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Arquivo para janeiro, 2010

G - passa do ponto

11 de janeiro de 2010


Querida, você sabia que acabam de dizer que o ponto G não existe, que toi tudo invenção do tal do Dr. Ernst Gräfenberg?
- Tô sabendo, li numa revista - ou foi na TV?
- Pois é, esta foi a conclusão de uma pesquisa. Uma psicóloga chamada Andrea Burri jogou o ponto G no lixo, não sei se isso é bom ou ruim. Mas uma coisa tá me perturbando a cachola: você fingiu esse tempo todo, Gisela?
- Fingi o quê, Geraldo?
- Os orgasmos múltiplos… essa coisa toda de que eu te levava ao céu, que você via estrelas, até os anéis de Saturno???!!!
-Peraí Geraldo! Tá certo que em algumas vezes eu não cheguei lá, confesso que simulei um prazer multiplicado, mas, vamos dizer que em 65% das vezes a coisa funcionou e eu me diverti bastante.
- Então quer dizer que nos 35% eu fracassei?
- Calma, meu bem, isso deve ter acontecido com todo mundo. Você não devia pensar assim. O homem não tem obrigação de proporcionar à mulher, digamos tecnicamente, uma multiplicidade de orgasmos. Muitas vezes, um orgasmozinho já dá conta do recado.
- Estou perplexo, fui enganado pela medicina e pela minha mulher. Agora fico diante de um dilema: quando vou ter certeza se estou sendo satisfatório ou não para com sua, digamos, economia libidinal, Gisela?
- Deixe de formalidades, Geraldo, sejamos diretos - é a mesma coisa que aquele negócio de que suco de berinjela com laranja, que alguém disse que tomado em jejum abaixa o colesterol …pelo menos o fictício ponto G não causa uma úlcera…
- Mas poderia me causar uma estafa. Porque essa procura por esse minúsculo ponto super erótico exigiu muito tempo, esforço e dedicação. E agora descubro que no fundo, causou - no máximo uma “cosquinha”…um exercício teatral ritmado!!!!
- Não seja dramático, Geraldo. Eu confesso que no começo também acreditava no ponto G. Juro que tentei sinceramente me convencer. Fiz esforço para chegar lá, mas num determinado trecho do caminho vi que era um programa de índio - senti que era inútil continuar nessa “pilha”. Então, para não desagradar e não causar polêmica, dei uma fingidinha-, e uma vez ou outra, exagerei em alguns momentos de prazer. E olhe que muitas vezes até entrei “numas” e no embalo, realmente cheguei a ver estrelas.
- Quer dizer que sou um zero a esquerda? Que meu desempenho pouco conta na hora do “vamos ver” ?
- Nada disso! Tire isso da sua cabeça! Sua participação foi fundamental no jogo amoroso. Só que você tem que combinar o resultado com o adversário, né… Peraí esta foi mal…Digamos que como a sexualidade feminina é mais complexa, e depende de vários fatores, entre eles uma boa dose de fantasia, um certo relaxamento da mente, uma disposição para o “futebol” y otras cositas más. A gente vai para a cama como se fosse para uma festa e não para um campo de batalha. Os pontos erógenos estão no corpo todo, mas é o cérebro que comanda. A cuca tem que estar legal. É uma coisa lúdica, meu amor, é preciso jogar, sem compromissos com os resultados. Nesse jogo, os dois ganham.
- Acho que vou deprimir, Gisela, eu que achava que era bom de cama. Posso dizer que para mim um paradigma caiu. Meu mundo caiu… Me passa meu remedinho, por favor!
- Que é isso, Geraldo, chega mais aqui, que vou te mostrar o meu ponto G de verdade, e olha que não é ponto de tricô, nem de doce de goiaba, me tem lá seu mel. Vem cá que vou te dar o seu “remedinho”,o ponto G de Gisela!
- Não podia ser ponto G de Geraldo, não é mesmo? Porque seria um pontinho, né!?
- Quer saber de uma coisa? Vamos botar um ponto F nesse assunto, um ponto final, meu garanhão!

