youPode

Arquivo para julho, 2009

Kerouac, quem diria…

19 de julho de 2009

( A história que vou contar aí embaixo é uma versão atualizada de uma  outra que já contei em  cantos remotos da web.  Tem a pretensão  de significar talvez o fim de uma era, e quem sabe o destino do livro nesse mundo louco da informação instantânea e do perigo que ronda até os cemitérios )

Esse não morreu de ‘overdose’, como um autêntico dinossauro . Apesar de ter sido um daqueles espécimes raros que viveram na era ‘lisérgica superior’( estágio civilizatório marcado pelo festival de Woodstock), nosso herói teve uma morte comum.
Saiu desta para melhor , da maneira mais convencional, como ele mesmo diria: ‘careta’ . Um simples enfarte fez com que o ‘relógio’ parasse de bater . Foi encontrado pelo filho na sala do minúsculo apartamento que tinha alugado em Botafogo, onde morava com seu ‘caos particular’. Assim ele chamava seu habitat . De fato era a uma bagunça de respeito : livros espalhados por todo canto, discos de vinil,uma velha vitrola ‘Garrard’ , jornais da déca de 60 , uma Olivetti portátil onde faltava a tecla b, pastas com artigos , ensaios ,crônicas, rascunhos de livros , um poster de Dubrovnik compunham a cena de um verdadeiro museu de quinquilharias onde se destacavam um narguilé e o esqueleto de uma barraca de camping. No meio disso tudo, ele ,trajando uma cueca samba-canção, jazia de bruços, com o livro ‘On the road’ de Jack Kerouac na mão.
Era uma tarde quente, o ventilador estava ligado e sobre uma cadeira , um cubinho de gelo ainda derretia dentro de um copo de mate.
O rapaz ligou para sua mãe, que muito prática , logo passou a a organizar o funeral , listando uma série de providências que deveriam ser tomadas… A irmã chorou um pouco , depois disse que não demoraria a chegar.
O rapaz , enquanto vestia o falecido pai, de repente , começou a rir ,quando lembrou de um pedido que o velho fizera num dia em que pegara a famosa gripe de Sidney .( como vocês podem ver, sempre tem uma gripe rondando o símio que pensa que evoluiu).
-Quero que toquem ‘Little Wing’ no meu enterro. Com o Hendrix solando aquela guitarra maluca! O velho tinha dito. Entre um espirro e outro, lembrou que teve essa idéia ao ver o filme ‘O reencontro’(The Big Chill), do Lawrence Kaskan , em que velhos companheiros de escola dos anos 60 se reúnem no funeral do mais pirado amigo: - Eles tocaram uma música dos Rolling Stones enquanto velavam o morto, eu me lembro….
Todos riram naquela ocasião, a morte , decerto tinha outros encontros marcados na sua agenda e não deu as caras . A gripe australiana se mandou e o nosso herói continuou sua vida jurássica , preso aos fragmentos dos anos em que se dormia num ‘sleeping-bag’ na beira de uma estrada e isso era considerado ‘um grande barato’.
A filha chegou com os olhos vermelhos e encontrou o pai vestido . Estava sentado no sofá, parecia que estava cochilando.A garota se assustou e logo tratou de deitá-lo: - Ajude aqui, temos que esticar o corpo dele, senão fica durinho nessa posição e nós vamos ter que enterrar o papai numa cadeira! Em seguida perguntou: -Tem certeza que ele vai vestido de jaqueta ,calça blue jeans e tênis?
-Achei que ele iria gostar, disse o rapaz. - Depois não encontrei nenhuma coisa que se parecesse com um terno no guarda-roupa? Mas tem uma outra coisa que me preocupa. Lembrei que ele queria aquela música do Hendrix no velório.
- ‘Little Wing’? Você se lembrou disso? Dessa vez ela riu também, e logo emendou: - Não! Papai que me desculpe, mas não vou pagar esse mico!
O irmão concordou que seria uma extravagância. Apesar da música ter uma levada suave , lembrou até que ela tinha uns sininhos tocando no fundo e um solo fantástico, mas definitivamente iria chocar a galera.

