Kerouac, quem diria…
19 de julho de 2009( A história que vou contar aí embaixo é uma versão atualizada de uma outra que já contei em cantos remotos da web. Tem a pretensão de significar talvez o fim de uma era, e quem sabe o destino do livro nesse mundo louco da informação instantânea e do perigo que ronda até os cemitérios )
Esse não morreu de ‘overdose’, como um autêntico dinossauro . Apesar de ter sido um daqueles espécimes raros que viveram na era ‘lisérgica superior’( estágio civilizatório marcado pelo festival de Woodstock), nosso herói teve uma morte comum.
Saiu desta para melhor , da maneira mais convencional, como ele mesmo diria: ‘careta’ . Um simples enfarte fez com que o ‘relógio’ parasse de bater . Foi encontrado pelo filho na sala do minúsculo apartamento que tinha alugado em Botafogo, onde morava com seu ‘caos particular’. Assim ele chamava seu habitat . De fato era a uma bagunça de respeito : livros espalhados por todo canto, discos de vinil,uma velha vitrola ‘Garrard’ , jornais da déca de 60 , uma Olivetti portátil onde faltava a tecla b, pastas com artigos , ensaios ,crônicas, rascunhos de livros , um poster de Dubrovnik compunham a cena de um verdadeiro museu de quinquilharias onde se destacavam um narguilé e o esqueleto de uma barraca de camping. No meio disso tudo, ele ,trajando uma cueca samba-canção, jazia de bruços, com o livro ‘On the road’ de Jack Kerouac na mão.
Era uma tarde quente, o ventilador estava ligado e sobre uma cadeira , um cubinho de gelo ainda derretia dentro de um copo de mate.
O rapaz ligou para sua mãe, que muito prática , logo passou a a organizar o funeral , listando uma série de providências que deveriam ser tomadas… A irmã chorou um pouco , depois disse que não demoraria a chegar.
O rapaz , enquanto vestia o falecido pai, de repente , começou a rir ,quando lembrou de um pedido que o velho fizera num dia em que pegara a famosa gripe de Sidney .( como vocês podem ver, sempre tem uma gripe rondando o símio que pensa que evoluiu).
-Quero que toquem ‘Little Wing’ no meu enterro. Com o Hendrix solando aquela guitarra maluca! O velho tinha dito. Entre um espirro e outro, lembrou que teve essa idéia ao ver o filme ‘O reencontro’(The Big Chill), do Lawrence Kaskan , em que velhos companheiros de escola dos anos 60 se reúnem no funeral do mais pirado amigo: - Eles tocaram uma música dos Rolling Stones enquanto velavam o morto, eu me lembro….
Todos riram naquela ocasião, a morte , decerto tinha outros encontros marcados na sua agenda e não deu as caras . A gripe australiana se mandou e o nosso herói continuou sua vida jurássica , preso aos fragmentos dos anos em que se dormia num ‘sleeping-bag’ na beira de uma estrada e isso era considerado ‘um grande barato’.
A filha chegou com os olhos vermelhos e encontrou o pai vestido . Estava sentado no sofá, parecia que estava cochilando.A garota se assustou e logo tratou de deitá-lo: - Ajude aqui, temos que esticar o corpo dele, senão fica durinho nessa posição e nós vamos ter que enterrar o papai numa cadeira! Em seguida perguntou: -Tem certeza que ele vai vestido de jaqueta ,calça blue jeans e tênis?
-Achei que ele iria gostar, disse o rapaz. - Depois não encontrei nenhuma coisa que se parecesse com um terno no guarda-roupa? Mas tem uma outra coisa que me preocupa. Lembrei que ele queria aquela música do Hendrix no velório.
- ‘Little Wing’? Você se lembrou disso? Dessa vez ela riu também, e logo emendou: - Não! Papai que me desculpe, mas não vou pagar esse mico!
O irmão concordou que seria uma extravagância. Apesar da música ter uma levada suave , lembrou até que ela tinha uns sininhos tocando no fundo e um solo fantástico, mas definitivamente iria chocar a galera.
- É , mamãe também não ia gostar, eles não curtiam as mesmas coisas. Ela só ouve os clássicos!
Mas e a promessa que tinham feito ao pai “semi-moribundo!…. Os dois se olharam por uns minutos e um sorriso iluminou o rosto do rapaz. -E se enterrarmos ele com o livro do Kerouac ? Ele adorava o ‘On the road’, e além disso, parece que ele tinha apanhado esse livro na estante quando aconteceu….
-É , a gente espalha uns incensos também pela sala do velório, fica um clima bem hippie e depois camulfla qualquer odor desagradável.
-Fechado! Disse o filho.
No final da tarde o corpo já estava dentro de um caixão numa das salas de velório do cemitério . Apareceu muita gente ,várias ex-namoradas , amigos de redação, alguns malucos que abraçam árvores no Jardim Botânico, um grupo de ‘tai chi’, restos de beatnicks , umas garotinhas vestidas roupas de Bali , e um bando de curiosos.
- Acho que alguém lia aqueles artigos de seu pai no “Natureza Louca”! Disse a ex-mulher .
O pessoal, no entanto, foi logo se despedindo quando anoiteceu.
- Sabe como é , essa onda de assaltos, essa violência toda da cidade……. Só restou a família, que também “não deu mole pra Kojak” e bateu em retirada, deixando o morto aos cuidados do vigia. Ficou combinado que o enterro seria às 11 horas do dia seguinte .
Ele, por incrível que pareça era o único defunto que apagara naquela tarde. Ficaria , portanto, ali sozinho com seu livro preferido . O ‘segurança’ foi tirar uma soneca numa outra sala. Talvez chegasse carne nova naquela madrugada, mas enquanto isso não acontecia , nos braços de Morfeu ele sonhava com bifes acebolados e batatas fritas , frangos assados , pudins em calda, ameixas pretas, sorvetes de chocolate, chantili……Na cena de seu sonho gastronômico não estavam incluidos dois convidados que se aproximaram respeitosamente do morto e sussuraram felizes:
- Cara, que pano maneiro!
Enfim um presunto com roupa que a gente gosta!
- Ó o tênis do cara. Aí, tira ele!
E não é que me serve!!??
Assim, foram despindo o defunto. No fim um deles notou: - Tem um livro aqui!?
-Qual o ‘titlo’? Perguntou o outro , vestindo a jaqueta Lee.
- ‘On te roade’,…
- Que negócio é esse ?
- É inglês, Mané!
-Vamos levar o livro?
- Não. Cobre as ‘coisa’ do cara com ele !
Assim , o nosso herói ficou nu ,com o livro de Kerouac servindo de tapa-sexo.
Enfim teve um enterro mais afinado com suas idéias…






