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Arquivo para abril, 2009

Minha vizinha chavista detona gripe suína

29 de abril de 2009

( Se você não conhece minha vizinha chavista, ache aqui no blogue, nas crônicas anteriores, uma em que ela é apresentada aos amigos navegantes - quebra esse galho! )

Minha vizinha chavista montou no porco. Está alarmadíssima com o que anda lendo nos jornais e nos sites noticiosos da internet. A cada declaração de Keiji Fukuda,( secretário adjunto da OMS ) ela treme nas bases e toca  interfonar aqui para meu apartamento.
- O Keiji ( ela trata autoridades e celebridades sempre pelo primeiro nome, na maior intimidade) disse que está perto de declarar nível 5! O Temporão já declarou nível 5! Desse jeito mundo vai acabar num chiqueiro! Ela berrou do outro lado do aparelho.
- Escapamos do mal da vaca louca, da dengue, da gripe aviária - estávamos rebolando com a crise financeira global e agora vem essa gripe dos três porquinhos cantando boleros!  Essa não! Até o pessoal lá do Egito disse que vai abater todo o rebanho suíno. Tem gente  dizendo que as máscaras só servem para decoração. Não era o caso de usar camisinhas no nariz? Já sei, pode ser que o Vaticano fique contra. Como a coisa começou no  México (tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos), acho que seria melhor usar a máscara do Zorro. Este mundo está uma zorra mesmo! Meu medo é não  conseguir saber como a Glória Perez vai resolver os inúmeros problemas de Caminhos das Índias. Será que estarei viva até lá? Meu vizinho do andar de cima espirra e eu corro para debaixo da mesa, igual ao menino que está surtado na novela e que todo mundo acha que é enxaqueca.  Devolvam meu bilhete, não gostei do espetáculo - quero ir para outro planeta!

Ela estava atacada, e foi por aí desancando todo mundo, inclusive os urubus que andam cercando os passos da Dilma. E no meio disso tudo, me esculachou e disse que eu não tinha publicado nos meus dois “grogues“( ela nunca fala blogues, e eu acho que é por pura implicância) a crítica que ela fez  à Silvia, personagem que Débora Bloch interpreta na novela “Caminho das Índias” , que está prestes a ser despejada da mansão da família Cadore.
Por essas e outras, vou postar aqui a reclamação dela, sem tirar nem por uma vírgula.

Te segura Silvia!


Minha vizinha chavista está tiririca com a Sylvia (ou será Silvia, simplesmente?) da novela Caminhos das Índias. A bela “viúva” (vivida na telinha por Débora Bloch) parece que se recusa a sair daquela casa monumental (que se imagina estar plantada na Gávea, ou na Barra- num lugar “nobre”, enfim) e mudar para um apartamento em Laranjeiras.
Foi isso que ela (minha vizinha chavista) me informou pelo interfone, até que ele pifou. Andam fazendo tantas obras aqui no “Condomínio do Barulho”, que tudo está pifando, depois de longos meses de marteladas e sabe mais o que andam fazendo esses pedreiros na estrutura do prédio. Hoje deu um curto nas luzes do meu escritório, que parecia que um Poltergeist tinha baixado com tudo no meu pobre lar.
Foi aí que ela (minha vizinha chavista) veio até minha casa. Minha mulher tinha saído - foi orar em outro lugar pela paz mundial, me deixando sozinho com a fera.
-Bote lá nos seus “grogues”(ela nunca consegue falar a palavra blogue, mas acho que é pura implicância) que essa Silvia me paga! Onde já se viu desdenhar nosso bairro! Esculachou geral! Laranjeiras é um bairro “cult”. Tem o chorinho da feira, o show de bossa-nova e jazz da praça do chafariz em forma de concha (Praça Ben Gurion) ,tem a feirinha de Teresópolis, tem as “Casas Casadas”, a CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) que tem formado tantos atores para a Globo. Tem a Tasca do Edgard, o famoso Bar do Serafim onde pontificava saudoso Juca, tem o Mamma Rosa, O Luigi’s, o bistrô da Frida, o Maya, o Severyna, o Varandas, a lanchonete do sêo Ferreira, a barraquinha de cachorro quente das madrugadas, a locadora Guimarães e vai por aí…Um Soho com rebolado, um Marais descolado, um Village com molho carioca, que é o nome do rio que passa por baixo da Rua das Laranjeiras. Sem falar que lá em cima no Cosme Velho fica o bondinho para o Cristo Redentor e tem mais: o Largo do Boticário, o Museu de arte Naïf, e o lugar - não mais a casa infelizmente- em que o nosso bruxo - o grande Machado de Assis morou. Sem falar na editora Objetiva que faz muito tempo montou seus escritórios aqui.
Fiquei calado enquanto ela procurava mais coisas bacanas do bairro…
-Tem o Instituto Nacional de Educação de Surdos , a Clínica Perinatal onde nasceu o filho do Ronaldinho, a Rua Alice, a Casa Rosa…. (aí eu cortei)
- Mas a Sylvia tem todo o direito de não querer sair do conforto de sua casa sensacional . Lá estão as coisas dela, os objetos afetivos…
- Que objetos afetivos coisa nenhuma, ela quer é ficar no bem bom. Se ela muda para Laranjeiras a novela fica até mais interessante. A vizinhança de jornalistas, artistas plásticos,escritores, designers, músicos, aquele baterista da Estelita Lins, o flautista que embala as tardes do bairro com aquelas melodias, os miquinhos que descem pelos fios das ruas fazendo algazarra…tudo isso iria enriquecer a novela.
Aí eu concordei, aquela casa da família do “falecido” 171 em crise existecial, Raul Cadore - fica muito isolada. E parece que o pessoal só sai de lá para ir à Lapa. Que figura como o único bairro onde existe algum movimento nessa cidade em transe. Fora da Lapa, só a Estudantina que por sua vez está em todas as novelas da Glória Perez. E merece estar.
Ficamos nesse papo enquanto o feriado de Tiradentes que levou muita gente a enforcar mais uns dias estava acabando embaixo de uma chuvinha chata.
Ela me adiantou que a vaca que ela tinha botado no jardim foi recolhida pelo serviço de proteção aos animais . Botou culpa no conselho consultivo do Condimínio do Barulho”
- Eles são de direita e só acham sagrado o vil metal!
E os dalits? Perguntei
-O choque de ordem botou tudo num abrigo, mas eles voltam, eles voltam aos pouquinhos e vamos transfomar a piscina do Condomínio num belo Ganges com suas águas purificadoras.
Foi aí que minha mulher chegou depois de orar pela paz mundial e trouxe novidades sobre o Nirvana e como faremos para chegar lá. Minha vizinha chavista achou o tema muito cacete, e se mandou esbaforida para mais um capítulo de sua novela. Nesse enredo ela é a heroína - que como uma Anita Garibaldi dos tempos pós-modernos , vai invadir e tomar a Globo, junto com os velhinhos brizolistas da brigada ” O Tempo e o Vento”, que jogam dominó na pracinha do Politburo. Diz ela que o projeto é transformar a “Vênus Platinada” numa produtora de novelas full time, com o intuito de tornar menos difícil a vida dos nossos companheiros cubanos que adoram as novelas Globais e sofrem as agruras do insano bloqueio norte-americano.
Hasta la victoria final!

