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Arquivo para setembro, 2009

O golpe e o pijama

30 de setembro de 2009

É golpe. No início, eu não tinha dúvidas por instinto, depois veio a condenação da comunidade internacional. Mas até aí morreu Neves, a comunidade internacional demora demais nos discursos.

Porém se ainda alimentava alguma dúvida lá no meio da minha cachola destrambelhada , o artigo do Professor de direito constitucional Pedro Estevam Serrano esclareceu tudo. Foi golpe, é golpe, será para sempre golpe e entrará para a História da América Latina como golpe de Estado, aquilo que aconteceu em Honduras. Da leitura desse artigo, publicado na Folha de São Paulo de hoje, a gente fica por dentro da carta constitucional hondurenha,  onde não existe nenhuma linha que justifique,  que dê  uma base jurídica para essa trapalhada golpista de retirar um presidente da cama e mandá-lo de pijamas para fora do país. Na mesma Folha, Elio Gaspari aprova a atitude de Lula de aceitar Zelaya na  Embaixada do Brasil em Tegucigalpa.
Não vamos entrar aqui na análise do presidente deposto, no fato dele usar o território “brasileiro” em solo hondurenho para fazer política com aquele chapelão folclórico. Nem das suas intenções de tentar mudar a lei que não permite reeleição em seu país - a Constituição lá deles não diz que deve-se tomar o poder na base da força em nenhuma hipótese e nem abre a possibilidade de um processo legal para a deposição do presidente no caso dele tentar fazer um plebiscito, ou coisa que o valha. Não vamos falar também da ambiguidade do governo dos EUA em relação ao caso  e sua preguiça em tentar resolvê-lo. Se os EUA tivessem a intenção de dar um fim ao imbroglio , decerto ele nem teria existido - Chomsky em entevista para o site G1 mata a cobra e mostra o pau.
O que me deixa intrigado é o fato de quase todas as notícias e análises que procuram botar o fato em perspectiva utilizam a imagem do “presidente de pijamas“  ou (seria em pijamas?-  não seria só pijama?).
Tudo leva a crer que um homem de pijama é um ser que está em grande desvantagem. Lembra a imagem ” trajes menores” que evoca uma certa fragilidade do ser humano. Talvez se estivesse só de cuecas a situação ficaria muito pior, se tornaria cômica. Pois, creio que devem existir presidentes que dormem de cuecas. Mas de pijama, de qualquer forma é uma situação que mostra uma certa pressa das forças depositoras nesse episódio lamentável. Uma urgência desmedida - não deixaram o homem nem  botar um terno, ou um casaquinho e umas calças compridas. Deve ter saído da cama e procurado suas chinelas, ou será que foi só de meias, ou descalço? Seria cômico também se estivesse de bermudas pois aí se estabeleceria uma confusão dos diabos nas agências internacionais de notícias, pois existe um país chamado Bermudas e muita gente iria pensar que o golpe tinha sido lá e não em Honduras.
De qualquer forma, uma autoridade ser tocada pra fora de pijama é algo contraditório, se por um lado  humilha o sujeito de pijama, ao mesmo tempo dá um tom sombrio de coisa feita na “calada da noite” , que mostra o caráter sujo da operação.
Mas agora a meleca está feita, o Tegucigolpe  foi dado, o homem já está recomposto com roupas de vaqueiro, dormindo vestido na nossa Embaixada. Não cabe ao nosso presidente resolver esse problema. A encrenca é da América, da OEA, da ONU.
Mas se Lula quisesse resolver a querela, seria o caso de propor um jogo amistoso entre a Seleção brasileira e a hondurenha. Não fizeram um espetáculo semelhante no Haiti? Se a Seleção de Honduras perder, o Zelaya volta ao poder e promete ficar quietinho dentro do seu pijama, dormindo tranquilo na sua casa, até  passar as próximas  eleições. Se o selecionado canarinho perder, o Zelaya volta no mesmo avião para o Brasil e depois vai para a Venezuela onde poderia montar seu governo no exílio. (Nos anos 60 Paris comportou vários governos no exílio).
Tem gente que vai achar que não é uma solução justa, mas sabe como é que é: futebol é uma caixinha de surpresas, no entanto é uma instituição civilizada( veja ensaio de Norbert Elias e Eric Dunning), mesmo com zagueiros violentos, é muito melhor que certas “políticas” que se praticam no nosso continente.

