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Arquivo para maio, 2009

Vizinha chavista diz para Vargas Llosa cuidar do seu Peru

30 de maio de 2009

Minha vizinha  chavista interfonou para dizer que desapaixonou de Roberto Justus de vez.
- Ele é casado, a mulher dele vai ter neném , isso cortou o meu enlevo!  Disse ela depois de um muxoxo,  mas manteve a porta aberta para uma amizade.
Ele mostrou que é bacana apesar de equivocado na sua avaliação do que seja empreendedorismo. O meu ex- “doce de coco” e seus charmosos assessores acham que um bom empreeendedor é aquele que fica pedindo esmola num país que habla espanhol, num estranho caminho de Santiago, não o de Compostela , que pertence ao Paulo Coelho, mas o do Chile, que foi do Pinochet.
Quer dizer que a senhora agora está noutra? Eu perguntei, enquanto passava manteiga “Aviação no meu pãozinho crocante.
É , meu ideal de homem é o Hugo! (ela se refere assim ao Presidente da Venezuela Hugo Rafael Chávez Frías, na maior intimidade)
Roberto(como se viu, ela tem por hábito chamar celebridades pelo primeiro nome) é maneiro, mas vacila. Soube disso quando o “Pânico” fez uma pegadinha com ele  e ele sacou logo a armação, mas não deu bola para o fato deles terem, malandramente editado a coisa, como se ele não tivesse descoberto a brincadeira. Se fosse outro, teria um chilique. Depois deu entrevista para um jornal popular e garantiu que não usa laquê naqueleles cabelos preteados. Mas mesmo assim eu magoei com ele por não ter aceitado a minha idéia de fazer um “Aprendiz 7- Terceira Idade”.
Sabe como é, nós que chegamos à fase dos cinquentinha também temos direito de respirar o mesmo ar que o meu ex- “doce de coco” da Record . Teve uns dias em que sonhei ser demitida por ele de maneira bem dura.  Mas agora, vou me contentar em assistir  ao novo “game show” (
“Quem quer ser um milionário”) que ele anunciou no fim do programa.  Você viu o final do “Aprendiz 6″?
- Confesso que não vi, acho que estava lendo as últimas linhas de um livro sensacional do Eric Lax, “Convesas  com Woody Allen”. Como foi a reta de chegada? A senhora achou legal?
- Ah! Deixe de ser sonso,meu filho! Eu sei que você deu uma olhadinha no programa. Mas mesmo assim vou te contar qual foi o resultado. Ele contratou aquela menina Marina, só pelos belos olhos azuis que ela tem.  Com aqueles olhos ela não vai ser estagiária, vai direto pra diretoria. O pior de tudo foi o mico das duas finalistas “UNIVERSITÁRIAS” na hora do teste das figuraças. Você precisava ver!!!! Pois não é que elas não sabiam quem era Margaret Thatcher!? De que mundo vieram essas criaturas??? Sei que uma só tem 20 anos e a outra 25. Marina, pelos meus cálculos nasceu em 1989 e a Rubinho Barrichello dela, em 1984. A conservadora baronesa Margaret Hilda Roberts Tatcher ascendeu ao poder em 1979, quando uma estava com 10  e a ou outra com 5 anos, o que não é uma boa desculpa para tamanha falha. Quer dizer que essas meninas estavam brincando de boneca quando a “Marga” mandava pacas naquela ilha perto da Europa. Mas não é preciso nascer no tempo de Charles I para saber quem foi Oliver Cromwell. Nem viver no tempo Henrique VIII para ficar por dentro da fama que ele tinha de pegador ? O que me espantou foi o fato delas dizerem  que se identificavam mais com a “dama de ferro”, sem saber necas sobre ela. Não sabiam que foi essa mulher quem ajudou a inventar o neoliberalismo e toda essa mierda que rolou no mundo depois: o endeusamento do mercado, diminuição do papel do Estado, a privatização de tudo, redução dos serviços sociais e essa crise toda que a gente tá encarando!!!! Pode-se dizer que ela desferiu um golpe quase mortal na classe trabalhadora. E tudo foi dar no “trabalhista” Tony Blair que agiu como papagaio de pirata do Bush. Tudo isso é coisa que até o cabelereiro do Justus está careca de saber. … Foi aí que ela mudou de assunto num tranco.
-Tô muito irada  com o Vargas Llosa, que é um grande escritor, mas  esse papo de se meter na situação venezuelana, tá me dando nos nervos. Ele disse, numa reunião de um bando de “intelectuais” pela Democracia, que o Hugo está levando a Venezuela para um regime totalitário comunista.  Bote lá no seus “grogues” ( ela nunca fala blogues - mas eu acho que é por pura implicância) que o Llosa tem que cuidar e do Peru dele!
-Por que ele não foi discutir democracia nos EUA na era Bush quando estavam torturando gente em Gantánamo por afogamento? E isso estava numa lei, ou coisa parecida, era aprovada lá pelo regime deles.
Intelectual bom é o intelectual orgânico.
(não tenho certeza o que ela quis dizer com isso. Talvez se refira aos intelectuais que frequentam a rede de produtos ecologicamente corretos Mundo Verde)
O Hugo até vai discutir com esses “intelectuais” enxeridos no programa de rádio que ele faz todas as manhãs. Será que os “intelectuais” vão conseguir acordar cedo???
Já disse: o negócio do Vargas Llhosa é com o Peru, ele que vá dar pitaco na terra dele! Ora bolas!!!
E desligou.

