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Arquivo para junho, 2009

Jacko, humano, demasiado humano

26 de junho de 2009

Confesso que de cara não acreditei na notícia de que Michael Jackson tinha morrido. Pensei que era um dos truques de cena dele, como aquele em que ele subiu numa limusine e dançou, antes de uma das audiências de um dos processos que ele teve que se defender de acusações de pedofilia. Nesse ato, o danado do bad-boy desmontava a solenidade dos tribunais. Dava a idéia de que ele iria tirar aquilo de letra.
Quando na TV o repórter disse que parecia que ele tinha morrido, pensei com meus botões que ele estava arranjando uma desculpa para não enfrentar a maratona de 50 shows que tinha pela frente e para a qual não estava preparado. Faz pouco tempo, tinha  lido uma matéria num site da internet, que informava que ele estava chateado, porque  pensava que eram menos shows  e não 50 apresentações…etc e tal…
O jornal Los Angeles Times já tinha dito que o astro tinha pegado o elevador, mas emissoras de TV demoraram um pouco para confirmar a notícia, e não deu outra: o rei do pop estava morto.  A confirmação de sua morte foi como uma bomba num vasto videoclipe que passou pela minha cabeça, e não era uma cena de “Thriller” - Michel Jackson agora dançava entre cadáveres de verdade.
Ele que já era um mito na sua vida extraordinária, agora então vai virar algo que não consigo imaginar.
Durante sua vida conseguiu transfomar sua natureza exterior numa metamorfose impossível de ser inventada por Kafka. Dizem que foram 50 operações. Com próteses e tratamentos dermatológicos radicais, ele se transformou muitas vezes. Não  tentem compará-lo  a um camaleão, pois esse bicho não muda sua forma - Michael Jackson quase se transformou numa criatura cubista. Seu interior parece que era de um menino que não queria crescer, dizem seus amigos e pessoas próximas. Não é à toa, e vou chover no molhado, que ele comprou um rancho que se chamava “Terra do Nunca” e vivia melhor entre as crianças.  Ele decerto tinha o complexo de Peter Pan, como afirma uma certa psicologia barata.
Dizem que era viciado em analgésicos, principalmente num remédio que tem o mesmo efeito da morfina, chamado “demerol”. O pessoal da fofoca descolou até uma música que ele teria feito em homenagem a essa droga. Tem gente que afirma que uma overdose dela seria a causa de sua morte. Muitas especulações vão rolar em peças baratas do mundo pop até em teses de mestrado e doutorado sobre multi-identidade, natureza e cultura na pós- modernidade etc e tal…
Saindo fora do folclore de sua pessoa, da sua hipocondria, da bizarrice e excentricidades de sua figura, da sua derrocada econômica, fica a sua obra resgistrada em vídeos e discos. E é impressionante. Não há qualquer dúvida de que  ele era um fenômeno. Além de compositor, era um intérprete fabuloso, e um dançarino-inventor de coreografias geniais. Pode-se dizer que era um ator total:  um artista completo que dominava toda a cena do palco, os efeitos especiais e os truques que comandavam as massas e as levavam a chorar , delirar e desmaiar. Pode-se dizer sua arte era uma performance única, irrepetível. Para executá-la era preciso uma força extraordinária, quase chego a dizer, uma imensa violência. Imagino que naquela aparência de meio-homem- meio máquina que se metamorfoseava na frente do público havia a ilusão de aquilo que poderia ser verdade. Isso exigia dele, mais do que o ser humano suportaria. Ser mais do que um homem de 50 anos - que na realidade ele era, apesar da aparência adolescente. E a tentativa de superar essa performance ou dar continuidade a ela, foi o principal motivo de sua morte.

Foi tentando essa missão impossível que ele sucumbiu. Um mártir do mundo pop que o imaginou super humano mas esqueceu que ele era apenas humano, demasiado humano. E para botar mais lenha na fogueira, olhando de uma certa perpectiva, pode-se dizer que  ele conseguiu vencer o tempo, talvez seu maior inimigo. Morreu jovem, aos 50 anos, pelo menos dentro da mitologia. Nunca o veremos velho, carcomido, cheio de rugas e cabelos brancos, cheio de manias, cercado de remédios numa mansão em decadência…

Pode parecer piegas, mas acho que chega perto de uma verdade que nunca saberemos.

