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Arquivo para agosto, 2009

Do suicídio ao caos organizado

30 de agosto de 2009

Capítulo 2 – Do suicídio ao caos organizado

(Continuação do “ensaio” que tenta achar o nó da questão de quando o Brasil se estrepou)

Diz uma teoria que “episódio da rua Toneleros”(no qual pistoleiros contratados pelo chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, Gregório Fortunato, erraram o alvo, e em vez de atingir Lacerda, acabaram por matar o major Rubens Vaz da Aeronáutica) deu curso a um golpe de Estado, que foi abortado pelo suicídio do Presidente, que com um tiro no peito retardou essa onda golpista, que foi vingar somente em 64. Mas antes disso, o clima se tornou mais leve, com Juscelino, apesar de umas revoltas, que o chamado Presidente bossa-nova soube driblar. Dizem as más línguas, que com sua conversa mole, e rodas de seresta ele escancarou as portas para o capital estrangeiro. Não resta dúvida que o sorridente JK tentou refundar um outro país na base da indústria automobilística deixando de lado outras formas de transporte,(por ex. uma rede ferroviária e as alternativas de transporte por nosso imenso litoral e nossos rios). Pode-se dizer que usou a “infra” que Getulio tinha construído desde 30 e quis mudar tudo fazendo 50 anos em 5, isso teve consequências funestas.

O presidente Bossa-Nova meteu o jazz no samba, misturou chiclete com banana e mudou a capital, construiu Brasília no centro do país, que é uma jóia do modernismo, mas tirou o poder de perto do povo e aumentou a nossa dívida externa. Facilitou a vida de grupos que se apropiaram de cargos e territórios, como se fossem capitanias hereditárias.

Depois veio Jânio, com uma vassoura como símbolo e uma proposta moralizadora, teve um governo atípico, não ficou 6 meses com a faixa, renunciou tentando dar “uma volta” no Congresso e mergulhou o país numa crise que foi se resolver de forma dramática mais tarde, com aquele outro golpe, que tinha sido adiado quando Gegê saiu desta vida para entrar na história…Pobre do Jango( que era o vice do Jânio), mal teve tempo de esquentar a cadeira. Foi arrastado por um “redemunho” – e na iminência de um conflito aberto entre as forças de esquerda e da direita organizada, preferiu uma solução sem derramamento de sangue e teve que se exilar.

Aí tome 20 anos de regime militar! O modelo americano se instalou confortavelmente , um estranho milagre econômico criou as bases para o endividamento do país e sua satelitização. Quando voltaram os civis numa espécie de democracia tutelada, por eleição indireta de um colégio eleitoral cordeirinho, o país tinha um bruta parque industrial, mas estava sem rumo. A tênue democracia que “aconteceu” não conseguiu dominar a selva em que essa terra tinha se transformado…nenhuma ética ou instituição que desse um norte decente conseguiu se impor…Encontrou-se um terreno pantanoso onde havia se instalado uma luta tipo vale –tudo que parece contiunua até hoje.

A sociedade que sobrou era composta por u’a massa crescente de pobres e miseráveis ( o atualmente chamado “sujeito monetário sem dinheiro”- conceito inventado por Robert Kurz) de um lado e do outro o capital financeiro dominando,o FMI impondo as regras feitas pelos ‘Chicago boys’ e suas teorias de ajuste econômico, e no meio desse sanduíche, uma classe média desesperada,vendo seus sonhos de curtir um verão em Miami rolarem ladeira abaixo.Para complicar tudo, o país aos poucos foi tomando a feição de uma “Colômbia continental” segundo os temores do mesmo Vargas Llosa ,do qual retiramos o mote para esta croniqueta…(continua)