- É , mamãe também não ia gostar, eles não curtiam as mesmas coisas. Ela só ouve os clássicos!
Mas e a promessa que tinham feito ao pai “semi-moribundo!…. Os dois se olharam por uns minutos e um sorriso iluminou o rosto do rapaz. -E se enterrarmos ele com o livro do Kerouac ? Ele adorava o ‘On the road’, e além disso, parece que ele tinha apanhado esse livro na estante quando aconteceu….
-É , a gente espalha uns incensos também pela sala do velório, fica um clima bem hippie e depois camulfla qualquer odor desagradável.
-Fechado! Disse o filho.
No final da tarde o corpo já estava dentro de um caixão numa das salas de velório do cemitério . Apareceu muita gente ,várias ex-namoradas , amigos de redação, alguns malucos que abraçam árvores no Jardim Botânico, um grupo de ‘tai chi’, restos de beatnicks , umas garotinhas vestidas roupas de Bali , e um bando de curiosos.
- Acho que alguém lia aqueles artigos de seu pai no “Natureza Louca”! Disse a ex-mulher .
O pessoal, no entanto, foi logo se despedindo quando anoiteceu.
- Sabe como é , essa onda de assaltos, essa violência toda da cidade……. Só restou a família, que também “não deu mole pra Kojak” e bateu em retirada, deixando o morto aos cuidados do vigia. Ficou combinado que o enterro seria às 11 horas do dia seguinte .
Ele, por incrível que pareça era o único defunto que apagara naquela tarde. Ficaria , portanto, ali sozinho com seu livro preferido . O ‘segurança’ foi tirar uma soneca numa outra sala. Talvez chegasse carne nova naquela madrugada, mas enquanto isso não acontecia , nos braços de Morfeu ele sonhava com bifes acebolados e batatas fritas , frangos assados , pudins em calda, ameixas pretas, sorvetes de chocolate, chantili……Na cena de seu sonho gastronômico não estavam incluidos dois convidados que se aproximaram respeitosamente do morto e sussuraram felizes:
- Cara, que pano maneiro!
Enfim um presunto com roupa que a gente gosta!
- Ó  o tênis do cara. Aí, tira ele!
E não é que me serve!!??
Assim, foram despindo o defunto. No fim um deles notou: - Tem um livro aqui!?
-Qual o ‘titlo’? Perguntou o outro , vestindo a jaqueta Lee.
- ‘On te roade’,…
- Que negócio é esse ?
- É inglês, Mané!
-Vamos levar o livro?
- Não. Cobre as ‘coisa’ do cara com ele !
Assim , o nosso herói ficou nu ,com o livro de Kerouac servindo de tapa-sexo.
Enfim teve um enterro mais afinado com suas idéias…

Vizinha Chavista detona tudo

15 de julho de 2009

Minha vizinha chavista que andava meio sumida, voltou de Honduras faz alguns dias. E retornou com a corda toda. Disse  que esteve lá infiltrada , como agente do movimento bolivariano, depois que foi aplicado o tal do golpe de Estado, que até agora não se resolveu.
- Eu estava em missão secreta.
Ela me confidenciou que na verdade, o golpe era igual a uísque paraguaio, falso que ele só! Andou conversando intimamente  com cabos , sargentos e alguns oficiais e se inteirou de que nenhum deles sabia muito bem que golpe tinha dado.
- Uns afirmavam que era de direita, outros de esquerda, teve graduado  que disse até que o golpe era de centro. Uma bagunça danada! Faltou um manual, meu filho. Eles tinham a receita pela metade. O golpe solou!
- Não existem mais golpes como antigamente. Bote lá nos seus “grogues”.(ela quer dizer blogues).
- Como o companheiro Zelaya contou muita bravata, mas demorou demais para voltar, caí fora antes que fosse descoberta.
Pensei em dar uma passadinha na Argentina, para aprender os segredos da “chapinha” que faz o cabelo da Cristina (Kirchner) ficar lisinho e solto daquele jeito e aproveitar o câmbio para compar a calle Florida, mas fiquei com medo de pegar uma gripe suína pelos focinhos, então baixei direto  na linha vermelha, que para variar estava interditada devido a um forte tiroteio, segundo fontes oficiais - isto é dois simpáticos PMs que mandaram a gente se arrancar  de ré mesmo. O motorista tava tão acostumado que, calmamente me contou o drama do Romário e o tal do problema da  pensão alimentícia - enquanto balas procuravam endereços e só não nos atingiram porque não tinham o CEP do táxi.
-Engraçado né, (ela me disse pelo interfone) um dia é na linha vermelha, outro dia na linha amarela, eu acho é que tá faltando linha nesses tiroteios!? Um fluxograma, um planejamento. A bandidagem precisa urgente de um choque de gestão. Onde já se viu,  não pouparam nem Copacabana , nem o Leme. Todo dia tem tiro no cartão postal do Rio!  Onde é que vamos parar?

