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Minha vizinha chavista critica Insensato Novelão

21 de agosto de 2011 por Bruno Liberati

Minha vizinha chavista ligou lá de Miami, onde parou para fazer umas comprinhas e participar, como figurante, num capítulo da série CSI. É que ela está voltando de um SPA havanês, e no seu socialismo bolivariano-fashion sempre sobra um espacinho para um mergulho num shopping ao lado de celebridades brasileiras endinheiradas ou endividadas a dar com pau.
Eu até imagino nossa heroína bolivariana posando junto com Horatio Caine, abraçada ao “amante da camisa florida” (da publicidade da AXN), prometendo contar detalhes da sua aventura ideológica-fitness.
Ela não me deu tempo para divagações e foi logo tascando - disse que deu um chega pra lá no Horatio, amarrou o amante da camisa florida numa cadeira à beira da piscina, (na qual um cadáver esperava para ser periciado) e telefonou de um “orejón” de Little Habana para dizer que sente muitas saudades dos bons tempos, quando me perturbava com suas teorias conspiratórias e planos mirabolantes para tomar a Rede Globo e implantar o poder midiático socialista, cujo programa educativo consistia em liquidar o departamento de jornalismo da emissora (que estava ocupado em produzir, segundo ela- ficções) e exibir novelas, em regime de 24 horas para ajudar os compañeros cubanos a enfrentar la dura realidad del embargo norteamericano.
Ela, já em bom portunhol, disse :
- Compay, escreva lá no seu “grogue”… (não sei se vocês se lembram que ela insiste em chamar meu blogue de grogue)..diga lá no seu grogue que eu tenho uma ideia sensacional para la próxima novela das nueve. Lá em La Habana, yo consegui um esquema increíble para ver a novela Insensato Coração. Os companheiros inventaram uma parabólica usando un paraguas gigantesco daqueles usados no Hotel Nacional para abrigar turistas em dias de chuva. No me preguntes nada más! Estes mecânicos sensacionais de La Habana conseguem fazer qualquer coisa depois que alcançaram êxito em botar para funcionar estos Cadillacs de 1950! Estoy encantada ! Imagina che, que un problemita de comunicacíon és sopa para esta gente maravijosa!
Mas vamos ao que interessa. No me gustó El Insensato Novelón! Muitos furos na reta final, erros de continuidade e cenas flaquitas.
Minha ideia es la seguinte: acho que, pelo número de mortes que essa pérola da teledramaturgia exibiu, deu para sacar uma tendência da novela pós-moderna e pós-derrocada geral do sistema financeiro internacional provocado pela ganância de uma meia dúzia de espertinhos… Ih, acho que me afastei do tema, caramba! Vou tentar de novo: acho que essa peça rara de nossa teledramaturgia (Insensato Pacotón) acabou por constituir um divisor de águas barrentas, criou um verdadeiro paradigma e uma metáfora. Começemos pela metáfora: a novela como morte lenta. Usted já se ha quedado a pensar quanto tempo de vida a gente perde diante da telinha assistindo a vida dos outros? É isso aí; assistimos a novela enquanto morremos!!!! Mas isso é filosofia baratíssima, te quedes quieto! Presta atenção…O paradigma: na novela futura, todos morrerão. Na verdade, na novela da vida, todos vamos morrer, dia mais, dia menos, para regozijo dos coveiros, - mas isso é papo de calaveras malamadas. Voy tentar me explicar de otro modo: na novela do futuro, um a um os personagens serão mortos, até sobrar o último, que vai tentar matar o autor - esse grande assassino, que escapou das teorias Foucault - esse Kojak de bota cano alto e chicotinho na mão.
O autor que não é besta,(e tem muitas contas para pagar), depois de conseguir enganar o último personagem e o público com falsos textos, releases ilusórios, cumplicidade da mídia de fofoca, etc, etc, mata o tal personagem com requintes de crueldade - bem ao gosto dos nossos tempos. Em síntese: no fim, sobra só o autor que desliga a TV. Quer dizer, mata o espectador. Enfim, o espectador emancipado! Não é genial, chiquito?

Aí caiu a ficha do “orejón” e eu, como sempre, fiquei sem palavras. É muita dialética para mi pobre cabecita. Deixo esse problema para o Rancière e uma advertência.
Te cuida, Gilberto Braga! Essa minha vizinha és mucho peligrosa!

“Trabalho Interno” é o filme! Ganhou o Oscar

27 de fevereiro de 2011 por Bruno Liberati




É urgente, corra, vá ao cinema, assista “Trabalho Interno“  (Inside Job), pois tenho certeza de que ele vai ficar pouco tempo em cartaz!
É um documentário importantíssimo que procura explicar a crise atual que atinge o mundo e que começou em 2007/2008 com a “bolha” criada no centro do sistema financeiro americano (e suas articulações globais). O filme concorre ao Oscar de melhor documentário - expõe a raíz da crise e, o que é seu grande mérito,  dá nome aos bois ( que é algo que todo mundo se pergunta: Quem é o responsável por essa bagaça?).

A existência desse tipo de documentário mostra ,de certa forma uma fratura da mídia hegemônica que não foi capaz de traduzir o “evento” para as massas. Confesso que é difícil mesmo dar conta desse recado indigesto, talvez um desenho animado explicasse melhor o que aconteceu na formação da grande bolha que explodiu com o sistema financeiro mundial e arrastou para a miséria legiões de pessoas dentro dos EUA, na Europa e inclusive aquelas que hoje protestam no Iraque, no Egito, na Líbia e outros países da África e Oriente Médio. O filme mostra que esta é uma crise do Capitalismo, mas esse capitalismo tém seus representantes, nomes, endereços e cpf. Gente que ganhou oceanos de dinheiro a custa de quem?….tchan tchan tchan… Mais não é necessário dizer, apenas que o filme não é muito fácil de assistir- pois o tema é complexo, utiliza o jargão do mercado financeiro numa velocidade assustadora que mesmo com o uso de gráficos bem bolados deixam o espectador tonto. Mas é uma porrada!
Pode-se apontar um outro defeito, esse técnico,- que é o uso da legenda em amarelo claro que sobreposta ao fundo branco deixa quem não sabe inglês numa de cego em tiroteio. De qualquer maneira, apesar dessas dificuldades dá para entender quase tudo. Portanto, não desista! …
…Assista que vale a pena, pois ele, por motivos compreensíveis,(como disse acima) vai ficar pouco tempo em cartaz.
Para quem não pescou muita coisa nesse documentário, existe um outro filme que em linguagem mais “popular” aborda o mesmo problema, só que com muito mais ironia, humor debochado, mas não tão completo em termos de informações - trata-se do ótimo documentário de Michael Moore “Capitalismo: uma história de amor” (Capitalism: a love story).
Agora, se mesmo com esse filme do Moore, você fica boiando na maré da linguagem financeira, vá para “Wall Street - o dinheiro nunca dorme” de Oliver Stone, onde no meio de uma história de amor e problemas afetivo-familiares,o vilão Gordon Gekko, volta à cena (interpretado por Michael Douglas), depois de encarar alguns anos de prisão (na qual ele foi instalado no fim de Wall Street 1) - para dar uma palestra de capitalismo financeiro. No fim desse trajeto pelo mundo da “nova economia” você fica de miolo quente, mas começa a entender um pouco sobre as tramóias do mundo em que vive.
Pelo jeito, o Capitalismo começa a ser o ator principal do cinema americano. Pode-se dizer que é um bom começo, vamos apostar nessa nova geração, uma geração corajosa que resolveu pegar a câmera e buscar interpretar a realidade.