Eles e Neda

21 de junho de 2009

Não se pode dizer que não se fale deles. Em geral não dizem seus nomes,  são citados como números nas manchetes dos jornais, quando não se transformam em porcentagens. Acredito que alguém ore por eles, como fez aquele médico em Hiroxima, o dr Hachiya. Algumas vezes não têm nada a ver com o que aconteceu por ali onde encontraram o fim de suas vidas. Podem estar no lugar errado, na hora errada. Testemunhas do grande fato histórico da deposição de um presidente, da tomada de uma embaixada, da explosão de um carro bomba ou mesmo da aniquilação de uma cidade inteira. Parecem que eles morrem assim, como quem não quer nada, como moscas esmagadas no processo que faz a História. A História que será contada e omitirá seus nomes. Pois quando as coisas voltam ao normal, ninguém mais fala deles. A vida segue seu curso, como se nada tivesse acontecido. Suas vidas, parece, ao que tudo indica, não tiveram nenhum sentido. E se tiveram, são somados aos outros que morreram. Somem, desaparecem no meio de outras notícias.

Os massacres, as chacinas que ocorrem a todo momento, acabam virando datas comemorativas. Os que morreram nem são como cometas, destes que passam rápido, mas deixam seu brilho. Não são fulgurantes, não incendeiam o céu.

Desta vez conheci Neda, parece que este é o seu nome, mas não se garante o sobrenome. Foi no blog do Noblat que eu a vi. Lá  ela aparece em dois vídeos. São tristes cenas que estão expostas no YouTube. Alguém registrou sua imagem em dois momentos. No primeiro. ela está ao lado do pai, no meio da multidão e num outro, ela já está no chão, morrendo. No começo seu rosto está limpo, ela parece assustada, logo começa a sair sangue pela boca e nariz. Neda era uma moça que estava com seu pai nas manifestações de protesto contra a eleição de Mahmoud Ahmadinejad no Irã. Era muito jovem, sua idade no entanto continua incerta, foi assassinada por alguém que provavelmente nem sabe que a matou. Os jornais do Irã não divulgarão sua morte, nem a TV…será um número nas contas dos assassinos.
É sempre assim, e não se pode dizer que não se fale deles…Desta vez sabemos ao menos o nome dela. É Neda e sua morte está sendo vista pelo mundo todo…Jamais esqueçam dela.

Traição e relação aberta

18 de junho de 2009

Vi hoje na TV que fizeram uma grande pesquisa sobre o hábito da traição no Brasil. A história que vou  recontar aqui pertence ao mundo antigo, quando numa certa época, para um pequeno grupo muito folclórico, não existia essa de pular a cerca.