O Senhor Embaixador

26 de setembro de 2009

Confesso que sou distraído . Em geral me perco olhando bobagens, detalhes da arquitetura de um prédio, o desenho de uma árvore, borboletas a dançar na Candelária…  Quando estou no meio de muita gente, como, por exemplo, numa vernissage, luto para não fugir dali, mas quando é invevitável ficar, sinto que ponho em perigo todos que estão em volta com minhas trapalhadas de homem tímido. Foi o que aconteceu num verão de 1992,  por ocasião de uma exposição coletiva de cartuns, em Buenos Aires, mais precisamente no centro cultural que fica num antigo ex-mosteiro, no simpaticíssimo bairro de La Recoletta. Dizem que esse bairro é tão bacana, que até o cemitério não mete medo. Em todo caso não fui conferir.
Minha aventura começou logo na madrugada do dia da viagem. O despertador me acordou de um sono que eu não tinha dormido, de tão tenso que estava. Peguei um táxi e fui voando para o aeroporto onde embarquei, morto de medo  num avião da Varig. Nessa hora já se descortinava uma manhã de sol lindo no Rio de Janeiro. Quando o avião levantou voo, olhei pela janelinha e vi  um céu de brigadeiro que anunciava que tudo iria dar certo. Coitada da simpática mocinha que sentou ao meu lado, teve que ouvir minhas histórias  em portunhol, já que tinha esquecido “Fenomenologia do Espirito” em casa. ( eu tenho um medo real de voar e compenso de várias formas, ou falando ou lendo Hegel)
A pobre garota, que no íntimo, deve ter me achado um chato de galocha, me perguntou no meio da conversa se eu era originário da Galícia, onde se fala um português misturado com espanhol, fingi não entender a ironia.  Porém a garota foi generosa e me aturou, talvez compreendendo o pavor - que devia estar estampado em letras garrafais em meu rosto.
Minha aventura continuou no Aeroporto Ezeiza, onde com um pesado portafólio cheio de desenhos debaixo do braço e um blazer escocês de inverno, sob um sol de fritar ovo frito no asfalto, embarquei num ônibus de linha comum em direção ao centro da cidade. O referido coletivo fez um verdadeiro tour pelos bairros periféricos de Buenos Aires onde conheci uma avenida que é cortada por várias  ruas com nomes de poetas. Um encanto!
Depois de horas saltei perto da calle Marcelo T. Alvear onde , uma amiga jornalista , corresponsal  (como se fala por lá) do jornal onde eu trabalhava  tinha feito a gentileza de reservar um quarto num Hotel por um preço módico.
Tomei um banho quente e afundei num sono justíssimo,  para saldar o débito  que tinha acumulado entre a minha cama do Rio e aquela de Buenos Aires.  Fui acordado por Rrulio, meu querido amigo que organizou a exposição . Ele me convocava  para comparecer a um programa de TV naquele exato momento. Eu, bêbado de sono, disse que não me encontrava em condições de pensar, que estava catatônico, que Tico no hablava com Teco naquela altura do campeonato. Ele foi compreensivo,  e então combinamos que eu participaria  de um encontro com os cartunistas-expositores num programa de uma rádio local. Em seguida  participaríamos de um progama de TV onde faríamos a divulgação da nossa mostra de cartuns.
E foi o que aconteceu. Encontrei um time fabuloso de desenhistas de humor de nuestra América  e nos divertimos a valer num progama de rádio muito descontraído. Num determinado momento me perguntaram o que eu achava do governo Collor (que já provocava polêmica e uma certa curiosidade pelo seu fraseado) e eu disse que responderia se eles me dissessem o que significava a expressão “Duela a quien duela” que nosso ex-presidente tinha usado naquela época - não me lembro em relação ao que. Como eles não souberam responder qual o sigificado dessa frase lapidar, eu disse que esse era o problema do governo collorido, ninguém conseguia entender o que ele hablava. Depois gastei meu portunhol num programa de TV - desses que fazem a delícia das tardes das donas-de-casa, onde se discutia o tema da “mulher separada” que era a última moda que chegava tradiamente ao território portenho.  A mulher de um dos desenhistas argentinos, que estava no nosso time, disse mais tarde, que viu o programa na TV com muita atenção, mas não entendeu nada do que eu falei.
O que importa é que saimos vivos do estúdio, porém quase morremos afogados depois que uma tromba d’agua se abateu sobre a cidade. Nunca pensei viver uma enchente na Londres do Mercosul!
Voltei todo molhado para o hotel, tomei um banho quente para afastar o resfriado e botei minha fatiota para a noite de glória.
No centro cultural de La Recoletta tava uma animação danada, lá vi meu cartum com modura e tudo , pendurado  ao lado dos meus companheiros de traço e entre eles, o do magnífico Quino, nosso herói, que ainda não tinha pintado por lá e era aguardado com grande expectativa por todos.
De repente Rrulio me pega pelo braço e diz , Bruno, você tem que conhecer o embaixador da Itália , venha comigo… e lá fomos para a porta de entrada . Eis que um homem meio calvo, de óculos de aros grandes , dentro de um terno bem cortado, com uma gravata esplendorosa vinha subindo a escada e eu sem mais nem menos cumprimentei:
- Seja benvindo Senhor embaixador!!!!
Riso geral….Rrulio recuperado da gargalhada me disse:
- Bruno , você acabou de saudar Quino….qua qua qua…
Tratei de me refazer rapidamente da gafe e mandei essa:
- E Quino não é nosso embaixador do humor?!
Confesso que  essa saída foi meia boca, mas  Quino foi muito simpático, disse que eu parecia com um dos personagens dele- e para minha surpresa, fez questão de conhecer meu cartum …Pois é foi assim que paguei um belo mico na bela ciudad de las cupulas ao confundir o grande Quino , ou melhor o grande Joaquín Salvador Lavado com o embaixador da Itália.
***
Faz pouco tempo, soube que inauguraram uma estatueta de Mafalda em San Telmo , bairro onde Quino passou sua infância. Eu o vi numa foto ao lado de sua personagem. Fiquei imensamente feliz de ver que ele não tinha mudado em nada.