Saudades da modernidade

2 de fevereiro de 2011 por Bruno Liberati



Fui obrigado a Interromper minhas férias do blogue para cometer uma “pensatinha” antes que a coisa passe em brancas nuvens.
Pipocam alguns eventos nesse país desmemoriado que parecem indicar que a modernidade está sendo deslocada - ela que foi sempre deslocadora e desencantadora do mundo.
Vou falar do que está em volta do meu umbigo, mas acredito que outros eventos desagregadores estão acontecendo agora no seu bairro.
Arrisco dizer que tudo começou, com a extinção em 2008 do Cine Paissandu aqui do Rio de Janeiro. O fechamento deste cinema que foi considerado um dos pioneiros da exibição de filmes de arte e que abrigou as inquietacões da geracão do Cinema Novo já mostava que a coisa seria séria. (O Paissandu era tão avançado, que tinha um lugar separado por um grande vidro só para fumantes fissurados que não conseguiam esperar a sessão terminar para acender seu cigarrinho).
No caso do fim da loja “Modern Sound” o fato se deu literalmente. A loja que leva a modernidade em seu nome, e onde se encontrava tudo em matéria de disco, desde o jazz, passando pelo pop, pela música caribenha, africana até o samba rasgado - e que tinha um espaço para música ao vivo - fechou suas portas.
Sobre essa loja, me lembro de uma moça que não sabendo o nome de uma música, simplesmene cantarolou um trecho dela para o balconista e ele - ouvido apurado - a levou até o disco que ela queria. É triste pensar que esse balconista- que tinha a loja inteira na memória- vai ficar desempregado e obsoleto nesse mundo líquido.
A essa tristeza acrescente-se a notícia recente do fim programado do cinema “Belas Artes” (depois de episódios de agonia e renascimento) em São Paulo. Guardo bons momentos do Belas Artes, onde, lá pelo final dos anos 60, assisti pela primeira vez a “A Chinesa” de Godard.
Pelo que se percebe neste país, certos símbolos da modernidade estão sendo “deslocados” fisicamente, e olhe que somos, apesar do recente “status” de emergentes - um país, em certos setores super-periférico.

Sei que nossas grandes cidades vivem processos de mudança constante, reescrevendo suas histórias em fragmentos e como palimpsestos vão se gravando novos conteúdos simbólicos sobre as ruínas de outros símbolos que são soterrados como coisa passada - letra morta, mas confesso, que nunca imaginei que um dia teria saudades da modernidade, parece um paradoxo, né!? É isso aí, o que foi moderno, um dia, está em fase terminal.
Cientistas sociais já haviam constatado a existência de uma “tradição da modernidade”- nesta época de globalização e desterritorializações em todos os níveis - e outros avançaram na afirmacão da existência de uma “cultura internacional popular” - mas isto é um papo para outra hora.

O rato piou. Que piada!

29 de dezembro de 2010 por Bruno Liberati

(Aqui vai minha croniqueta de fim de ano. Saiu “de prima” e não deu para ver direito a pontuação - vou retocando no andar da carruagem. Desejo um feliz ano novo para os meus queridos amigos nevegantes)

O apocalipse tornou-se corriqueiro, de tão familiar que é como um contrafatual da vida cotidiana; e como todos os parâmetros de risco, ele pode tornar-se real“.
(Anthony Giddens)

