossuídos o transformou em quase um “santo”.  Tanto é que  no local de seu assassinato em 1967 - na Bolívia ele tem uma estátua de ,  e ele recebeu o nome de “San Ernesto de La Higuera” Virou santo para os camponeses que não aderiram à sua causa. Sua veneração é um fenômeno não só entre os pobres da América que ele queria transformar num Vietnam, mas foi acolhido em todo o Ocidente como símbolo do incoformismo, da utopia libertária se esmaece diante de sua “santidade” . As forças demoníacas da rebeldia se fundem com as águas bentas de sua beatitude - da entrega de seu corpo supliciado pela causa dos sofredores.  A Indústria cultural se apoderou de seu culto e transformou em produtos vários - camisetas, posters (cheguei a comprar um cinzeiro em Lima com seu busto esculpido) e agora o cinema, a máxima expressão desta indústria se apropria finalmente de sua história e pretende ser a versão definitiva. E sem dúvida é a que vai “colar”.
Essa história de Che- o argentino, - primeira parte do longa de 4 horas de duração é pontuada pelo discurso de Che feito em, em 1964 nas dependências da ONU e uma entrevista em que ele explica o movimento e os rumos da revolução.
Interessante notar que Camilo Cienfuegos é  tão carismático quanto o Che e talvez fosse páreo duro no Olimpo Latinoamericano . Porém Cienfuegos morreu cedo,  num acidente de avião, em outubro de 1959, no ano mesmo que triunfou sua revolução. Virou mártir, mas de menor estatura.
O curioso é que Guevara e Calica -( seu companheiro da segunda viagem pela América, citado acima- olha o livro dele aí do lado esquerdo) estavam na Bolívia no dia 26 de julho de 1953 - quando Fidel e um grupo tentou tomar de assalto o Quartel Moncada. Guevara, nessa época talvez nem sonhasse em entrar na barca do Dr. Castro lá no México.
Fidel depois do desastre militar do carnaval cubano pegou uma cana dura, mas acabou sendo anistiado conseguiu se exilar. Sua defesa  foi feita através de um discurso que se transformou  num documento político de conscientização popular que levou o título  de “A História me absolverá”.
Vamos esperar a segunda parte(Che -part two- “Guerrilha”) de Che para ter uma idéia mais clara da qualidade dessa obra de  Soderbergh . Por enquanto, acho que deveria ter uma parte 0. Uma espécie de intróito, onde se mostraria um pouco da História cubana, muito interessante, sua libertação da Espanha, a participação e soldados americanos e “manbizes” na luta. A importância dos EUA - principalmente o drible que eles deram nos cubanos. Mostrar o tempo em que os ianques mandaram na ilha (acho que manipularam o poder político e econômico por uns 4 anos), mostrar o desfile de governantes teleguiados de Washington e ditadores até chegar ao poder a figura de Fulgêncio Batista. Dar uma palhinha do que era Cuba nessa época. No museu da Revolução em Havana  entre uniformes com marcas de sangue dos guerrilheiros e até a máquina de escrever “Hermes baby” que Alejo Carpentier escreveu  “O Século das Luzes” está o “telefone de ouro” presenteado pela ITT  ao então presidente da república de Cuba,  sócio do gangster Meyer Lanski que tinha como assecla um mafioso que atendia pelo curioso nome de Jonhy Traficante. Francis Ford Coppola botou a cena do telefone em um dos filmes de sua trilogia “Poderoso Chefão” . Lanski tinha construido um Hotel - o Riviera - (um big investimento ainda em funcionamento hoje- só que nas mãos do Estado) em Havana para receber seus convidados ( entre os quais grandes empresários americanos, militares e a bandidagem)  que iam se divertir no bordel a céu aberto que tinham transformado a ilha. Acho que fui esperando muita coisa de um filme americano sobre um assunto tão doloroso para eles. É mais fácil ficar no terreno da Mitologia, a História é muito incômoda, Este Che, fácilmente entraria no livro “Mitologias” de Roland Barthes- o  barbudo guerrilheiro romântico, ao lado do romano suarento (na base da vaselina), sempre ofegante, com os cabelos ensebados penteados  para frente.

