
Que toda la vida es sueño, Y los sueños sueño son.
(Calderón de La Barca)
Viena dezembro de 1899(*)
Bastante agitada, Kirsten M., uma das pacientes histéricas de Freud nem o cumprimentou direito, quando entrou em seu gabinete.
Jogou o casaco no cabide, tirou os sapatinhos de cor marfim , deitou no divã e já começou a falar, antes mesmo do médico se acomodar em sua poltrona.
-Herr doktor, tive um sonho muito movimentado, esta noite, que me deixou…digamos…hummm…toda úmida!…O senhor entende, não é? Somos feitas de matéria aquosa…lágrimas…nossos sentimentos vazam por todos os lados… Ela hesitou e então Freud a incentivou:
- Continue falando, vá juntando suas idéias sobre esse sonho que provocou tamanha reação aquosa em seu íntimo…
- Não, Herr Doktor! Quero contar o sonho,sem mais rodeios, não importa o quanto me deixou excitada, e que relação tenha ele com as minhas entranhas serosas…foi um sonho muito estranho, herr doktor!
- Então conte me logo esse sonho , procure lembrar dos detalhes desde o começo
- Pois não, Herr doktor: Meu sonho começa com um homem forte atravessando o umbral da porta de meu quarto. O detalhe é que ele estava em trajes menores ( ela quis dizer que não eram trajes pequenos, mas sim trajes íntimos que nessa época eram usualmente ceroulas que cobriam o tronco e as pernas até o tornozelo)… O homem tinha uma barba grande e negra e um nariz aquilino, sobrancelhas grossas, um turbante na cabeça…não me lembro de mais detalhes…
- Um “turban“? Exclamou Freud - logo seguir incentivou sua paciente: - Sim, sim, continue, está indo muito bem, diga o que ele fez quando entrou em seu quarto. Enquanto falava essas palavras animadoras pensava com seus botões: “O conteúdo é puro sexo, a barba,o nariz aquilino e para completar, o turban na cabeça sem dúvida é o prepúcio que oculta a glande…he he he… E o corpo coberto em trajes menores é o próprio falo que fala… hum, hum, saidinha nossa aquosa Kirsten!”
- Então ele sentou na beirada da minha cama, eu estava deitada e vestida com…
Freud mais uma vez interveio: - Fale, diga como era sua roupa.
-Eu estava vestida com algo transparente. Na verdade estava nua por baixo de um véu de odalisca…
- Ah! Um sonho árabe! De mil e uma noites, suponho!… continue, continue…
- Pois aí que vem o mais curioso, her doktor: ele disse que um rapaz chamado Gavrelo, ou Gravilo, não me lembro bem, iria atirar num nobre, veja só, em Sarajevo e isso iria nos jogar numa guerra aqui na Europa! No começo ninguém iria ligar, todos achariam que seria um conflito que iria durar pouco, mas que se prolongaria por cerca de 4 anos com grande número de perdas humanas…
E foi aí que ele… (ela hesitou)…
Freud paciente, disse quase sussurrando, conte,o que aconteceu.
-Ele abriu minhas vestes e tocou meu ventre…eu olhei para minhas partes e de repente fui transportada para um campo de batalha, na verdade, eram dois campos de de batalha, bem divididos. No meio, um lugar úmido, cheio do poças d’água e sangue, uma espécie de clareira, não sei bem…, era um terreno cercado de arame farpado, que ele chamou de terra de ninguém…
Freud franziu a testa e pensou; -” Que diabinha, vê o seu sexo como um lugar a ser conquistado - um território que ainda não pertence a ninguém, pelo qual os homens devem se matar… o sangue , me parece ser algo relacionado à menstruação”…E que mais, o que mais aconteceu? Perguntou….
- Só isso, her doktor, aí acordei, pois “mamã” veio ao quarto e abriu as cortinas e me disse que eu estava atrasada para a aula de piano. Meu professor já encontrava na sala esperando…nem tomei meu desjejum de forma satisfatória…
Freud deu por encerrada a sessão.
- Mademoiselle, vamos deixar esse sonho em suspenso, se lhe ocorrer outras associações, anote para que possa me contar na próxima ocasião. Como se sente depois de me falar sobre ele?
