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A paralisia da guerra e seu distante fim

7 de fevereiro de 2010 por Bruno Liberati


Quando vi o filme, ele não estava nem nos cinemas, foi lançado aqui no Brasil em forma de DVD. Repousava na locadora do bairro, no meio de um monte de porcarias, me esperando imapacientemente. Na árdua tarefa de garimpar alguma coisa para ver no final de semana, me deparei com aquele título (em português off-course) , gasto e apelativo : “Guerra ao Terror“(The hurt locker). Pensei : - Mais um filme chinfrim sobre essa guerra infame.Gastei dois adjetivos e peguei a embalagem para ler os créditos - confesso que só levei para casa porque no elenco aparecia o nome de Ralph Fiennes . Explico, não sou fã desse ator, mas tinha visto um par de filmes em que ele atuava, e não eram propriamente”lixos” culturais como é a grande parta da produção hollywoodiana - é claro que seu nome funciona como uma grife que confere status a alguns produtos da indústria cultural. Foi mesmo na contramão que me vi levando esse produto duvidoso naquele saquinho preto junto com um filme francês antigo. É que ando como maluco atrás dos filmes comentados por François Truffaut no livro (que comprei num sebo) “Os Filmes de Minha Vida” - que reúne uma seleta dos artigos que ele escreveu entre 1954 e 1975. Nada como uma boa viagem ao passado para refrescar a cuca e ver o cinema que se faz hoje com outros olhos, mas isso é assunto para uma tese. Portanto, foi dentro desse paradoxo subjetivo, que comecei a assistir “Gerra ao Terror”. O filme tem (desculpe a piada) pavio curto - não demorou muito tempo para ser capturado pela tensão, e sensação de asfixia que essa fita transmite. Um de seus méritos (pois é, decobri depois que ele tinha muitos méritos) é ter uma direção que trabalha a câmera de um modo que te joga dentro da ação, que não é feita do movimento de grandes combates, de cenas espetaculares, da corrida de gato e rato, mas , por incrível que pareça, extrai sua força da paralisia, do pântano em que se transformou aquela guerra equivocada,- em contraposição a pequenos movimentos, que se não forem feitos com precisão, provocarão curtos-circuitos que vão explodir tudo.
Nessa altura do campeonato, todo mundo deve estar por dentro do roteiro: Um grupo de soldados está com os dias contados para deixar o Iraque - mais particularmente um grupo que tem por função limpar os furúnculos da guerra, ou melhor, identificar e desarmar artefatos complicados que detonam explosivos - desde minas até homens-bombas. A perspectiva de sair daquele atoleiro em poucos dias se vê complicada por um aumento na escalada dos atentados - o que leva o pessoal à beira da insanidade.
O filme é adrenalida pura junto com a nitroglicerina ficcional. Quase que está além do bem e do mal, pois a obra procura não julgar, foge do maniqueísmo, embora esbarre com um ou outro lance de preconceito em relação ao inimigo. É evidente que não pode haver neutralidade, quando se vê o filme com os olhos do invasor. Não tem jeito, os insurgentes sempre serão vistos como os “terroristas” . Mas o filme não pesa a mão nesse aspecto. É claro que não se questiona o discurso do Estado que instaurou conceitos tais como esse de “terror”, de “eixo do mal” etc.- do qual essa guerra resultou - uma mistura de mentiras e decisões da administração Bush que contrariram posições da ONU e lançaram os EUA numa aventura à la John Wayne. O problema daqueles caras do filme é achar a bomba, desativar a bomba. Uma boa metáfora para a era Obama. Apesar de não ser um filme de reflexão, no geral, ele procura encarar a circunstância e o evento da guerra como uma tragédia - uma infelicidade que atinge a todos e que parece não ter fim. Mas há um prazer mórbido nisso quando se vê mais de perto a figura do herói, que é questionada- de forma a pensá-lo no contexto da loucura que a tudo preside num cenário totalmente estranho, cheio de arestas, onde cada cidadão “nativo”, pode representar o seu fim. Existe até uma certa visão que mostra o herói como um viciado em adrenalina…mas essa é outra história.
Pode-se dizer que Kathryn Bigelow fez um bom filme. Nada que se compare à visão dos filmes que Clint Eastwood fez sobre a segunda guerra.
Curioso saber que ela concorre com Cameron, seu ex, que também fez em “Avatar” - ao que parece - também um filme de guerra. (Ainda não vi o filme).
Suspeito que inconscientemente, ou muito conscientemente Cameron usou o recursos brechtiano do distanciamento para falar de um problema que nós vivemos aqui e agora - o que não é o caso desse fragmento que Bigelow dirigiu com maestria. “Guerra ao Terror” é uma porrada! E como em “Avatar”, lá no Iraque, tudo é estranho, inclusive a armadura (quase medieval) que o “especialista” usa para se proteger das explosões. Mesmo assim não consideraria essa obra como um forte candidato ao Oscar de melhor filme. Talvez de melhor direção e de economia, pois foi feito com muito capricho, contou com uma câmera preciosa e uma edição de deixar o espectador sem fôlego- isso tudo feito com baixo orçamento - pelo que soube- foi filmado em Los Angeles mesmo. De qualquer forma, se constituiu numa boa uma surpresa. Só não concordei com um lance do filme, mas não vou contar para não estragar a sessão pipoca.(Só volta a falar desse filme depois de ver Avatar)