Chaplin de saias

31 de março de 2009

Uma coisa me intrigou, sábado no Espaço de Cinema quando fui assistir “O Visitante” . Era a imensa da fila para ver um filme com um nome curioso - “Simplesmente feliz”. Esse título parecia encerrar uma finalidade até certo ponto atrevida- dizia, sem meias palavras, o que  iria contar. Sem mistérios,  falava que  sua  história era simples, sem  deixar nenhuma aresta para a dúvida. De tão claro ele parecia  desconvidavar o possível espectador a testemunhar sua performance, como se dissesse : É isso aí- é a história de alguém que é feliz e ponto final!  Se quiser ficar deprimido entre na sala ao lado, que tem uma história triste e cruel passando!
Suspeitei que deveria haver alguma coisa a mais que movia as pessoas a gastar seu precioso tempo naquela fila gigantesca que serpenteava no meio do tal espaço onde tem uma livraria, uma lachonete e mais duas salas de projeção para ver  essa  tal felicidade. Deve ser uma obra prima! Confrontado com o título, comecei a achar  que eu andava muito sério ultimamente. Talvez  alguma promessa me escapou quando vi o cartaz desse filme.
Então, no domingo, mais uma vez interrompi  o trabalho da minha mulher pela paz mundial e fomos ver esse filme intrigante.
Descobri que “Simplesmente Feliz “( este é título em português que achei bem melhor que o original inglês Happy-go-lucky) me trouxe um problema e uma descoberta.
Falarei primeiro da descoberta (para mim maravilhosa) - ou seja, de Sally Hawkins- a atriz que faz o papel principal do filme, Poppy, a professorinha alto astral. Ela é um verdadeiro Carlitos de saias. Não só no jeito de corpo com que interpreta( tão característico dele na época do cinema mudo), mas até no rosto, no olhar. Cheguei a devanear que ela seria a alma gêmea de Chaplin, perfeita para acompanhá-lo nas aventuras de vagabundo genial. Dois ingleses que  nos fariam morrer de rir.  Tem mais,  ela se expressa quase como se fosse um personagem de desenho animado, (muito animado mesmo!) pela maneira rápida de responder aos diversos chamados, perguntas, solicitações várias de pessoas e situações e pelos sons que emite, quase uma trilha sonora com sonoplatia e tudo. Aumenta essa sensação, o fato dela interagir com as coisas (animismo?) , falar com elas, não distinguir nem excluir nada e ninguém de sua vida entusiasmada.
Agora vamos ao problema: O  filme me incomodou. Fiquei com o sentimento de que não gostei dele quando desci as escadas da sala de projeção para mergulhar na realidade. Taí, o problema nesse filme foi a presença-ausência da REALIDADE.  Poppy passa longe do chamado “Princípio de Realidade“(*). Ela deixa isso claro, logo no começo do filme, quando depois de uma bela sequência de Poppy pilotando uma bicicleta - a moça entra numa livraria, onde “cutuca”  um sisudo livreiro e,  num determinado momento, dá uma paradinha diante de um livro que tem no título a palavra “realidade” . Ela então solta uma frase mais ou menos assim: -Realidade, tô fora!  E sai rindo.
Mais tarde, tentando me entender com o filme me lembrei então, de uma frase do divertido livrinho “Esperando Foucault, ainda” do antropólogo Marshal Sahlins  que diz o seguinte: “a realidade é um belo lugar para se visitar (filosoficamente), mas ninguém nunca morou lá.”  Quer dizer que Poppy assim recebe o selo de qualidade dado por um conceituado antropólogo? Mesmo sendo aquele ser destrambelhado que vive sorrindo numa felicidade absoluta? Fugir da realidade é uma tendência humana, isso explica um pouco porque entramos em salas escuras de cinema para ver a vida dos outros, e vida de outros que são mentiras, belas ficções contadas em 24 quadros por minuto (ou por segundo?) - uma projeção, um pneuma!?
Na verdade, Poppy vive dando esbarrões na realidade com sua felicidade irritante, quase perversa.
Isso me fez pensar também o quanto irrita as pessoas a felicidade dos outros. Ou melhor, a estridência da felicidade alheia. Principalmene na era dos fármacos antidepressivos que mantém a sociedade tarja-preta funcionando. Me lembrei de um colega de trabalho que ria muito dos desastres da vida dos outros quando apareciam no noticiário da TV. Lembrei também daquela máxima de que notícia boa é notícia ruim. - essa é que dá manchete, que chama atenção!
Pode ser que o roteirista e diretor Mike Leigh tenha pensado nessas coisas , e até  partido da visão de que o “riso”, o que faz rir , o “risível” é aquela terra “ignota”- situada além do racional, (vista como o não sério) - cujo território é estranho à razão dominadora, que não a alcança. O riso seria o território onde a razão estanca. É, segundo a sacada de Verena Alberti (em O riso e o risível -na história do pensamento) em determinados momentos:- “o espaço do indizível, do impensado, necessário para que o pensamento sério se desprenda de seus limites.”  Ou o carro-chefe de um movimento de redenção do pensamento, como se a filosofia não pudesse mais se estabelecer fora dele.”  Ufa! Acho que exagerei, apesar de que a felicidade- nessa visão- estaria muito próxima do riso. Foge ao controle do pensamento, do racional- nos é estranha.