O dia em que o Brasil se estrepou

24 de agosto de 2009


(Aviso aos navegantes: esta croniqueta é antiga e vai nos servir para lembrar Getúlio Vargas no 55º ano de sua morte. É um texto muito pretensioso que tenta pensar a crise brasileira. Como é longo, vai ser dividido em capítulos).
Capítulo 1 - Os tiros errados e um tiro certeiro
No começo de”Conversa na Catedral(1), obra prima de Mario Vargas Llosa, o personagem Santiago, olha o cenário desolado de Lima,onde vê “automóveis, edifícios irregulares e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos flutuando na neblina, o meio dia, cinzento” e se pergunta: Em que momento o Peru tinha se estrepado?
Na verdade ele usou uma expressão mais forte e a tradutora manteve o similar brasileiro,que por um certo pudor não trascrevi aqui. Ao ler este romance ficamos de queixo caído com a sua qualidade.É uma obra prima, e toca num assunto que não muda ,os “podres poderes”da America Latina.
A pergunta de Santiago nos leva a pensar no nosso país: Afinal,(guardadas as proporções em relação à melancólica realidade peruana) quando o Brasil se estrepou?
O historiador Sérgio Buarque de Holanda, deve ter se perguntado isso também quando escreveu em “Raízes do Brasil”: “Trazendo de países distantes nossas formas de vida, nossas instituições e nossa visão do mundo e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos uns desterrados em nossa terra” Já é uma dica. É uma tentativa de explicar porque o país é dessa maneira.  E confirma teses fatalistas de que o país não foi feito para dar certo. Existe toda uma literatura que tenta explicar o Brasil e a gente vê que a coisa é complexa e não vai ser uma croniqueta que dará conta do recado, mas não custa ensaiar (embora ensaio não ganhe o estandarte de ouro e nem treino ganhe jogo).
Muita gente tentou responder esta questão incômoda.
A resposta mais óbvia contempla 1964, como momento chave de destruição de um projeto nacionalista autônomo.
Mas, uma outra teoria me seduziu. Ela afirma que tudo foi para o brejo no dia em que Gregório Fortunato mandou matar Carlos Lacerda , que era uma pedra no sapato de Getúlio Vargas. Uns pistoleiros, contratados para fazer o serviço de sangue, numa história mal contada, numa trapalhada sensacional, acertaram o Major Vaz, da Aeronáutica e deu um bode danado que pode ser pesquisado digitando “República do Galeão”. Alí, dizem os defensores dessa teoria paradoxal, se abriu uma porta para um grupo que queria transformar o Brasil no que ele é hoje, um negócio privado, um clube de ricos, não importa que ele tenha virado um país dependente, arruinado, violento onde lamentavelmente vemos no dia a dia o domínio de vários tipos de crime sobre a sociedade chamada civil que desarmada, tenta se proteger botando muros, circuitos internos de tv ou rezando… Na base deste clube, uma massa despolitizada funcionando como serviçais, compostas como classes subalternas, exército de reserva de mão de obra, excluídos e invisíveis em geral.
Com Getulio,o nosso “querido ditador” (como canta um samba enredo da época) que tinha sido amansado depois da guerra de 45, quando ele entrou naquele restaurante de frutos do mar, ”O ostracismo”, o país poderia ter se transformado numa nação próspera e independente. Essa teoria diz que apesar do populismo, personalismo e a maledetta mania de fazer a revolução antes que o povo a fizesse, Gegê tinha um projeto para o país. Sem dúvida, ele havia construído algo naquele páramo que antes de 30 era um fazendão brabo… Orientou uma burguesia apática sem apetite para a modernidade. Com um tiro no coração, ele saiu da vida e entrou para a história e numa tabelinha abortou um golpe que iria dar trabalho, e muito trabalho, alguns anos depois…mas aí também morreu Neves…

(1) Neste livro, Mario Vargas Llosa fala de forma implacável sobre a sociedade peruana  da época de Manuel Arturo Odría ,o ditador que tomou o poder em 1948 e tornou-se presidente da República de 50 a 56 Gostaria também de elogiar a ótima traducão de Olga Savary