Falando sério, señor Llosa, tome cuidado com minha vizinha, ela é do balacobaco. Acabo de ver pela minha janela, passar voando um exemplar de “Pantaleão e as visitadoras”. Xi, olha lá um “Conversa na Catedral”!…”Tia Julia e o Escrevinhador”!..”A Cidade e os Cachorros”!… “A Guerra do Fim do Mundo”!…”Quem Matou Palomino Molero”?!….

Democracia é isso aí: livros para todos!

Filmes cabeça

22 de maio de 2009

(Nessa época de festival em Cannes, não resisti à idéia de republicar uma crônica - só que revista e ampliada. Espero que gostem pois não develveremos o ingresso).

Um homem numa cama com uma mulher. Só aparecem detalhes: o peito dele contra os seios dela; as nádegas dela, de perfil, enquanto cavalga o rapaz. A câmera sobe lentamente para o lustre que acende no momento do orgasmo dela. Fecha num close em seu rosto contraído. Corta para os dois adormecidos e cobertos por um lençol de cetim . O homem abre os olhos e estica a mão para uma pasta, de onde retira um facão de caçador. Na cena seguinte, ele entra num elevador com a cabeça da mulher debaixo do braço envolta num saco plástico. Este é o típico filme americano de serial-killer.

Se o mesmo ator entrasse com sua própria cabeça debaixo do braço, seria um filme de Buñuel e Salvador Dalí. Agora, se um casal entrar num elevador , perder a cabeça, no meio do caminho apertar o botão de emergência para travar a geringonça e inciar um caloroso ato sexual na frente da câmera de vigilância, o filme é brasileiro. O pacote incluirá um corte para a sala de controle dos vídeos do edifício, onde porteiros e seguranças se deleitam em frente a vários monitores. Não se impressione com as exclamações cabeludas que eles emitem.

Se um travesti que entra no elevador com a cabeça de um homem e explica para o ascensorista que se trata do amante de sua mãe, que, na verdade, é seu pai, um toureiro “drag queen” que se apaixonou
por um enfermeiro morfinômano, então é um filme de Almodóvar. Só falta escolher uma trilha sonora com Bola de Nieve, cenários misturando roxo-batata, tons de vermelho e rosa-choque.

No caso de o homem entrar no elevador, cortar a cabeça do ascensorista e depois recitar umas frases de Hamlet, o filme será do pessoal do Dogma. Todos que estiverem no elevador agirão normalmente, como se nada tivesse acontecido. E não vai ter nenhuma musiquinha de fundo.

Se o homem, antes de entrar no elevador sem nenhuma cabeça debaixo do braço, ficar contando em detalhes para uma mulher entediada, num café, fumando muito, o seu desejo de um dia entrar com a cabeça dela num elevador, então, é um filme francês, provavelmente do Godard.

Mas, existe a possibilidade dele não entrar no elevador, e nem falar na tal cabeça, que poderia um dia carregar debaixo do braço. No lugar disso, discorreria sobre a sua dor de cabeça. Falaria da angústia, das amarras que a vida cria para manter um crânio grudado num corpo que não o quer ali. Então, é um filme sueco à la Bergman.

Tem também a possibilidade de duas crianças pobres perguntarem ao paupérimo pai o que significa  a palavra elevador. Ele não dirá nada. Na cena seguinte os três se encaminharão para uma praça. Lá um balão branco, desses de aniversário sobe por entre as árvores , ao mesmo tempo uma pipa serpenteia no azul do céu. O pai aponta o balão e depois a pipa. O balão se perde no infinito. Os olhos das crianças se voltam para a pipa que se solta do barbante e cai sobre a cidade. No final, todos cabisbaixos, arrastando seus tamancos, voltam para casa. Esse filme, com toda certeza é iraniano.

Agora, se um homem entra apressadamente no elevador com uma mortadela debaixo do braço e começa a bater a cabeça nas paredes e em seguida fica chorando no ombro da ascensorista  - decerto é um filme italiano.  E mais  ainda se os dois começarem a fatiar a mortadela. Aí é batata : italianíssimo!

No filme indiano, o cara usa a cabeça para ganhar um milhão.

Para dizer a verdade, não sei como terminar essa crônica, nem onde estava com a cabeça quando comecei a escrevê-la.

Vizinha chavista exulta com Fátima Bernardes

21 de maio de 2009

Minha vizinha chavista estava exultante quando interfonou para meu apartamento, antes da novela Caminho das Índias começar. (que ela não perde nem mesmo em dia de apagão).
-A Fátima Bernardes é uma revolucionária! Só podia ser uma mulher para ter tamanha coragem.
Hoje  é um dia histórico- precisamos comemorar, meu filho!
Por que? Perguntei, apreensivo.
-A Fátima (ela sempre trata as celebridades pelo primeiro nome) disse a palavra “xixi”  em pleno Jornal Nacional. Imagine, xixi!
Bote isso nos seus “grogues”.(dispensável dizer que ela nunca consegue falar “blogues” - por pura implicância- creio eu). É sinal que o jornalismo Global está mudando.
Agora estou ansiosa para escutar ela falar a palavra cocô. Aí vai ser a glória!

E desligou.
Sinceramente, não sei o que dizer. O telejornalismo, decerto está em processo de transformação e eu estou mais por fora do que umbigo de vedete.