Foi numa barraquinha de incenso da Carioca que ouvi esse “causo” amoroso. Um senhor grisalho, cabeludo e barbudo, de óculos redondos à la John Lennon, contava: “É isso aí, bicho, dos anos 60 aos 70, costuma-se dizer que rolou de tudo. Não quero nem lembrar, e mesmo que quisesse, meu camarada, não ia dar pé. Bateu um sudoeste na minha memória “mermão”. Mas, cara, acho que o anti-barato dessa época, aqui no Patropi foi que o pau comeu na casa de Noca, foi uma dieta-dura militar que não deixou saudades. Sai de baixo! Tem nego que foi e não voltou, teve nego que tomou um taxi na praia de Copacabana, saindo do “pier” e disse: -Toca pro Recife! Pois é, malandro, foi uma era “já –era” de experimentalismo tanto químico como místico. Tinha o Carlos Castañeda e sua erva do diabo , um cabôco do Mojave que baixava e a doutrina de que você deveria achar o seu lugar no mundo,o seu ponto místico geográfico, coisas assim, etc e tal… ou não!
Teve Woodstock e o hino americano explodindo na guitarra de Jimi Hendrix. No meio daquelas cabelos encaracolados, bandanas, roupas espalhafatosas, cheias de desenhos “lisérgicos”, florais e tendendo sempre para espirais , camisetas feitas artesanalmente com anilina  com calças boca de sino, muito “Are you experienced?” e Janis Joplin tocando sem parar na vitrola, que Carlão do violão conheceu Soninha da flauta. Na flauta mesmo, ela só tocava “Greenleaves” e adorava aquele filme sueco Elvira Madigan em que a heroina morre comendo frutinhas silvestres, se não me engano. A união dos dois pombinhos rolou numa praia, teve troca de alianças, na qual resolveram ter um casamento aberto….Eram tão hippies, que seus amigos os chamavam- ele de Amor e ela de Paz . Concordavam em tudo, inclusive no time, o Fluminense, que era a única caretice que ele cultivava, e ela acompanhava só para exercitar sua solidariedade universal.
Paz & Amor. O casamento perfeito! Uma relação que começou aberta e acho que terminou escancarada. Enquanto durou, eles curtiram adoidado contar como foi com os outros, com os quais dividiram a cama. Nada de promiscuidade. Não! Isso não rolava, não. Não curtiam um “ménage à trois”, mas transavam à vontade com parceiros que encontravam em noitadas, acampamentos, ou em bares onde pintava de tudo, inclusive um sujeito que só bebia coca-cola e um outro que olhava detalhadamente uma caixa de fósforos e dizia:- Gêeenio!
A química era essa: Carlão, ou melhor, “Amor”, se excitava com as aventuras sexuais dela e ela idem, idem e o relacionamento deles esquentava pra valer. Mas o diabo sempre se mete no meio desses relacionamentos felizes, e um deles apareceu e botou um sujeito bacana demais na vida de “Paz”. Como se disse depois, o cara parece que tinha pegada . “Amor” nem desconfiou, deliciado em saber como foi que o tal bacana fez “Paz” beijar o céu. Surfou na rebarba, feito mané-gostoso até que num domingo, ela disse que tinha que sair mais cedo, pois ia ao Maraca ver um jogo do Mengão. Do Mengão? – Que é isso, “Paz”? Você mudou de time? E o nosso Flu, para onde foi?
Ela hesitou….- É que o cara bacana que eu encontrei, sabe…pois é,… ele torce pro Flamengo.
Nesse exato momento  Amor percebeu que perdeu a Paz , o sonho tinha acabado definitivamente, e Santa Teresa nunca mais seria a mesma”.
Fim da história. Ainda bem, aquele cheiro de incenso estava demais para minha alergia.

Divina tatuagem

12 de junho de 2009

(Especial para o dia dos namorados)

Tatuagens podem ser consideradas marcas do nosso tempo. Sinais que envelhecerão com o corpo, e talvez se tornarão irreconhecíveis um dia, como as rugas. Antigamente ( em meados do século passado ) as tatuagens eram consideradas coisa de marinheiro ou presidiário. Significavam um estigma - um traço negativo, algo condenado pela boa sociedade. Das classes trabalhadoras à burguesia, passando pelas classes médias, havia um consenso de que tatuagem era coisa de marginal. Hoje quase todo mundo estampa na pele aquilo que bem entende e creio que no futuro, somente gente anormal não as usará.
Patricke era um rapaz que não se situava nem no mundo antigo,  da antitatuagem, nem no mundo digamos moderno da quase pós-tatuagem. Era um rapaz de bem com a vida, gostava de pagode,  música pop-sertaneja, de uma pelada no final de semana,  de feijoada,  churrasco, cervejinha, cinema de ação e corrida de fórmula 1. Seu único problema eram os dentes. Fracos viviam cheios de cáries, apodreciam com facilidade. Maltratados por dentistas distraídos, foram se perdendo, até que um mais atento, resolveu inserí-lo na era do pivô. Foi pivô pra cá, pivô pra lá e ele ficou com uma esplêndida dentição híbrida, por assim dizer.

