O futebol não pode se transformar numa caixinha sem surpresas
Antes de mais nada, quero parabenizar o Flamengo , legÃtimo campeão deste brasileirão. Ganhou por seus méritos, em campo, por ter conseguido dar nas últimas rodadas uma arrancada, na base da raça e da técnica, graças à direção do grande mestre Andrade, que botou um ponto final numa interinidade injusta, mostrando que entende do riscado, com sua humildade e sua grandeza. Sua torcida também está de parabéns, lotou o Maraca e se manteve alegre e participante como um 12º jogador.
Não quero aqui jogar aqui água no chope do Flamengo, mas fazer umas perguntas e constatar algumas coisas que me parecem fora do lugar.
Não entendi direito uma decisão de “alguém” lá do Grêmio que, ao que parece, expôs seus jogadores a uma situação complicada e perigosa. Os bravos rapazes da equipe gremista entraram em campo, no domingo, contra o Flamengo, com uma missão difÃcil de entender.Não deu para compreender por que mandaram somente 4 titulares,- o restante do time era composto por reservas, alguns garotos ainda? Esses jogadores, devem ter ficado confusos, ou no mÃnimo com algumas dúvidas básicas na cabeça: Afinal, por que no jogo mais importante de todo o campeonato, botaram a gente dentro do Maracanã, para enfrentrar justamente o Flamengo, se durante todas as rodadas ficamos no banco, ou nem mesmo nele sentamos?
Como devemos nos portar em campo? Devemos jogar para ganhar, ou devemos só tocar a bola como quem não quer nada? Somos jogadores, não é certo?
Pelo que vi, esses rapazes, botaram as dúvidas para escanteio, honraram a camisa de seu time e jogaram com brilho e disposição, para vencer, e quase complicaram a vida do Flamengo.
Porém uma outra dúvida persiste. Por que esse “alguém”(ou “alguéns”) do Grêmio não mandou o time completo para um jogo tão importante?  A intenção pareceu clara até para o poste daqui da minha rua, que é meio tapado, mas entende alguma coisa quando o pessoal abusa da sua paciência de poste.
O poste disse: - Queriam esculachar a vitória do Mengão , mas antes disso não queriam que o Internacional fosse campeão!
E não é que parece que o poste tem alguma razão! Mandar um pessoal da “reserva” para enfrentar um time do tamanho do Falmengo, parece no mÃnimo uma tentativa de “desqualificar” o jogo. Mas talvez o poste tenha mais razão quando disse que o objetivo era barrar o rival local (Internacional) no caminho em direção à taça de campeão.
Segundo o poste, parece que esse rancor contra o “adversário do bairro”, ficou acima do espÃrito esportivo. . Mas, pior que isso, foi ver torcedores do Grêmio no aeroporto Salgado Filho, recepcionando negativamente os valorosos rapazes de seu time, só porque jogaram um bom futebol contra o Flamengo . Os briosos rapazes foram destratados, chamados de mercenários e oscambáus. Para esses torcedores, o time tinha que entregar o jogo, fazer corpo mole, não jogar futebol. Onde fica a tradição do clube? Onde fica a moral dos jogadores? Onde fica a confiança de milhões de telespectadores que assistiram ao jogo? Onde fica a confiança das pessoas que gostam de futebol em relação aos próximos campeonatos? Serão jogos para valer, ou serão para “entregar”?
Fica difÃcil explicar (e entender) a paixão por uma cor, ou uma camisa, ou um time. Uma certa sociologia explica que o ardor na defesa de uma bandeira ou de uma agremiação é um aspecto de um longo processo civilizatório - uma forma de desviar a agressividade das massas para uma forma de competição saudável. Desloca-se o primevo instinto guerreiro do clã, para uma torneio agradável e inofensivo. Diante de um mundo de tédio e passividade, as energias são gastas na busca da excitação em estádios , onde livremente as massas podem exercer sua paixão, - tolerada - com o uso de bandeiras, danças, hinos, gritos e rituais que lembram antigos combates, mas são socialmente aceitos. O problema é que esse caldeirão de emoções pode descambar em histeria e adentrar o gramado da patologia.
Muito mais difÃcil de entender, é quando a diferença com o adversário toma o caminho da irracionalidade a ponto de torcedores pedirem para seu time perder (não jogar o jogo) para prejudicar o “inimigo”. Aà é o reino do vale tudo -( o se negar para o outro não vencer)- a inversão dos valores. Se o normal e aceitável é a gente torcer para o nosso time ganhar, perder não traria satisfação, e sim frustração. Agora perder para prejudicar um “terceiro” é algo que foge à lógica do jogo, é tirar satisfação da auto-negação, algo fora da ética esportiva,- enfim fora de tudo que é racional. Isso lembra o delÃrio de Medéia que mata os filhos para se vingar do marido traidor. O ódio e a vingança, (valores negativos) são mais fortes do que o desejo de ver seu time vencer, fazer uma jogada bonita, um drible desconcertante mesmo que não ganhe a taça - no caso de Medéia, o prazer de ver as crianças saudáveis, crescendo e cumprindo o ciclo da vida. Mostra que a sociedade está com um grave problema, pois o esporte espelha muito o que ocorre na sociedade. A pauta hoje na sociedade e na polÃtica do paÃs parece ser a do vale-tudo. A vitória ( o sucesso) a qualquer preço. No caso analisado, a derrota do “inimigo” a qualquer preço - mesmo que isso desqualifique seu time, ou a vitória do time adversário ou mesmo o campeonato.
Não li todas as resenhas do jogo, mas das que li, não vi nenhuma linha da crÃtica esportiva tocar nesse assunto incômodo depois do jogo. Parece que foi natural o que aconteceu no Maracanã e nesse aeroporto do sul do paÃs! Ao que me parece, estamos no caminho de uma “descivlização”.
Não vamos nem comentar a guerra de Curitiba, o quebra-quebra no Rio depois do jogo, nem as ocorrências desagradáveis que durante a semana cercaram o Parque Antártica. A violência faz parte desse cenário da doença que se abateu sobre o paÃs do futebol. Estamos só diante de um sintoma. Não temos o diagnóstico, nem o caminho para a cura. Mas é bom começar a pensar …Tenho receio de que, nesta era de epidemias letais, estejamos em plena peste emocional- aquela que liquidará nosso espÃrito.
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