Vivi o último ano da minha infância num tempo em que havia uma inocência tecnológica básica, poderiam também chamá-la de tosca, rudimentar, bizarra, para dizer o mínimo. Eu estava saindo do último grau do curso primário e vivia ainda num mundo impregnado de magia. Os acontecimentos do mundo continham um certo mistério para mim. Uma década e meia me separava do fim da segunda Grande Guerra - quer dizer, da terrível mortandade do último conflito mundial, do horror do holocausto e das duas bombas que arrasaram Hiroxima e Nagasaki . E dizer que nessa época eu não tinha uma consciência muito clara destes acontecimentos terríveis.Sabia apenas que os “mocinhos” tinham ganhado dos “bandidos”, a guerra vinha nos visitar em filmes que passavam na tela improvisada do cinema da Igreja.
Quer dizer, vivia feliz na minha santa ignorância no ano de 1959, enquanto o mundo se recuperava dos grandes abalos por que passara. Nos bastidores, sem o WikiLeaks, acontecia a guerra fria e as suas trapalhadas - uma bipolaridade de forças que manteve o equilíbrio mundial na base do terror de uma possível nova guerra, só que agora nuclear , que tranquilamente no melhor cenário, aniquilaria a possibilidade de vida no planeta. De um lado os EUA do Presidente Eisenhower ( e seu vice Richard Nixon) e do outro a URSS do premiê Nikita Khrushchov(ou Khrushchev).
O curioso é que já havia uma consciência do risco que envolvia essa fase da “modernidade”. Apesar de estar completamente por fora do que significou a segunda Grande Guerra eu me recordo que pessoal do meu bairro, nesta época, não titubeava em atribuir qualquer coisa de ruim que acontecesse no mundo ao uso da bomba atômica. Juntavam num mesmo saco coisas que não tinham nenhuma relação entre si e tascavam: - Tudo isso por causa da bomba atômica! Meu pai e minha mãe acreditavam piamente nisso. E acho que eles tinham uma ponta de razão.
Se pensarmos bem, esse raciocínio elaborado por aquela gente simples que habitava minha vizinhança, até que era bastante “científico”. A bomba atômica, de certa forma havia quebrado com toda noção de ordem natural que se tinha até então. Era parte conheciemento comum, de que o homem, para chegar a ela, havia mexido no núcleo da matéria e por mais que o pensamento “não perito”, desconhecesse totalmente o processo - tinha a sensação que algo na natureza havia sido transgredido de forma brutal. Em suma: a bomba era uma “desnatureza”. O medo que se tinha era de que isso tivesse alterado o equilíbrio da terra de forma irreversível. Portanto, a culpa de uma chuva mais violenta, de um terremoto, de uma nevasca sem precedentes, da erupção de um vulcão - enfim de uma catástrofe natural qualquer era da Bomba Atômica. (Hoje se fala de desequilíbrio ecológico com o mesmo sentido catastrófico daquele tempo). Mas parece que todos se acostumavam com a existência daquele risco nuclear,mas ele foi deixado de lado no baú dos nossos temores.
A vida seguia e esse tempo parecia sereno aqui no Brasil de JK onde se dizia : -” Pena que a televisão não seja a cores”. E havia uma frustracão muito grande porque Frank Sinatra nunca se decidia a visitar este país ensolarado que possuia palmeiras onde se não cantava o velho blue eyes, pelo menos gorjeavam os sabiás de todos exílios.
O Rio dizem os cronistas era uma cidade tranquila, linda de morrer( continua sendo) e havia sempre uma praia encantada para se banhar, para se namorar e cantar um samba-canção ou assoviar uma coisa que um pessoal muito devagar construia nos apartamentos da zona sul: a bossa-nova. Mas o que tocava no rádio de todo o mundo, era mesmo Elvis Presley, o primeiro cantor globalizado (eu acho) que estava no auge da sua carreira, e que por razões pouco explicadas (depois foi se descobrir que era marketing) tinha se engajado nas tropas americanas que serviam na Alemanha Ocidental, onde já tinha atingido o posto de “Specialist 4” (não me perguntem o que vem a ser isto, mas sei que está pertinho da posição do Sargento). Enquanto isso, por aqui era gravado o grande sucesso “Meu Brasil brasileiro” de Ary Barroso e em algum lugar do planeta junk, William Borroughs publicava Naked Lunch . Alheio a este movimento cultural, o ditador Fulgencio Batista tratava de dar no pé - fugindo de Cuba, com medo de Fidel Castro e seus barbudinhos, que céleres, desciam de Sierra Maestra para tomar Havana. Nesse meio tempo Aleida March era seduzida pelo charme de Che Guevara, Chico Xavier se mudava para Uberaba, enquanto eram abençoados os sinos da Catedral da Sé, em São Paulo e Orfeu Negro ganhava a Palma de Ouro em Cannes, justamente quando morria o cineasta Cecil B. de Mille, responsável ultimamente por produções de dimensões bíblicas como Sansão e Dalila e Os Dez Mandamentos. (só o “efeito especial” da travessia do mar vermelho feito de gelatina já valia o ingresso).
Vamos parar por aqui, pois eu já me perdi. Outra hora eu conto mais coisas sobre o ano de 59 que na minha teoria, era apenas um “pit stop” para o que viria, ou melhor um ano que estava na beirinha de um vulcão que iria entrar em erupção na década seguinte( 60 -70) e constituiria a terceira (ou quarta) grande onda que iria convulsionar o mundo de forma a criar uma nova era. Nada seria como antes tão rapidamente, imagine somente que em 1960 surgiriam os Beatles, o resto você já sabe.
Mas o que me levou a esse samba sem pé nem cabeça? Ah, foi um nariz de cera que eu acabei moldando para dar um tempo para explicar porque tenho medo do futuro. Pois é, eu bem que achava que o excepcional filme de Ridley Scott - Blade Runner - O Caçador de Andróides (baseado numa história mais complexa escrita num livro de Philip Kindred Dick) era uma coisa do futuro distante. Achava que ele antecipava um dilema ético que iria pintar de qualquer maneira e superaria as questões da antropologia, isto é trataria de problemas éticos numa área cinzenta “humana-além da humanidade”. Me explico melhor, nesse filme a questão central é a reivindicação dos “andróides” ou seja pelos seres “humanos manipulados geneticamente” de terem conhecimento do processo de como eles foram construídos para tentar aumentar sua expectativa de vida. Parece que eles eram programados para um uso de curta duração e queriam viver mais. Uns eram feitos para a guerra, outros para diversão e assim por diante. Ao mesmo tempo esses seres produzidos ( sintéticos?) procuravam sua identidade - já que a programação deles fora feita de memórias artificiais enxertadas no cérebro. É claro que uma coisa saiu fora de controle e que no fundo está o problema da liberdade, seja o sujeito legitimamente humano ou manipulado genéticamente. Mas o que importa agora é outra coisa : nesse filme aparece um “engenheiro genético” sinistro e solitário que diz que tinha facilidade para “fazer amigos” - que nos são apresentados num desfile de seres bizarros que o tal sujeito havia fabricado em seu laboratório. Isso acontece num apartamento sombrio de uma cidade onde cai uma interminável chuva ácida. A cena e até cômica, se não fosse trágica.
Acontece, meus amigos, que esse tempo chegou! Esse futuro está batendo nas nossas portas e parece que ninguém ainda se tocou. Espiem pelo olho mágico e verão uns cientistas japoneses sorridentes, pois acabaram de criar um camundongo que pia como se fosse um passarinho. Isso foi notícia em todo o mundo - deu até no Jornal Nacional . Eu pensei, pronto, chegou o tempo das doideiras! Daqui a pouco vão aparecer baratas na sua cozinha defendendo teses sobre Kafka, cães protestando por rações diet, árvores fazendo greve de oxigênio, clones autenticados dos Beatles se apresentando no Morumbi e oscambaus.  Tenho medo do passado voltar nesse futuro maluco. Tenho medo de me deparar com um híbrido, por exemplo: um “Michael Jackson do Pandeiro”. Tenho medo de um dia estar com 250 anos e participar da formatura de um alias meu , um menino igual àquele que fui no longínquo último ano do fim do meu curso primário (com o qual iniciei esta crônica). Tenho medo de que isso seja confundido com conservadorismo.
Eu hein!Parem o tempo que eu quero descer!
NR: A ilustração acima é uma “manipulação computadorizada do quadro “O medo” de Munch

Conto de Natal: A ceifadeira e as astúcias

22 de dezembro de 2010 por Bruno Liberati


(Tento agora criar neste blogue o costume de procurar escrever, uma história de Natal  nesta época do ano- necessariamente um conto que denominei “conto sujo de Natal” - em geral uma história triste. A deste ano foi colhida numa feira, não tenho idéia de quem seja o autor - espero que gostem- no final das contas ela não é tão triste assim).

…os poetas e religiosos estão acostumados a argumentar que se um indivíduo compara o tempo, bastante considerável, que ele está condenado a passar morto com o tempo relativamente breve que lhe é permitido para pavonear-se e aborrecer-se neste mundo, ele pode muito bem encontrar razões para encarar o conjunto de sua vida como um jogo fatal de curta duração, cada segundo do qual deve enchê-lo de ansiedade sobre como ele pode usá-lo. E na verdade, nosso tempo um tanto breve está escoando, mas parecemos prender nossa respiração por segundos e minutos dele”.
(trecho do livro Where the Action is de Erving Goffman citado em “As consequências da Modernidade” de Anthony Giddens)