G - passa do ponto

11 de janeiro de 2010 por Bruno Liberati


Querida, você sabia que acabam de dizer que o ponto G não existe, que toi tudo invenção do tal do Dr. Ernst Gräfenberg?
- Tô sabendo, li numa revista - ou foi na TV?
- Pois é, esta foi a conclusão de uma pesquisa. Uma psicóloga chamada Andrea Burri jogou o ponto G no lixo, não sei se isso é bom ou ruim. Mas uma coisa tá me perturbando a cachola: você fingiu esse tempo todo, Gisela?
- Fingi o quê, Geraldo?
- Os orgasmos múltiplos… essa coisa toda de que eu te levava ao céu, que você via estrelas, até os anéis de Saturno???!!!
-Peraí Geraldo! Tá certo que em algumas vezes eu não cheguei lá, confesso que simulei um prazer multiplicado, mas, vamos dizer que em 65% das vezes a coisa funcionou e eu me diverti bastante.
- Então quer dizer que nos 35% eu fracassei?
- Calma, meu bem, isso deve ter acontecido com todo mundo. Você não devia pensar assim. O homem não tem obrigação de proporcionar à mulher, digamos tecnicamente, uma multiplicidade de orgasmos. Muitas vezes, um orgasmozinho já dá conta do recado.
- Estou perplexo, fui enganado pela medicina e pela minha mulher. Agora fico diante de um dilema: quando vou ter certeza se estou sendo satisfatório ou não para com sua, digamos, economia libidinal, Gisela?
- Deixe de formalidades, Geraldo, sejamos diretos - é a mesma coisa que aquele negócio de que suco de berinjela com laranja, que alguém disse que tomado em jejum abaixa o colesterol …pelo menos o fictício ponto G não causa uma úlcera…
- Mas poderia me causar uma estafa. Porque essa procura por esse minúsculo ponto super erótico exigiu muito tempo, esforço e dedicação. E agora descubro que no fundo, causou - no máximo uma “cosquinha”…um exercício teatral ritmado!!!!
- Não seja dramático, Geraldo. Eu confesso que no começo também acreditava no ponto G. Juro que tentei sinceramente me convencer. Fiz esforço para chegar lá, mas num determinado trecho do caminho vi que era um programa de índio - senti que era inútil continuar nessa “pilha”. Então, para não desagradar e não causar polêmica, dei uma fingidinha-, e uma vez ou outra, exagerei em alguns momentos de prazer. E olhe que muitas vezes até entrei “numas” e no embalo, realmente cheguei a ver estrelas.
- Quer dizer que sou um zero a esquerda? Que meu desempenho pouco conta na hora do “vamos ver” ?
- Nada disso! Tire isso da sua cabeça! Sua participação foi fundamental no jogo amoroso. Só que você tem que combinar o resultado com o adversário, né… Peraí esta foi mal…Digamos que como a sexualidade feminina é mais complexa, e depende de vários fatores, entre eles uma boa dose de fantasia, um certo relaxamento da mente, uma disposição para o “futebol” y otras cositas más. A gente vai para a cama como se fosse para uma festa e não para um campo de batalha. Os pontos erógenos estão no corpo todo, mas é o cérebro que comanda. A cuca tem que estar legal. É uma coisa lúdica, meu amor, é preciso jogar, sem compromissos com os resultados. Nesse jogo, os dois ganham.
- Acho que vou deprimir, Gisela, eu que achava que era bom de cama. Posso dizer que para mim um paradigma caiu. Meu mundo caiu… Me passa meu remedinho, por favor!
- Que é isso, Geraldo, chega mais aqui, que vou te mostrar o meu ponto G de verdade, e olha que não é ponto de tricô, nem de doce de goiaba, me tem lá seu mel. Vem cá que vou te dar o seu “remedinho”,o ponto G de Gisela!
- Não podia ser ponto G de Geraldo, não é mesmo? Porque seria um pontinho, né!?
- Quer saber de uma coisa? Vamos botar um ponto F nesse assunto, um ponto final, meu garanhão!