O homem do Não

26 de abril de 2009

Foi lá no início da década de 70 do século passado.  Éramos estudantes e  vivíamos os dias que sucederam o AI5.  As faculdades estavam  aos frangalhos  pelas cassações  e exílios, uns voluntários, outros na marra mesmo. Não sabíamos quem era quem, e sempre tínhamos um longa noite de espera pela frente.  Numa dessas, encontramos um ser que destoava de uma época em que se falava baixinho com medo de ser dedurado pelo guarda noturno da rua. Foi num bar alí na Vila Buarque, onde sempre parávamos para engolir um “tunafish” e bater um papo fora da rotina dos seminários e da política do diretório acadêmico.
Ele era jovem, louro, tinha olhos azuis ,uma barba respeitável e era tagarela. Era muito articulado, contava histórias que nós escustávamos pasmos. Não me lembro como fomos sentar ao seu lado, sei que alguém da nossa turma conhecia a figura.  O que nos impressionava nele não era apenas sua aparência , nem  o conteúdo de sua fala, e sim a forma como ela acontecia. Era fluida até um certo momento, em que ele pronunciava um sonoro e ruidoso “Não“. Essa negação escandalosa parecia contradizer o que ele havia dito antes.  Tenho dúvidas se era uma espécie de cacoete, um recurso para chamar a atenção- parte consciente de sua retórica. Só sei que até o pessoal que  estava nas mesas ao redor parava para ver  o que iria acontecer naquela mesa, onde pela eloquência da negativa, parecia que iria rolar algum barraco, ou algo semelhante. Depois de algum tempo todos reparavam que nada acontecia  a não ser a continuidade do discurso do sujeito, até o irromper de um novo “Não“. Só  sei  que essa negação em vez de bloquear ou desviar o discurso, ao contrário se articulava a ele- não me perguntem como . Sem dúvida, deve ter sido o cansaço daquelas horas tardias ou o teor alcoólico da moçada, que fez com que não se ligasse para a possível costura grosseira de uma narrativa que mesmo interrompida se tornava ainda mais interessante . Creio que justamente devido a  a esse “acidente”  se tornava atraente seu bla bla bla. A cada Não, parecia que acendia  um spot light sobre sua figura bíblica, que não parava de falar. Não tenho palavras para  descrever o fascínio que ele exercia sobre os presentes, a admiração pela sua habilidade de falar bem e dominar totalmente a atenção. Aos poucos , reparei que sua figura crescia - e para isso contribuia o conjunto acima citado da barba e dos cabelos que ele afastava dos olhos num gesto recorrente e que desconfio, fazia parte de sua performance.
Contou-nos que estivera na Itália, onde tinha casado com uma Condessa italiana e que tinha viajado para a  Hungria onde havia feito a leitura de livros em voz alta (em francês) para um Luckács quase  cego, recostado num sofá, com cobertor protegendo os joelhos.
Aqui abro um parêntesis. Luckács era, para nós , naquela época , uma espécie de Deus. Seu texto “História e Consciência de Classe“, nossa bíblia. Apesar de ser saudado  como um reformulador do marxismo, depois da catástrofe e um combatente do novo realismo socialista, eu e a torcida do Flamengo  tinhamos só uma queixa em relação a ele - sua crítica feroz e injusta à figura franzina de Franz Kafka.(quanto a Marcel Proust, eu nem falo, porque não consegui ainda ler sua obra. Dizem que para lê-la é necessário quebrar as duas pernas. (Só tenho uma curiosidade -  saber como um simples biscoito rendeu tanto). Com o tempo desfiz esse estranhamento em relação ao pensador húngaro. Acho que ele mesmo se desculpou por não ter entendido direito Kafka ( não me lembro mais chongas sobre isso).
Mas voltemos ao nosso homem do Não. O fato dele ter sido casado com uma misteriosa Condessa italiana e ter lido para Luckács não coadunava muito com o fato dele estar alí com a gente, saboreando um sanduba naquela noite perdida dos anos de chumbo. Em todo caso éramos seu público e estávamos suduzidos pela sua verve até que ele se levantou para ir ao banheiro. Era como se não tivesse levantado. O homem que parecia um gigante viking era de fato um nanico- um homenzinho que caminhava com seus passinhos de anão, sem a branca de neve de sua Condessa italiana, rumo ao fétido WC do estabelecimento em fim de noite.
Quando voltou para a mesa, ninguém lhe deu mais atenção e o papo foi para outras direções, até que ele , percebendo a mudança de seu Ibope, se retirou para nunca mais voltar.  Acredito que foi cometida uma injustiça com o rapaz, mas desconfio que ela foi reforçada devido a desproporção entre seu entrondoso “Não” e sua reduzida estatura. Desse contraste veio a indiferença e creio que a desconfiança de que tudo que ele tinha dito era “cascata”.
Agora me pergunto,qual a moral desta história?- Nunca confiar em alguém que está sentado?  Que a aparência é que manda, ou  nunca confiar nos baixinhos?
Mas como entender o fenômeno Romário, o “peixe”, também chamado carinhosamente de “baixinho” que foi um craque e chegou a fazer gol de cabeça saltando mais do que a grandalhona zaga sueca no mundial de 1994. E o baixote Napoleão que mudou os rumos do mundo com seus 1.67m?!  Stalin, que por sua vez parecia gigantesco nos cartazes e nos palanques, tinha apenas 1.72m (dizem as más línguas que usava um sapato com calço  para parecer  mais alto). O velho todo poderoso chefe da antiga URSS pode ser classificado como uma pessoa baixa (sem duplo sentido) em relação ao seu mito.  Hitler por outro lado levava ligeira vantagem  sobre o oponente , tinha 1.75cm.
E só para lembrar um exemplo recente, o mitológico guerrilheiro Che Guevara não passava de 1.73m, o que fez com que o diretor Soderbergh rebolasse para solucionar o problema de  enquadrar Benício del Toro - que tem 1.95m  de forma que ele parecesse baixote na telona. Nem vamos falar na voz potente de Nelson Ned ( cantor predileto de Fidel), que aí, já é golpe baixo.
Será que gastamos tantos bytes para chegar à velha conclusão que tamanho não é documento?
O que diria o homem do “Não“?

