Uma coisa me intrigou, sábado no Espaço de Cinema quando fui assistir “O Visitante” . Era a imensa da fila para ver um filme com um nome curioso - “Simplesmente feliz”. Esse título parecia encerrar uma finalidade até certo ponto atrevida- dizia, sem meias palavras, o que iria contar. Sem mistérios, falava que sua história era simples, sem deixar nenhuma aresta para a dúvida. De tão claro ele parecia desconvidavar o possível espectador a testemunhar sua performance, como se dissesse : É isso aí- é a história de alguém que é feliz e ponto final! Se quiser ficar deprimido entre na sala ao lado, que tem uma história triste e cruel passando!
Suspeitei que deveria haver alguma coisa a mais que movia as pessoas a gastar seu precioso tempo naquela fila gigantesca que serpenteava no meio do tal espaço onde tem uma livraria, uma lachonete e mais duas salas de projeção para ver essa tal felicidade. Deve ser uma obra prima! Confrontado com o título, comecei a achar que eu andava muito sério ultimamente. Talvez alguma promessa me escapou quando vi o cartaz desse filme.
Então, no domingo, mais uma vez interrompi o trabalho da minha mulher pela paz mundial e fomos ver esse filme intrigante.
Descobri que “Simplesmente Feliz “( este é título em português que achei bem melhor que o original inglês Happy-go-lucky) me trouxe um problema e uma descoberta.
Falarei primeiro da descoberta (para mim maravilhosa) - ou seja, de Sally Hawkins- a atriz que faz o papel principal do filme, Poppy, a professorinha alto astral. Ela é um verdadeiro Carlitos de saias. Não só no jeito de corpo com que interpreta( tão característico dele na época do cinema mudo), mas até no rosto, no olhar. Cheguei a devanear que ela seria a alma gêmea de Chaplin, perfeita para acompanhá-lo nas aventuras de vagabundo genial. Dois ingleses que nos fariam morrer de rir. Tem mais, ela se expressa quase como se fosse um personagem de desenho animado, (muito animado mesmo!) pela maneira rápida de responder aos diversos chamados, perguntas, solicitações várias de pessoas e situações e pelos sons que emite, quase uma trilha sonora com sonoplatia e tudo. Aumenta essa sensação, o fato dela interagir com as coisas (animismo?) , falar com elas, não distinguir nem excluir nada e ninguém de sua vida entusiasmada.
Agora vamos ao problema: O filme me incomodou. Fiquei com o sentimento de que não gostei dele quando desci as escadas da sala de projeção para mergulhar na realidade. Taí, o problema nesse filme foi a presença-ausência da REALIDADE. Poppy passa longe do chamado “Princípio de Realidade“(*). Ela deixa isso claro, logo no começo do filme, quando depois de uma bela sequência de Poppy pilotando uma bicicleta - a moça entra numa livraria, onde “cutuca” um sisudo livreiro e, num determinado momento, dá uma paradinha diante de um livro que tem no título a palavra “realidade” . Ela então solta uma frase mais ou menos assim: -Realidade, tô fora! E sai rindo.
Mais tarde, tentando me entender com o filme me lembrei então, de uma frase do divertido livrinho “Esperando Foucault, ainda” do antropólogo Marshal Sahlins que diz o seguinte: “a realidade é um belo lugar para se visitar (filosoficamente), mas ninguém nunca morou lá.” Quer dizer que Poppy assim recebe o selo de qualidade dado por um conceituado antropólogo? Mesmo sendo aquele ser destrambelhado que vive sorrindo numa felicidade absoluta? Fugir da realidade é uma tendência humana, isso explica um pouco porque entramos em salas escuras de cinema para ver a vida dos outros, e vida de outros que são mentiras, belas ficções contadas em 24 quadros por minuto (ou por segundo?) - uma projeção, um pneuma!?
Na verdade, Poppy vive dando esbarrões na realidade com sua felicidade irritante, quase perversa.
Isso me fez pensar também o quanto irrita as pessoas a felicidade dos outros. Ou melhor, a estridência da felicidade alheia. Principalmene na era dos fármacos antidepressivos que mantém a sociedade tarja-preta funcionando. Me lembrei de um colega de trabalho que ria muito dos desastres da vida dos outros quando apareciam no noticiário da TV. Lembrei também daquela máxima de que notícia boa é notícia ruim. - essa é que dá manchete, que chama atenção!
Pode ser que o roteirista e diretor Mike Leigh tenha pensado nessas coisas , e até partido da visão de que o “riso”, o que faz rir , o “risível” é aquela terra “ignota”- situada além do racional, (vista como o não sério) - cujo território é estranho à razão dominadora, que não a alcança. O riso seria o território onde a razão estanca. É, segundo a sacada de Verena Alberti (em O riso e o risível -na história do pensamento) em determinados momentos:- “o espaço do indizível, do impensado, necessário para que o pensamento sério se desprenda de seus limites.” Ou o carro-chefe de um movimento de redenção do pensamento, como se a filosofia não pudesse mais se estabelecer fora dele.” Ufa! Acho que exagerei, apesar de que a felicidade- nessa visão- estaria muito próxima do riso. Foge ao controle do pensamento, do racional- nos é estranha.