Vizinha Chavista acha que Roberto foi injustus

21 de maio de 2009

Minha vizinha chavista, ao que parece recuperou um pouco de sua veia crítica. Isso aconteceu depois de ter uma recaída ideológica por causa do seu gato Chulé. Tudo começou numa noite em que ela deu uma cochilada, depois da novela “Caminhos das Índias”. O danado do bichano ficou brincando com o controle remoto e trocou de canal. Sintonizou a TV  na Record, e foi aí que ela- saindo do cochilo, viu e ouviu o trinado de Roberto Justus que cantava maviosamente para os candidatos de seu programa “O Aprendiz 6 - Universitário”. A partir desse momento lindo, a  ativa quinquagenária bolivariana gamou no empresário. Esse fato a princípio causou espanto no “Condominio do Barulho” , mas depois a sensação foi de alívio, pois com seus devaneios românticos, ela deixou em paz o síndico, os porteiros, os seguranças e o pessoal da limpeza, que ela vivia perturbando com suas exigências e catequese chavista. Aqui em casa, minha mulher  e eu nos preocupamos com o coração da veneranda senhora. Olhe que ela foi até ler o blog do Bispo Macedo e ficou horrorizada com as cenas da Índia real que ele “postou” e que não aparecem na novela Global: cadáveres boiando no Ganges sendo devorados por urubus (Vem cá: na Índia tem urubu?)enquanto outros bebem aquela água “sagrada” e outras barbaridades que ferem as normas de higiene e saúde. Mas nossa inquietação com seu estado de alma foi aliviada quando  ela interfonou depois de “O Aprendiz 6″ de terça-feira,  para dizer que discordava da decisão de Justus, que demitiu  dois candidatos numa só canetada: um rapaz chamado Rodrigo e uma moça de nome Mariana.
- Bote aí no seus “grogues” (acho dispensável dizer que ele nunca consegue falar a palavra “blogue” - por pura implicância” - penso eu) que eu discordo do “doce de coco”!
Eu que já tinha esquecido quem era o tal manjar adocicado, perguntei.Que doce de coco?Dona….(eu também não consigo me lembrar do nome dela - mas acho que é das falhas do meu HD mesmo)
- E quem seria o “doce de coco” da Record? O Justus, é claro! Se bem que o simpaticão de meia idade do Walter Longo não é de se jogar fora. O  Cláudio Forner também possui um charme gaúcho irresistível…
Eu estava com pressa para sair com minha mulher para comer uma pizza aqui perto de casa e quis abreviar esse papo: - Quem são esses caras?
-São  os auxiliares de palco de Justus no programa, pôxa! Você não tem visto “O Aprendiz 6″ não?! Você esqueceu da nossa última conversa?
-Desculpe, mas eu ando meio fora de órbita com esse negócio de CPI da Petrobrás, que acho que vai sobrar pra mim, quer dizer para we the people, e só vejo esse programa de vez em quando, porque considero uma ótima comédia de costumes. Respondi, seco,  dando a entender que não queria muito papo.
-Pois  não sabe o que está perdendo! Estamos vivendo um momento emocionante desse reality show empresarial corporativo! No último programa, o Justus e seus auxiliares de palco erraram feio. Basearam suas decisões no montante do vil metal que os candidatos conseguiram, numa atividade de comércio que os pobrezinhos tiveram que enfrentar.  Fiquei irada, pois acabaram  dando a  vitória para duas meninas que mais funcionaram como “sacoleiras” -  camelôs de rua, do que futuras empresárias. E pior, essas garotas ( Marina e Stephanie) ganharam uma viagem para o exterior. Foram para Londres num merchandising explícito de uma  companhia aérea…Ainda bem que o horário em que passa o programa é impróprio para menores!
Agora me diz uma coisa: a Guarda Municipal lá de São Paulo está dormindo no expediente?  O Justus deveria demitir a Guarda que não foi com o “rapa” pra cima das gurias…Não é assim que eles fazer  com os camelôs da 25 de março?