O estranho mundo de Tony Manero

19 de abril de 2009

O filme Tony Manero de Pablo Larrain  é  incômodo, duro de assistir, sombrio, frio, violento, cruel. Mostra algumas facetas  do ser humano que são difíceis de engolir. Sua miséria física e emocional é explícita, sobra escatologia, demência, promiscuidade…coisas que não gostamos muito de ver alí, dolorosamente expostas na tela. Teve gente que levantou e saiu do cinema, e olhe que nem tinha chegado o meio da sessão ainda. Confesso que não sei ainda se gostei desse filme. Desculpem, mas vou -mais do que expressar minha opinião- deixar a contribuição das minhas dúvidas.
A idéia de fazer um filme sobre um sujeito de meia idade -( Raul Peralta , vivido por Alfredo Castro) que é obcecado por imitar o personagem Tony Manero de John Travolta em” Embalos de Sábado à noite ” (Saturday Night Fever) é uma boa idéia. O problema está aonde ele nos leva.
Há aí, é claro, um humor mórbido que fica mais evidente no contraste do perfecionismo obsessivo  do personagem com a carência material e as soluções “criativas paupérrimas” para montar um mundo “travoltiano”( com ladrilhos de vidro de um depósito de material de construção usado e cacos de espelho colados numa bola de futebol para criar a esfera luminosa do filme). Isso é, em certos momentos,  bastante risível, mas a coisa não para aí, ela é mais complicada pois existe  um outro nível de contraposição.  A história particular do desejo que move esse personagem tem como contexto -  a situação real da sociedade expressa na degradada da periferia do Chile de 1978 quando o regime instalado por  Pinochet, apesar dele já estar 5 anos no poder,  ainda não tinha se consolidado plenamente. Um mundo perigoso onde um Estado policial repressivo  estava fora de controle -  como diria- Elio Gaspari: a “tigrada” estava solta, cometendo toda sorte de barbaridades para neutralizar a mínima oposição e outros se aproveitando dela para conseguir seu butim. (É preciso lembrar que o golpe de estado contra Allende foi dado em 11 de setembro de 1973 - resultando na sua morte e numa das ditaduras mais sangrentas da América Latina )
Não estou inteiramente convencido, mas parece que o desejo de Raul Peralta- sua obsessão, é algo que nos foge, e creio que é muito mais complexa, vai além da mera imitação de Tony Manero. Ele prossegue célere em seu projeto, apesar de todas as diferenças  com o modelo vivido por Travolta (de idade, idioma e mesmo de fisionomia) ). Na verdade, tudo indica que ele quer ser o próprio Tony Manero- não o ator, mas o ícone gravado no celulóide. Ele quer possuir aquela identidade “fantasmagórica”.
Gente que gosta de imitar celebridades existe em vários países. Não tenho cifras, mas acredito que são milhões que buscam novas identidades, nem sempre para se compensar a precariedade das suas. Uns imitam Elvis, outros Michael Jackson, e há os que copiam personagens de histórias em quadrinhos japonesas. (os cosplay)
O interessante da história de Raul Peralta/Tony Manero é que essa identificação  entra no território da psicopatologia. Ele  se transforma num ser autocentrado com características de homicida - que vai eliminando quem estiver no caminho da sua procura de satisfazer esse desejo de ser apenas e tão somente aquela figura rebolativa de Tony Manero - o que implica ser reconhecido pelos “outros” como o próprio Tony. A questão vai ficar pior quando ele decide que esse reconhecimento não é mais necessário… Esse lance inconsciente desse “Tony Manero dos pobres” é que toma a cena principal desse filme.  A história é claro conta com outros personagens que são coadjuvantes  dessa busca demente do rebolado perfeito.  Esse sujeito em transe vive num quarto de uma espelunca- meio casa e meio botequim de uma mulher de meia idade . Nesse bar rola uma atividade dançante e acontecem shows num pequeno palco caindo aos pedaços .Raul Peralta, é o bailarino-chefe e tem como parceiros no projeto embalado, sua namorada - uma mulher que está perto do 40 anos,  sua jovem filha e um rapaz que também alimenta o sonho de ser um “Manero” . No início, o projeto de Peralta/Manero era uma apresentação no botequim, o que o leva a um trabalho duplo. Assistir à exaustão o  filme “Fiebre de Sábado por la Noche” -   num cinema poeira da periferia de Santiago e conseguir os materiais para preparar o palco para uma apresentação retumbante. Durante as várias projeções do filme ele repete a falas de Travolta num inglês espanholado, gesticula como que capturando o gesto . O olho capta o ambiente- a iluminação do chão que se movimenta com a dança do personagem e a famosa bola de espelhos comuns nas pistas de “disco dancing”.  Seu trabalho de replicar Tony Manero tem que reter tudo- alem das falas , gestos, e coreografia estão os detalhes da indumenária. Tem um lance em  que ele vacila ao não perceber o número de botões e a posição deles na calça branca do personagem.