A morte de uma velha senhora

21 de setembro de 2009

(Hoje é dia da árvore. Aproveito para publicar uma croniqueta que está na gaveta faz algum tempo. É que ela sempre me parecia provocação comparada ao gritante noticiário político policial do Brasil.)
Assisti de camarote a tortura e o assassinato de uma árvore, uma senhora que estava perto dos seus 7o anos. Não fiz nada para impedir a sua destruição. Se fizesse, creio que seria preso ou internado num manicômio. Lembro-me do cineasta Roberto Santos que dirigiu o maravilhoso “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” baseado no conto de Guimarães Rosa. Ele, um dia, para evitar a remoção de uma árvore que ficava perto de sua casa, subiu nela e lá ficou em protesto.
Diz aquele ditado popular que todo homem para se sentir realizado deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Quanto ao assunto filhos, só posso dizer que estou contente com os meus, mas a questão é polêmica. Um personagem de Machado de Assis, parece que, expressando seu pensamento, disse que não deixaria o legado de sua miséria neste mundo. O poetinha Vinicius de Moraes dizia que seria melhor não tê-los, mas se questinonava como sabê-los sem tê-los? Conheço muitos livros péssimos,mas nenhuma árvore má. Apesar dos homens usarem os galhos de algumas para enforcar outros, acusados de serem bandoleiros, ladrões de gado, como nos filmes do velho Oeste. As árvores são sempre benéficas, mesmo quando com suas raízes ameaçam as tubulações de um edifício ou derrubar os muros que o homem constrói, como diz o biólogo Kinsey à sua esposa no filme que leva seu nome, as árvores são sempre felizes com suas raízes firmememente plantadas na terra.