Mike Leigh acho que não pensou em nada disso. Ele gosta de improvisar como fez em outros filmes seus e disse isso segundo minha pesquisa recente - pensou na atriz e começou a criação da história - sem muitos compromissos com a “realidade”.
Isso significa que para nós o problema continua. Poppy  é tão feliz que chega perto da idiotia. Alguém disse que Mozart também era assim, quem não lembra de seu riso ruidoso (e igualmente irritante) em “Amadeus”? Dizem as más línguas que ele era- sem contestação- o maior gênio da música, mas seu comportamento descacetado beirava a insensatez - babava na gravata.
No fim das contas, vi que aquele filme sem pretensões não me tinha feito perder tempo. Que ele me levou a pensar no mundo depressivo em que vivemos, nos signos dele gravados nos grafitis da cidade, nas sombras, na crise, no grande crash, na violência diária e banal em que estamos mergulhados, no caos ambiental, na poluição nossa de cada dia. Me fez lembrar até de uma passagem de Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino onde ele fala mais ou menos isso: Se nossas cidades viraram um inferno, nossa tarefa é tentar ampliar o que não é inferno.  Serve como uma dica para entender o comportamento da moça? Talvez. Um filme que fala da felicidade -  de uma felicidade individual, única, é claro que me perturba. Mesmo que a personagem principal  em determinados momentos encontre a “barra pesada” ela sempre é atenuada. É caso da sequência do mendigo louco - que no entanto se mostra terno, contendo sua imensa violência , e se mostrando no fundo- um maluco beleza. Melhor para Poppy que saiu inteira das trevas onde se meteu, com sua ingenuidade de dar dó. O profeta Gentileza iria se dar bem com ela.  Porém o momento mais tenso é aquele que rola com o seu instrutor da auto-escola. E isso eu não vou contar para , sabe como é, não estragar o seu parzer.
Minha filha me disse que na cena do maluco-beleza surge a oportunidade de aparecer alguma vunerabilidade na personagem cuja felicidade parece ser  de ferro.(felicidade=blindagem). Nesse momento ela cede diante do medo, do asco e depois da ternura em relação à “fera” enjaulada naquele mendigo. Na verdade tão outsider quanto ela.  Ela que em certos momentos parece desconhecer os perigos e os limites dela e dos outros.
Engraçado, parece  que Poppy está deslocada no tempo. Estaria mais a vontade na época dos hippies - na era de Woodstock , das utopias coletivistas anti- capitalistas sem revolução armada ( nos anos 60/70 na era da paz & amor) , antes de Lennon dizer que o sonho tinha acabado e os heróis de Easy Rider (Sem Destino) serem abatidos a tiros pelos rednecks (apesar desses heróis de motocicleta terem os pés de barro - são pequenos traficantes que usam a droga para financiar sua liberdade). Poppy, por sua vez é uma heroína dos tempos neoliberais, do ultra individualismo, do embalo do ecstasy, das raves sem fim. Uma mocinha careta num mundo de drogados felizes.  Definitivamente, esse filme não está ai de bobeira, seu diretor realmente é um agente provocador.
Leigh, a gente sabe,  sempre pega pesado. Em “Segredos e Mentiras”(Secrets & Lies) ele aborda um tema difícil- uma história em que entra o fator “raça” e o racismo, ao contar o drama de uma mulher negra que foi abandonada e adotada, e que  ao pesquisar suas origens (quando sua mãe adotiva morre)  acaba descobrindo que sua mãe biológica é branca …No filme”O Segredo de Vera Drake”(Vera Drake ) ele bate da cintura para baixo - fala da questão complexa do aborto, do contraditório comportamento humano, em cores sombrias. E agora vem com essa de felicidade!  Fico imaginando se Poppy fosse uma professora de uma escola pública brasileira( e não como no filme, de uma boa escola média cujo único problema que aparece e é logo resolvido eficiente serviço social britânico- é a história de um menino agressivo que tem um padrasto espancador), seria ela tão feliz? Acho que é exigir muito de Mr. Leigh.  Nossa “surrealidade” é para profissionais. Sorry bwana, sorria! Olhe o Cristo Redentor Mister,  não se preocupe com as balas perdidas. Está tudo dominado!
Conclusão: Continuo intrigado com aquela fila do cinema.
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(*) Segundo o Dicionário de Psicanálise de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon
“Princípio de prazer/ princípio de realidade”  é um “Par de expressões introduzido por Sigmund Freud em 1911( “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”) a fim de designar os dois princípios que regem o funcionamento psíquico. O primeiro tem por objetivo proporcionar prazer e evitar o desprazer, sem entraves nem limites(como o lactente no seio da mãe, por exemplo) , e o segundo modifica o primeiro, impondo-lhe as restrições necessárias à adaptação à realidade externa.”