No meio desse projeto surge então a TV- um programa de auditório e um concurso para eleger o melhor Tony Manero do Chile - aí a coisa pega fogo. O resto não vou contar para não estragar o desprazer de ver esse filme.
Não sei porque cargas dágua eu me lembrei daquele personagem absurdo de Borges que queria escrever o Quixote como Cervantes.(Pierre Menard, a autor de Quixote em Ficções) Não há  muita diferença no desejo: o personagem borgeano não quer apenas imitar Cevantes - ele quer escrever como Cervantes escreveu - no fundo ele quer ser Cervantes.
Nessa viagem dentro do filme de Pablo Larrain lembrei muito de “Caro Diário“  de Nanni Moretti . Em particular a primeira parte do filme ( que é composto de três histórias : “Na Vespa”, “A ilha” e “Médicos”) . Em “Na Vespa”, Moretti sai pelas ruas de Roma, mostrando suas belezas montado numa “motorina“. Ele vai  falando sem parar, refletindo sobre a arquitetura, o urbanismo, as coisas da história da cidade, dos seus subúrbios e num certo momento ele resolve falar de cinema- de seu amor pelo que foi produzido pelos americanos e pelos italianos.  Recordo que faz uma crítíca violenta a um certo tipo de filme que, segundo ele,  não deveria ser feito.( e enquanto vai falando, exemplifica com cenas dessse filme) - Ele se refere  especificamente a um que eu tinha visto na época, e achei terrível e confesso que concordei com ele: era um filme que não precisava ser feito.  O filme em questão se chama “Henry: O Retrato de Um Assassino” (Henry: Portrait of a Serial Killker) de John McNaughton- foi realizado em 1986. É baseado na história de um sujeito real - Henry Lee Lucas  que  não economizou violência e cometeu toda espécie de  crimes bárbaros . Harry é um  ser totalmente desprovido de sentimentos, uma abominação que não tem explicação. Ele que bota por terra aquela história que é repetida nos filmes de “serial killers” que sempre conta alguma coisa do passado do sujeito que justifica a carnificina metódica. É um dos filmes mais brutais que já vi. E parte dessa brutalidade está na forma “natural” como os crimes “acontecem” e se repetem e criam um padrão ou se desviam dele e contaminam aqueles que se aproximam. Henry parece ser um Raul Peralta sem projeto.
Fiquei na dúvida se “Tony Manero”  não figuraria  entre esses filmes que não deveriam ser feitos, porque nada acrescentam a não ser mais bestilidade e horror. Seu autor (Pablo Larrain) disse numa entrevista - em outras palavras - que seu filme seria uma metáfora da degradação política chilena daquela época- importadora de modelos estrangeiros . Uma espécie de retrato de um monstro colonizado que refletiria a monstuosidade de seus criadores: a ditadura, o governo, os políticos oportunistas e creio , por tabela a mídia conivente com esse regime bestial. Mas existe uma distância entre a intenção e o gesto. O filme nos faz mergulhar na atmosfera irrespirável da vida daquelas pessoas que depois da derrocada de um projeto coletivo, estavam mergulhadas num egoismo de dar dó: oportunismo, traições - e no meio disso o narcisismo demente aflorando. Mas a conexão com a deterioração da sociedade chilena daqueles dias não fica muito clara no filme. Há apenas justaposição. Manero é um um rato psicopata (ou sociopata?) que se alimenta da degradação que acontece ao seu redor. Ele vive com um pé no sonho impossível e com o outro ele pisa nos excrementos da realidade terrível do período Pinochet. Existe a possibilidade  um elo a ser construido na mente do espectador justamente  ao pensar na ironia que  o filme distila  ao mostrar  brutalmente que seus assassinatos, ao que parece não são apurados, pois não significam nada naquele regime totalitário, O que  o que importa para aqueles que devem cuidar da ordem é quem está produzindo, panfletos contra o ditador. Quem está sabotando o regime. Quer dizer, sua barbárie particular se dissolve na barbárie geral.  Raul/Tony Manero não é um “serial killer“, é um outro tipo de monstro, um sonhador- narcisista produzido pela  indústria pop, respirando numa atmosfera própria, numa situação anômica onde se exerce o vale-tudo.
Nós vivemos aqui no Brasil aquela cultura do “que importa é levar vantagem” que se cultivou nos anos de Chumbo.  Talvez a vivamos ainda que geneticamente modificada. Como podem ver, esse Tony Manero me levou por labirintos horríveis. E ainda permaneço com a dúvida se esse filme é mesmo necessário. Quero logo sair desse pesadelo.
Te cuida Travolta!
NR- Curiosidade, li num artigo da internet( não me lembro qual) que o ator Alfredo Castro que faz o papel de Raul Peralta é parecido com Al Pacino. Concordo com essa observação - só que um Al Pacino mais velho e creio que se o ator americano fizesse esse filme, o faria de maneira exagerada - aos berros. Alfredo Castro é só sussurros e tem uma atuação “perfeita”. Te cuida Pacino!