Enquanto viajava nesses pensamentos, os homens do Departamento de Parques e Jardins faziam seu trabalho. Parece que a poderosa árvore a que me referi no começo dessa crônica estava ameaçando os alicerces da casa que um dia foi abandonada por um homem e agora tinha sido comprada por outro, que estava salvando seu capital investido naquela ruína.Não adiantaria argumentar que a casa é só daquele homem e a árvore é de todos, principalmente dos passarinhos que se lamantariam no dia seguinte com seus cantos tristes… Haverá quem diga que isso é coisa de poeta, de desocupado, mas pergunto: o que substituirá aquele espécime único? Ela que todos os dias era, enquanto viveu, a alegria das minhas manhãs com o seu verde esperança. Nos dias de sol de rachar catedrais, amenizava o calor com sua generosa presença e se tornava mais alegre com as centenas de pássaros que nela se abrigavam ou faziam pouso para novos voos, A música que deles vinha emocionaria o mais frio burocrata, garanto! Acredito que algum dia, com o avanço tecnológico que temos, será possível “remover” árvores - sem abatê-las. Ela está causando problemas aqui, então transfere a árvore para um lugar onde ela continuará a ser útil.
Sei que deveria falar de política, de bandalheira, de desvio, de quebra de decoro. Preferi falar da tristeza imensa que habitou minha paisagem sem ela, a majestosa árvore para a qual, um dia escrevi este modesto adeus.

Vizinha chavista detona Viver a Vida

18 de setembro de 2009

Ela não aguentou dois capítulos e ligou lá do spa onde está internada para se recuperar do bombardeio da mídia. Não lê mais jornais, evita o noticiário televisivo. Segundo ela, cansou de ficção barata e por isso se refugia nas novelas, mas pelo que parece não gostou da nova obra do Manoel Carlos.
- Olha aqui meu filho,bote lá no seu “grogue” que essa novela nem parece novela.Tá faltando aquela “pegada”, entende? Ela tenta ser realista e fica no meio termo, soa falsa como uma garrafa de uísque do Paraguai. Tá muito cheia de pose. Numa coisa o Maneco acertou no alvo: pobre gosta de assistir a vida dos ricos, e pobre só aparece como problemático- ou é drogado ou é invejoso, cara ruim, inocente inútil, ou tá metido em encrenca, das brabas.
Pra mim, quem vai dominar essa novela vai ser a filha barraqueira do Zé Mayer. Essa menina, a Alinne Moraes é fogo! Além disso o personagem que deram pra ela é um presente embrulhado em papel cor de rosa com fita verde…dá até para ouvir o sininho da carroça do papai Noel. Aquilo é carroça né?Puxada por um bando de bambis?! Tlim tlim tlim…
O resto do elenco é razoável, mas fica no meio de papos bobos, travam diálogos que me parecem frouxos, frívolos. Onde já se viu uma médica que falta no hospital porque está com dor de cabeça! Onde meu filho????
E aqueles gêmeos, clones do falecido Bôscoli? Um , com aquelas gracinhas fora de hora e o outro sisudo, moço bem comportado e ressentido . Será que o ator está ganhando dois salários. Será que a ótima Bárbara Paz, que enche a cara em todos os capítulos acha que os dois são um só e ela que tá vendo coisas? Se essa vai ser uma novela de superação, acho que a gente é que vai pagar o “parto”, a gente é que vai ter que superar a fragilidade dessa história. O pior é que no spa só servem suco de maracujá!
***
Desligou novamente na minha cara. Nem deu tempo de eu tentar defender a novela. Dizer que temos que dar um tempo a ela. Que ela é a modernidade vista do Leblon, mas é modernidade, poxa! Mas tenho que confessar que senti no meio dessa novela uma tremenda saudade da família do Opash Ananda. De repente o Rajastão ficou tão perto e Búzios tão longe…