Numa  quermesse do bairrro,  Patricke e sua dentição perfeita conheceram Madalena - morena de endoidecer, como diz a música de Djavan. Cabelos longos, magníficos olhos verdes, corpo escultural (todos os clichês da mulher gostosa).  Foi amor à primeira vista, coisa genética, como entre as moscas estudadas pela Universidade de Cornell (o que esta informação está fazendo aqui?). O que importa é que ele deu um “cerca lourenço” na moça, e com muita lábia, conseguiu marcar um encontro.  Investiu a grana da poupança num restaurante metido a italiano e o espagueti com vinho rosé rendeu umas saídas . Nesse período ele a levou ao cinema para ver filmes de amor- que não era a dele, mas sabe como são as coisas, é necessário algum sacrifício antes do “Exterminador do Futuro 4 - A salvação”- entrar em ação. Começaram a namorar nos conformes, ele falava até em noivado, casamento, filhos, o projeto da casa. Meses depois , estava tão apaixonado que resolveu fazer uma surpresa para a beldade - uma homenagem em forma de tatuagem. Pediu uma foto bacana dela e levou para um tatuador dos bons. O artista  fez o retrato do rosto da morena no ombro dele, sobre a superfície do músculo deltóide.
Agora, quando ele marcava gol na pelada, arregaçava a manga da camisa do time e depois de beijar sua mão, esfregava na tatuagem do rosto da namorada, que na arquibancada se sentia osculada …. O tempo passou, sem muitas intempéries . E num dia - o dos namorados, num arroubo de motel ele deu um beijo nela, daqueles de desentupir pia, e aconteceu uma tragédia, um pivô, que estava de bobeira, se deslocou da sua fabulosa dentição e foi no fluxo da paixão  se alojar na garganta da moça . Ela engasgou, correu para o banheiro, aflita, fez gargarejo, tentou botar o bicho para fora, mas no fim das contas, não teve jeito, acabou engolindo a obra de arte do atento dentista…
Paritcke ficou com cara de tacho, nem tentou dar explicações, só esboçou um  sorriso ecabulado que fez sua desgraça, pois  deixou à mostra  o vão, a vaga, a imensa garagem no seu antes impecável estacionamento dentário.  Exibiu-se como o mais novo sem-dentes da praça, um banguela de festa de São João. Foi o pontinho no nariz, um único pontinho que mostra a decomposição do cadáver intacto de que fala Barthes citando Dostoievski nos seus  “Fragmentos de um discurso amoroso” - que não tem nada que se meter aqui, mas que quer dizer o seguinte:  que o dente foi o fungo no enorme painel do amor,  que fez tudo craquelar. E foi rápido, logo surgiu no horizonte um outro rapaz, com dentes saudáveis de anúncio de Kolynos e ela se encantou.  Adeus Patricke!
Frívola? Não. Nada disso.  Essas coisas acontecem. Não é todo dia que se engole um dente, mas  o que aconteceria no próximo beijo, talvez deslocasse um ponte, sabe-se lá?
De Madalena só sobrou o retrato tatuado no ombro do banguela. Ele sofreu demais, mastigou o pão que o diabo amassou. Ainda bem que a família do rapaz resolveu mudar de bairro. Foi morar na zona Leste. Mas,  aquela tatoo começou a pesar, não só pela saudade, e ele tratou de escondê-la de todas as maneiras. Num calor de fritar ovo no asfalto, ele saia de camisa de manga comprida. Nos  dias de pelada,  só se trocava quando o último jogador saia do vestiário. Voltava para casa vestindo o uniforme do time por baixo da roupa. Um dia conheceu Aline, uma linda lourinha, muito religiosa, cheia de mais mais, que ele começou a namorar firme, mas só de portão e sofá. Passado um ano, a donzela topou, depois de muita saliva, ir para um motel- mesmo assim só depois de agendar noivado e oscambáus.  Marcaram de ir  no  dia dos namorados, para ficar mais romântico.
E aí veio aquele problemão , o retrato de Madalena tatuado teria que ser removido. Não podia correr nenhum risco. Fazer amor no escuro, nem pensar! Vai que num lance, a luz do abajur  revelasse o rosto sua ex…justamente na hora H. Que vexame! Ele imaginava e sofria…
Pensou em raspar. Disseram que o processo era caro e doloroso. Coisa feita com laser, preço que só bacana podia bancar, mesmo assim iria ficar cicatriz. Imaginou  simular um acidente, botar esparadrapo, bandagem… Não ia dar certo! Temia que a moça pudesse dar pra trás só para não machucá-lo mais…
Foi então que apelou para as forças celestes, foi até o quarto da mãe onde tinha oratório com santinhos e um crucifixo.  Começou a rezar  para ver se vinha uma luz na sua idéia. Foi aí que surgiu a solução: no bruxuleio da vela, ao fixar o rosto do filho do Senhor, ele viu a salvação… Saiu em disparada chegou no ateliê do tatuador e pediu: tasca um Jesus em cima do retrato da Madalena. O homem nem discutiu, e até  que foi fácil:  botou barba e bigode, engrossou as sobrancelhas e caprichou numa coroa de espinhos. E  foi assim que, num passe de mágica, Madalena virou Jesus.
Não preciso dizer que Aline adorou.
- Ficou divino, Patricke, você é mesmo um amor! Disse ela abraçando o rapaz sob os lençóis do motelzinho de beira de estrada da Zona Oeste. Estranhou apenas que Patricke beijava devagar, sem muito ardor.
- Vai ver que é o estilo dele! Pensou toda carinhosa. Só faltou música do Wando para tudo ficar perfeito.