Che - o mito de novo na praça

13 de abril de 2009

Vou fazer uma crítica fragmentária sobre o filme Che ( na verdade a sua primeira parte) ainda em exibição nos nossos cinemas. Desculpem qualquer vacilo, mas escrevi  direto, depois que vi o filme e nem fiz revisão. Se Tico não falar com Teco, espero que me perdoem.
Não gostei do filme de Steven Soderbergh.  Acho que ele não dá uma dimensão muito clara da Revolução Cubana e a importância do personagem Che nela. É pretensioso, o que não é uma coisa negativa, mas não chega lá. Creio que cai no esquematismo barato do mocinho versus bandido. Nada contra o nosso querido “Comandante”, mas o tratamento dado a ele é que é problemático.
É difícil contar a história de um mito sem aderir a ele. Este é o problema da primeira parte do  filme de Steven Soderbergh- Che (Che. Part One “The argentine“) que relata um momento crucial da vida de Ernesto Guevara de la Serna e o coloca dentro da história do Século XX.  Por mais que o roteiro  tenha se fundamentado em documentos como as memórias de Ernesto Guevara (”Pasajes de la guerra revolucionaria”- Edición Autorizada (Ocean Sur), publicada em português como “Cuba - Guerra Revolucionária” - pela edirora Edições 70 em 1975) e talvez testemunhos, é muito forte a tendência para enxergar apenas o lado sobre-humano do personagem.( Benício Del Toro chegou a entrevistar , Carlos Ferrer, o “Calica”. amigo de Guevara e companheiro de sua segunda viagem pela América que acabou de publicar o livro  “De Ernesto a Che: a segunda e última viagem de Guevara pela América Latina”(Editora Planeta). Del Toro queria saber de Calica se o guerrilheiro era parecido com ele (Benicio) e se preocupou muito com seu sotaque - que é porto-riquenho, e estudou para imitar um espanhol que deveria ser bem falado, já que Guevara era um sujeito da elite, um médico e também um intelectual que lia sem parar, mesmo nos intervalos das batalhas, e não falava naturalmente como um  cubano.Temos que considerar que em Cuba existem vários “dialetos”. Um é das ruas de Havana e existem outros sotaques das cidades do interior da Ilha e um particular da região de Santiago de Cuba onde está a lendária Sierra Maestra).
Na verdade, a mitologia em torno de Che é até maior do que a história da Revolução Cubana. Quanto a isso Sodergergh foi bem claro quando disse: “Cuba é um assunto que me interessa menos do que Che”.
Desta forma a Revolução é contada desde os encontros de um grupo pequeno de rebeldes no México- 82 combatentes - no qual se inclui Guevara - sem mostrar o  fiasco do primeiro combate, quando da chegada do iate Gramna à Província de Oriente em dezembro de 1956- , ocasião em que são quase dizimados pelas forças do ditador Fulgencio Batista que com seus aviões, metralhou e só deixou vivos- e em situação difícil,12 rebeldes perdidos na mata .  O curioso deste fato é que o governo cubano noticiou que havia liquidado os rebeldes, inclusive Dr. Castro, coisa que foi desmentida por um repórter furão (apesar de já estar aposentado) numa matéria para o New York Times. Isso não está no filme.  Desta forma ficamos sabendo chongas sobre como um “paiseco”- uma ilha, conseguiu fazer uma revolução nas barbas - e com ajuda  mesmo dos EUA que tem uma diretriz claríssima de sua política para as Américas:  não deixar ninguém crescer o suficente para não ofuscar sua importância estratégica na região.
A história foca na figura do herói - que supera sua fragilidade (a asma) e mostra suas qualidades , primeiro como médico , depois como guerrilheiro em Sierra Maestra e finalmente como comandante vitorioso quando toma de forma impetuosa Santa Clara. Esta parte do filme termina com a chegada triunfal em Havana.
O problema do herói é que  ele está sempre acima da gente comum, quase inacessível - isso é da natureza dos mitos. Mas Che é um mito moderno, ele é bastante acessível aos seus companheiros, com seus cuidados, conselhos e mesmo chegando a alfabetizar um garoto em meio à dura realidade dos treinamentos e do combate. A figura política central de Fidel é ofuscada - aparece sempre em segundo plano , mesmo que tenham tomado cuidado em mostrar que ele era o grande  e verdadeiro líder- a cabeça política por trás do movimento guerrilheiro. Na parte em que aparecem as conexões com outras forças revolucionários da ilha, a coisa fica meio enrolada - já que não há um preparo para o público entender os partidos envolvidos na luta naquele momento histórico. O que  mostra que o que importou no caso foi a figura do mito. Tudo o que acontece em volta dele fica meio anedótico - menor - difícil de entender dado o seu esquematismo. Não tem contexto- só ação. A complexidade do fato histórico foi para o vinagre. O que resultou foi um bando  de cabras machos e barbudos que com muita coragem tomaram na porrada o poder- conquistando várias cidades e finalmente dominando a capital. Necas de política na parada, o negócio foi fuzil e bazuca. Pára a gaita gaiteiro, las cosas no fueram bien así! Vamos pegar o chimarrão e contar direito essa história!