Vizinha chavista detestou final de Caminho das Índias

12 de setembro de 2009

Minha vizinha chavista me ligou tiririca da vida depois do último capítulo de Caminho das Índias.
É bom lembrar que ela está num spa tentando se recuperar da crise das TVs, na qual se degladiaram Record e Globo.
- Olha, só liguei pra que você bote no seu “grogue” (ela não consegue falar blogue) que não gostei do capítulo final da novela da Glória Perez. Alguém lá na Vênus Platinada estava com muita pressa e encurtaram a história. Ficou um monte de fio solto. Eu não entendo mais nada na TV! Uma novela que está bombando é encurtada e tem um final tão bola murcha!
Nessa pressa não se preocuparam com do destino de muita gente, a pobre da Dayse (vivida por Betty Gofman) ficou sem o guarda que voltou pra Norminha. A fã do guru da Lapa ficou mais por fora que umbigo de vedete.
Jogaram a pobre Ciça (Aninha Lima) na vala das encalhadas. Dona Wal (Walquíria) vivida por Rosage Gofman só se abanou o tempo todo. Ademir (vivido muito bem por Sidney Santiago) ficou como “o esquizofrênico pobre” dançando literalmente, enquanto o esquizofrênico rico - o Tarso se deu bem com a maluca da Tônia, que abandonou uma bolsa na Alemanha por amor e uma cobertura na Barra, ao som de Maluco Beleza. E o cara que deu o sêmen para Ruth (Cissa Guimarães)? O sujeito sumiu do mapa!
A Yvone se deu bem, teve seu grande momento, mas o infeliz do Mike ( (Odilon Wagner) também mergulhou nas sombras e nem teve tempo de dar um tchauzinho.
O Bahuan coitado só apareceu rapidinho em cima de um elefante ao lado da sua noiva milionária - não teve nem fala no final. A pobre da Chiara (Vera Fischer) acho que vai virar monja no fim da história.
Tudo ficou muito mal costurado. Aquele negócio da Leinha (Júlia Almeida) ser descoberta por um head hunter num boteco e indicada para Hollywood foi demais para mi pobre cabecita! E a pobre amiguinha da Deva que ficou segurando vela ao lado de Namit (Chico Anysio) e o criado dele. Surya que foi a grande vilã da parte da Índia também ficou apagada, encostada numa coluna da casa de Opash, assistindo o show de Tony Ramos.
Ficou ruim esse final, mas pelo que eu li na imprensa, deu Ibope. Que vou fazer se o povo engole qualquer coisa? A novela era boa até os 45 minutos do segundo tempo, mas nos acréscimos ficou devendo. E olhe que foram muitas rupias!

***
Aí desligou na minha cara e me deixou sem palavras. Concordo com ela em parte, mas de que adianta agora falar alguma coisa? O negócio é viver a vida, né Maneco?