Falou que o taxista, que também era expert em desastres aéreos e segurança privada contou a ela que na rua Coelho Neto, no Flamengo, tem um prédio que instalou uma sirene, que toca toda madrugada quando algum assaltante ameaça não pagar o condomínio e se apropriar do alheio. Disse que a idéia  contaminou o bairro e outros síndicos gostaram tanto do sistema que vão instalar sirenes nos seus respectivos prédios. Pensam até em organizar um festival, com patrocínio da associação dos ladrões do Flamengo e adjacências.
- O pessoal da Tijuca também quer entrar nessa e até estão reivindicando junto ao Google, para essa empresa bolar um  “Googlemap-anti- assault”, para fornecer aos incautos que por lá trafegam…Vai ser fácil,  o usuário pega o computador e consulta o “Googlemap-a- assault” antes de sair de casa para ver como está a Conde de Bonfim, a Praça da Bandeira, a Saenz Pena. Se estiver tudo calmo por lá, sai de casa. Senão, procura outro bairro ou entra debaixo do edredom.
- Sem sacanagem, o movimento de Honduras é pinto perto do que aconteceu aqui na minha ausência foi uma verdadeira Revolução!  Até o Vasco está ganhando os jogos que disputa! Obina no Palmeiras fazendo gols! Dunga sendo consagrado como técnico! Rubinho Barrichelo reclamando do pessoal da Brawn!
E começou a enumerar as mudanças:
- Mudou o comandante da PM que é formado em filosofia… o Justus e a Eliana foram para o SBT. O Gugu, que era o herdeiro natural do Sílvio foi para a Record.  O SBT contra-atacou e teve até a contratação de roteiristas, entre ele  Tiago Santiago que escreveu a inacreditável novela ” Os Mutantes” - aquela  que tinha até dinossauros e é uma apropriação, digamos antropofágica da série Heroes e do filme X-Men , sem o Wolverine, é claro . E aí fez uma ressalva: - Aqui não tem um homem como Hugh Jackman! Então, ao final da frase deu um longo e tenebroso suspiro e continuou:
- A Íris também, com seus talentos sobejos, resolveu reescrever mais uma novela- agora  remexeu no baú da Janete Clair e descobriu quem está por trás daquela anúncio:”Vende-se Um Véu de Noiva” que é uma novela de rádio.(Iris é a Sra.Abravanel - mulher de Sílvio Santos. Minha vizinha chavista  tem por hábito falar de celebridades chamando-as pelo pelo primeiro nome- é bom irem se acostumando).
- Imagine só, até o Luxemburgo , o Muricy e o Parreira perderam seus empregos.
Por que você não vai procurar emprego lá no Palmeiras como técnico, ou na Record?  Lá tem vaga para roteirista. O Tiago Santiago também é sociólogo. Tu também não és, meu filho? Tudo a ver!  Ou então bota uma gravata e se apresenta para a vaga de  diretor de programação. Aproveita e dá uma reformatada naquela “Fazenda”. Ela ganhou da Globo no domingo passado durante 30 minutos, quando ocorreu a eliminação  da Luciele di Camargo, mas aquilo precisa ficar mais agitado. Dá uma maracujina pro Theo Becker e bota ele de  novo no meio da peãozada, o cara é um show. Vi uns vídeos dele andando pelado pela casa grande, falando sozinho, pedindo para a Andressa voltar pra ele. Tem mais: manda aquela menina, a cantora Danni Carlos tomar um banho de vez em quando e mostrar o “corpicho”.  Os velhinhos brizolistas da Praça do dominó estão curiosíssimos para ver o que ela esconde atrás daquela capa?  Ah! E leve uns analgésicos e anti-términcos pra Mirella e pra Sambambaia porque elas, ao contrário da outra, que economiza água, vivem embaixo do chuveiro. Vá gostar de tomar banho na Conchinchina! Essas meninas vão acabar pegando uma gripe ou ficarão com a pele ressecada. Leve muito creme hidratante também e umas Playboys pros meninos que parecem que estão precisados…
Senão arranja um crachá da Record e passa na frente do SBT, o contrato é certo…a grade deles é tão grande! Quem sabe não te botam no lugar daqueles seriados que eles estão cansados de reprisar. Não passe perto do Boninho que ele te tranca num daqueles galpões do Projac e você vai ter que comer barata para arrumar uns trocados para pegar a condução de volta!
Aí mudou de assunto:
- Meu Deus, como o Brasil gosta de ver gente se abraçando, Erasmo abraçando Roberto, Roberto abraçando Erasmo, até o  Lula anda abraçando o Collor!  O Presidente está tão bem com a  vida que resolveu entrar numa de perdoar…  O coitado do Sarney, é que tá levando bordoada adoidado. Só porque apoia o nosso grande líder , o sapo barbudo. Esse pessoal do tucanato e do demonato quer mexer com a Petrobrás. Vão acabar se sujando com o petróleo  que é nosso e ninguém tasca!
Foi triste ver o FHC comemorar sozinho o aniversário do Real…esqueceu do Itamar. Que topete! E O Mangabeira Unger que saiu do governo e não perdeu o sotaque americano, continua achando que está nos EUA, e foi ministro do Governo Obama? Falando nisso o Yes, We Can deve ter levado uma bela bronca da Michele por causa daquela inocente mirada no derrière da menina brasileira. Agora, quem ficou vidrado mesmo foi o Sarkô, que até dobrou o pescoço, vi tudo na internet.
Sobre o Michael Jackson nem quero falar, acho que você disse tudo nos seus “grogues”. Foi de Neverland para o Nevermore junto com o corvo do Alan Poe.
Curto mesmo é o velho Joe e a Latoya. O velho Joe apareceu no Fantástico com um mágico chamado Majestic, arrancaram 5 mil e 500 dólares de um repórter inglês desavisado para agendar uma entrevista e o velho Joe não deu entrevista coisa nenhuma e ainda por cima estava mascando chiclete no funeral do filho. Latoya diz que Jacko foi assassinado e logo em seguida anuncia que vai lançar um CD em sua homenagem. Só faltou anunciar que que quer também vender um Chrysler 1999 e dois terreninhos na praia de Malibu. E a Prefeitura de LA que pagou o mico de mais de 1 milhão de dólares para bancar a cerimônia do funeral. Tá parecendo a Prefeitura do Rio que ainda não fez o ato fúnebre porque  parou de enterrar  dinheiro na tal da Cidade da Música e o atual Prefeito, que não é bobo e  não tá nem aí para Jacarepaguá  só pensa no cais do Porto. Vai enterrar dinheiro na água. Peraí,  quem pensa em cais é marinheiro de viagem longa, pra pular do navio e correr pros inferninhos da Praça Mauá….Turista quer mesmo ver é Copacabana, Pão de Açúcar, Cristo Redentor, Lagoa Rodrigo de Freitas!!!