Encontros e desencontros n’Os Sertões

8 de janeiro de 2010 por Bruno Liberati

(Não consigo explicar as razões da atração que o tema da Guerra de Canudos exerce até hoje sobre a minha pessoa. Vou tentar saber no andar da carruagem. Tenho três coisas a dizer, antes de entrar nessa caatinga em progresso: 1º- li numa reportagem de um site da internet  que uma pesquisa sobre literatura  revelava um dado compreensível, mas assutador:  Chico Buarque é mais lembrado do que Euclydes da Cunha como escritor. 2ºLogo em seguida, li no blogue de Luiz Carlos Amorim um texto intitulado “Euclides da Cunha, o Grande Escritor quase esquecido” (publicado em jornais e outos sítios) onde o blogueiro diz :”Acabo de ler uma carta de leitor do Estadão, comentando o centenário da morte de Euclides da Cunha, o genial autor de “Os Sertões”, constatando que o grande escritor ainda é, infelizmente, um ilustre desconhecido.” 3º-Com essas duas leituras e mais o conhecimento que obtive acompanhando o ótimo blogue do meu companheiro do “portal” YouPode, Luiz A. Erthal - que reclamou a diminuta repercussão do centenário da morte de Euclides, que me motivei  para escrever isso que segue. Não é um ensaio, tem um valor de confissão. Veio de um trabalho de leitura num momento muito difícil da minha vida que atravessei junto com os jagunços numa guerra do fim no mundo dos Sertões. Quem sabe chego a algum lugar com esse texto).

1º Capítulo -

De como uma professora do primário resolveu botar uns pobres meninos pra suar
Soube da existência de Canudos na minha escola (hoje soterrada debaixo de um prédio moderno da zona norte de São Paulo) onde cursei o primário. Foi quando tive que fazer um resumo de Os Sertões de Euclydes da Cunha.
Peraí, a professora não era maluca não!  Ela não era uma mulher  tão bonita  como foi uma dia  uma de nossas professoras, pela qual muitos de nós caímos nas primeiras teias da paixão e amargamos o fel da decepção ao saber que ela era casada. Essa que nos meteu nas trilhas de Monte Santo tinha cara de coruja, aspecto que era acentuado por uns óculos de aro grosso e negro. Era morena de cabelos lisos e a princípio nos causou um certo receio pela forma severa como tratava aquela turma endiabrada, na qual tentou de alguma forma, fazer a experiência de botar algumas idéias nos mais cabeças duras da escola . De fato, ela  era cheia de boas intenções -  uma educadora que conhecia os limites de seu ofício naquele ano perdido dos anos 50, numa escola de meninos que se localizavam no estreita escala que ia da linha da pobreza remediada até uma certa classe média inilustrada. Decerto sabia que a leitura desse livro de Euclydes da Cunha era algo “impossível” para um pirralho de 9 anos, mas  achou que deveríamos saber alguma coisa acerca desse acontecimento terrível que batizou de sangue nossa República. Por este motivo justo como beiço de bode,  indicou uma resenha do livro que , se  me lembro bem, estava no “Tesouro da Juventude”, que se encontrava numa biblioteca pública de Sant’Ana. Lá fomos, em bando, todos de calça curta e suspensórios, a procura do tal livro. Foi quando soube da existência dessa coleção maravilhosa, que tratava de todos os “assuntos interessantes do mundo”. Ia esquecendo de dizer que esta foi também  a primeira vez que botei os pés e a cabeça numa biblioteca. Tenho na memória ainda algumas imagens desse  dia de grande excitação, encantamento e medo.  Eu, menino que tinha sido criado num bairro operário, metido no meio das matas, de estilingue em punho caçando passarinhos e catando frutas no pomar dos outros, não estava acostumado com lugares públicos. De repente adentrava um território cerimonioso, onde as pessoas tinham falavam baixinho, como se estivessem numa igreja. Ali era preciso se comportar - e fundamentalmente, aprender a esperar. Mas isso não impedia que a gente risse de besta de qualquer frase ou micagem de um colega engraçadinho - o que acarretava a reprimenda do “psiu” e o olhar sisudo da bibliotecária, que exigia silêncio e postura.  Como só existia um tomo do tal “Tesouro” que tratava do assunto em questão, então tive que esperar o dia inteiro para conseguir saber alguma coisa sobre as prédicas do Conselheiro e os embates que se travaram nos sertões da Bahia entre 1897 e 1898. A fila era grande, e depois de algum tempo deliberamos fazer o “trabalho”  em grupo, um aluno lendo em voz alta  e todos anotando o que dava para pegar  nessa circunstância. Em síntese - fiz o resumo do resumo do resumo. Nada aprendi sobre o fato, mas ele voltou várias vezes a se intrometer nas minhas viagens, algumas literárias…(Continua)