Vizinha chavista detona “Jogo Duro”

8 de junho de 2009

Minha vizinha chavista está irada (para variar). Interfonou ontem, depois de ver o inacreditável espetáculo (segundo ela) de uma atração que rede Globo botou no ar, depois do Fantástico, o reality show chamado Jogo Duro.
(Não escrevi na mesma hora, porque o papo da vizinha se alongou pela madrugada e somente as corujas estavam acordadas e eu já não raciocionava mais)
Agora que consegui um tempo boto no ar o que ela disse:
- Escreva aí nos seus “grogues” (é a última vez que digo que ela se recusa a pronunciar a palavra blogue , por pura implicância com o internetês) que esse tal de Jogo Duro, na verdade é coisa feita para baixar de vez o nível da TV . O mundo está piorando…me lembrei do filme “Noite dos Desesperados”… Quem tem um mínimo de crítica, desliga. Não dá para desligar o mundo, mas a TV dá para desligar. Desliguem a TV!!!!
Esse Jogo Duro deveria se chamar Jogo Sujo, pois é uma competição sádica que humilha as pessoas (pobres pessoas!), que são obrigadas a entrar em roubadas, atuando em cenas aviltantes, com o intuito de pegar o máximo de dinheiro e enfiar na roupa . Enfrentam vermes, insetos, cobras , lagartos , escorpiões fake, vísceras de animais, cola , esgoto cenográfico, poeira, os cambaus por uns míseros trocadinhos! Onde está o Padrão Globo de Qualidade? Será que a Record está ameaçando atanto assim com aquela Fazenda do Britto Jr.? Onde está o Ministério da Saúde que não interdita essa tranqueira? Qual será o próximo programa? Tortura? Quem aguenta mais o saco plástico enfiado na cabeça sob jato de água constante, como no “protocolo de Guantánamo“? Ou vai ter choque elétrico, pau-de-arara ? Seres humanos estão sendo apresentados como animais de um zoológico monetário. Tudo por dinheiro!?
Tem mais, o Paulinho Vilhena é um bom ator, não merecia estar apresentando essa “coisa”.
***
Falou muito mais, mas eu não me lembro, mas sei que eram coisas cabeludas e barbudas. Mas se lembrasse não escreveria aqui.
NR_ Esse jogo, de acordo com matérias publicadas na internet, parece que foi bolado por Boninho, inspirado num programa chamado Estate of panic, criado por aquela empresa holandesa chamada Endemol, que tem brindado o mundo com uma série de reality shows muito criativos, entre o quais - se destaca o que exige maior capacidade intelectual, que é o Big Brother.

Kirsten, o pesadelo de Freud

7 de junho de 2009

Que toda la vida es sueño, Y los sueños sueño son.
(Calderón de La Barca)