Aliviada, herr doktor, mas e essa ameaça de guerra e esse cenário terrível? Ah, me lembrei de mais uma coisa, ele disse no meio disso tudo, que um francês, antes do fim da guerra, iria submeter um “urinol” ao juri de um salão de artes-plásticas…e claro que seria rejeitado. E tem mais, que o czar, nesse mesmo ano seria derrubado por uma revolução comandada por um baixinho com cavanhaque chamado Vladimir Ílitch Uliánov… Diga alguma coisa herr doktor, que significam essas bobagens?
- Calma! Nem tudo pode ser analisado ao pé da letra. São sígnos, sinais de algo que seu inconsciente quer dizer e encontrou essa linguagem…podemos dizer, figurada, um tanto fantasiosa… Preciso pensar, confesso essa história me deixou perturbado. Seu corpo parece que foi tomado por uma convulsão nesse sonho…
Dias depois ela se encontrava mais aflita ainda…
Fechava os olhos no divã e tagarelava sem parar. Contou que o sonho voltara, só que agora o homem se encontrava nu sob uma manta. Permanceia com o turbante ainda, e falou coisas mais assombrosas.
-Disse que a Alemanha sairia derrotada e humilhada dessa guerra que falara no outro sonho. Só me lembro que tocou meus seios, primeiro o direito e falou que esse representava a retomada do progresso alemão depois de uma hiperinflação…
Freud ficou encabulado com o conteúdo explícitamente sexual desse sonho. O farto seio de Kirsten como um símbolo, um balão hiperinlfado.
- Quando tocou o outro seio falou das massas que seguiram um austríaco, um tal de Hütler, que tinha lançado seu manifesto numa cervejaria de Munique. A ponta rósea do meu seio, nesse intante, sofreu uma metamorfose, virou uma rosa e depois uma cruz gamada vermelha e por fim jorrou sangue em vez de leite….O que significa isso Herr doktor??? Estou enlouquecendo com essas visões catastróficas, essa possessão de meu corpo por coisas que desconheço!!!..Agora me confundo, não sei se foi ele que me disse ou eu que viajei por um campo de batalha, com muitos canhões com seus canos disparando sem parar, vi
alemães, poloneses, italianos, russos japoneses… todos guerreando contra todos…vi gente como a gente se dirigindo para campos cercados de arame farpado e cães ferozes. Nosso povo sacrificado, muito sofrimento, câmaras de gás, corpos se empilhando, fornos crematórios devorando cadáveres e no fim de tudo vi um cogumelo de fogo tomando os céus de duas cidades, que estranhamente não eram da Europa…vejo ainda nitidamente uma tigela quebrada derramando o arroz …uma flor de lótus, uma mulher em chamas…Nesta altura ela perdeu o fôlego, disse que estava com a garganta seca.
Freud foi até o outro cômodo e trouxe uma bilha. Enquanto ela bebia a água fresquinha, ele pensava que aquele inconsciente estava repleto de sexualidade reprimida, que se transformara numa angústia violenta, autopunitiva. O corpo daquela mulher estava em guerra…Como acalmá-la? Somente uma descarga energética orgasmática poderia aliviar aquela revolta interior. Mas como propor isso à uma dama. Sugerir a masturbação? Mesmo que explicasse em termos de uma economia de energia, como uma liberação de uma carga energética represada, seria difícil a ela entender. Talvez uns banhos frios?
Ou mornos? Quem sabe? Ele se confessava incapaz de encaminhar esse caso naquele momento.
Quando ela se recuperou de seu relato exaustivo, Freud disse que seria bom deixar o tempo passar, que no momento ele só poderia dizer que algo nela estava em estado de ebulição. Conflitos emergiam no sonho como bandeiras do insconsciente, e eram bandeiras iguais àquelas que se vêem em cenas de batalha. Recomendava a ela uma terapia física, nessa etapa da sua clínica. Indicava o uso de banhos quentes, que ela procurasse relaxar massageando os seios, depois o ventre e por fim se detivese na região genital. Que fizesse isso com movimento circulares dos dedos, bem lentamente, de forma que o sentimento fosse de prazer. Que pensasse em coisas boas enquanto fizesse isso. Não deveria se preocupar, se ao final sua aquosidade procurasse sair. Era uma coisa puramente física, mas que traria um bem estar , vamos dizer- espiritual a ela.