O futebol não pode se transformar numa caixinha sem surpresas

7 de dezembro de 2009 por Bruno Liberati

Antes de mais nada, quero parabenizar o Flamengo , legítimo campeão deste brasileirão. Ganhou por seus méritos, em campo, por ter conseguido dar nas últimas rodadas uma arrancada, na base da raça e da técnica, graças à direção do grande mestre Andrade,  que botou um ponto final numa interinidade injusta, mostrando que entende do riscado, com sua humildade e sua grandeza. Sua torcida também está de parabéns, lotou o Maraca e se manteve alegre e participante como um 12º jogador.

Não quero aqui jogar aqui água no chope do Flamengo, mas fazer umas perguntas e constatar algumas coisas que me parecem fora do lugar.

Não entendi direito uma decisão  de “alguém” lá do Grêmio que, ao que parece, expôs seus jogadores a uma situação complicada e perigosa.  Os bravos rapazes da equipe gremista entraram em campo, no domingo, contra o Flamengo, com uma missão difícil de entender.Não deu para compreender  por que mandaram somente 4 titulares,- o restante do time era composto por reservas, alguns garotos ainda? Esses jogadores, devem ter ficado confusos, ou no mínimo com algumas dúvidas básicas na cabeça: Afinal, por que no jogo mais importante de todo o campeonato, botaram a gente dentro do Maracanã, para enfrentrar justamente o Flamengo, se durante todas as rodadas  ficamos no banco, ou nem mesmo nele sentamos?
Como devemos nos portar em campo? Devemos jogar para ganhar, ou devemos só tocar a bola como quem não quer nada? Somos jogadores, não é certo?
Pelo que vi, esses rapazes, botaram as dúvidas para escanteio, honraram a camisa de seu time e jogaram com brilho e disposição, para vencer, e quase complicaram a vida do Flamengo.

Porém uma outra dúvida persiste. Por que esse “alguém”(ou “alguéns”) do Grêmio não mandou o time completo para um jogo tão importante?   A intenção pareceu clara até para o poste daqui da minha rua, que é meio tapado, mas entende alguma coisa quando o pessoal abusa da sua paciência de poste.

O poste disse: - Queriam esculachar a vitória do Mengão , mas antes disso não queriam  que o Internacional fosse campeão!