Encontros e desencontros n’Os Sertões

8 de janeiro de 2010

(Não consigo explicar as razões da atração que o tema da Guerra de Canudos exerce até hoje sobre a minha pessoa. Vou tentar saber no andar da carruagem. Tenho três coisas a dizer, antes de entrar nessa caatinga em progresso: 1º- li numa reportagem de um site da internet  que uma pesquisa sobre literatura  revelava um dado compreensível, mas assutador:  Chico Buarque é mais lembrado do que Euclydes da Cunha como escritor. 2ºLogo em seguida, li no blogue de Luiz Carlos Amorim um texto intitulado “Euclides da Cunha, o Grande Escritor quase esquecido” (publicado em jornais e outos sítios) onde o blogueiro diz :”Acabo de ler uma carta de leitor do Estadão, comentando o centenário da morte de Euclides da Cunha, o genial autor de “Os Sertõesâ€, constatando que o grande escritor ainda é, infelizmente, um ilustre desconhecido.” 3º-Com essas duas leituras e mais o conhecimento que obtive acompanhando o ótimo blogue do meu companheiro do “portal” YouPode, Luiz A. Erthal - que reclamou a diminuta repercussão do centenário da morte de Euclides, que me motivei  para escrever isso que segue. Não é um ensaio, tem um valor de confissão. Veio de um trabalho de leitura num momento muito difícil da minha vida que atravessei junto com os jagunços numa guerra do fim no mundo dos Sertões. Quem sabe chego a algum lugar com esse texto).

1º Capítulo -

De como uma professora do primário resolveu botar uns pobres meninos pra suar
Soube da existência de Canudos na minha escola (hoje soterrada debaixo de um prédio moderno da zona norte de São Paulo) onde cursei o primário. Foi quando tive que fazer um resumo de Os Sertões de Euclydes da Cunha.
Peraí, a professora não era maluca não!  Ela não era uma mulher  tão bonita  como foi uma dia  uma de nossas professoras, pela qual muitos de nós caímos nas primeiras teias da paixão e amargamos o fel da decepção ao saber que ela era casada. Essa que nos meteu nas trilhas de Monte Santo tinha cara de coruja, aspecto que era acentuado por uns óculos de aro grosso e negro. Era morena de cabelos lisos e a princípio nos causou um certo receio pela forma severa como tratava aquela turma endiabrada, na qual tentou de alguma forma, fazer a experiência de botar algumas idéias nos mais cabeças duras da escola . De fato, ela  era cheia de boas intenções -  uma educadora que conhecia os limites de seu ofício naquele ano perdido dos anos 50, numa escola de meninos que se localizavam no estreita escala que ia da linha da pobreza remediada até uma certa classe média inilustrada. Decerto sabia que a leitura desse livro de Euclydes da Cunha era algo “impossível” para um pirralho de 9 anos, mas  achou que deveríamos saber alguma coisa acerca desse acontecimento terrível que batizou de sangue nossa República. Por este motivo justo como beiço de bode,  indicou uma resenha do livro que , se  me lembro bem, estava no “Tesouro da Juventude”, que se encontrava numa biblioteca pública de Sant’Ana. Lá fomos, em bando, todos de calça curta e suspensórios, a procura do tal livro. Foi quando soube da existência dessa coleção maravilhosa, que tratava de todos os “assuntos interessantes do mundo”. Ia esquecendo de dizer que esta foi também  a primeira vez que botei os pés e a cabeça numa biblioteca. Tenho na memória ainda algumas imagens desse  dia de grande excitação, encantamento e medo.  Eu, menino que tinha sido criado num bairro operário, metido no meio das matas, de estilingue em punho caçando passarinhos e catando frutas no pomar dos outros, não estava acostumado com lugares públicos. De repente adentrava um território cerimonioso, onde as pessoas tinham falavam baixinho, como se estivessem numa igreja. Ali era preciso se comportar - e fundamentalmente, aprender a esperar. Mas isso não impedia que a gente risse de besta de qualquer frase ou micagem de um colega engraçadinho - o que acarretava a reprimenda do “psiu” e o olhar sisudo da bibliotecária, que exigia silêncio e postura.  Como só existia um tomo do tal “Tesouro” que tratava do assunto em questão, então tive que esperar o dia inteiro para conseguir saber alguma coisa sobre as prédicas do Conselheiro e os embates que se travaram nos sertões da Bahia entre 1897 e 1898. A fila era grande, e depois de algum tempo deliberamos fazer o “trabalho”  em grupo, um aluno lendo em voz alta  e todos anotando o que dava para pegar  nessa circunstância. Em síntese - fiz o resumo do resumo do resumo. Nada aprendi sobre o fato, mas ele voltou várias vezes a se intrometer nas minhas viagens, algumas literárias…(Continua)