Vizinha chavista detona Caminho das Índias

13 de agosto de 2009

Minha vizinha chavista me telefonou do Spa onde está se recuperando de um siricutico que a acometeu depois da troca de farpas entre a Globo e a Record.
- Foi demais para minha cabeça! Preciso equacionar uma nova estratégia para a revolução bolivariana nas comunicações…mas não é isto que quero que você bote no seu “grogue”…
- Bote no seu grogue que eu gosto da novela da Glória(ela fala da autora da novela Caminhos das Índias). Eu gosto dessa novela porque ela é um ruim, sacou o paradoxo?
As deficiências da novela é que a tornam um must.
Mas o golpe da dupla de trambiqueiros composta pelo Mike
(vivido pelo ator (Odilon Wagner) e pela Yvone (vivida por Letícia Sabatella) foi muito mal imaginado: veja só, meu filho, uma dupla sinistra pra valer não faria uma chantagenzinha com a pobre Nanda (papel vivido por Maitê Proença) só exigindo R$ 500 mil pela fita onde ela aparece transando com o tal Mike. Isto é risível, decepcionante para uns tipos gabaritados de trambiqueiros intenacionais como eles deveriam ser. Numa novela bem tramada eles exigiriam mais dinheiro…E que tipo de golpe Yvone quer dar no Ramirinho? Um par de brincos e um anel? Peraí, tão abusando da minha paciência!
Vamos supor que eles exigissem a grana que o marido da Nanda
(Haroldo, vivido por Blota Filho) botou (ficcionalmente é claro) num paraíso fiscal, uma grana mais alta, isso até passava, mas só quinhentinhos,em reais! Convenhamos que ficou muito chinfrim, coisa de trombadinha… a dupla de 171 perdeu a graça!
Ah, tem mais uma coisa: o chale, ou casaquinho que a Leinha
(vivida por Júlia Almeida) estava usando na novela anteontem, é o mesmo que a Ana Maria Braga trajava na chamada para o seu programa! Se tá faltando pano lá no Projac, eu mando um casaquinho que comprei na Catalunha que é divino! Tem até o cheiro de um toureiro espanhol que deixei em Sevilha, ele me deu até uma orelha de touro,para eu me lembrar dele, mas isso não vem ao caso… E essa facilidade com que o Gopal ( interpretado por André Gonçalves) consegue emprego, é uma maravilha, é sinal que a crise passou mesmo e qualquer estrangeiro que chega aqui consegue se ajeitar…
Foi aí que ela desligou na minha cara e não fiquei sabendo nada sobre sua posição na chamada guerra televisiva que se esboça neste país tão interessate.

As palavras e as coisas

3 de agosto de 2009

(Peguei lá no fundo do baú uma croniqueta pra funcionar de step enquanto boto umas coisas em ordem no meu HD - espero que gostem. Esta vai sem ilustração por motivos óbvios)

Acredito que as palavras são fonte de permanente
mistério, fora o fato de que geram os famosos mal
entendidos, que têm sido tão mal interpretados,
coitados! Se não fossem eles, o que seriam dos
boleros, da dor-de-cotovelo e da dor-de-corno por
supuesto? Palavras existem para nomear as coisas,
expressar sentimentos e, na maior parte das vezes,
dizer bobagens. O principal problema é essa mania de
interpretação. Não dos boleros, mas do que se diz.

Creio que uma outra fonte de confusão está na própria
mecânica do ato de falar. As palavras são antes de
mais nada sons (grunhidos?), que uma vez emitidos
surfam em ondas e vibram no ar até chegar aos ouvidos
nem sempre atentos. Vai daí que uma coisa dita, mesmo
que seja bem dita, pode ser entendida de forma mal
dita (maldita?) Nesse entroncamento se situa um rico
manancial de coisas ouvidas erroneamente, que ao meu
ver (ouvir) constituem um sinal da extraordinária
criatividade do ser humano - e que o diferencia do
papagaio e de alguns cachorros amestrados.