E não é que parece que o poste tem alguma razão! Mandar um pessoal da “reserva” para enfrentar  um time do tamanho do Falmengo, parece no mínimo uma tentativa de “desqualificar” o jogo.  Mas talvez o poste tenha mais razão quando disse que o objetivo era barrar o rival local (Internacional) no caminho em direção à taça de campeão.
Segundo o poste, parece que  esse rancor contra o “adversário do bairro”, ficou acima do espírito esportivo. . Mas, pior que isso, foi ver torcedores do Grêmio no aeroporto Salgado Filho, recepcionando negativamente os valorosos rapazes de seu time, só porque jogaram um bom futebol contra o Flamengo . Os briosos rapazes foram destratados, chamados de mercenários e oscambáus. Para esses torcedores, o time tinha que entregar o jogo, fazer corpo mole, não jogar futebol. Onde fica a tradição do clube? Onde fica a moral dos jogadores? Onde fica a confiança de milhões de telespectadores que assistiram ao jogo? Onde fica a confiança das pessoas que gostam de futebol em relação aos próximos campeonatos? Serão jogos para valer, ou serão para “entregar”?

Fica difícil explicar (e entender) a paixão por uma cor, ou uma camisa, ou um time. Uma certa sociologia explica que o ardor na defesa de uma bandeira ou de uma agremiação é um aspecto de um longo processo civilizatório - uma forma de desviar a agressividade das massas para uma forma de competição saudável. Desloca-se o primevo instinto guerreiro do clã, para uma torneio agradável e inofensivo. Diante de um mundo de tédio e passividade, as energias são gastas na busca da excitação em estádios , onde livremente as massas podem exercer sua paixão,  - tolerada - com o uso de bandeiras, danças, hinos, gritos e rituais que lembram antigos combates, mas são socialmente aceitos.  O problema é que esse caldeirão de emoções pode descambar em histeria e adentrar o gramado da patologia.
Muito mais difícil de entender, é quando a diferença com o adversário toma o caminho da irracionalidade a ponto de torcedores pedirem para seu time perder (não jogar o jogo) para prejudicar o “inimigo”. Aí é o reino do vale tudo -( o se negar para o outro não vencer)- a inversão dos valores. Se o normal e aceitável é a gente torcer para o nosso time ganhar, perder não traria satisfação, e sim frustração. Agora  perder para prejudicar um “terceiro” é algo que foge à lógica do jogo, é tirar satisfação da auto-negação, algo fora da ética esportiva,- enfim fora de tudo que é racional. Isso lembra o delírio de Medéia que mata os filhos para se vingar do marido traidor. O ódio e a vingança, (valores negativos) são mais fortes do que o desejo de ver seu time vencer, fazer uma jogada bonita, um drible desconcertante mesmo que não ganhe a taça - no caso de Medéia, o prazer de ver as crianças saudáveis, crescendo e cumprindo o ciclo da vida.  Mostra que a sociedade está com um grave problema, pois o esporte espelha muito o que ocorre na sociedade. A pauta hoje na sociedade e na política do país parece ser a do vale-tudo. A vitória ( o sucesso) a qualquer preço. No caso analisado, a derrota do “inimigo” a qualquer preço - mesmo que isso desqualifique seu time, ou a  vitória do time adversário ou mesmo o campeonato.
Não li todas as resenhas do jogo, mas das que li, não vi nenhuma linha da crítica esportiva tocar nesse assunto incômodo depois do jogo.  Parece que foi natural o que aconteceu no Maracanã e nesse aeroporto do sul do país!  Ao que me parece, estamos no caminho de uma “descivlização”.
Não vamos nem comentar a guerra de Curitiba, o quebra-quebra no Rio depois do jogo, nem as ocorrências desagradáveis que durante a semana cercaram o Parque Antártica. A violência faz parte desse cenário da doença que se abateu sobre o país do futebol. Estamos só diante de um sintoma. Não temos o diagnóstico, nem o caminho para a cura. Mas é bom começar a pensar …Tenho receio de que, nesta era de epidemias letais, estejamos em plena peste emocional- aquela que liquidará nosso espírito.