-E a novela das 8, digo das 9 ( O Caminho das Índias) ? Perguntei.
-Pra mim, o Bahuan vai acabar casando com o Raj, uma hora dessas vão rolar no carpete e o tal do Dr. Lucas vai adotar também o filho da Maya. Nunca vi um homem tão louco para adotar uma criança. Quase que dispensa a mãe e fica com o pimpolho! Maya vai ficar solteira ( nunca mais vai acreditar em homem) e vai montar um call- center  na Barra com sotaque indiano junto com a Yvone para apanhar otários e tirar as calças deles. Opash vai deixar Indira arrastando o sari no mercadão de São Paulo, e vai fugir com a Vera Fischer para o Som & Fúria que está sensacional com o ex dela retornando em grande estilo. Gopal casa com Raul e organizam uma sauna no Rajastão. A propósito: acho que a eletricidade não chegou ao Rajastão, pois eles vivem ainda no tempo das “lamparinas do juízo”. O Chacha e aquela velha ranzinza da Lacsmi vão se jogar na fogueira de São João em Varanasi. Shankar vai entrar numa de sair nos Filhos de Gandhi junto com Tarso que na Bahia vai pirar de vez e virar compositor popular de muito sucesso. O Dr. Castanho vai se corresponder com o ator americano que faz o Monk para aprender novidades sobre o TOC.  Norminha vai terminar seus dias num convento perto de uma feira, junto com as freiras. O Abel vai virar General na Legião Estrangeira…Essa novela é uma zorra mesmo!
Bem, vou desligar que estou com a língua cansada de falar mal dos outros. Vai por mim, corre lá pra Record e apresenta um roteiro de uma  novela que junte ETs  de Varginha , mula sem cabeça, coelhinho da Páscoa, Amy Winehouse  e Prince que você vai estourar no norte!

E aí desligou na minha cara.

Então, o que fazer?  Só sobrou você caro leitor:
Que tal a  minha idéia para a abertura da novela. Leia abaixo:

1- Uma nave espacial desce na Urca no meio de uma rave. Ao mesmo tempo, de um morro do Rio, um narcotraficante da novela “Poder Paralelo” tenta derrubar o OVNI com um lança- míssil coreano quando chega o Bope e o bicho pega com um festival de balas traçantes. Corta e esfola!