Não vou aqui fazer balanço de nada. Não sou empresa. Acho Natal uma data triste. Sempre falta um na mesa na hora da ceia. E tem gente que nem ceia tem , nem presente, só solidão.
Então apenas vou contar uma historinha que ouvi na feira,no sábado passado, contada por um cabra muito engraçado que vende todo tipo de pão e bolo aqui nas redondezas. Não espere um texto elaborado, ele vai de prima, sem a bola tocar no chão - e claro sofreu uns acréscimos para engordar um tiquinho a fabulação.
Estava encostado na barraca das bananas quando vi um trio elétrico, não daqueles que agitam o carnaval de Salvador, mas três sujeitos que se sacudiam de rir num papo animado totalmente alheio ao ambiente mercantil da feira.
O tal dos pães começava uma nova anedota - eu a classifiquei assim.
Fez cerimônia, falou que aquela era a saideira e não era muito gozada não.
Disse que um dia Dona Morte, essa ceifadeira eterna, já perdida de memórias de quantos já levara para a definitiva travessia, uma senhora realmente sem noção, resolveu ao léu visitar um sujeito numa cidadezinha do interior conhecida pelas astúcias de seus habitantes. Bateu na porta, com toda educação e deu de cara com a patroa do indivíduo. Esta logo tratou de enganar a dama das trevas contando uma história que o marido não estava, que passasse outra hora. Antes de se retirar,só para confirmar Dona Morte perguntou sobre a aparência do cabra:
-Seu marido é um tal magrinho, cabeludo e barbudo que não toma banho?
A mulher, toda trêmula respondeu que era sim, e quase ampliou a mentira - pensou em dizer que ele tinha ido viajar e que não sabia quando voltava - quase disse, mas ficou com medo de se enredar e ser ela a levada. A ceifadeira encolheu os ombros, num gesto de resignação, e se retirou cabisbaixa e meditabunda - mas não satisfeita. Pensou:
-Aí tem coisa!
Logo que se viu livre da incômoda senhora fatal, a mulher correu para o quarto e mandou o marido sair debaixo da cama dizendo: Hômi de Deus, Dona Morte veio te procurar, enganei ela, mas acho que a danada volta e já tem até seu retrato falado. Trate de cortar esse cabelo, fazer a barba , tomar um banho e botar roupa nova. O marido, verde que te quiero verde, foi logo para o banheiro, se lavou nos pormenores. Raspou a cabeça e fez a barba com uma navalha que tinha para outros fins se necessário. Botou perfume no corpo todo, sapecou talco nos pés. Em seguida sua mulher entregou uma roupa novinha cheirando à naftalina.
-Agora acho que ela não me pega, todo mudado que estou, pensou alto.
A esposa emendou: - Mas é bom não facilitar. Recomendou:- Agora, querido, vá para a igreja e comece a rezar para que essa peste da Dona Morte esqueça sua existência. Acenda uma vela e se agarre no terço.
O homem saiu de fininho pela porta dos fundos, deu uma volta imensa para disfarçar e por fim chegou na praça onde, desconfiado, olhando para todos os lados, se meteu dentro da igreja. Ajoelhou-se na frente do primeiro santo que encontrou e tome ave-marias e padres-nossos, salve-rainhas…
Tremelicava na toada das orações, e tal era sua devoção que não percebeu uma sombra deslizando atrás dele. Era Dona Morte que cansada de esperar nas cercanias da casa do infeliz, resolveu descansar na igreja. Ao penetrar no templo, ela contrariada, falava com seus botões.:- Não é que o infeliz que vim buscar hoje nessa cidade me escapuliu, espertinho ele! Mas eu que não vou voltar assim de mãos abanando para o outro lado. Eu vim buscar um cabeludo barbudinho que não toma banho e vive mal vestido , mas não encontrei o tal. E se não tem o tal, leve o mingau. Olhou para a igreja vazia, só divisou aquele desinfeliz concentrado em se comunicar com o além. A nefanda senhora então comandou: - Acho que para não perder a viagem vou levar esse “pelado”(*) cheiroso e bem vestido que reza feito uma matraca.O desesperado, só pode estar em dívida com alguém. Pois vai ele mesmo.E assim ela levou o duvidoso pelo certo ou o certo pelo duvidoso, não tenho muita certeza.
***
Os três falantes cairam na gargalhada, eu confesso que ri também e nem quis pensar na moral dessa história. Acredito que essa anedota faça parte de algum cordel. Se não fizer, está nos trinques para se cantar numas feiras, mas não essa de Laranjeiras. E não é que até que rimou!?
Feliz Natal para todos.
(*) careca lá pelos lados no Nordeste do Brasil

Saudades de Mario Monicelli

1 de dezembro de 2010 por Bruno Liberati

Um momento do filme Os Companheiros (I compagni) ficou retido lá fundo do baú da minha memória e retornou ontem com a notícia triste da morte de Mario Monicelli, diretor de filmes antológicos , entre eles esse clássico dos anos 60. Não é um filme panfletário, mas um documento precioso sobre as históricas lutas operárias do século passado.
Marcello Mastroianni, na pele do Professor Sinigaglia (que também é um ativista político comunista, uma espécie de intelectual orgânico) está num trem a caminho de uma cidade onde estão ocorrendo graves conflitos sociais, especialmente entre operários e patrões e policiais de uma grande fábrica. Conflitos que parecem estar à beira da explosão e desembocarão fatalmente numa greve. Isso acontece no início da Industrialização na Itália quando a exploração do trabalhador era de uma brutalidade sem par ( O filme mostra homens jovens e velhos, mulheres e crianças vivendo o cotidiano de um verdadeiro inferno no chão da fábrica).
Mas vamos à cena que eu guardo ainda hoje na memória : Quando o trem se aproxima de uma estação e diminui sua velocidade - quase parando, surge a oportunidade do Professor Sinigaglia tentar saber em que trecho do caminho ele se encontra. Bota a cabeça para fora da janela e pergunta a um homem que está na estação: Che paese è questo? E o homem responde, com um ar de ironia:
-Un paese de merda!
É bom que se ressalte, que “paese” na Itália quer dizer “região”, tem o significado de local, no caso se refere à cidade, ou aldeia. A Itália , como todo mundo está careca de saber teve uma unificação difícil, a custa de guerras, pois seu território abrigava um conjunto heterogêneo de regiões com regimes políticos diferentes - cidades-estado desde principados até sereníssimas repúblicas. O filme Os Companheiros é de 1963 e foi indicado para o Oscar de 1965.
Esse pequeno diálogo que recontei do filme ( não me lembro exatamente se foi assim) dá bem a idéia de como era esse gigantesco cineasta que ontem se matou hoje aos 95 anos. Irônico, construiu seu cinema em meados dos anos 30. Essa veia irônica que o acompanhou até o fim, mesmo na sua fase das comédias -(ele é injustamente visto por certo setor da mídia apenas como um dos grandes realizadores da chamada comédia italiana) . Porém sua abordagem dos personagens “cômicos” não era do riso pelo riso, mas captava oculta a dimensão trágica desses homens. Seu filme mais famoso talvez seja L’armata Brancaleone , aqui traduzido como “O incrível exército de Brancaleone”. Ah, tem também La Mortadella, com Sophia Loren que chegou até a passar na TV.
Selecionei no Youtube um trecho do filme Os companheiros que mostra Sinigaglia discursando para os operários de uma fábrica de Turim. Pode se acessado no seguinte link http://www.youtube.com/watch?v=W3fc5LhHWos
Escrever sobre a obra de Monicelli é tarefa para um grupo de escribas e ocuparia vários volumes de uma verdadeira enciclopédia do fazer cinematográfico que atravessou o século passado e chegou até 2006, quando ele fez “Le rose del deserto”. Ciao Monicelli, meu herói! Mas antes eu gostaria de fazer uma última pergunta:
Che paese è questo?

NR: Para você navegante que não conhece o trabalho Monicelli, sugiro que vá até uma locadora e pegue alguns filmes - comece por algumas comédias: procure Meus caros amigos (Amici miei) pegue o Caros amigos 1 e o Caros amigos 2.
Procure identificar qual dos episódios que ele fez em Os novos monstros (I nuovi mostri -obra cômica que ele dividiu com Dino Risi e Ettore Scola).
Outro filme cruel dele é Parente é Serpente (Parenti Serpenti). Claro que você deve ver o já citado “Incrível Exército de Brancaleone” e Brancaleone nas Cruzadas.
Nesta era do DVD não sei se teremos acesso à toda sua obra ,- creio que devem existir outros títulos à disposição.