Viena dezembro de 1899(*)
Bastante agitada, Kirsten M., uma das pacientes histéricas  de  Freud nem o cumprimentou direito, quando entrou em seu gabinete.
Jogou o casaco no cabide, tirou os sapatinhos de cor marfim , deitou no divã e já começou a falar, antes mesmo do médico se acomodar em sua poltrona.
-Herr doktor, tive um sonho muito movimentado, esta noite, que me deixou…digamos…hummm…toda úmida!…O senhor entende, não é? Somos feitas de matéria aquosa…lágrimas…nossos sentimentos vazam por todos os lados… Ela hesitou e então Freud a incentivou:
- Continue falando, vá juntando suas idéias sobre esse sonho que provocou tamanha reação  aquosa em seu íntimo…
- Não, Herr Doktor!  Quero contar o sonho,sem mais rodeios, não importa o quanto me deixou excitada, e que relação tenha ele com as minhas entranhas serosas…foi um sonho muito estranho, herr doktor!
- Então conte me logo esse sonho , procure lembrar dos detalhes desde o começo
- Pois não,  Herr doktor: Meu sonho começa com um homem forte atravessando o umbral da porta de  meu quarto. O detalhe é que ele estava em trajes menores ( ela quis dizer que não eram trajes pequenos, mas sim trajes íntimos que nessa época eram usualmente ceroulas que cobriam o tronco e as pernas até o tornozelo)… O homem tinha uma barba grande e negra e um nariz aquilino, sobrancelhas grossas, um turbante na cabeça…não me lembro de mais detalhes…
- Um “turban“? Exclamou Freud - logo seguir incentivou sua paciente: - Sim, sim, continue, está indo muito bem, diga o que ele fez quando entrou em seu quarto.  Enquanto falava essas palavras animadoras pensava com seus botões: “O conteúdo é puro sexo, a barba,o nariz aquilino e para completar, o turban na cabeça  sem dúvida é o prepúcio que oculta a glande…he he he… E o corpo coberto em trajes menores é o próprio falo que fala… hum, hum, saidinha nossa aquosa Kirsten!”
- Então ele sentou na beirada da minha cama, eu estava deitada e vestida com…
Freud mais uma vez interveio: - Fale, diga como era sua roupa.
-Eu estava vestida com algo transparente. Na verdade estava nua por baixo de um véu  de odalisca…
- Ah! Um sonho árabe! De mil e uma noites, suponho!… continue, continue…
- Pois aí que vem o mais curioso, her doktor: ele disse que um rapaz  chamado Gavrelo, ou Gravilo, não me lembro bem,  iria atirar num nobre, veja só, em Sarajevo e isso iria nos jogar numa  guerra aqui na Europa! No começo ninguém iria ligar,  todos achariam que seria um conflito que iria durar pouco, mas que se prolongaria por cerca de 4 anos com grande número de perdas humanas…
E foi aí que ele… (ela hesitou)…
Freud paciente, disse quase sussurrando, conte,o que aconteceu.
-Ele abriu minhas vestes e tocou meu ventre…eu olhei para minhas partes e de repente fui transportada para um campo de batalha, na verdade, eram dois campos de de batalha, bem divididos.  No meio, um lugar úmido, cheio do poças d’água e sangue, uma espécie de clareira, não sei bem…, era um terreno cercado de arame farpado,  que ele chamou de terra de ninguém…
Freud franziu a testa e pensou; -” Que diabinha, vê o seu sexo como um lugar a ser conquistado - um território que ainda não pertence a ninguém, pelo qual os homens devem se matar… o sangue , me parece ser algo relacionado à menstruação”…E que mais, o que mais aconteceu? Perguntou….
- Só isso, her doktor, aí acordei, pois “mamã” veio ao quarto e abriu as cortinas e me disse que eu estava atrasada para a aula de piano. Meu professor já encontrava na sala esperando…nem tomei meu desjejum de forma satisfatória…
Freud deu por encerrada a sessão.
- Mademoiselle, vamos deixar esse sonho em suspenso, se lhe ocorrer outras associações, anote para que possa me contar na próxima ocasião. Como se sente depois de me falar sobre ele?
Aliviada, herr doktor, mas e essa ameaça de guerra e esse cenário terrível? Ah, me lembrei de mais uma coisa, ele disse no meio disso tudo, que um francês, antes do fim da guerra, iria submeter um “urinol” ao juri de um salão de artes-plásticas…e claro que seria rejeitado. E tem mais, que o czar, nesse mesmo ano seria derrubado por uma  revolução comandada por um baixinho com cavanhaque chamado Vladimir Ílitch Uliánov…  Diga alguma coisa herr doktor, que significam essas bobagens?
- Calma! Nem tudo pode ser analisado ao pé da letra. São sígnos, sinais de algo que seu inconsciente quer dizer e encontrou essa linguagem…podemos dizer, figurada, um tanto fantasiosa… Preciso pensar, confesso essa história  me deixou perturbado. Seu corpo parece que foi tomado por uma convulsão nesse sonho…
Dias depois ela se encontrava mais aflita ainda…
Fechava os olhos  no divã e tagarelava sem parar. Contou que o sonho voltara, só que agora o homem se encontrava nu sob uma manta. Permanceia com o turbante ainda, e falou coisas mais assombrosas.
-Disse que a Alemanha sairia derrotada e humilhada dessa guerra que falara no outro sonho. Só me lembro que tocou meus seios, primeiro o direito e falou que esse representava a retomada do progresso alemão depois de uma hiperinflação…
Freud ficou encabulado com o conteúdo explícitamente sexual desse sonho. O farto seio de Kirsten como um símbolo, um balão hiperinlfado.
- Quando tocou o outro seio falou das massas que seguiram um austríaco, um tal de Hütler, que tinha lançado seu manifesto numa cervejaria de Munique. A ponta rósea do meu seio, nesse intante, sofreu uma metamorfose, virou uma rosa e depois uma cruz gamada vermelha e por fim jorrou sangue em vez de leite….O que significa isso Herr doktor??? Estou enlouquecendo com essas visões catastróficas, essa possessão de meu corpo por coisas que desconheço!!!..Agora me confundo, não sei se foi ele que me disse ou eu que viajei por um campo de batalha, com muitos canhões com seus canos disparando sem parar, vi alemães, poloneses,  italianos, russos  japoneses… todos guerreando contra todos…vi gente como a gente se dirigindo para campos cercados de arame farpado e cães ferozes. Nosso povo sacrificado,  muito sofrimento, câmaras de gás, corpos se empilhando, fornos crematórios devorando cadáveres e no fim de tudo vi um cogumelo de fogo tomando os céus de duas cidades, que estranhamente não eram da Europa…vejo ainda nitidamente uma tigela quebrada derramando o  arroz …uma flor de lótus, uma mulher em chamas…Nesta altura ela perdeu o fôlego, disse que estava com a garganta seca.