2- O míssil coreano, lançado pelo narcotraficante bate na nave , mas não a derruba, é desviado e cai no mar, onde explode fazendo uma chuva de peixes invadir a pista da rave.

3- Cena interna da Nave: Um ET fala para o outro: É ruim hein!!! (em linguagem marciana)

3- Cena externa: Na rave, todo mundo louco. O pessoal acha que a nave extraterrestre faz parte da produção e todo mundo começa a girar seguindo aqueles ruídos do filme do Spielberg. Pim pó pó pó pó…Pim, pó pó póo póooo…

4- Um alienígena desce da nave e é aplaudido de pé, ele não se aguenta e começa a dançar e faz os passos do “moonwalker”… O DJ tasca uma música do Prince e um sósia dele cai com uma moto no meio da multidão em exctasy…

Bem, vou parar por aqui senão alguém pode copiar minha idéia.
Bispo, me aguarde, que eu tô chegando!  Faltam só 20 laudas…

A maldição de Wim Wenders

11 de julho de 2009

(Esta crônica, conto, não sei bem o que é, só pode ser lida por quem ama ou odeia o cineasta alemão acima citado)

Maldito Wim Wenders ! Ele resmungava e socava a mesa de bar, cheia de garrafas de cerveja vazias que tremiam e faziam um ruído irritante.
- Ô Zaca, desce mais uma !
E lá vinha o dono do estabelecimento com uma Antártica geladinha, casco escuro, senão ele mandava de volta, dizia que era mijo invertido…
- Pois é, eu imaginei que tudo tinha começado com aquele filme… (Ele falava para um ouvinte invisível , pois o Zaca nem estava aí para o que ele estava falando, de olho fixo na TV , admirava uma mulata rebolativa que fazia o coro de um cantor de pagode da moda)
- Sempre achei que o veneno estava ali. Que foi com ele que matei aos poucos nosso casamento. Também, tinha que botar ela pra assistir três vezes “O medo do goleiro diante do pênalti”?
É preciso ser macho para aturar aquilo, e não foi só isso: inventei de levar ela pra ver “O Estado das Coisas” que estava passando numa sessão da meia noite do Cinema 1, coitada …Aquilo deve ter sido dose, mas não foi gota d’água, ainda não foi esse filme o que terminou com as coisas entre nós.
O rapaz estava de fato muito bêbado e parece que indeciso se botava ou não a culpa no cineasta pelo fracasso do seu casamento.
- Deve ser porque um dia eu falei pra ela que essa história de sujeito não existe. O sujeito da relação sujeito, objeto, entende? Falei mais, disse que a gente é uma indeterminação, um fluxo de vários discursos. Mandei na cara dela um papo de que somos produtos da linguagem. Que o autor morreu…E aí, Zaca, tá entendendo alguma coisa desse papo?
- Tudo, meu amigo, tô entendendo tudo.
-Não, você não está entendendo porra nenhuma, Zaca. Não vou ficar aqui citando autores. Basta dizer que é tudo francês e lembra “Quantrô”, que se escreve C-o-i-n-t-r-e-a-u, sacou? Falando nisso, desce um “Quantrô” aí, Zaca !
-Esse daí não tem não. Falou o homem, passando em revista as bebidas atrás do balcão.
- Então manda um Steinhaeger mesmo, que eu vou de submarino!
Zaca disse que esse também não tinha.
Então manda um “Fogo Paulista ” , que desta vez eu me acabo.
Zaca botou a bebida num copinho e o rapaz tomou num só gole. Em seguida arrematou com cerveja. Uma mistura explosiva, sem dúvida, mas que dava para avaliar o desespero do cara. Ele nem fez cara feia quando aquela química dos diabos invadiu seu estômago, continuou seu discurso encharcado.