Nem questionei se  em Sampa tem Guarda municipal - fiquei na minha para ver se o papo murchava, mas necas. Ela continuou:
-… Conclusão: botaram no banquinho dos réus duas duplas de candidatos que - ao meu ver,  foram  muito mais interessantes. Tá certo que uma dupla atacou de ” camelô de madame”. Pois é, as duas meninas em questão (Ana Paula e Mariana) escolheram vender jóias em salões de beleza  da parte rica da cidade. E olhe que conseguiram vender jóais caras!  A outra dupla composta pelo Rodrigo e pela Karina, optou por vender serviços na área da web. Usaram o know-how  do rapaz  para montar sites de empresas. Conseguiram clientes e funcionaram e isso é uma coisa complexa. Essas duplas ganharam menos grana que as sacoleiras, mas escolheram “nichos” de negócio altamente rentáveis, uma vendendo produtos de valor unitário elevado - no caso das jóias e o outro escolheu oferecer serviços especializados e ferramentas de tecnologia de ponta.Não estou falando de flecha não nem de peixeira! Vamos e venhamos, essas duas duplas foram bem mais chiques do que aquela que foi vender camiseta de times de futebol em porta de estádios.  E  nem se fale que  serviços na área de informática, tecnologia de informação etc., constituem - agora e no futuro o caminho para onde os negócios irão se deslocar- vai ser tudo OnLine, meu filho! Faltou ao trio “Demite que eu gosto” uma certa perspectiva histórica do desenvolvimento do capitalismo. Pensaram a curto prazo, foram vítimas do imediatismo do vil metal. Falam em complexidade só no discurso, na real vão de Central do Brasil mesmo. Só faltou dar um troféu Silvio Santos para as garotas, que foram conhecer o Palácio de Buckingham , a Abbey Road, aquela roda gigante ridícula e nem foram ao principal endereço da Grande Albion que é o 10, Downing Street, a casa do Primeiro Ministro Gordon Brown.
Tenho a impressão que um pouco de Gramsci  na formação educacional do “doce de coco” e seus “docettes” não seria um mau negócio. O texto “Americanismo e Fordismo”  deglutido com  um “fonduezinho”  na noite gelada de Campos de Jordão cairia bem pacas! Mas o que fazer? Eles são muito bem sucedidos na vida  para enxergar essas coisas miúdas. Só pensam nas alturas de Aspen… Você sabe que ando lendo sobre o pós- fordismo, pós-modernismo essas coisas, mas só depois que termina  a novela da Glória
. (acho dispensável dizer que ela chama as celebridades pelo primeiro nome).
E o Roberto ainda por cima esculachou a  Mariana porque a menina quis dar uma de fina. O meu “doce de coco” deixou aquela lourinha  esquentada da Ana Paula ir pro Sheraton….Pode? Magoei!
Foi aí que minha mulher - normalmente um ser pacífico - entrou em ação. Tomou o interforne da minha mão e mandou essa:
-Minha querida, é um prazer te ver recuperada, mas agora temos um encontro com o pizzaiolo do Palmiro Togliatti(*)…
E assim escapamos do começo de um longo discurso notte addentro,  e tudo acabou em pizza, como tudo no Brasil.
(*) Foi dirigente do Partido Comunista Italiano, o famoso PCI .

Caos calmo é porrada!

17 de maio de 2009

A frase em italiano: l topi non avevano nipoti (mal traduzindo:”Os ratos não tinham sobrinhos”) é um palíndromo. Chama-se de palíndromo uma palavra ou frase que é reversível - que ao ser lida ao contrário, forma a mesma frase ou palavra. Caos Calmo trata de um assunto que se expressa numa só palavra : morte (que não dá palíndromo). O filme trata do que fazer diante da  irreversibilidade da morte, da sua realidade bruta, da devastação que pode levar  ao desencanto de tudo, ao caos,  à imensa perplexidade diante do mundo e da vida, à paralisia que se assemelha à uma estranha calma. Os jogos reversíveis que se podem fazer com a palavra  morte, no  máximo resultam nas palavras temor e termo- ou seja: medo e fim. Algumas culturas possuem  uma compreensão diferente da morte.  É vista como algo que não é o fim da picada, nem os sujeitos dessas culturas vivem com medo dela. Mas no nosso querido ocidente, as coisas não são bem assim.  Existe um ritual, de dor, de luto, e depois o que fazer? Vida que segue!