O fim da paradinha

17 de outubro de 2009 por Bruno Liberati


A FIFA  quer acabar com a tal da “paradinha” na hora do pênalti. Pelo menos é o que Joseph Blatter disse quando esteve aqui no Brasil. Não sei se a nova lei contra a “paradinha” já vai entrar em vigor na próxima Copa, ou se vai valer apenas na que vai se realizar em terras brasileiras. Tudo vai depender da reunião que a International Board realizará no dia 20 de outubro em Zurique.
Para Blatter que considera a “paradinha” uma coisa injusta e jogo sujo, a sua proibição e punição contra quem “parar” na hora do pênalti já entra em vigor a partir de novembro.
Não sei quem inventou a tal da “paradinha” que andou meio fora de moda, e voltou recentemente aos gramados brasileiros. Só sei que Pelé a imortalizou. Pode ser muito engraçada, mas concordo com Blatter, é injusta com o goleiro. O pobre coitado já tem que tomar conta daquele tremendo espaço entre as duas traves- a chamada meta, gol ou baliza -que tem  7 metros e 32 centímetros de largura e ainda tem aquela altura que é de 2,44m - para defender e além disso existe aquela marra que diz que bola na área é do goleiro etc e tal …Aí um dia apareceu um cara que na hora do pênalti  esculacha, dando aquela “paradinha” que além de desnortear, humilha o ser humano que carrega o nº 1 nas costas…tenha dó! Parem com essa “paradinha”!
Outra coisa que deveria ser avaliada pela International Board é a “bola na trave”. Para mim quem acerta a trave é um herói. Raciocinem: com todo aquele espaço que a meta tem (que já foi citado acima) e o jogador, em vez de marcar o gol, acerta a trave - tem algo errado nessa questão geométrica. Para mim o cara que “acerta a trave” merecia um prêmio -o seu ato deveria valer meio gol. Isso mesmo: cada bola trave, deveria valer meio gol. Pelo grau de dificuldade, deveria até valer um gol e meio.
Se tal regulamento não for aprovado, então, os técnicos deveriam mudar o preparo de seus times e treinar “bola na trave” - o objetivo do treino e do jogo deveria ser acertar a “bola na trave”. Acredito que com esse novo e revolucionário tipo de treinamento , com essa nova perspectiva,  com esse novo paradigma, aconteceriam mais gols, pois o atacante, ao visar a trave, terá muito mais chances de acertar os chutes dentro do gol e estufar mais vezes o véu da noiva. Seria uma revolução copernicana no futebol!  Digo isso porque estou cansado de ver jogos em que na maior parte do tempo, os atacantes desperdiçam chutes acertando a trave - o que - convenhamos, é muito mais difícil - pelo menos teoricamente.
Bem chega de papo furado. Bola pro mato que o jogo é de campeonato!

Espírito de porco Olímpico

2 de outubro de 2009 por Bruno Liberati

Entrei no espírito Olímplico! Arremessei a conta do condomínio aqui no play ground, e ele foi parar lá longe, acho que  uns 200 metros de distãncia.  Numa corrida de obstáculos, saltei sobre as contas de luz, gás e telefone. Ah,  dei um mortal carpado em cima do plano de saúde que está na estratosfera!  Corri feito louco dos credores, e os venci nos 100 metros rasos, nos fundos e na maratona de juros sobre juros. Só perdi para uns pivetes que fugiam da polícia , mas isso mostra que nossa juventude está se preparando a todo vapor para as Olimpíadas de 20l6. Falando em pivetes, já estou pensando em investir uma grana em camisetas para turistas que virão assistir aos jogos . Nelas vai estar escrito bem em cima do peito: - Não sou seu tio, não tenho dinheiro, mas gostaria de ter.
Quanto às nossas possiblidades de êxito nos jogos, acredito que na modalidade “arrastão em túneis“, nós vamos arrebentar, e no quesito “tiro ao alvo com balas perdidas” , acho que não vai ter para ninguém.
Quando anunciaram que o Rio tinha vencido Madri, eu vi um velhinho gritar:  - Iés uí cam!  Ele não tinha um dente na boca feliz e olhe que estava há horas  numa fila de um posto médico e saiu de lá com um pedido de exame que vai ser marcado só para fevereiro do ano que vem! . Sem dúvida, esta é outra modalidade de esporte que  acrescentaremos aos jogos que se realizarão em nosso território pátrio: “Resistência em fila de Hospital“. Um rapazola que estava passando no local,  em que o idoso gritou de felicidade , acrescentou que deveríamos também botar uma prova de “re- vazamento“, já que ele tinha gastado todas  suas baterias etudando para o Enem , mas necas,   a prova tinha vazado e tudo foi pro brejo. Ele disse que nunca viu tanto vazamento no país. Toda hora vaza alguma coisa para a imprensa…
De qualquer forma, estou feliz. Não sei porque, mas acho que todos os cariocas que vibraram também não sabem. A alegria aqui é uma pandemia!  Também, não é qualquer prefeitura que decreta ponto facultativo numa sexta-feira só pro pessoal ir para Copacabana assistir à eleição do COI e ter um show “de grátis”.
Talvez possamos criar uma organização para controlar os gastos dos investimentos nas obras - um portal-transparência, para evitar a mão grande na hora das contas. Talvez até 2016 tenhamos uma campanha do tipo :  Fora corrupa!  Só espero que essas Olimpíadas ajudem o Rio a retomar sua autoestima, resolver a encrenca do transporte público, da saúde, o problema das comunidades carentes, da segurança do cidadão e que se reestabeleça a paz na cidade partida.
Só não entendi uma coisa: Por que a população de Chicago rejeitou sediar os jogos Olímpicos de 2016 e o pessoal de Tóquio não se interessou muito por essa parada?
Confesso que fiquei com a pulga atrás de orelha, e olha que ela é uma saltadora “medalhada”!
Bem, vou parar por aqui, que já cansei dessas Olimpíadas…Ufa!!!