Polanski tenta fazer cinema político em O escritor fantasma

16 de novembro de 2010 por Bruno Liberati



(Advertência: Se você não viu este filme ainda, não leia esta crítica, pois ela pode revelar momentos que decifram a narrativa e contribuir para se prever o seu final.
Como vocês sabem, detesto estragar o prazer dos outros
)

Esta crítica vai de primeira, sem tirar o pé do acelerador - se alguns erros surgirem, corrigirei quando parar no pit stop

O escritor fantasma“(*) (The Ghost writer) é um filme menor de Polanski. Afirmação insolente diante de um consagrado diretor, mas que tem alguma verdade se você tiver a pachorra de compará-lo com algumas obras-primas que o baixinho construiu .É só lembrar de títulos como O Pianista, O Bebê de Rosemary, Chinatown, A Dança dos Vampiros, A morte e a donzela, O inquilino, Tess, Busca Frenética, e o maravilhoso Cul-de-Sac (Armadilha do Destino)… Isso só para ter uma pálida idéia de seu legado, heterogêneo, mas sempre com um toque genial.
Não que “O escritor fantasma” seja uma fita ruim, é um bom entretenimento. É preciso lembrar que ele levou o Urso de Prata no recente festival de Berlim, mas os alemães são muito bonzinhos.
Bem, deixemos de firulas e vamos ao que interessa: este filme de Polanski envereda pelo caminho do thriller político- e não tinha como não fazer isso, pois é adaptação de um livro que trata de um tema cabeludo, mas o problema está em como ele faz isso. A questão é que ele privilegia o thriller, desqualifica o componente político e cede ao esquema reducionista da realidade, ou da relacão ficção-realidade. Pois este é o “pequeno problema” que ele não tenta resolver ao adentrar a zona do agrião do filme político. É aí é que a vaca tosse e o buraco é mais embaixo. É preciso ter a mente de um Costa-Gravas(de Z, Estado de Sítio), de um Giuseppe Ferrara (de O caso Aldo Moro), de um Florestano Vancini (de Il delitto Matteotti) ou de Gillo Pontecorvo ( de Queimada, A Batalha de Argel ) para captar as contradições que se armam na esfera da política, e mais, saber representá-las, coisa que no filme de Polanski fica faltando em favor do clima, do suspense, da teoria conspiratória. Pode-se dizer que no plano ideológico ele contribui para reforçar o mito de que o indivíduo faz a história (uma idéia napoleônica), ou no mínimo, que é o indivíduo que influi diretamente na política. Nessa concepção o indivíduo é um Crusoé sem o Sexta-Feira. Este tipo de pensamento que enaltece o fator subjetivo frequentemente olvida a a sociedade, ou seja as mediações, o contexto, o exercício da política como fenômeno social, o indivíduo como representante de forças e interesses em luta - questões como hegemonia, negociação, influência da mídia são escamoteadas. A mídia aparece bastante no filme, mas só aparece como um aquário onde os “fatos” boiam - não aparece como instância que também participa da decisão, como um “poder” entre poderes, como por exemplo na guerra do Iraque ( a propósito veja livro “A cultura da mídia” de Kellner, que trata entre outras coisas da influência decisiva da mídia na orquestracão que deu “legitimidade” para a primeira incursão bélica contra o Iraque, na época de Bush pai, quando o pivô era a invasão do Kwait por Sadam Hussein, já demonizado… Acredito que Kellner babaria ao analisar a participação da mídia no caso da manipulação midiática da procura por armas de destruição em massa - que não foram encontradas e que motivou a segunda invasão do Iraque- agora numa guerra de arrasar). É preciso que se diga que na cena contemporânea as decisões políticas são tecidas num “território” transnacional ( que foi reconfigurado com o desaparecimento da bipolaridade da guerra fria = URSS x EUA + aliados ocidentais) de alta complexidade. Seria necessário mostrar que o alinhamento do “herói” se dá dentro dessa realidade, mesmo que se trate de uma ficção. Complicado? Não, veja qualquer filme de Costa-Gravas e imagine como ele resolveria estes problemas. Pode-se dizer que a ficção ( o imaginário) tomou lugar do político, o desfigurou, reduziu, caricaturou e pior, deixa entender que as coisas são assim. Em síntese naturalizou essa mitologia .
***
Para se entender esta crítica é necessário falar um pouco da história que Polanski nos conta. Ele narra as aventuras de um ghost writer, que é aquele famoso escritor fantasma, geralmente um jornalista contratado por uma celebridade para escrever no seu lugar, seja um artigo, um discurso ou uma autobiografia que é o caso do filme.
Acontece que o ghost writer do filme encontra uma situação muito cabulosa- ele é contratado para substituir um outro que morreu afogado. As notícias oficiais relatam que seu antecessor aparentemente se suicidou ou sofreu um acidente no mar. Bota suspeita em cima disso! O trabalho dele é reescrever a autobiografia de um ex-primeiro ministro trabalhista inglês (de origem escocesa) que está afastado numa espécie de exílio nos EUA e no momento está sendo acusado de crimes contra a humanidade pelo tribunal de Haia- devido à sua colaboração na tortura e morte de ativistas do Afeganistão. Impossível não lembrar de Tony Blair e sua relacão estreita com Bush e todo o cenário da guerra do Iraque.
De qualquer forma, o filme fala de um personagem que apesar de fictício, é carregado de “realidade” . O tratamento que se dá aos seus movimentos no filme é realista - acompanhamos sua trajetória como se fosse uma reportagem de bastidores. A guerra de que se fala não é uma guerra fictícia e sim real que está acontecendo agora no Afeganistão e as acusações de tortura tem fundamento real. Esta prática de interrogatório foi admitida abertamente (chamada de submarino e que consiste no afogamento do interrogado) e defendida por George Bush em seu recente livro de momórias chamado ‘Decision Points’. Daí que se eperava desse filme uma narrativa menos ingênua. O ex-primeiro ministro (fictício) aparece como um mulherengo, um sujeito despreparado e um tanto cínico - em síntese- uma caricatura. Há uma evidente tentativa de crítica, ao comportamento de determinados políticos adeptos do neoliberalismo que têm dominado a cena nos últimos anos, exagerando seu comportamento um tanto desinteressado das questões sociais e mais voltado para uma dolce-vita e jogos de cena. Esta perspectiva supõe que enquanto eles desfilam nos salões tomando uísque, as transnacionais e a as agências de segurança do Estado(CIA e outras) fazem das suas no submundo.
Na verdade essa representação se não é falsa, conta com uma distorção que desqualifica a participação do personagem, num momento histórico em que se dá uma virada na relação entre as decisões de Estado e a opinião pública e a mídia. O personagem do primeiro ministro afastado aparece como um fantoche, manipulado por forças ocultas. As decisões “políticas” no filme , acontecem de maneira muito imediata, num terreno abstrato, como fruto de conspirações. O que fica claro no filme é que essas decisões são representadas de forma muito rasa, sem base- não dão conta das articulações, dos interesses conjunturais , de que aquele homem que é primeiro-ministro representa um grupo sócio-econômico, que está inscrito numa tradição política( por exemplo lembrar que existiram os conservadores que na era Tatcher se alinharam de forma muito mais próxima dos interesses americanos), que existe outros elementos em luta, dentro de um contexto onde outros grupos também agem, e entre eles a mídia. Isso para falar de como as coisas rolam na efera interna de um país , no espaço territorial da Inglaterra, ou seja no interior do aparelho de Estado e suas conexões com a sociedade. Sem contar que hoje isto está incluído num espaço que cada vez mais se desterritorializa. Não vamos nem falar. das consequências da Globalização que aparentemente transtornaram e descentralizaram as decisões políticas para cenários diferentes - foros transnacionais onde múltiplos interesses dos grandes conglomerados negociam e rearticulam funções econômicas e poder político.
Enfim, a complexidade que serviria de fundo para a narrativa do filme fica de fora. No primeiro plano aparece a conspiração - a trama visível que o escritor fantasma desvenda e mostra que o primeiro ministro é um pau mandado … (não falo mais porque vai estragar o seu prazer de ver o filme)
O que cabe perguntar é se Polanski é realmente um ingênuo em matéria de política, ou se está preso às malhas de uma antiga forma de narrativa onde existem resíduos de maniqueísmo? E mais, se está requentando uma velho estilo ao reforçar o mito da força do herói- indivíduo, mesmo que tragado por forças monstruosas e não muito bem esclarecidas?
(*) O filme acaba de chegar às locadoras em forma de DVD
Serviço:
O escritor Fantasma (The Ghost Writer)
França / Reino Unido / Alemanha , 2010 - 128 minutos
Direção: 
Roman Polanski
Roteiro: 
Roman Polanski, Robert Harris
Elenco: 
Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Tom Wilkinson, Kim Cattrall