O  filme de Antonio Grimaldi mostra isso, com uma mirada bastante interessante. A história é  baseada no livro de Sandro Veronesi, com roteiro de Nanni Moreti, Laura Paolucci e Francesco Piccolo. Trata basicamente da “reação” de um sujeito raro - Pietro Paladini, (vivido por Nanni Morettti) à morte de sua mulher que ocorre ao mesmo tempo em que ele e seu irmão salvam duas mulheres que se afogavam numa praia. As circunstâncias dessa morte não são mostradas. O filme se concentra no caos que se instala na vida de Paladini- a difícil situação de encarar a imensa dor da perda e o vazio que resta depois que sua mulher se foi. O  que torna o filme intrigante é  a inusitada decisão desse sujeito que  resolve largar tudo para ficar perto de sua filha. Ele radicaliza isso de tal forma que seus dias se resumem a se preparar como um executivo, com seu terno e gravata e se plantar em frente à escola de sua filha esperando que ela saia para voltar para casa. Ele a cerca com seus cuidados de pai e num compromisso silencioso, não tocam na morte da mãe. Essa atitude de proteção (obsesssiva) ocupa o lugar do caos- e o faz evitar por algum tempo a dor. Enquanto isso, rola um imbroglio que envolve a fusão da empresa onde ele é um dos diretores. O fato é que ele passa a despachar, nos lugares próximos à escola de sua filha: dentro do carro, no restaurante, no banco da praça, etc. Nesse “não lugar” que ele transforma no seu ponto de vigia  e extensão de seu escritório, ele vai conhecendo gente nova que passa por alí. Um menino com síndrome de Down com o qual ele brinca acionando a chave eletrônica do “liga desliga do carro”,  a jovem desconhecida  que leva o cachorro para passear e o cumprimenta mas que ele desconhece etc…
Apesar do tema pesado, Caos Calmo não é um filme monótono, o roteiro faz com que várias situacões se cruzem  e em  alguns momentos chega a ser cômico - rola até uma cena caliente de sexo.
É interessante que se  recorde que o tema da morte, e o que fazer quando ela acontece não é estranho a Moretti,  esse ator (e diretor)- o abordou  no premiado O quarto do filho (La Stanza del Figlio)surpreendendo a todos com um filme que é uma “porrada”, pois, no começo, se esperava desse artista italiano uma espécie de Woody Allen latino. Quem foi nessa quebrou a cara.  Moretti é  “uma figura excêntrica”, como me revelou um dia um sujeito numa roda de bate-papo num evento do Jockey Clube de Roma.
(NR: no final da década de 90 fui junto com meu filho a Roma buscar minhas raízes- como quem tem raíz é árvore, não encontramos nada, numa aldeia dos arredores tinha uma rua em que só moravam Liberatis. Era muita gente  e quem sabe, tudo parante)
Voltando àquela noite do Jockey,  acontece que esse cara, pouco depois me informou que tinha sido empresário da banda de  música caribenha que havia participado de Caro Diário - um dos primeiros filmes de Moretti. Confesso que passou pela minha cabeça tentar uma entrevista com Moretti - mas tínhamos pouco tempo e muitas raízes simbólicas para tentar arrancar. Caro Diário é um filme crítico que pode realmente ser considerado uma comédia - lembra um pouco Woody Allen, só que mais ácido. (mas não dá para comparar). Quarto do filho não tem refresco. É um filme que nos leva às lágrimas pode ser considerada sua obra-prima. Caos Calmo não chega a ser tudo isso, mas é um ótimo filme e merece ser visto.
Para finalizar, só três observações: 1- Na contracapa do DVD o pessoal escreveu que era para prestar atenção na  atriz Kasia Smutniak( no papel da moça bonita de nome Jolanda que passeia seu cachorro pelo parque onde Paladini passa seus dias), pois ela apareceria com uma camiseta da recente turnê do The Who, conjunto preferido do diretor. Acontece que perdi meu tempo  procurando  a tal camiseta e necas.
2- Ninguém informa que o maravilhoso cineasta Roman Polanski faz uma ponta (decisiva) no filme, no papel do misterioso Steinerr. O baixinho foi esquecido pelo pessoal que escreveu a contracapa - esta sim é uma informação interessante (viu pessoal da contracapa!).
3- Um filme como este merecia um Bônus - Um Extra com mais informações. Com comentários de Moretti, do diretor, do Polanski e principalmente da Kasia Smutniak que só tem uma fala no filme.