Vizinha chavista elogia Caminho das Índias e Oliver Stone

11 de setembro de 2009

Desta vez fui eu que telefonei para o spa onde minha vizinha chavista está internada, se recuperando da guerra televisiva entre a Globo e a Record.
Disse a ela que estava com saudades das suas críticas. Que “Caminho das Índias” terminava hoje e nós não podíamos ficar sem a sua última crítica. Falei pra ela que constatei com meus próprios olhos e ouvidos que a terra uma dia há de comer, que a novela foi um sucesso estrondoso. Meu depoimento foi tão veemente que percebi um leve lacrimejar, do outro lado da linha. Contei o que ouvi, quando estava no meio daquela multidão que disputa os quibes e esfihas da Lanchonete “libanesa” da galeria do Largo do Machado - era um frase, ou o fim de uma frase: -”…é aquela naja ! Não, não é a naja novinha da Surya, é daquela naja velha que eu estou falando!” Virei minha cabeça nebulosa para o lugar de onde vinha aquele papo “indiano” e vi que eram três mulheres de meia idade - provavelmente na hora do almoço- que discutiam animadamente assuntos relativos à intimidade do serpentário da famíla Ananda. E falavam especificamente de “mamadi”, a mãe do conservador Opash.
-Pois é meu filho, essa novela apesar de “esculhambar” (na boa) a Índia e seus costumes, caiu no gosto popular. Tudo por causa da competência da Glória ( ela se refere a “novelista” ( ou será noveleira?) Gloria Perez- minha vizinha chavista tem por hábito chamar as celebridades pelo primeiro nome).
-Glória é realmente muito boa nesse negócio de novela, menino! Palmas pra ela e para o elenco da novela, e por tabela para a emissora, a grande Rede Globo, que um dia nós, do movimento bolivariano da zona sul, ainda vamos tomar e transformar numa produtora exclusiva de novelas para atenuar o sofrimento dos nossos companheiros cubanos.
Falando em Cuba, estou na verdade, me preparando para ver o documentário que o Oliver Stone fez sobre o nosso líder - o Presidente Chávez. Dizem que é muito bacana, que ele mostra comos os poderosos dos EUA tentam esculhambar os verdadeiros líderes na nossa sofriada América Latina, o quintal deles..

Perguntei se ela vai assistir à nova novela de Manoel Carlos.
-Se ele vier de novo com esse negócio de”novela- bairro” (leia-se, Leblon - ela faz uma ironia com o antigo programa de César Maia que tinha por nome “favela-bairro”), aí é que não vou ver. Mas parece que eles foram para Jordânia, para Israel etc. Novela das oito da Globo agora começa sempre “la fora”, depois vai pro Projac mesmo, que a grana anda curta!
- Você vai me desculpar, mas vou para minha sessão de hidroginástica. Escreva aí no seu “grogue” que a Glória é uma guerreira e acertou na mosca com essa novela que acaba hoje. Que as grandes discrepâncias da novela só aparecem para os críticos , esses literatos frustrados, que um dia acalentaram o sonho de escrever o grande romance redentor da modernidade tardia e não conseguiram. Que o povão mesmo, como dizia o filósofo Joaozinho 30, gosta mesmo é de luxo, muito sari, muita “bijuteria” barata de Delhi.
E foi aí que sem mais, nem menos, desligou na minha cara.
Nem deu tempo de comentar a terrível situação financeira da excepcional fotógrafa de celebridades Annie Leibovitz.
Voltei me então para a leitura de “Modernidade Líquida” do sociólogo Zygmunt Bauman, que virou arroz de festa e até já deu entrevista para a revistinha de domingo do Globo. Não sei se aumentou a tiragem do jornal nesse dia, de qualquer forma, a sociologia está se tornando popular. Quero ver o caderno de esportes analisar a interação dos clubes cariocas no universo social light da “segundona”.

Heliópolis é um alerta

2 de setembro de 2009

Heliópolis seria grosseiramente traduzida como “Cidade do Sol”, que lembra a “cidade radiante” de um utópico arquiteto modernista, mas o que se vê na TV são chamas na noite, automóveis e ônibus queimados, protestos, gente se agitando e o holofote de um helicóptero da polícia. Pedras são arremessadas na tropa de choque, que revida com tiros de balas de borracha.Tudo explodiu a partir de um acontecimento terrível, que foi a morte de uma jovem estudante por uma bala que se perdeu num tiroteio entre as forças da ordem (guarda civis metropolitanos de São Caetano do Sul) e supostos fora-da-lei em rota de fuga de um assalto.  Esse acontecimento  se repete de forma brutal no Brasil dos dias de hoje.
O ritual é o mesmo: um jovem morre numa comunidade carente, por causa de uma bala perdida (forma que a linguagem usou para esconder a realidade da palavra favela - um tapume pós-moderno?) depois explode o protesto.  No dia seguinte os jornais estampam as fotos, e a vida segue como se fosse normal até um próximo tiro ser disparado, uma bala se perder e….