O Matador

6 de outubro de 2010 por Bruno Liberati



(Fui procurar um mantra na minha caixa de e-mail e encontrei um antigo continho besta que saltou e entrou no blogue - agora é tarde - vai ficar aqui)
Nosso herói morava num fim de mundo dessa terra onde canta o sabiá, mas tem lanrause e aipode.
O lugar se chamava Vão de Dentro. Os que não moravam ali eram de Vão de Fora. Entre o “Dentro” e o “Fora” passava a ferrovia, que um dia ele - menino desatendo, atravessou e a maria-fumaça o pegou meio de banda, deixando o infeliz coxo para o resto da vida.
Pode-se dizer que sua trajetória nesse planeta foi primeiramente dividida por aquele vacilo. Mas vida de pobre é igual a um trem mesmo, onde uma desgraça puxa a outra e muita coisa ainda iria correr por aqueles trilhos.
Do acidente surgiu um rapaz contemplativo, retraído, que passou a compor canções guardadas guardou numa caixinha que ele só abria na madrugada, quando a solidão se fazia tremenda. Não adiantou nada o que aprendeu de letras e contas na escola dos padres. Mesmo porque não passou daí, conhecimento miúdo dando pro gasto. Depois caiu num faz nada de dar gosto na esquina da venda. Foi onde abriu seu baú de melodias e cantou , e encantou Mariazinha - pedaço de pecado, toda rebolativa que defilava pela rua principal num uniforme do “Império-Super onde o preço é mais barato e quem manda é o freguês“. Essa visão fez dele um canário do reino. Ela se acostumou com aquela voz soltando mel, sorriu, deu bola, e ele um dia - ave canora levantou asas e foi atrás, disfarçando com ginga o efeito balançante da perna prejudicada. Foi querer saber sobre sua pessoa, de onde ela veio, para onde vai, essas coisas de cerca-lourenço. Soube que era nova na vizinhança de “Dentro e que a parentada toda morava na Serra da Peçonha. Passaram a namorar de portão. Certo dia, depois do cinema - onde viram um filme romântico -, ele cantou ao pé- do- ouvido dela uma cantiga que falava numa menina recém-chegada e bem-vinda no coração de um homem marcado. Ela chorou e mudou a vida dele pela segunda vez. No fim da sessão, ficaram de enrosco sob o escurinho de uma árvore, amor derramado nas coxas para não embarrigar.

O menestrel resolveu então logo arranjar emprego, ser alguém na vida e, mesmo meio bambo, virou cavaleiro-andante, vestido numa armadura de mata-mosquito, com toda aquela aparelhagem, caprichava no borrifo. Não tinha cantinho de terreno baldio que não fosse atacado - era pneu, garrafa usada, saco plástico vaso de planta. Em tudo ele metia o veneno. Era uma guerra dele e aquelas pragas voadoras e seus violinos infernais. Matava os ovins. Pena que só trabalhava nos bairros melhores da Capital e ela não podia ver sua exibição.
Para as amigas do supermercado, onde era caixa, ela dizia que seu namorado era um temido matador das encruzilhadas, que tinha pacto com o demo e oscambaus.
- Cruz-credo, Mariazinha! E você tem coragem de ficar com um homem dessa profissão? Ela demorava um pouco no gozo da mentira inocente, mas logo desfazia a brincadeira, antes que virasse boato rumoroso e dizia que, na verdade, ele era incapaz de matar uma mosca, mas mosquito matava demais.

O amor deles foi crescendo, embora agora morassem longe um do outro. Ele mais quatro irmãos de desgraça numa casinha da prefeitura e ela naquele perdido Vão, não importa se de Dentro ou de Fora. O rapaz não pegava condução, tinha uma kombi que o levava para o serviço dividido por zonas. Ela tomava trem e mais um ônibus. No trajeto, dormia e sonhava coisas que não contava para ele,pois morria de vergonha.

Mesmo assim cheio de adjetivos , o namoro foi firmando. Mas, no meio do romance, chegaram as más notícias: ela se estressou com um cliente mal-educado, que fez escândalo na hora de pagar a conta para a qual não tinha o numerário suficiente no momento. A corda arrebentou do lado mais fraco - sabe como é, cliente sempre tem razão, principalmente se possui dinheiro em casa e telefone celular para chamar a empregada, que trouxe o vil metal, o qual foi devidamente esfregado na cara do gerente. Este último, cheio de ódio de classe oprimida, subiu a serra e para lá mandou Mariazinha, com um putaqueopariu que se ouviu na Estação de Tranca-Cego, no caminho de Tapera Caída e atrapalhou o sono de Alcebíades, que não tem nada a ver com essa história.
O rapaz, por sua vez tomou um pé-na-bunda assim que a onda dos mosquitos passou, agora era esperar o outro ano para ver se a praga do Egito voltava e com ele o empreguinho perdido.
Como não tinham nada para fazer resolveram noivar e assim afastar a maldade das reparadeiras do lugar. Ela levou o matador para casa e apresentou à família.
Foi recebido com um almoço daqueles que deixa o sujeito triste, pedindo rede para dormir.
Oficializou-se o noivado, com discurso e lágrimas e goiabada.
Depois do cafezinho, como não havia rede, ele sentou mesmo numa cadeira de balanço lá no alpendre, fumou um cigarrinho, tirou um cochilo. Todo mundo aos poucos foi se retirando. Os pais da moça sairam de fininho para o quarto e Mariazinha, muito cansada, adormeceu na sala, onde a TV chegou a chiar. Quando acordou, o sol nascia depois do galo cantar umas cinco da paradas de sucesso. Procurou seu noivo, e ele estava no mesmo lugar a se balançar, com um sorriso comovente e cheio de sereno. Queria saber a que horas saía o café da manhã. Tem gente que garante que ele nunca mais se levantou daquela cadeira. Largou os mosquitos, sua fama de mau, e, hoje, mesmo com poucas letras na ideia, só mata mesmo é o tempo queimando a mufa com umas palavras cruzadas que Mariazinha traz da banca de jornais que fica perto do seu trabalho: o “Super Barateiro” - onde a alcatra está dez reais o quilo.

Aquela noite em 67 foi do barulho!

8 de setembro de 2010 por Bruno Liberati

Aquela noite em 67 foi do barulho!