-”Paris, Texas” ela até que achou legal. Caramba, tinha o roteiro do Sam Shepard , a trilha era do Ry Cooder em cima do “Dark Was the Night” do Blind Willie Johnson, aquela guitarra riffando bacana com as cordas soltas sob o dedo, presas num anel de aço como fazem os bluseiros. E tinha aquela coisinha maravilhosa que é Nastassja Kinskie. Ah, e para variar tinha o Wilson Grey deles, o tal de Harry Dean Stanton. O bicho estava em todos os filmes “cults” que fizeram naquela época….Porra, acho foram esses filmes que acabaram com tudo… maneira de dizer, mas no fundo creio que fui eu que devo ter virado um ser estranho naquela casa. Mas ela gostou de “Paris, Texas”, Zaca! Também pudera, Paris, Texas é um puta filme! E não é um filme cabeça…deve ser isso…acho que ela não curtia filme cabeça, Zaca!
Mas tinha a questão teórica, e eu era uma besta. Nem percebi que ela me olhava perplexa, enquando eu desconstruia as coisas que ela dizia, e me metia a falar de simulacros e simulações. Me lembro de um dia em que eu comentava que a realidade era uma ficção e ela estava falando alguma coisa sobre o supermercado. Aí eu acho que empombei e disse que esse sim era um grande exemplo do da sociedade se rendendo ao consumo , o supermercado como o templo do consumo. Puta clichê, Zaca! Como eu me afundei nessa… Olhe que nem falei dos shoppings, falei do grande fator diluidor que reside no núcleo dos supermercados - alcachofras ao lado de pasta dental e camisinhas. Produtos iguais na desigualdade, gôndolas, caixas registradoras, seguranças, uma prisão de prazer, uma prisão do consumo. E as meninas diante das caixas registradoras, todas naqueles uniformes de colégio interno…No fundo mais uma prisão. Ah! meu Deus, ela só queria que eu comprasse umas fraldas descartáveis e um pote de Hellmann’s! E eu cheio de conceitos.
Mas aí veio “Asas do Desejo” , depois “O Céu de Lisboa” , e teve também “Até o fim do mundo”….
Cacete, eu devia ter levado ela pra ver filmes da Meg Ryan!
Quando entrei numa de explicar o pós-moderno, ela aguentou firme . Só chiou um pouco quando eu disse que era o fim das grandes narrativas. Mas acho que o bicho pegou mesmo quando apareci com o vídeo “O fim da violência” para a gente assistir depois do Fantástico. Ela , eu creio, dormiu durante o filme. De qualquer forma, não entendeu o final e ficou me olhando com uma cara de bunda. Eu tentei explicar, e quanto mais eu explicava, mais ela se irritava, o caçula começou a chorar lá no quarto, eu acendi um cigarro, na chama do fogão que esquentava a mamadeira, ela mandou eu apagar, eu mandei ela para aquele lugar e acho que aí foi o fim. Cacete, e eu nem percebi… Muito tempo depois a gente resolveu dar um tempo. Sabe como é, desgaste da relação, coisas de casal…Em uma semana as coisas estariam consertadas. Passaram 3 anos…
Ontem, por acaso encontrei com ela no Estação Botafogo, tava com seu novo marido na fila de “Cada Um Com Seu Cinema” que é uma coletânea de 34 curtas de vários diretores. Cada um deles filmou 3 minutos- coisa muito avançada.Mas ela fez questão de me dizer que veio mesmo para ver a parte feita pelo Wim Wenders, os 3 minutos de “War in Peace”. Foi aí que eu pirei, “mermão”!
Zaca disse que não era bem assim, que certas coisas não se explicam. Sem que o rapaz pedisse ele abriu mais uma cerveja e desta vez botou um copo pra ele também. Como era o nome do cara mesmo?
- Que cara, Zaca?
- O que acabou com seu casamento?
- Tavinho, eu mesmo, seu criado…
E assim trincaram os copos num brinde melancólico.
Corta!