Quando a figura é de um ser humano tratada de modo ficcional como os heróis homéricos( Ulisses, Aquiles, Heitor…etc) é até mais fácil aceitá-los. Tudo neles pode ser exagerado e a aceitação das propriedades sobrenaturais neles é uma passagem  tranquila por parte do público  que entende que está assistindo a uma fábula. Estabelece-se aquele pacto que permite a ficção nos levar a viajar por mundos imaginados e jamais sonhados também. Apesar de que  nada no herói mítico é comum, apesar de que alguns apelam para as astúcias para se safar de situações complicadas, isso faz parte do jogo- o mito é astuto!  E mesmo que muitos não se mostrem mortais, ou vulneráveis como Aquiles e seu maledetto calcanhar, , a coisa é contada dentro de uma narrativa que o eleva. O enredo de seus prodígios é que importa. Se ele morre, é algo que o imortaliza de vez. Viverá para sempre na memória dos que viverão e sua história será contada e recontada e cada vez que isso for feito, mais ele vai adquirir novas qualidades- ele entra para o território sagrado. Mas quando ele é nosso contemporâneo e chegou a se transormar em ícone pop , a coisa fica muito complicada. A crítica exige mais do que o retoque na figura mitológica - principalmente quando o tratamento dado à obra cinematográfica tenha imitado o documentário- ou feito um “docudrama”(não curto essa classificacão). No caso do herói contemporâneo,  temos testemunhas, versões do “atual”. É possível surgirem  imperfeições que podem macular esse mito. Ele pode ter máu hálito, ou ser um grande guerreiro, um grande amante, mas péssimo pai, por exemplo. Concordo que  contar sua história não é tarefa fácil. Soderbergh defendendo seu herói disse que conhecia bem o discurso dos adversários de uma visão positiva de Che e que sabia que ” qualquer quantidade de barbaridades que incluíssemos nesse filme não seria suficiente para satisfazê-los”.
Nada contra dar uma visão positiva do guerrilheiro. Mas, tem  uma coisa que complica em demasia o caso de Che. O público de antemão já  está careca de saber que ele é um herói que morre , que é sacrificado por uma causa. Este fato vai sempre de encontro a um mito fundador da nossa ocidentalidade - o Cristo. Mesmo que Jesus não tenha morrido lutando - é sempre referência do herói sacrificado. Ernesto Che Guevara chega perto disso - seu amor pela humanidade, pelos despossuídos o transformou em quase um “santo”.  Tanto é que  no local de seu assassinato em 1967 - na Bolívia ele tem uma estátua de ,  e ele recebeu o nome de “San Ernesto de La Higuera” Virou santo para os camponeses que não aderiram à sua causa. Sua veneração é um fenômeno não só entre os pobres da América que ele queria transformar num Vietnam, mas foi acolhido em todo o Ocidente como símbolo do incoformismo, da utopia libertária se esmaece diante de sua “santidade” . As forças demoníacas da rebeldia se fundem com as águas bentas de sua beatitude - da entrega de seu corpo supliciado pela causa dos sofredores.  A Indústria cultural se apoderou de seu culto e transformou em produtos vários - camisetas, posters (cheguei a comprar um cinzeiro em Lima com seu busto esculpido) e agora o cinema, a máxima expressão desta indústria se apropria finalmente de sua história e pretende ser a versão definitiva. E sem dúvida é a que vai “colar”.
Essa história de Che- o argentino, - primeira parte do longa de 4 horas de duração é pontuada pelo discurso de Che feito em, em 1964 nas dependências da ONU e uma entrevista em que ele explica o movimento e os rumos da revolução.
Interessante notar que Camilo Cienfuegos é  tão carismático quanto o Che e talvez fosse páreo duro no Olimpo Latinoamericano . Porém Cienfuegos morreu cedo,  num acidente de avião, em outubro de 1959, no ano mesmo que triunfou sua revolução. Virou mártir, mas de menor estatura.
O curioso é que Guevara e Calica -( seu companheiro da segunda viagem pela América, citado acima- olha o livro dele aí do lado esquerdo) estavam na Bolívia no dia 26 de julho de 1953 - quando Fidel e um grupo tentou tomar de assalto o Quartel Moncada. Guevara, nessa época talvez nem sonhasse em entrar na barca do Dr. Castro lá no México.
Fidel depois do desastre militar do carnaval cubano pegou uma cana dura, mas acabou sendo anistiado conseguiu se exilar. Sua defesa  foi feita através de um discurso que se transformou  num documento político de conscientização popular que levou o título  de “A História me absolverá”.
Vamos esperar a segunda parte(Che -part two- “Guerrilha”) de Che para ter uma idéia mais clara da qualidade dessa obra de  Soderbergh . Por enquanto, acho que deveria ter uma parte 0. Uma espécie de intróito, onde se mostraria um pouco da História cubana, muito interessante, sua libertação da Espanha, a participação e soldados americanos e “manbizes” na luta. A importância dos EUA - principalmente o drible que eles deram nos cubanos. Mostrar o tempo em que os ianques mandaram na ilha (acho que manipularam o poder político e econômico por uns 4 anos), mostrar o desfile de governantes teleguiados de Washington e ditadores até chegar ao poder a figura de Fulgêncio Batista. Dar uma palhinha do que era Cuba nessa época. No museu da Revolução em Havana  entre uniformes com marcas de sangue dos guerrilheiros e até a máquina de escrever “Hermes baby” que Alejo Carpentier escreveu  “O Século das Luzes” está o “telefone de ouro” presenteado pela ITT  ao então presidente da república de Cuba,  sócio do gangster Meyer Lanski que tinha como assecla um mafioso que atendia pelo curioso nome de Jonhy Traficante. Francis Ford Coppola botou a cena do telefone em um dos filmes de sua trilogia “Poderoso Chefão” . Lanski tinha construido um Hotel - o Riviera - (um big investimento ainda em funcionamento hoje- só que nas mãos do Estado) em Havana para receber seus convidados ( entre os quais grandes empresários americanos, militares e a bandidagem)  que iam se divertir no bordel a céu aberto que tinham transformado a ilha. Acho que fui esperando muita coisa de um filme americano sobre um assunto tão doloroso para eles. É mais fácil ficar no terreno da Mitologia, a História é muito incômoda, Este Che, fácilmente entraria no livro “Mitologias” de Roland Barthes- o  barbudo guerrilheiro romântico, ao lado do romano suarento (na base da vaselina), sempre ofegante, com os cabelos ensebados penteados  para frente.