No caso de Heliópolis , este que vejo agora na TV ( e sobre o qual escrevo de imediato- sem pensar de forma clara ) é o segundo protesto, algo que parece organizado: o repórter informa que a manifestação foi convocada com panfletos que foram distribuidos durante o dia.    Há algo neste acontecimento que exige a imediata decifração. É um alerta! É mais do que um caso de “polícia”, um caso onde deve-se apurar as responsabilidades etc…É urgente  que a sociedade perceba  que há algo de podre na selva de asfalto e concreto. A “cidade que não pode parar” tem que parar para pensar. Que tipo de sociedade estamos criando, que civilização é esta? Pensar de forma, vamos dizer, sociológica sobre a questão é algo que pode revelar o caráter do imbroglio em que todos estamos metidos.  Existem no centro deste fato terrível, indícios de que predominou  um tipo de visão distorcida do ser humano que habita os territórios excluídos da cidade. De que ele não é visto como cidadão, e que portanto não age assim. Foi na tentativa de entender o horror disso tudo : - a bala perdida-  o protesto, a ausência de cidadania, a violência que tudo envolve que me deparei com  a advertência de Laymert Garcia dos Santos fez no texto “São Paulo não é mais uma cidade“(constante do livro Cidade e Cultura esfera pública e transformação urbana - Estação Liberdade).  Lá ele tenta decifrar no que se transformou a “não cidade” de São Paulo. Ele diz que  deveríamos, “talvez, que começar a tentar verificar o que acontece numa cidade quando ela já se transformou, não numa cidade morta, mas que não passa a expressar a morte da metrópole moderna.”
Ao longo do texto se fala de que não existe mais “espaço humano” em São Paulo- surge até o conceito de “metrópole-necrópole” - que São Paulo “é uma cidade que é a morte da cidade”.
Parece estranho? Sim, porque mostra que ao lado  da agitação, do turbilhão que move essa “cidade” está também sua condenação. Laymert fala de que essa metrópole que foi promovida a metrópole global, pode -se dizer desabitou seus habitantes: “A cidade deixou de ser porque o espírito da cidade não habita mais seus moradores”.
E aqui digo eu, o capitalismo nessa sua nova forma especulativa e brutal violentou tudo, criou ilhas de riqueza e um oceano de miséria - na cidade sob seu signo, tudo se mistura, se esgarça, se decompõe. E o pior é que a maioria dos que a habitam se negam a ver a agonia em que estão metidos. Parece que não há mais tempo para conter o processo condenatório.
Ele diz que esse espírito da cidade se esvaneceu não porque a cidade cresceu demais, explodiu, nem que ela “careceu tanto de planejamento urbano que agora tornou-se “impossível” . Ele fala de uma outra explosão e de um implosão, de um estilhaçamento da cidade fundindo tudo num “magma caótico”.
Claro que isso é bastante abstrato, mas quando ele mostra que os privilegiados “desertaram”  se instalaram em “bunkers”, se refugiaram em locais vigiados, gradeados, em shoppings, edifícios controlados por seguranças etc…”Isso fica claro quando afirma que uma parte da elite abandonou a rua” e outra parte se mandou para Miami.  Os que ficaram passaram a ser transportados pela cidade em blindados.(que se tornou acessível à classe média). Eu digo que outros só circulam em helicópteros, bem por cima, entre as antenas e torres do capital.
Talvez quando seu texto  se torna mais concreto e fala mais de forma rude, talvez se entenda o que está acontecendo:
” Agora, com a saturação do tráfego, a pane dos serviços , a escalada da criminalidade, o assédio dos miseráveis, a proliferação das máfias e a corrupção e falência do poder municipal (ele escreveu esse texto em 2002), a elite parece ter desistido da cidade mesma”.
Quando a elite desistiu da cidade, ele afirma, “passou a conceber o espaço urbano como um terreno baldio, onde se pendura as mensagens e imagens que quer vender para “os outros”. São os que estão por cima.
Ele chega a falar das periferias ( não fala das favelas que a cidade oculta da foto turística), ele se concentra nesse abandono da cidade (na fuga da elite para seus territórios protegidos) e na imposição  de uma “imagem de cidade” (vulgar e obscena) sobre o espaço urbano agonizante. Fala sim dos sujeitos concretos que estão por baixo, que foram transformados em “não pessoas” (ou sujeitos monetários sem dinheiro como foram definidos por Robert Kurz).  Fala dos trabalhadores que  se situam entre os que desertaram e os deserdados, massa urbana que se aperta nos coletivos , para os quais a cidade é o “longo e cansativo trajeto de casa ao trabalho, ao tempo perdido do transporte”.  Toda essa paisagem que  foi identificada como “pornográgica” por um antropólogo.
Pelo jeito, São Paulo já não é mais o “lugar” onde se aplica aquela solução que Italo Calvino  lançou no fim de seu livro “Cidades Invisíveis” : “Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber e reconhecer que e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”
Para Laymert “São Paulo não é uma cidade em ruínas, pois uma cidade em ruínas sempre pode ser reconstuída. Aqui estão sendo destroçados o conceito e a possibilidade mesma de cidade”. E finaliza : “São Paulo é a morte da aura da cidade“.