Os Coen, os idiotas e os velhos

13 de maio de 2009

Os irmãos Coen são mesmo uns sacanetas. Sempre gosto dos filmes deles(*), mesmo os que são “meia boca” como esse “Queime depois de ler” (”Burn after reading“) que tem cara de comédia, e até parece comédia de humor negro, mas no fundo é um exercício de ironia. Essa ironia dos irmãos Joel e Ethan Cohen é sutil, satiriza o comportamento e as instituições americanas, que acho que eles observam de uma maneira meio malandra, sacando o que está por trás da coisa, ou mesmo o que não está por trás. Veja o  caso de “Queime depois de ler”. É uma série de trapalhadas de sujeitos de meia idade que beiram a idiotia e envolvem até a CIA. O único “jovem” na parada é Brad Pitt, que interpreta Chad Feldheimer - um personal trainer desmiolado que não consegue nem dar o nó no cadarço do tênis. Engana-se quem espera ver uma crítica à CIA e suas ações destrambelhadas, acho que esse tema já foi abandonado desde o episódio da Baía dos Porcos.  Os Coen confessam que o que interessava nesse caso é a mistura de espionagem com malhação. O resultado é esse filme engraçado, e a ironia que é sempre um corte mais fino na carne desta vez se volta para o tema da meia idade, das peocupações com o envelhecimento e com essa mania de ter um corpo mais sarado - claro que apelando para a cirurgia plástica e os equipamentos das academias de ginástica. Além disso eles botam como molho os encontros organizados pelas agências de namoro via internet, e a sacanagem que rola nesse “ambiente”. Tiram até um sarro dos galãs George Clooney e Brad Pitt que são obrigados a interpretar tipos fracos, bobos alegres que fazem ou cometem coisas estúpidas. O personagem de Clooney chega a inventar uma estranhíssima cadeira e o de Pitt articula uma chantagem  que deve ter como modelo um  filme de quinta categoria.
O interessante é que esse filme veio na mesma leva em que os Coen resolvem tratar do tema do homem velho - o que fizeram brilhantemente em  “Onde os Fracos não têm vez” , título mal bolado para o excelente  No Country for Old Men que realmente fala, antes de mais nada, de um homem no fim de uma era - um xerife perto da aposentadoria que não compreende os tempos de violência em que o mundo mergulhou. O roteiro foi baseado no livro de mesmo nome escrito por Cormac McCarthy.  Na verdade, o tema do filme No Country for Old Men é datado, fala de um momento em que se travava uma guerra feroz entre quadrilhas de traficantes de drogas naquela fronteira dos EUA com o México - onde se localiza o condado do xerife Ed Tom Bell, interpretado por Tommy Lee Jones (que as vezes cumpre a função de narrador). Um xerife que desiste de entender o mundo. Pois é isto mesmo: o filme é entre outras coisas uma história de rendição. O abandono  desse velho homem da lei, diante dos tempos da violência da droga. Esse filme é uma reflexão sobre o “desenvolvimento” dos modos de  violência. Trata da violência dos exércitos contratados pelos cartéis da droga, seus pistoleiros implacáveis, mas ao mesmo tempo fala da paisagem, que é como uma espécie de  personagem : o Grande Sertão- veredas deles, lá do Norte, o Velho Oeste e suas lendas. Ao mesmo tempo ele fala de um ser estranho nesta paisagem, diferente de todo facínora que tenha passado por aquelas paragens, em tempos remotos. Um ser desnaturado que supera o tradicional pistoleiro é até sua versão mais moderna, que é o caso de Carson Wells, interpretado por Woody Harrelson.  Trata-se do  fabuloso personagem do criminoso Anton Chigurh - que possui uma ética de matar, interpretado por Javier Barden.  Chigurh é um estranho no ninho( tanto pelo jeito, pela performance, uso de materiais bélicos, como pela aparência, com um corte de cabelo tipo “Romeu”) - “uma espécie de fantasma” , nas palavras do xerife. Ele é o “desconhecido”, a “aparição maligna” que não pertence à paisagem do velho Oeste (povoada por lendas sobre seres malignos , mas todos humanos) - ele é uma máquina mortífera moderna, inteligente. O interessante é que ele é um representante do crime numa fase superior de organização da sociedade ( que usa  recursos tecnológicos sofisticados como o transponder , um rifle com silenciador e um apetrecho maluco , um aparelho de gás comprimido utilizado  para matar gado, que ele usa para detonar fechaduras) e ao mesmo tempo tem algo que transcende a natureza e a própria noção de loucura, pois não é um serial killer. Ele é, por incrível que pareça, um matador ético. Pode-se dizer que sua loucura tem método e algo mais que deixa o espectador com uma sensação estranha. É a estranha criatura que os Coen deixaram para a história do cinema como a criada por Dr. Frankenstein. E de fato, sua ação espanta o xerife, que não vê sentido naquela sucessão de mortes brutais. Interessante é sacar ( e a gente esquece isso no decorrer do filme) que o xerife , funcionando como narrador, abre o filme falando dos xerifes do passado, que cumpriram suas funções sem precisar disparar um tiro. Ao iniciar o filme com essa fala, já  antecipa a carnificina que vai rolar  e variedade de armas usadas. Há uma ironia aí, com tudo, com o velho Oeste, com a falência da instituição dos xerifes de condados frente ao crime organizado, e com o tipo de filme de ação que sempre envolve  fuga e  perseguição característicos de Hollywood. Quer dizer, mexeram no fundo do velho baú do cinema.
(*)NR:  gosto muito de Fargo, O homem que não estava lá, The Big Lebowski , Na Roda da Fortuna e Barton Fink - os outros  , não tive a oportunidade de ver ou me esqueci que vi.