No Brasil, isso é de uma riqueza sem fim. Para
começar, ouça (veja) o caso de uma menina
recém-entrada na universidade que chegou em casa toda
pimpona e disse ao pai: “Meu professor falou de um
novo autor hoje, um tal de Maiquéu Fucô” (ela se
referia a Michel Foucault, claro, e produziu um riso
hilário no pai). Nesse caso ela ouviu e leu o
professor escrever Michel (Mixéu) , mas seu
inconsciente moldado por Disney e a família Jackson a
fez registrar o nome Michael (Maiquéu).

Ouvir palavras e repeti-las de forma errada pode
acontecer com todo mundo. Solange, a ex-famosa
participante de um irreality-show (alguém ainda se lembra dela?)
foi uma mestra nessa alteração de todos os sentidos das palavras.
O seu “Uiárniuôr,
Uiuarnsilver.”, que virou CD e animou muito baile funk por
aí, na verdade queria dizer: “We are the world, we are
the children.”, da música cantada recentemente por vários artistas no funeral de um de seus compositores, o genial  Michael Jackson que fez essa obra com  Lionel Richie  para uma campanha em
favor dos pobres da África, se não me engano. Não é à
toa que o pessoal já cantava “Uh! Tererê!”, em vez de
“Hoop there it is”, da música Space Jam, do grupo Quad
City DJ’s.

Sem dúvida, o jeito moleque do povo brasileiro faria Michel
Foucault morrer de rir antes de a dama sinistra passar
o cerol nele (nossa crônica, por sinal, leva o título
de um de seus livros). Tocando as maracas da
interpretação, creio que ele curtiria muito essa
capacidade de adaptacão do nosso povo, sua
criatividade alucinada.

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Há algum tempo venho fazendo
(com o auxílio luxuoso de alguns amigos),
uma pequena coletânea de palavras
que são usadas fora e às vezes muito dentro do
contexto. Abaixo vão alguns exemplos
:

1) O menino ia atravessando a rua quando o caminhão
vasculhante quase atropelou o desinfeliz.

2) O emprego dele é muito bom, tem até adicionário
noturno.

3) A febre baixou, mas só quando usou um sucusitório.

4) A injeção foi bem no glúten dela.

5) O requerimento do advogado foi aleijado do
processo.

6) Ela teve condolências do rapaz.

7) A última vez que vi o velho ele estava bem nítido,
(esta já citada por um outro cronista, mas juro que
descobrimos antes).

8) O pobre só apresentava uns sinais de
estereosclerose.

9) Aí, bateram um elétrico, mas já era tarde e o
coitado tinha tido um ABC (em vez de AVC).

10) Tive que fazer um xerox vice-versa do atestado de
óbito.

11) O jornal diz que lá no Iraque tem muito
frango-atirador.

12) E aquela que foi no motel e só ficou usando a
banheira de vidro massagem?

13) Ainda bem que todo o gasto da viagem foi
debilitado na conta da firma.

14) O menino ficou tão contente depois que ganhou um
videogay .

15) Nessas novelas, agora, estão com essa mania de
botar mulheres mésblicas. É um tal de mesbla se
agarrando…

16) Com esse hábito de de não usar fio dental eu
fiquei com o gengibre inflamado.

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Uma idéia maluca é fazer uma dicionário desse novo vocabulário,
incluindo nomes próprios que mudaram devido ao
entendimento diferenciado do escrivão na hora do
“resistro” (mas acabei desistindo da idéia).
E, para finalizar, uma frase que um amigo meu registrou e
que é um fenômeno a espera de decifração
Trata-se de um cartaz de beira de estrada,
onde se verifica uma nova forma no uso do pronome. Lá
está escrito: “Vende peixe-se“. Nesse caso, sem
dúvida, trata-se de uma revolução linguística.