Escrevo num só fôlego, acabei de chegar do cinema.(Desculpe se cometer alguma falha ou injustiça) Fui assistir “Uma noite em 67“, documentário de Renato Terra e Ricardo Calil. Só digo uma coisa - é imperdível. Se você gosta de música, precisa assistir a esse documentário bem feito. Sempre acho que um documentário deveria situar historicamente os fatos ou eventos narrados - não precisa ser didático de maneira chata. Renato e Calil fizeram isso, de certa forma, não de maneira explícita, mas nos “entrefotogramas” . Confesso que já tinha lido uma boa crítica do jornalista Maucício Stycer , faz algum tempo, e ela me motivou para ver esse filme que me transportou para esta noite precisa - dia 21 de outubro de 1967,- época em que eu era um adolescente fascinado pelo turbilhão cultural que atingiu o pequeno mundo que eu frequentava, - as estações de rádio de Sampa, os shows musicais da TV (O fino da Bossa, Esta noite se improvisa), os filmes de Elvis Presley que passavam no Cine Vera, os discos dos Beatles que tocavam nos bailinhos, competindo com Ray Coniff. Nessa noite memorável eu assisti à final do III Festival de Música Popular Brasileira transmitido pela TV Record em Sampa. Me lembro que vi esse espetáculo pela televisão de um amigo, o Reynaldo, que jogava na linha do time da Paróquia comigo e que também curtia música - nesse tempo minha família não tinha TV e era costume a gente assumir a identidade de “televizinho” - que era o apelido que se dava àqueles que se juntavam na casas dos vizinhos que tinham TV como uma mini-platéia de cinema - numa espécie de comunidade - num saudoso momento de solidariedade eletrônica. Mas essa foi uma noite especial, pois a casa desse meu amigo não era perto da minha casa, juntou bastante gente para ver a contenda dos caras que estavam botando pra quebrar no cenário da música popular. Lembro que o festival acabou tarde e tive que voltar para casa quase beirando a meia-noite- coisa que não era comum naqueles tempos - e olhe que tive que atravessar o bairro inteiro por ruas que ainda não tinham sido contempladas pela iluminação pública.
O que permaneceu dessa noite, durante toda minha vida foi um conjunto de sensações que envolveram a música” Domingo no Parque” de Gilberto Gil e Capinam . Essa música verdadiramente elétrica, foi defendida por Gil cantando junto com os Mutantes . (Um dia vou contar a história da vez em que carreguei a guitarra dos Mutantes - profissionalmente- é claro).
Percebi, hoje, que existe uma brutal diferença entre você ter vivido a história, mesmo como simples anônima testemunha - e a de assistir a um documentário de um fato que você não presenciou- é como é curioso ver esse momento que recuperado e ampliado para você. É difícil comunicar às pessoas que não viveram esse fato-evento-espetáculo, o que você sentiu. Hoje, no cinema, eu me vi de novo diante da tela (só que maior) assistindo tudo aquilo com uma emoção imensa, ainda perturbado, diante do que aquilo tudo. O que aquilo tudo significou? Aquilo que me impressionou e cativou no “som” novo de “Domingo no Parque” foi a letra de Capinam, composta como uma história contada de forma fragmentada e a música revolucionária de Gil - feito na medida para o som das guitarras elétricas dos Mutantes que mataram a pau com as guitarras distorcidas.
Cabe ressaltar, que nesse tempo, as guitarras elétricas eram absoluta novidade no território da nossa sensibilidade musical melancólica, dos acordes dissonantes de um samba de uma nota só e que naquela época se constituia uma ofensa ao panteon da MPB o uso de um amplificador Fender. Essa rejeição nativa desembocou em ardorosos artigos contra a eletrificação e passeatas reivindicando a abolição das guitarras.(Um fato curioso, o filme pega um flagra de Gilberto Gil em franca contradição como participante de uma dessas passeatas e depois no festival se apresentando com o auxílio luxuoso das guitarras elétricas dos Mutantes).E olhe que a gente não sabia ainda que nos EUA, nas terras do velho Tio Sam, o movimento era o mesmo - o pessoal da música folclórica americana criticava de forma violenta um jovem de cabelos encaracolados e voz anasalada- que insistia em dizer que alguma coisa estava mudando.
“Domingo no Parque” era o pop internacional se misturando com uma história prosáica de dois homens simples, trabalhadores que vão a um parque de diversões- e a luta que eles travam por causa de uma mulher - o que a crônica policial chama de o pivô do crime- Pois é, Gil narra um crime passional - e ao que parece os dois eram amigos. Aquela junção pop- com tema de bolero era muita novidade. A novidade estava na forma da narrativa e seus aditivos. Nem vamos falar de “Alegria, Alegria” que também concorria nessa noite. Alegria, Alegria que usa e abusa das colagens de imagens, (uma forma moderna , sem dúvida de tratar a poesia) também sobre uma “plataforma” tradicional de uma melodia típica portuguesa - como entrega Caetano no filme. Alegria,Alegria, é claro que também foi uma explosão, mas para mim, ela foi explodir algum tempo depois. “Domingo no Parque” explodiu a minha cuca primeiro.
Não sei se por algum tipo de manipulação midiática dos donos da bola da Record na época, e de alguns jornalistas, essa noite deixou a imagem de que nela ocorreu o antagonismo do moderno contra o tradicional na MPB. O que é uma imagem errada - já que todos alí apresentavam formas da modernidade. Não se pode dar grandeza a esta noite sem falar de Roda Viva que é obra de gênio e Ponteio. Chico e Edu Lobo fizeram duas obras potentes, modernas, que infelizmente ficaram marcadas como tradicionais, tamanha foi a onda que Alegria, Alegria causou junto com Domingo no Parque, sacudindo o território da canção brasileira e construindo a base do o nascente movimento tropicalista - (que mais tarde se enriqueceria com o genial inventor Tom Zé e a poesia sacudida de Torquato Neto, mais a diabruras de Rogério Duprat que acabou de entortar o coro dos contentes). Justiça seja feita: temos que falar de Sergio Ricardo que é um grande compositor e que nessa noite teve que enfrentar as vaias que mostravam um pouco do espírito da época, uma raiva que pairava no ar, uma certa urgência e uma certa intolerância em relação ao novo. “Beto bom de Bola” era uma novidade muito complicada para a cabeça daquele povo que vaiva sem parar. Convenhamos que é uma música difícil de ouvir, apesar de se apresentar com roupagem quase de um “pagode” - conta a história do surgimento e decadência de um craque do futebol . O problema estava na música, no arranjo, não era fácil de ouvir -repito. Ao que me parece não tinha condições de enfrentar as locomotivas que Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso e Gilberto Gil tinham botado nos trilhos. Eram música que tinham algum tipo de apelo- eram novidades, eram modernas, mas tinham um apelo, um gancho qualquer que seduzia as massas, mesmo as pessoas que começaram a vaiar - estas logo foram dobradas e passaram a aplaudir, como Nelson Mota exemplifica no filme.
Já falei da complexidade do arranjo e agora falo sobre a empatia. . Essa música de Sergio Ricardo estava deslocada alí. Havia uma torcida implacável que vaiava - até para estar na “moda”, pois fazia parte do ritual vaiar algumas figuras naquele tempo. E parte da platéia cismou com Sergio Ricardo , que , ao que me parece, não teve muita paciência e não foi simpático em nenhum momento - de certa forma provocou o público exigindo silêncio etc e tal e acabou quebrando o violão e jogando em cima da platéia - tá tudo lá documentado- ele grita: - Vocês ganharam! E quebra que te quebra violão . Acho que ele demorou demais em explicações diante da massa. Pois ali o que ocorreu foi um fenômeno típico do comportamento de massa. A vaia - além de se constituir numa moda, era a expressão de várias coisas reprimidas nessa época triste do Brasil de quarenta anos atrás. E olhe que a noite longa de chumbo ainda estava por vir. A serpente ainda estava dentro do ovo Em síntese em 67 , havia muita coisa reprimida, mas havia também uma criatividade imensa, uma vontade , uma energia , lá sei eu que havia. Só me lembro que eu era adolescente e senti no ar aquele vento da mudança que o Bob Dylan cantou um dia.
Só que na sociedade de Bob Dylan (apesar da Guerra do Vietnam) e no resto do mundo a partir daquela época, principalmente em 68 e 69 a roda de Aquarius(*) ia na direção da luta pelas liberdades individuais diante do sistema,paz e amor, protestos em todo mundo, enquanto aqui o pau comia na casa de Noca e no México com aquele massacre dos estudantes. Mas tinha muita gente boa, das classes médias que se preparavam para o milagre econômico - gente que ia para Bariloche e comprar seus casacos de couro argentino na Calle Florida. Nada contra, mas o chamado “milagre econômico” que nos custou caro depois - foi a válvula de escape do regime de dietadura. Era a época do Ame-o ou deixe-o, e aí a gente vai e ganha a copa do mundo em 70… Acho que me perdi…
Voltemos ao Festival. Uma coisa que notei, foi como se fumava naquela época! Cáspite!!! Todo mundo fumava desbragadamente, desde os repórteres, até os entrevistados , passando pelos papagaios de pirata. É muito engraçada uma cena em que Chico solta uma baforada na cara , não sei se de Randal Juliano ou Reali Jr. que junto com Cidinha Campos ficavam nos bastidores fazendo a entrevista antes e depois das apresentações dos candidatos. Não sei como não incendiaram o Teatro Paramount (local onde realizaram o festival no centro de São Paulo). Tinha gente até fumando no palco na hora do encerramento do festival. Que diferença em relação aos dias do hoje!
Paradoxal (e Mauricio Stycer já tinha me apontado isso) é o comportamento de alguns participantes, entre eles Edu Lobo e Chico Buarque e um pouco Caetano Veloso nos depoimentos feitos agora , passados 40 anos e em comparação com o que manifestaram na época. Naquela noite, todos pareciam muito animados, nervosos - parece que foi numa noite quente - onde até Roberto Carlos estava meio grilado, ele que - como confessa- já estava acostumado com vários tipos de platéia - e como representante da Jovem-Guarda (os cabeludos etc etal) estava como um estranho no ninho, isto é, no meio das feras da MPB. Ele fica surpreso ao saber que existia até uma tropa de choque organizada para vaiá-lo. Pobre do Roberto, iria defender um samba! Mas é preciso se observar como ele canta bem, a canção sai tranquila de sua boca - de forma natural. O cara é bom intérprete pra caramba!
Gil e Caetano, olham para o passado com uma certa nostalgia. Apesar de Caetano fala num tom um pouco blasé da sua antiga Alegria, Alegria, é comovente o seu depoimento, quando ele fala da juventude e dos dias de hoje…
Mas, uma noite em 67 têm muito mais coisas: tem MPB4, Nara Leão, Marília Medalha, Os argentinos The Beat Boys, os depoimentos de Sérgio Cabral (pai), Nelson Motta e outros. Ah, Ferreira Gullar estava no júri.
O tema do filme é tão fantástico, que num determinado momento percebi que a platéia do cinema estava cantando as músicas que eram apresentadas na tela (principalmente uma chata sentada ao meu lado) .Isso mostra que aquelas canções permanceram, são imortais e o filme fez o grande favor de registrar aquele momento fabuloso em que elas brotaram…
(*) gosto de usar essa imagem que Elio Gaspari empregou no seu livro sobre o período autoritário em comparação com o que ocorria no mundo lá fora.
(se rolar mais alguma memória e “posto” aqui)
(imagens do filme você pode acessar no seguinte link