Vizinha chavista quer ser demitida por Justus

9 de maio de 2009


Estou de queixo caído, não acreditei quando minha vizinha chavista apareceu lá em casa e não me procurou, como sempre faz - aos berros.
Dessa vez  veio mansinha . Estranho! Pensei com os botões do meu pijama listrado!
Há algo de podre no reino da Venezuela!
Lá estava ela, na sala de meu apartamento falando baixinho com minha mulher. A antes ácida crítica do “sistema” nem se deu ao trabalho de me cumprimentar quando passei rumo à cozinha. Lá, montei meu posto de observação, enquanto saboreava meu café descafeinado. Desta forma captei alguma coisa da conversa. Ela,  pasmem, falava de amor. Ao que parece, estava apaixonada. Uma espécie de recaída romântica à la Nelson Ned. Pois é, os brutos também amam!
- Quem mandou ele ter aquela cabeleira prateada, aqueles implacáveis e doces olhos azuis, aqueles ternos bem cortados e ainda por cima, para coroar tudo, aquela  voz de canário belga e um repertório esplendoroso.
Diabos!  Pensei comigo, de quem está falando essa mulher?  O Chico Buarque tem olhos de ardósia, mas não canta como um canário - só se o canário for fanho. E mais, o Chico não está com o cabelo  todo branco. O Caetano, apesar  de sua voz maviosa, não tem olhos azuis e repertório então, anda meio chinfrin ultimamente. Claro, que não pensei  nas obras primas que fez antes de Ce. Seria chover no molhado, o sujeito é um gênio. Será que ela estava falando do Hermínio Bello de Carvalho, com aquela cabeleira encaracolada?  Nem deu tempo de pensar na quantidade de shampoo que  ele deve gastar para mantê-la armada, pois escutei algo que me devolveu rapidinho à terra.  Ela disse:
O Roberto está uma maravilha na TV! (ela sempre fala de celebridades tratando-as pelo primeiro nome, na maior intimidade). Além de tudo, é um verdadeiro deus do empresariado - um Apolo com caneta Mont Blanc em punho demitindo e cantando e seguindo a canção…
Foi aí que fui para a sala, e entrei na conversa.
- A senhora está falando de quem Dona..?(eu sempre me esqueço o nome dela)
-Do Justus, ora bolas! De quem posso eu falar, senão desse doce de coco da Record?!
Mas como foi que a senhora se encantou por um sujeito que deveria- em tese- ser seu inimigo? Um publicitário  é  um intermediário da classe burguesa - encarregado de vender seus produtos, adocicar a boca do proletariado, levar a classe operária para o paraíso dos Shopping Centers????? Onde estão seus princípios chavistas e bolivarianos?
-Foi sem querer, meu filho. Coisas do coração…. Tinha terminado o capítulo de “Caminho das Índias” e eu dormi no sofá. Meu gatinho Chulé , nesse ínterim ficou brincando com o controle remoto, e eis que acordo lá pela meia- noite com a TV ligada no canal do Bispo, e vejo esse pedaço de mau caminho cantando.   Pensei que era um, sonho, mas não era. Ele cantava para seus futuros demitidos do progama “Aprendiz 6 -Universitário”. Tava dando uma palhinha. Unindo o útil ao agradável, entende? O que posso fazer? Gamei!
- A senhora sabia que ele é casado?  Tentei jogar um balde de água fria naquele entusiasmo demente.
- Não importa. Ela disse.- Não sou ciumenta. Eu quero que ele, na próxima temporada me dê uma chance e bote no  ar um “Aprendiz 7 - Terceira idade”.  Vou ser uma das primeiras a me inscrever. Quero ser demitida pelo Roberto Justus.  Quero respirar o mesmo ar que ele respira. Deve ser “Perrier”. Não existe água “Perrier”? Pois o ar dele deve ser de grife. Ô homem chic, meu Deus! “Paixonei”, e agora lá em casa ouço direto o CD “Só Entre Nós”,  que ele gravou. Comprei pela internet , tava baratinho.  Para ser justo, deveria ser mais caro. Ele merece preço de CD importado. O disco é um mimo, ele canta todas as canções num inglês de Oxford. Faz dueto com Aguinaldo Rayol,  Paulo Ricardo e sua irmã Cathy.
Olha só o repertório da fera : What a Wonderful World - que me leva às lágrimas. I’ve Got You Under My Skin - que eriça todos meus pelos. Unforgettable que é impagável . Mas o que me transporta  mesmo, é quando ele canta Yesterday. Em Perhaps Love, eu me solto e em seguida me embalo na sequência de Can’t Take My Eyes off of You, Always on My Mind, Your Song e Tonight’s the Night . Quando ouço Something , sua voz me leva aos pés de Lord Ganesha . Mas nada se compara à sua interpretação de My Way, nela, ele supera Sinatra , que por sinal também tinha olhos azuis. E por fim, em California Dreaming  eu  entro num surto lisérgico, deliro,  vejo coisas flutando no meu apartamento, meu gato Chulé derrete e mia em ré maior!  A tosse do vizinho do 7º andar não me incomoda mais e o mundo me parece um lugar bom de se morar. Agora estou esperando o CD nacional dele. Imagino Roberto cantando um pagodinho, um baião!  Ela estava danada, falou que o Walter Longo e o Cláudio Forner também não eram de se jogar fora.
Sem dúvida estava com os hormônios  em ebulição, ou deve ter fundido suas placas amilóides.  Só uma coisa dessas podia explicar aquela crise ideológica - aquele erotismo tão politicamente incorreto.
Botei a mão na testa dela, estava fervendo.
Corri para a vitrola e botei um disco da Mercedes Sosa para ver se revertia a situação…Talvez mudando de música a coisa voltasse ao normal…No caso dela, ao anormal…Foi aí que ela me deu alguma esperança, levantou e saiu dizendo :- Aquelas duas meninas, a Marina e a Maytê deram uma de traíra pra cima do pobre do Álvaro no último progama “O Aprendiz 6″que vi na quinta-feira. Só porque o menino  disse que queria mesmo é um milhão na conta dele!  Que pouco estava se importando com o estágio que o Roberto estava oferecendo!? Falou isso em privé, entendeu?
As garotas entregaram  a cabeça do rapaz na bandeja! Quem vai confiar numas meninas dedo-duro como essas?

O Roberto precisa abrir os olhos, dessa vez ele premiou as najas…ah! isso é na novela da Glória…Fui!

Aliviado, vi nisso um começo da recuperação daquela feroz tele vizinha que eu conhecia…vamos ver se ela melhora nos próximos capítulos…O programa está quase no fim, faltam uns 7 para ele demitir. O problema é que seis são mulheres…um perigo para o coração da minha querida vizinha chavista.

Minha vizinha chavista detona fenômeno “Susan Boyle”