Freud foi até o outro cômodo e trouxe uma bilha. Enquanto ela bebia a água fresquinha, ele pensava que aquele inconsciente estava repleto de sexualidade reprimida, que se transformara numa angústia violenta, autopunitiva. O corpo daquela mulher estava em guerra…Como acalmá-la? Somente uma descarga energética orgasmática poderia aliviar aquela revolta interior. Mas como propor isso à uma dama. Sugerir a masturbação? Mesmo que explicasse em termos de uma economia de energia, como uma liberação de uma carga energética represada, seria difícil a ela entender. Talvez uns banhos frios? Ou mornos? Quem sabe? Ele se confessava incapaz de encaminhar esse caso naquele momento.
Quando ela se recuperou de seu relato exaustivo, Freud disse que seria bom deixar o tempo passar, que no momento ele só poderia dizer que algo nela estava em estado de ebulição. Conflitos emergiam no sonho como bandeiras do insconsciente, e eram bandeiras iguais àquelas que se vêem em cenas de batalha. Recomendava a ela uma terapia física, nessa etapa da sua clínica.  Indicava o uso de banhos quentes, que ela procurasse relaxar massageando os seios, depois o ventre e por fim se detivese na região genital. Que fizesse isso com movimento circulares dos dedos, bem lentamente, de forma que o sentimento fosse de prazer. Que pensasse em coisas boas enquanto fizesse isso. Não deveria se preocupar, se ao final sua aquosidade procurasse sair. Era uma coisa puramente física, mas que traria um bem estar , vamos dizer- espiritual a ela.
Kirsten não tomou por mal a receita de Freud. Disse que faria isso todos os dias até a próxima sessão. O médico percebeu que ela saiu bastante excitada do gabinete. Mas ela não esperou o tempo que havia combinado. No dia seguinte  voltou mais agitada  do que das outras vezes. Deitou-se no divã sem ao menos tirar o casaco e foi falando de forma meio desconexa… (para deleite do sábio ela fazia livre associação de idéias e imagens).
- Ele voltou, her doktor, estava despido, dançava em torno na minha cama. Disse  com voz angustiada que uma espécie de pássaro feito pelo homem, algo como esses projetos de dirigíveis que andam fazendo moda na França e na Alemanha vão entrar na cidade de Nova Iorque e derrubar dois imensos edifícios, e depois vai acontecer uma nova guerra, só que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Disse que Estados Unidos elegerão um presidente negro  numa época em que grandes empresas vão falir, cidades inteiras serão arrasadas por ondas enormes, que as geleiras do Polo norte vão derreter, vai faltar água…. grandes áreas desérticas tomarão conta do mundo… Ela foi falando, falando,.até que exausta desmaiou.
Foi internada num hospital, onde se constatou que uma doença provocara cavidades no pulmão.  Ela há tempos manifestava uma tosse seca, falta de ar e febre que se a visitava em  horas bem determinadas durante o dia.   O médico da família, herr doktor Otto, afirmou peremptoriamente que aquilo que ela dizia que eram sonhos, na verdade expressavam figuras de delírio, associadas ao estado febril da paciente.  Do hospital foi levada para Davos-Platz, no cantão dos Grisões onde, no alto de uma montanha, havia o famoso Sanatório Internacional Berghof. Durante toda sua longa estadia, não foi notada por um jovem que para lá subiu, apenas para visitar seu primo Joachim Ziemssen. Ele também permaneceu por um bom tempo e se tornou famoso como personagem de romance alemão.
A família de Kirsten, achava que o ar daquelas montanhas traria de volta sua saúde e a afastariam daquelas imagens catrastóficas. Ledo engano, Kirsten infelizmente piorou, mas fez isso de forma lenta, ficou alí até a primeira grande guerra. Não se sabe o que aconteceu com ela, restaram poucos vestígios de sua existência, a não ser  parte de um diário chamuscado (parece que houve um pequeno incêndio na ala onde ficava o quarto de Mlle. Kirsten). Nas páginas que sobraram ela relatou, entre outras coisas, seus encontros com Freud. O fogo devorou todas as suas anotações sobre o tempo que passou no Berghof, o que não nos deixa saber se aqueles sonhos recorrentes continuaram a atormentar a jovem. É bom que se saiba de um detalhe: ela de fato não se chamava Kirsten M. Seu nome ficou oculto  sob esse pseudônimo, que  era apenas uma forma utilizada por Freud  para proteger sua verdadeira identidade de suas pacientes, como fez como Ana O, que na verdade se chamava Bertha Pappenheim.
A família de Kirsten,  quando a  internou no Berghof , fez questão de manter  esse nome fictício, a pedido da paciente. (nessa época ela estava muito identificada com essa persona). Como não houve nenhuma disposição contrária, por parte da diretoria do santório  a esse desejo, e considerando que  para  a influente família de Kirsten, era conveniente esconder o fato de ter uma filha afetada pelos males de uma doença mental , seu nome caiu no limbo. Pode-se dizer que estava nas mãos de Freud a chave desse segredo.  Mas ele nada revelou . Deve ter trabalhado sobre o material onírico que Kirsten tinha lhe dado para interpretar, mas não publicou nada a respeito em sua vasta obra.  Decerto, deve ter lembrado várias vezes dessa paciente, em sua  vida, quando os sonhos da moça se transformaram em pesadelos na dura realidade da Europa daqueles dias…