Meu Cristo neo-realista

8 de abril de 2009

(Com a proximidade da Semana Santa, me lembrei de uma experiência marcante da minha infância em que se misturou cinema e religião. Curioso foi saber, muitos anos depois, na leitura do livro Antropologia do Cinema , do professor Massimo Canevacci que o fenômeno cinematográfico tem muito a ver com a religião . Um dia eu explico)

Foi antes da Páscoa, perto da Sexta da Paixão que um dos meus encontros com Jesus aconteceu. Pois é, foi num dia longínquo da minha infância. Peraí, não rolou de verdade, não. Sei de gente que se encontra pessoalmente com “o filho Homem”, leva um papo, fala em nome Dele etc e tal. Outros o fazem espiritualmente nas suas preces, mas meu econtro aconteceu, por assim dizer, de forma cinematográfica. Esta foi minha “passagem” (que é o verdadeiro significado da Páscoa-Pessach)por uma experiência mística sui-generis em 24 quadros por segundo.
Ocorreu num terreno baldio de um bairro em construção da periferia de São Paulo. Tudo, parecia um filme neo-realista italiano. As de pessoas chegavam com suas cadeiras,alguns bancos rústicos surgiam como num num milagre, de dentro de uma Kombi. Muitos sentaram no chão mesmo….Um padre, seu sacristão e os coroinhas organizavam a sessão. Uma lona foi esticada num aramado. Ficou bamba, mas tudo bem: de graça, até injeção. Em cima de um jirau botaram uma máquina estranha com dois carretéis grandes semelhantes a rodas de um trem de brinquedo. Ao lado da bruta, umas latas chatas foram empilhadas.Disseram os mais entendidos que o filme estava lá dentro.Grande mistério!
A noite chegou com seu negrume. Naquela época as ruas daquele bairro não conheciam a iluminação pública. velas foram acesas, poucos traziam lanternas. Um longo fio cheio de emendas foi estendido  até a casa mais próxima ao campinho. Em seguida o padre subiu numa cadeira, ligou a geringonça  e um jato de luz atravessou por sobre as cabeças da multidão (que àquela hora já se formara) e projetou alguma coisa na tela. Era uma imagem desfocada. Para complicar siluetas de pessoas que estavam na frente do projetor se agitavam e insistiam em atrapalhar a visão do povo.
Apupos, gritaria, mas nenhum palavrão, só grosserias:- Baixa essa cabeça! Sai da frente, pensa que é “invisiver”! …Risos nervosos. Até que o reverendo resolveu dar um basta naquele alvoroço. Elevou a voz, calou os reclamantes e pediu encarecidamente ao seu rebanho que se comportasse. Os fiéis que ainda não tivessem achado lugar tratassem  logo de encontrar um para sossegar o facho, que a fita estava para começar. Então “A Paixão de Cristo” invadiu nossos olhos, e não ficou nisso. Creio hoje, que algo mágico aconteceu naquela noite, mesmo sendo uma versão mexicana, de cores desbotadas….  Nós, num silêncio  de ouvir chiado de asmático fomos gradativamente conquistados pela dor daquele Jesus sem face.( Os filmes daquela época não mostravam o rosto do crucificado- só mais tarde, no cinema tivemos um Jesus louro e de olhos azuis – hoje seria culpado também pela crise econômica mundial)Juro que não consegui entender uma palavra que os atores pronunciavam: as falas se perdiam arrastadas pelo vento. Também não consegui ler as legendas. Além de tor pouca intimidade com as letras naquela época, elas sambavam na lona que insistia em se mover, de novo, culpa do vento. Acredito que a maioria sofreu os mesmos problemas que eu, no entando a comoção foi geral. Restou nítida na minha desgastada memória o sentimento que tomou conta daquela gente simples. Quase todos tinham os olhos marejados. Os que não choraram , mostravam um semblante carregado, um ar grave, contrito.
Tenho uma tese de que as horas finais de Jesus têm algo que supera a catarse, o poder que nenhuma tragédia grega consegue atingir. Por isso, tanto faz o filme ser mudo, falado em aramaico, latim ou javanês.

( A ilustração desta crônica foi baseada em obra de Francisco de Zubaran- “Jesus crucificado expirante”. Essa pintura foi realizada para o Convento dos Capuchinhos de Sevilha - obra provavelmente feita em torno de 1630/35 e está no  Museu de Belas Artes de Sevilla)

Sua memória anda falhando? Você não está sozinho.

3 de abril de 2009

(Por onde tenho andado esbarro na memória – explico melhor: em notícias que falam sobre a memória, pior, na perda dela. Primeiro foi minha mãe que me disse que estava ficando “meio esquecida”, (que me preocupou muito), depois caiu no meu colo, o livro “Não Consigo me lembrar do que esqueci” escrito pela pesquisadora Sue Halpern. Em seguida fui surpreendido por uma notícia de primeira página de O Globo de 17 de março - a manchete era: “O declínio do cérebro se inicia aos 27 anos”, (fiquei mais preocupado ainda). No domingo o Fantástico bombardeou na TV que tinha uma reportagem especial sobre a dita cuja da memória, mas no fundo era uma materinha sem sal e finalmente na banca nesta semana acabei comprando a revista Super Interessante com a seguinte chamada de capa:”Memória – Por que esquecemos cada vez mais? Aí resolvi meter o pé no acelerador e escrever uns fragamentos do que apurei sobre esse tema. Começo com um conto mezzo crônica.)