O futuro de Michael Jackson

5 de julho de 2009

Você pode não acreditar, mas Michael Jackson tem um futuro

No momento em que escrevo estas mal traçadas, tudo ainda é incerto em relação ao destino dos restos mortais de Michael Jackson. A mídia até agora só fez especular.  Fez dele gato e sapato, mas única certeza que ela nos dá é que o Sr. Jackson pediu o boné, e partiu desta para melhor.
É bom lembrar que este furo foi dado por um site de celebridades, o tal do TMZ, que só foi acompanhado de perto pelo Los Angeles Times. O resto do mundo ficou boiando. Alguém disse, com certo exagero, que a mídia já  o tinha matado antes. Usando do bom e velho estilo  sensacionalista, essa máquina de fazer doido (a expressão que alcunha a TV é do grande Stanislaw Ponte Preta e cabe como uma luva no complexo imediático) teria julgado o cara enquanto ele ainda respirava, atrás daquelas máscaras cirúrgicas ( que estão na moda atualmente no mundu sob influenza). É verdade que  as centrais de fofocas chafurdaram na lama  dos processos em que foi ele acusado de pedofilia. O rapaz chegou até a fazer uma música (Leave me alone) desancando os tablóides que inventavam notícias bizarras sobre sua vida, que convenhamos, não era risonha e franca.
Agora essa mesma mídia do massacre o transformou em boi do qual se aproveita tudo: cadernos especiais, revistas inteiras, suplementos, notícias diárias em todas as capas dos impressos e a todo minuto na internet e toda hora nos telejornais . Uma verdadeira avalanche de clipes e babás dando “depoismentos” contaminaram o mundo e espalharam o vírus MJ mais do que a gripe do porco. Pode-se dizer que quase esqueceram a crise financeira global, os desastres com os “airbuses” e outras coisas desse condomínio falido que chamam Terra.
As cerejas do bolo desta semana foram o aspecto químico da vida de MJ , seu testamento e o local do velório.  Pois é, a cada minuto que passava, um novo remédio aparecia no cardápio do astro. E  mais, revelavam  que ele já tinha passado há muito tempo do nível dos potentes analgésicos para o degrau perigoso anestésicos. Sobre o testamento, aquela coisa de escantear o pai, os brothers e a ex .  Agora, sobre o principal, que é saber onde vai ser o funeral, tudo que ficou nebuloso parece que se dissipa a cada nanosegundo. Primeiro ia ser no rancho Neverland, depois passou ser no ginásito esportivo Staples Center, que serve aos Lakers e mais outros 4 times de Los Angeles (que tem 20 mil lugares nas arquibancadas). A novidade é a exigência de ingressos que inicialmente  iriam ser pagos mas alguém teve o bom senso de dizer que são “de grátis” , só que serão sorteados. No tesouro da entropia, outra informação cruzou os céus e anunciou que  só americanos poderiam dar seu último adeus ao astro. Aí liberaram geral, e agora circula na rede que todo o mundo pode se inscrever. O problema é que só 17.500 ingressos serão sorteados . (Quem estabeleceu este limite?) e aí foi aquela enxurrada - em pouquíssimo tempo, o site oficial que recebe as  inscrições foi atingido por  500 milhões de acessos. Cheiro de confusão no ar…Dizem os sites informativos que a polícia de LA planeja uma mega-operação para terça-feira, que parece que vai ser de fato o dia do funeral. A prefeitura que está com a caixa baixa, vai arcar com os gastos usando um fundo especial que garante a cidade para o caso de catástrofes tais como terremotos e incêndios . Tem gente reclamando disso e a polícia avisou que só vai ter uma porta de entrada para acessar o estádio… o cheiro de confusão no ar aumentou significativamente…
Hoje, na hora do almoço aqui na periferia, soube pelo noticiário da TV, que o funeral vai ser mesmo na sede dos Lakers, mas não contará  com a presença do corpo do astro. Não sei porque  o cheiro de confusão está tornando o ar irrespirável e não tem nada a ver com o encanamento do condomínio.
Ninguém falou ainda em enterro.  Já teve quem dissesse que ele queria ser cremado e suas cinzas espalhadas no solo lunar, o que deve ser muito caro. Parece que vai  ser realizado mesmo, numa cerimônia com a presença só dos familiares e amigos no Cemitério Forest Lawn. Tem um site que botou até uma foto da cova para deleite dos necrófilos.
Longe de mim praticar uma heresia, mas pelo andar da carruagem, o fenômeno MJ corre o perigo de virar uma religião. Enquanto seus discos voltam ao topo das paradas de sucesso e DVDs são embalados frenéticamente, já se especula  nos sites de celebridades sobre uma fórmula de eternizar o astro de fato.  Alguém deu a idéia, que não é de se jogar fora, de “plastificar” o corpo do artista, isto seria feito com um processso em que o corpo é embalsamado em poliruetano. Tal procedimento é praticado pelo médico alemão,  Dr. Gunher Von Hagens (uma exposição do incrível trabralho desse médico passou pelo Rio faz pouco tempo). Seu corpo, então preservado dos vermes teria como residência um mausoléu na Arena O2, em Londres, onde ele faria os tais 50 shows.