Não percam “O Visitante”

29 de março de 2009

Na semana que passou, recebi um e-mail de um amigo que recomendava com muito entusiasmo o filme “O Visitante“. Dizia que era o “melhor filme dos últimos anos: um emocionado e emocionante questionamento da intolerância e das diferenças”- afirmava “é sobre a descoberta do outro e o encontro.” Classificava o filme como “imperdível”.
Não tive dúvidas - convidei minha mulher, que deu um tempo no seu trabalho incansável pela paz mundial e fomos conferir.
Escrevo esse post num só fôlego, portanto, perdoem qualquer deslize, repetição ou vacilo com a nova ortografia e com a velha também.
Sim, “O visitante” (The visitor - (2007) é tudo isso que meu amigo disse. Só que não vem com aquele discurso altissonante de denúncia. Não vem com pedras na mão e com estardalhaço, mas acredito que provoca uma reflexão mais profunda sobre as relações  humanas nessa altura do campeonato. De ruidoso mesmo, só tem o tambor sírio, uma metáfora- um meio de comunicação dos diferentes.  Quem ver o filme vai entender essa sacada.
O filme é escrito e dirigido por Thomas MacCarthy (que também é ator, - atuou até em três episódios de Law & Order) e dirigiu   o filme  “O Agente da Estação” (The Station Agent) que conta a históría muito louca de Finbar McBride, um anão que resolve viver uma aventura longe da humanidade numa estação de trem  (que ele herdou)abandonada, mas acaba se relacionando com uma artista devastada por uma perda e um vendedor de cachorro quente.
“O Visitante” conta uma história menos exótica, fala de diferentes num mundo locuo, mas  já  é algo próximo de uma obra prima.  Conta a história de um  professor - Walter Vale, interpretado magnificamente por Richard Jenkins. Esse professor de economia políica  está vivendo um momento  de total desânimo e solidão depois da viuvez e da partida de seu filho para  estudar na Europa.  Sua falecida mulher era uma pianista clássica e ele tenta em vão fazer alguma coisa nos teclados do piano que como ele - ficou abandonado, mas desiste depois de tentar aprender com vários professores.  Sua vida se resume a dar uma única aula semanal na universidade , com um programa que não se altera há anos, e uma rotina sem sal que será quebrada com a solicitação de que ele participe de um congresso em Nova Iorque. O complicado desse convite é que ele tem que falar sobre um livro do qual é co-autor , mas que na realidade , ele apenas entrou com o nome. Ele tenta se safar dizendo que está produzindo um novo livro etc e tal, mas é colocado contra a parede e obrigado a embarcar para o tal encontro de especialistas.
Quando ele chega ao seu apartamento novaiorquino (que se encontrava fechado desde a morte de sua mulher) de repente percebe que ele está ocupado por um casal imigrantes ilegais que foi parar ali por causa de um sujeito 171 que ao que parece alugava imóveis há muito tempo sem uso. Os imigrantes ficam apavorados., com a chegada do estranho visitante. O  rapaz,  um sírio chamado Tarek (vivido por Haaz Sleiman)  e a moça, que veio do Senegal,  Zainab (Danai Jekesai Gurira) acabam depois de alguns mal-entendidos-  estabelecendo uma relação com Walter. Aí que começa uma história comovente - a história do encontro e das diferenças de que falava meu amigo no e-mail. Não vou contar o resto da história, por que seria safadeza.
A única coisa que posso acrescentar é que é um drama, onde aparece de forma clara, sem estridiencia, os contraste de um mundo criado a partir do ataque dos 11 de setembro e as suas funestas consequências  ou seja , a era Bush - a intolerância, a vigilância, a desconfiança e principalmente o desrespeito aos direitos dos cidadãos e os métodos brutais aplicados de forma fria e burocrática para tratar dos problemas  dos imigrantes. Esse filme mostra como Guantánamo estava dentro da aparente normalidade da Big Apple.
Outra coisa que tem que ser ressaltada, é o maravilhoso desempenho do elenco e sem dúvida a redescoberta do imenso talento de Richard Jenkins. Esse ator que sempre teve papéis secundários ou em comédias, revela seu potencial dramático ao viver o complexo professor  Jenkins.
Meu receio é que no meio dessas grandes produções que estão em cartaz na cidade, esse filme passe para segundo plano.
Agradeço ao meu amigo por essa preciosa dica.

(NR. Outra coisa bacana foi conhecer o som do músico nigeriano (já falecido) Fela Kuti que aparece citado no texto do filme e na trilha sonora )