3 de maio de 2009

Desta vez minha mulher tinha se retirado na confortável cidade de São Paulo, para orar pela paz mundial neste feriadão, e eu não tive chances de escapar da minha feroz tele-vizinha. Ela interfonou logo cedo, eu mal tinha escapado de um pesadelo, onde era prisioneiro numa redação de jornal. Estava arranjando um modo de abrir as algemas colocadas no meus pés e atadas à prancheta quando toca o pi pi pi pi pi do interfone. Era ela:
- Bota aí nos seus “grogues” (acho dispensável dizer que ela se recusa a falar blogues, por pura implicância) que esse negócio da Susan Boyle é enganação!
Como? Perguntei alarmado. O mundo todo viu no youTube o desempenho da diva estéticamente incorreta. A cara de desprezo dos jurados, ( de disgusting , acho que seria o melhor termo). E depois aquela maravilha de voz soando ao cantar a música “I dreamed a dream” no programa de TV Britain’s Got Talent. Como duvidar disso? Como desconfiar do fenômeno da escocesa cantante ?
-Pois é elementar, meu caro Watson. Ela replicou citando Sherlock Holmes, já que o assunto era para inglês ver. Você viu Shrek? A Bela e a Fera?
Não seja tão maldosa! Eu rebati na hora.
- Esse negócio da escocesa espaçosa é pura enganação. Já dizia o sociólogo Pierre Bourdieu, que não se deve confiar na TV, que ela mente, mesmo quando está dizendo a verdade. Mente por não dizer a verdade também, mas na maior parte das vezes,esconde a verdade por omissão… Você vai acreditar que aqueles jurados, todos putas-velhas… Você acha que eles não sabiam do talento da pobre senhora feia? Você acha que não teve seleção de “calouros” antes, e que ela mostrou que era do ramo nesse negócio mandar ver no gogó? Deixe de ser ingênuo!
- É, pode ser. Eu disse. Outro dia também recebi um e-mail com a indicação de um vídeo do youTube onde aparecia um gordote - um homem comum, desajeitado, coitado, que recebeu o mesmo tratamento desdesenhoso dos jurados, e do público e no final se mostrou um fantástico cantor de ópera. Acho que até que foi no mesmo programa onde Susan Boyle expoldiu.
- Se não explodiu, faltou pouco . Teve milhões de acessos no youTube, ganhou as TVs do mundo todo!Ela emendou de primeira.
- Mas não deixa de ser uma tremenda armação. É um truque baixo, onde você junta a feiúra ou o homem comum, sem atrativos mediáticos à beleza de sua voz, numa linda canção carismática, ou de uma outra forma de expressão e deixa todo mundo boquiaberto. “My God, como ela conseguiu isso”! É a reação imediata. Até o mágico do cirquinho mambembe sabe disso. Agora virou coisa global. A Susan, que não é boba nem nada, já aproveitou e deu uma melhorada no “look”. (Ela sempre trata as celebridades pelo primeiro nome, sejam instantâneas ou não). Esse fonêmeno se deve no fundo ao preconceito que temos com as pessoas feias, ou mesmo com as pessoas comuns, desajeitadas. Ninguém acredita que daquele mato sai cachorro. E quando sai latindo maviosamente então, ah, é o espetáculo que desejamos ver.
E depois aparece aquele pessoal “psi” da mídia surfando na onda, falando que ela teve coragem de se expor, botar para fora daquela embalagem - digamos- mal ajambrada, seu ego lindo etc e tal. Que venceu a natureza- que não foi muito boazinha com ela e deu a ela aquela voz de canário. Que ela ousou com sua presença, seu anti-padrão estético e encantou a TV- que prima por selecionar pela beleza , oscambaus. E sempre tem um que vem com aquela historinha da pérola dentro da ostra. E mais que ela trouxe sua beleza interior e combateu bravamente em busca de seu sonho. Psicanalista no meu tempo interpretava sonhos. Agora deu para embalar sonhos de valsa! Sem essa jacaré!

Para finalizar , que eu sei que você está ocupado em decifrar o sentido da “impermanência, só vou dizer uma coisa: a mal fadada “Sociedade do espetáculo” é a base da tal da “Sociedade de Informação” que se fundamenta num blefe.Pensa que eu não ando lendo sobre o assunto? Depois da novela eu me agarro com os livros. Num deles, li que tudo começou na segunda guerra mundial, com a invenção do computador para decifrar códigos do inimigo, calcular a trajetória de projéteis balísticos e para afinar os cálculos da construção da bomba- atômica. Depois o bandido do “aparelhinho” acabou virando o maior vendedor do mundo. Compre seu chinelo Online! É claro que vende ideologias. Sei que graças a ele,(o computador) você escreve os seus “groguinhos” , se diverte e até aprende alguma coisa. Tem gente que ganha uns trocados com a internet. Mas não dá para deixar de dizer que “informação” sempre foi uma mercadoria e Susan é a mais nova mercadoria na gôndola do supermecardo mundial do entretenimento. Tem prazo de validade e tudo. Logo, logo aparece um novo fenômeno estranho para desviar a atenção do tédio , da monotonia de uma vida sem criatividade do capitalismo obseso e cansado de tanto trambicar. Querem colonizar o nosso futuro e o tempo livre , o tempo de lazer. O Bauman disse isso, e o que me espantou, é que foi nas páginas da Revista de O Globo de domingo passsado e não no caderno de livros. Parabéns para os editores da Revista! Esse Bauman também já tá virando arroz de festa,né?!
Com essa ela desligou e nem me deu chances de fazer a defesa da “mídia”. Sei que ela tem mentido muito, ultimamente. Nos EUA , ela bancou a guerra do Iraque e leis que contrariaram os direitos humanos (tortura por afogamento e outras barbaridades) além de criar um caldo para a etonofobia. Acho que marcou bobeira nos meses que antecederam ao crash americano que contanimou o mundo.
Aqui no nosso país do futuro, nem quero falar, que não sou biruta. Eu queria dizer pra ela que por mais mentiras que existam, é melhor a ilusão de uma mídia mentirosa do que a verdade de uma ditadura. A primeira nos reserva o direito de mudar de canal , não comprar o jornal ou revista. Depois, queria defender o pessoal ” psi”, pois acho que o fato de ter psicanalistas escrevendo em jornais é algo positivo- agora, pelo menos o peixe vem embrulhado sem complexos. Espero que ela leia os meus “grogues”. Assim ficará sabendo dos meus argumentos que tenho que engolir com o café “descafeinado” que acabei de fazer. Será que é descafeinado mesmo? Confesso que minha vizinha chavista botou a pulga da desconfiança atrás da minha orelha.

O que diria Marx neste 1º de Maio?

1 de maio de 2009

- Desempregados de todo o mundo, uní-vos!