(*) O livro “A  Interpretação dos Sonhos” ( Die Traumdeutung ) foi publicado em 4 de novembro de 1899 pela editora de Franz Deuticke. Está para completar 110 anos de existência.  Por uma desconhecida razão, talvez comercial, recebeu a data de 1900 na sua  página de rosto. Peter Gay , grande biógrafo de Freud assinala que este livro de Freud assim fica sendo uma obra que  apesar de ser “produto de uma mente moldada no século XIX, … tornou-se propriedade amada, tripudiada, inescapável  - do século XX”)

Vizinha chavista detona “Elas cantam Roberto”

1 de junho de 2009

Minha vizinha chavista interfonou e me acordou agora pouco,( madrugada de segunda-feira) de um soninho reprador, depois de um dia chato em que o Palmeiras empatou de novo.
- A Marília Pera achou o tom certo para aquela homenagem que a Rede Globo botou no ar, muito mal editada por sinal. (Elas cantam Roberto) Aquele treco que bolaram lá no Teatro Municipal de São Paulo e que foi ao ar para abafar “A Fazenda” do bispo.  Bote lá nos seus “grogues” (ela implica em não falar blogues) que a interpretação teatral que Marília Pera deu para uma música que falava de quilometragem , da indústria automobilística e do amor sobre rodas foi risível, mas foi o melhor momento do show. Meu filho, ela quase chegou perto da comédia pastelão! Só faltou aquelas cortinas despencarem em cima dela. Marília é impagável! Valeu ficar acordada!
Só fiquei com uma dúvida do tamanho do Anhangabau: onde estavam Maria Bethânia e Gal Costa? Não deu para entender a ausência dessas cantoras de importância, verdadeiras divas que deram a maior força ao “rei” nos círculos intelectuais da classe média - gente de formação universitária que virava o nariz para essa coisa de jovem-guarda e iê-iê-iê, que achava que era coisa de um bando de alienados!
Tá certo que Nana, Wanderlea, Fafá, Zizi, Alcione e até Hebe não destoaram , mas teve gente nesse show que acho que entrou na porta errada…

E foi aí que desligou na minha cara.Não entendi nada e voltei a dormir. Amanhã pedirei maiores explicações à minha vizinha bolivariana, na pracinha do Politiburo, onde ela se reúne com os velhinhos brizolistas para jogar um dominó.