Vizinha chavista detona Jornal Nacional

1 de setembro de 2009

(Vou fazer uma pausa no ensaio que tem a pretensão de explicar quando o Brasil se estrepou, para botar no ar, a crítica  de TV de minha radical correspondente bolivariana)

Minha vizinha chavista ligou do spa onde está se recuperando de um ataque de nervos que teve, quando começaram as súbitas mudanças das grades das TVs e o troca troca de apresentadores. Na verdade, o referido “siricutico” ocorreu no meio daquela guerra midiática que tomou conta do horário dos noticiários junto com o intercâmbio de ofensas no Senado. O esforço para advinhar os novos lances dessa contenda afetou seus neurônios, quer dizer fundiu sua cuca.
É, o esforço mental foi demais para ela, e hoje, na clínica de repouso, ela repensa o plano que alimentou durante anos : tomar a Globo e transformá-la numa emissora somente de novelas para aliviar o sofrimento dos companheiros cubanos. Diz ela que a ameaça da Record à hegemonia da Globo complicou tudo. Confessou que precisa elaborar urgentemente um plano B.
Mas vamos ao que interessa: ela ligou no meio da noite, para pedir que eu escrevesse nos meus “grogues” que não gostou nada da nova paginação do Jornal Nacional.
-Aquele globo rodando no fundo me deixa tonta. Ataca minha labirintite, entende, meu filho? Não sei se presto atenção no William ou na Fátima, e fico vendo aquele globo azul rodando, rodando…parece que estou numa “discothèque. No fim das contas nem sei mais o que foi noticiado.
Acho que isso tem uma explicação maquiavélica. Como eles não tem mais o que noticiar, pois o Congresso não trabalha e só bate-boca e o mundo anda muito chato, mesmo com eleição japonesa, eles botaram aquele mundo girando só para tirar a atenção do telespectador do vazio total, da insignificância das nossas vidas, do sumiço do Belchior, das suposições sobre a morte do Michel Jackson…Pois é, meu filho, não existem mais fatos, só versões…prefiro novelas, são mais verdadeiras…

Clique! Desta vez fui eu quem desliguei o telefone e mantive fora do gancho. Cáspite! Era muita zorra para meu pobre ouvido, confesso que agora sou eu que estou começando a ficar tonto. Aonde é a saída mesmo?