Todos notaram  quando  ele esqueceu o nome daquele  ator…que trabalhou  naquele  filme…o que  foi indicado  para  o Oscar  daquele  ano…em  1988, ou foi em 1998?… Quando viu que a situação estava crítica , o meu personagem tentou disfarçar,  fingiu ter se engasgado  com a farofa , tossindo saiu da mesa em disparada  e se trancou  no banheiro. Entrou pânico, olhou  para o espelho, estava  pálido, suava  em bicas. Era a primeira vez que  sua memória não respondia às suas solicitações. Precisava urgentemente  encontrar  o nome do maldito artista e pronto! Voltaria para a mesa e despejaria:-Val Kilmer…Ben Affleck  …ou Russell Crowe???  Mas o nome  teimava em se ocultar nalgum beco de seu cérebro:- Antonio Banderas, Tom Cruise, Brad Pitt??…Enquanto tateava acendendo fósforos nas trevas de seu pavor, sua família e os amigos se fartavam com o peru recheado  e o bom vinho do sul.  Beto Tristão , seu companheiro  de infância nas matinês  do Cinema Orly arriscou  uma piada: -Será que o Melão se afogou no W.C.? e emendou:- Ô Melão, como é o nome do artista mesmo? Não é Mazzaropi, não?
Seu colega  da firma, Roberval troçou:- Ué, deu um branco  no doutor Memoriol? e emendou :- Melão é um obsessivo, lê pelo menos  quatro jornais, fora o Le Monde Diplomatique, de vez em quando pega um New York Times antigo na banca do Aeroporto.
A mulher, Fafá, entregou seus hábitos domésticos, disse  que  ele assistia aos vários noticiários  de TV, num malabarismo  maluco  com o controle  remoto pulando de um canal  para outro. Chegara ao ponto de ter duas  televisões ligadas  em canais  diferentes  ao mesmo tempo para pegar  tudo : -Sabe como é que  é, o que é noticiado  num canal não é no outro.
Roberval acrescentou:- Melão  é a nossa ‘enciclopédia ’.Falou que  tinham até criado  um bordão. Qualquer dúvida que aparecia  na seção , a galera logo entoava em coro:-‘Pegunte ao Melão!’ Esse homem é ‘sinistro’, falou Zezinho , o tímido ‘boy’ da  empresa :- sabe de cabeça todas as  fichas do arquivo,  o almoxarifado  inteiro está aqui ó! Batia na testa.

Falou mais: -Especificações das  peças, quantidade  em estoque , ano de vencimento da validade, as ordens de serviço, o número das notas fiscais…Beto  Tristão querendo se  desculpar da brincadeira  grosseira  que fizera  elogiou: - Pois , é , o Melão é um fenômeno , responde  na lata perguntas  sobre nomes de  presidentes , deputados  , filmes, atores , jogadores  de times de futebol de  várias épocas, escalação  de  todas as seleções, inclusive  os bancos de reservas. Fora os títulos das novelas, a lista de  best- sellers,os campeões do mundo de peso-pesado , os afluentes do Amazonas  em ordem  alfabética e de trás pra frente…, letras de sambas, boleros, pagodes , até coisas do universo  hip-hop e sertanejo ….

A conversa continuou  animada, já tinham até esquecido  o pobre Melão, que no banheiro , maldizia  aquele  que  acabou  com o seu aniversário , derramando  na sua cabeça  aquela dúvida cruel. Qual é o nome daquele  ator  mesmo?….
Agora lá estava ele, sem camisa, molhando  a cabeça  na pia, cavoucando  o fundo das gavetas desordenadas de sua desmemória  onde agora se embaralhavam  milhões de gavetas  com  nomes de vários atores , craques  da  pelota, cantores  de rádio… Se tomava um atalho , apareciam  números  de notas fiscais do ano de 78,79 e 80, as especificações  técnicas  de retroescavadeiras, paquímetros, britadeiras , sambas- de - breque, catálogos de gols de placa,…Estava irremediavelmente  perdido, já  não conseguia sair do labirinto onde procurava um homem que um dia trabalhou  naquele  maldito filme que concorreu  àquele Oscar furreca! …ou foi o Urso de  Ouro?
O tempo foi passando  pesadamente  e Melão se encolhendo no fundo abismo daquela dúvida de onde dava para ver a infinita gama de luzinhas que  acendiam e apagavam ,como no fim de uma tempestade  numa terra devastada.
Sua mulher, de fininho, foi até a porta do banheiro, bateu de leve e perguntou a meia voz. “Mel”, querido está tudo bem?
Os convivas continuavam a zoeira, na ciranda de lembranças   dos prodígios  de sua  memória. Ele respondeu:- O que? Quem está falando? É a Fafá. O que esta acontecendo, meu bem?
Quem? Ele insistiu.
- A Fafá, sua mulher, criatura!
A pergunta que veio em seguida, a deixou perplexa.
-Eu sou casado?  Ela pensou, deve estar bêbado e insistiu.
-Sou eu, meu amor, a sua foquinha  que quer seu ursinho fora do banheiro. Seus amigos  estão na sala de jantar , seus filhotes, sua sogra , seu cachorro Lambido e o papagaio Almodóvar…sai  daí Melão!!! E ele:
-Quem é Melão?

Bem, foi aí arrombaram a porta e encontraram o nosso herói nu, agachado  num canto . Foi levado a uma casa de saúde, onde  hoje  se recupera, pelo menos é o que diz a enfermeira  de plantão .
- Ele não dá trabalho, é muito bonzinho. O único problema é essa cisma que não deixa ele em paz. No fim da visita Dona Martha , a enfermeira,  arriscou um palpite :- Olha, não tenho nada a ver com isso, mas eu acho que é o George Clooney.

Deixem Gabo em paz!

2 de abril de 2009

Dizem que Gabo decidiu parar de escrever. Não precisava ter escrito  os mais de 40 livros que nos encantou. Bastava  ter feito Cem anos de Solidão,  como fez o mexicano Juan Rulfo que só escreveu a magnífica novela Pedro Páramo e como brinde um punhado de contos que publicou num livro chamado Planalto em Chamas . Só com isso, eles deixariam  dois tesouros para a humanidade se deliciar e aprender.

Vamos e venhamos, Gabriel García Márquez, com seus 82 anos que comemorou em março, tem todo direito de tirar das costas o fardo de escrever mais alguma coisa.
A gente acaba dando razão a J.D. Salinger quando resolveu se esconder do olho chato da mídia e dos fãs- se enfurnando  naquela fortaleza que construiu em em Cornish, New Hampshire.

O sistema consumista da sociedade em que vivemos espera sempre muito de seus artistas.  Um livro por ano, um CD por semestre, um pensata genial por semana…Pare a gaita, gaiteiro!
Macondo viverá para sempre, isto é que importa!