http://cinema.uol.com.br/album/uma_noite_em_67_2010_album.jhtm#fotoNav=1)
Para ver e ouvir Gil e os Mutantes no festival defendendo “Domingo no Parque” clique no link abaixo
http://www.youtube.com/watch?v=Zbv3M-AdxC0

Crumb veio e eu não fui

7 de agosto de 2010 por Bruno Liberati

Pôxa vida, não vai ser nesta vida que verei o grande Crumb de perto…É uma pena, uma caneta, um lápis, sei lá!? Mas acho que até que foi bom estar aqui, no mesmo litoral, vendo a onda bater no rochedo, bem distante do turbilhão em que ele está perdido. Não iria poder bater um papo tranquilo com ele mesmo. Sinceramente, estou curtindo muito catar notícias dele na internet e saber de suas aventuras em terras brasileiras. Interessante tomar ciência de que ele acha este mundo uma merda, ( e olhe que ele tem lá suas razões), que acha que os EUA não têm jeito, mesmo com Obama e que prefere ficar tranquilo lá na França ouvindo seus bolachões de 78 rotações. Acho curioso, quando ele diz que não sabe o que está fazendo em Parati. Parece coisa de doidão, mas não é, nem é pose, é ironia mesmo. Sempre admirei o desenho dele, suas histórias aparentemente malucas. Sofri vendo o documentário sobre a família dele. Sou fã de carteirinha desse senhor excêntrico, imaginem, tenho até um exemplar de uma ZapComix lá do comecinho e guardo muitos livros desse monstro sagrado do humor gráfico. Meus filhos sempre que podem, compram para mim alguma coisa que ele publicou pelo mundo. Gosto mais daquela fase em que ele entortava tudo, em que os pés dos personagens eram compridos, da época do Mr. Natural, lembram? Atualmente, por algum motivo que desconheço, seu traço está cada vez mais “realista”, mas tudo bem, temos que considerar que sua obra é um verdadeiro monumento ao desenho, e seu valor vai muito além do “culto underground”. Isto quer dizer que ele pode enveredar até para a garatuja (se é que isso é possível) que sempre vai ser o grande Crumb. Muita gente ganhou dinheiro às suas custas - imprimindo coisas suas em gibis, camisetas, cartazes etc…Mas ele nem ligou, e continuou a com sua palheta a arranhar seu banjo, tocando músicas dos anos 30/40, desenhando com pena e nanquim e achando que não deve ser levado a sério. Falou e disse! (como se dizia naqueles tempos em que a roda de Aquarius girava para um lado e aqui no “patropi” imperava a lei da “dietadura”- Mr. Crumb, com suas historietas sacanas ajudou a formar uma geração de desenhistas e contribuiu para suportar o sufoco daqueles tempos cinzentos).
Não sei não, mas acho que desse mato da Flip vai sair mais do que coelhos, creio que Crumb vai acabar morando por aqui, dada sua admiração irrestrita pela preferência nacional - o derrière bem formatado que ele já deve ter notado circulando pelas ruas daquele brinco de cidade que é Parati. Como dizia o sábio Benito de Paula: “Agora chegou a vez, vou cantar, mulher brasileira em primeiro lugar”.
Xi, acho que o final deste “post” saiu meio machista, o que hacer?