Mike Leigh acho que não pensou em nada disso. Ele gosta de improvisar como fez em outros filmes seus e disse isso segundo minha pesquisa recente - pensou na atriz e começou a criação da história - sem muitos compromissos com a “realidade”.
Isso significa que para nós o problema continua. Poppy é tão feliz que chega perto da idiotia. Alguém disse que Mozart também era assim, quem não lembra de seu riso ruidoso (e igualmente irritante) em “Amadeus”? Dizem as más línguas que ele era- sem contestação- o maior gênio da música, mas seu comportamento descacetado beirava a insensatez - babava na gravata.
No fim das contas, vi que aquele filme sem pretensões não me tinha feito perder tempo. Que ele me levou a pensar no mundo depressivo em que vivemos, nos signos dele gravados nos grafitis da cidade, nas sombras, na crise, no grande crash, na violência diária e banal em que estamos mergulhados, no caos ambiental, na poluição nossa de cada dia. Me fez lembrar até de uma passagem de Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino onde ele fala mais ou menos isso: Se nossas cidades viraram um inferno, nossa tarefa é tentar ampliar o que não é inferno. Serve como uma dica para entender o comportamento da moça? Talvez. Um filme que fala da felicidade - de uma felicidade individual, única, é claro que me perturba. Mesmo que a personagem principal em determinados momentos encontre a “barra pesada” ela sempre é atenuada. É caso da sequência do mendigo louco - que no entanto se mostra terno, contendo sua imensa violência , e se mostrando no fundo- um maluco beleza. Melhor para Poppy que saiu inteira das trevas onde se meteu, com sua ingenuidade de dar dó. O profeta Gentileza iria se dar bem com ela. Porém o momento mais tenso é aquele que rola com o seu instrutor da auto-escola. E isso eu não vou contar para , sabe como é, não estragar o seu parzer.
Minha filha me disse que na cena do maluco-beleza surge a oportunidade de aparecer alguma vunerabilidade na personagem cuja felicidade parece ser de ferro.(felicidade=blindagem). Nesse momento ela cede diante do medo, do asco e depois da ternura em relação à “fera” enjaulada naquele mendigo. Na verdade tão outsider quanto ela. Ela que em certos momentos parece desconhecer os perigos e os limites dela e dos outros.
Engraçado, parece que Poppy está deslocada no tempo. Estaria mais a vontade na época dos hippies - na era de Woodstock , das utopias coletivistas anti- capitalistas sem revolução armada ( nos anos 60/70 na era da paz & amor) , antes de Lennon dizer que o sonho tinha acabado e os heróis de Easy Rider (Sem Destino) serem abatidos a tiros pelos rednecks (apesar desses heróis de motocicleta terem os pés de barro - são pequenos traficantes que usam a droga para financiar sua liberdade). Poppy, por sua vez é uma heroína dos tempos neoliberais, do ultra individualismo, do embalo do ecstasy, das raves sem fim. Uma mocinha careta num mundo de drogados felizes. Definitivamente, esse filme não está ai de bobeira, seu diretor realmente é um agente provocador.
Leigh, a gente sabe, sempre pega pesado. Em “Segredos e Mentiras”(Secrets & Lies) ele aborda um tema difícil- uma história em que entra o fator “raça” e o racismo, ao contar o drama de uma mulher negra que foi abandonada e adotada, e que ao pesquisar suas origens (quando sua mãe adotiva morre) acaba descobrindo que sua mãe biológica é branca …No filme”O Segredo de Vera Drake”(Vera Drake ) ele bate da cintura para baixo - fala da questão complexa do aborto, do contraditório comportamento humano, em cores sombrias. E agora vem com essa de felicidade! Fico imaginando se Poppy fosse uma professora de uma escola pública brasileira( e não como no filme, de uma boa escola média cujo único problema que aparece e é logo resolvido eficiente serviço social britânico- é a história de um menino agressivo que tem um padrasto espancador), seria ela tão feliz? Acho que é exigir muito de Mr. Leigh. Nossa “surrealidade” é para profissionais. Sorry bwana, sorria! Olhe o Cristo Redentor Mister, não se preocupe com as balas perdidas. Está tudo dominado!
Conclusão: Continuo intrigado com aquela fila do cinema.
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(*) Segundo o Dicionário de Psicanálise de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon
“Princípio de prazer/ princípio de realidade” é um “Par de expressões introduzido por Sigmund Freud em 1911( “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”) a fim de designar os dois princípios que regem o funcionamento psíquico. O primeiro tem por objetivo proporcionar prazer e evitar o desprazer, sem entraves nem limites(como o lactente no seio da mãe, por exemplo) , e o segundo modifica o primeiro, impondo-lhe as restrições necessárias à adaptação à realidade externa.”