Creio que ninguém tem dúvida de que MJ é um mito e seu culto continua em firme expansão, e olhe que a ficha ainda não caiu para seus ardorosos fãs( como se falava na época em que não existiam os cartões magnéticos), pois ninguém viu o corpo sem vida do ídolo.  Será que ficarão apenas com aquela foto dele “entubado” quando chegou (já sem vida ao hospital) e alguns minutos do filme do ensaio que fazia para encarar a maratona de 50 mortíferos shows?
Creio que a visão da imagem de seu corpo morto será devastadora para seus fiéis admiradores, e temo que vire uma questão de saúde pública (mental).
No mundo do business a coisa vai bem, obrigado. Só se pergunta  quando as relíquias (luvas, meias, cuecas, sapatos e brinquedos) serão leiloadas ? E para mostrar que show não pode parar, Madonna que chorou alguns dias, resolveu homenagear o amigo  e incluiu números dele em seu show Sticky & Sweet , que fez na noite de sábado (dia4) na O2 Arena de Londres. Todo mundo estava careca de saber que esse surto iria acontecer, pois,  mal o corpo tinha esfriado, e já se falava em organizar um “Tributo a Michael” com grandes nomes do mundo da música. Até aqui na perifeira, Claudia Leite, também não perdeu tempo e embarcou também nessa onda “homenageadora” em Salvador (como diria Odorico Paraguaçú )Teve jogador de futebol fazendo gracinha, imitando sua dança, depois de botar a pelota no véu da noiva. O negócio é sério, camaradagem! Até, na pacata Suiça  ergueram uma estátua de 4 metros do astro, com seu uniforme de gala.  Na hora da grande comoção da notícia de sua morte, vi hordas,  em algum lugar civilizado do planeta praticando aqueles passinhos chamados “moonwalker“. No Japão, onde ele é adorado, fãs se esvaem em lágrimas e fazem origamis em sua memória. E para quem  ainda não se converteu, está  na internet algo muito curioso e comovente -, uma homenagem  que é um chamamento. Ela foi feita por prisioneiros filipinos que dançaram suas músicas no pátio da prisão - todo mundo de laranja numa graciosa coreografia (bacana! mas eles já tinham feito isso antes)
Será que  ele corre o risco de se transformar num santo filipino? Não é nas Filipinas que existe uma tradição radical de crucificacão de fanáticos na sexta da paixão e um ritual público de autoflagelação?
Mas Michael Jackson não era Testemunha de Jeová ? As más línguas dizem que o inquieto rei do pop  tinha mudado de religião e abraçado a Nação do Islã. Não é à toa que o brother Jermaine Jackson disse o nome de Alá, no dia em que anunciou oficialmente o passamento de Michael.  Aí a coisa complica - o homem era um liquidificador cultural, estético, plástico, étnico e religioso - um exemplo concreto da desconstrução do sujeito…Se santo ele não pode ser, quem sabe não funda uma nova religião?  O papa não era pop? Pop por pop, Michael era o rei do pop!
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Como quase toda religião tem em sua gênese uma perseguição( e aí estou chutando), agora vamos ver o que diz o núcleo duro da crítica ao rei do pop- vamos ouvir aqueles que não acreditam no pop. Batendo no bumbo da oposição, críticos refinados, a maioria deles aristocratas e passadistas, afirmaram que Michael Jackson era uma mera cópia de Mick Jagger ( o curioso é o nome dos dois são abreviados como MJ ), e mais que ele era um pastiche dos ícones e descobertas originais da cultura de massas, outros afirmaram ser ele, no máximo um “entertainer“, aqueloutros ainda o chamaram até de “direitista” por causa daquela visita à Casa Branca na época do Reagan… Mas fazer o que? O cara foi convidado pelo Presidente dos EUA e ele era Michael, mas não era Michael Moore!

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Muitos que o elogiaram também erraram na dose - Ivan Lessa registrou seu protesto rasgando um jornal quando leu uma frase de um colunista (que ele até então respeitava) que dizia que Michael Jackson tinha morrido”com mil flechas cravadas no peito“.

Muita tinta vai rolar debaixo desse esquife! (como se dizia antigamente na época que existiam jornais)

Um amigo meu, dos velhos tempos de redação, me disse que um fenômeno tinha acontecido nessa história toda de Michael jackson, paradoxalmente a morte o tinha humanizado. Ele que era considerado um ET, no fim virou um homem, sujeito à lei da gravidade, apesar do moonwalker.
Eu disse a ele que concordava e que tinha escrito mais ou menos  isso nas entrelinhas da croniqueta “Jacko, humano, demasiado humano“, que publiquei  recentemente nesse blogue.
Só que nessa semana, vislumbrei algo nebuloso no futuro do falecido.(há quem diga que ele não tem mais futuro, tem apenas a eternidade- Oh, My God!)
Sei não(???), de qualquer forma, o futuro de Micheal Jackson é nebuloso.

Fico me perguntando, depois de ler Sir Frazer, quantas religiões não surgiram da névoa?