Kirsten não tomou por mal a receita de Freud. Disse que faria isso todos os dias até a próxima sessão. O médico percebeu que ela saiu bastante excitada do gabinete. Mas ela não esperou o tempo que havia combinado. No dia seguinte voltou mais agitada do que das outras vezes. Deitou-se no divã sem ao menos tirar o casaco e foi falando de forma meio desconexa… (para deleite do sábio ela fazia livre associação de idéias e imagens).
- Ele voltou, her doktor, estava despido, dançava em torno na minha cama. Disse com voz angustiada que uma espécie de pássaro feito pelo homem, algo como esses projetos de dirigíveis que andam fazendo moda na França e na Alemanha vão entrar na cidade de Nova Iorque e derrubar dois imensos edifícios, e depois vai
acontecer uma nova guerra, só que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Disse que Estados Unidos elegerão um presidente negro numa época em que grandes empresas vão falir, cidades inteiras serão arrasadas por ondas enormes, que as geleiras do Polo norte vão derreter, vai faltar água…. grandes áreas desérticas tomarão conta do mundo… Ela foi falando, falando,.até que exausta desmaiou.
Foi internada num hospital, onde se constatou que uma doença provocara cavidades no pulmão. Ela há tempos manifestava uma tosse seca, falta de ar e febre que se a visitava em horas bem determinadas durante o dia. O médico da família, herr doktor Otto, afirmou peremptoriamente que aquilo que ela dizia que eram sonhos, na verdade expressavam figuras de delírio, associadas ao estado febril da paciente. Do hospital foi levada para Davos-Platz, no cantão dos Grisões onde, no alto de uma montanha, havia o famoso Sanatório Internacional Berghof. Durante toda sua longa estadia, não foi notada por um jovem que para lá subiu, apenas para visitar seu primo Joachim Ziemssen. Ele também permaneceu por um bom tempo e se tornou famoso como personagem de romance alemão.
A família de Kirsten, achava que o ar daquelas montanhas traria de volta sua saúde e a afastariam daquelas imagens catrastóficas. Ledo engano, Kirsten infelizmente piorou, mas fez isso de forma lenta, ficou alí até a primeira grande guerra. Não se sabe o que aconteceu com ela, restaram poucos vestígios de sua existência, a não ser parte de um diário chamuscado (parece que houve um pequeno incêndio na ala onde ficava o quarto de Mlle. Kirsten). Nas páginas que sobraram ela relatou, entre outras coisas, seus encontros com Freud. O fogo devorou todas as suas anotações sobre o tempo que passou no Berghof, o que não nos deixa saber se aqueles sonhos recorrentes continuaram a atormentar a jovem. É bom que se saiba de um detalhe: ela de fato não se chamava Kirsten M. Seu nome ficou oculto sob esse pseudônimo, que era apenas uma forma utilizada por Freud para proteger sua verdadeira identidade de suas pacientes, como fez como Ana O, que na verdade se chamava Bertha Pappenheim.
A família de Kirsten, quando a internou no Berghof , fez questão de manter esse nome fictício, a pedido da paciente. (nessa época ela estava muito identificada com essa persona). Como não houve nenhuma disposição contrária, por parte da diretoria do santório a esse desejo, e considerando que para a influente família de Kirsten, era conveniente esconder o fato de ter uma filha afetada pelos males de uma doença mental , seu nome caiu no limbo. Pode-se dizer que estava nas mãos de Freud a chave desse segredo. Mas ele nada revelou . Deve ter trabalhado sobre o material onírico que Kirsten tinha lhe dado para interpretar, mas não publicou nada a respeito em sua vasta obra. Decerto, deve ter lembrado várias vezes dessa paciente, em sua vida, quando os sonhos da moça se transformaram em pesadelos na dura realidade da Europa daqueles dias…
(*) O livro “A Interpretação dos Sonhos” ( Die Traumdeutung ) foi publicado em 4 de novembro de 1899 pela editora de Franz Deuticke. Está para completar 110 anos de existência. Por uma desconhecida razão, talvez comercial, recebeu a data de 1900 na sua página de rosto. Peter Gay , grande biógrafo de Freud assinala que este livro de Freud assim fica sendo uma obra que apesar de ser “produto de uma mente moldada no século XIX, … tornou-se propriedade amada, tripudiada, inescapável - do século XX”)