O golpe e o pijama

30 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

É golpe. No início, eu não tinha dúvidas por instinto, depois veio a condenação da comunidade internacional. Mas até aí morreu Neves, a comunidade internacional demora demais nos discursos.

Porém se ainda alimentava alguma dúvida lá no meio da minha cachola destrambelhada , o artigo do Professor de direito constitucional Pedro Estevam Serrano esclareceu tudo. Foi golpe, é golpe, será para sempre golpe e entrará para a História da América Latina como golpe de Estado, aquilo que aconteceu em Honduras. Da leitura desse artigo, publicado na Folha de São Paulo de hoje, a gente fica por dentro da carta constitucional hondurenha,  onde não existe nenhuma linha que justifique,  que dê  uma base jurídica para essa trapalhada golpista de retirar um presidente da cama e mandá-lo de pijamas para fora do país. Na mesma Folha, Elio Gaspari aprova a atitude de Lula de aceitar Zelaya na  Embaixada do Brasil em Tegucigalpa.
Não vamos entrar aqui na análise do presidente deposto, no fato dele usar o território “brasileiro” em solo hondurenho para fazer política com aquele chapelão folclórico. Nem das suas intenções de tentar mudar a lei que não permite reeleição em seu país - a Constituição lá deles não diz que deve-se tomar o poder na base da força em nenhuma hipótese e nem abre a possibilidade de um processo legal para a deposição do presidente no caso dele tentar fazer um plebiscito, ou coisa que o valha. Não vamos falar também da ambiguidade do governo dos EUA em relação ao caso  e sua preguiça em tentar resolvê-lo. Se os EUA tivessem a intenção de dar um fim ao imbroglio , decerto ele nem teria existido - Chomsky em entevista para o site G1 mata a cobra e mostra o pau.
O que me deixa intrigado é o fato de quase todas as notícias e análises que procuram botar o fato em perspectiva utilizam a imagem do “presidente de pijamas“  ou (seria em pijamas?-  não seria só pijama?).
Tudo leva a crer que um homem de pijama é um ser que está em grande desvantagem. Lembra a imagem ” trajes menores” que evoca uma certa fragilidade do ser humano. Talvez se estivesse só de cuecas a situação ficaria muito pior, se tornaria cômica. Pois, creio que devem existir presidentes que dormem de cuecas. Mas de pijama, de qualquer forma é uma situação que mostra uma certa pressa das forças depositoras nesse episódio lamentável. Uma urgência desmedida - não deixaram o homem nem  botar um terno, ou um casaquinho e umas calças compridas. Deve ter saído da cama e procurado suas chinelas, ou será que foi só de meias, ou descalço? Seria cômico também se estivesse de bermudas pois aí se estabeleceria uma confusão dos diabos nas agências internacionais de notícias, pois existe um país chamado Bermudas e muita gente iria pensar que o golpe tinha sido lá e não em Honduras.
De qualquer forma, uma autoridade ser tocada pra fora de pijama é algo contraditório, se por um lado  humilha o sujeito de pijama, ao mesmo tempo dá um tom sombrio de coisa feita na “calada da noite” , que mostra o caráter sujo da operação.
Mas agora a meleca está feita, o Tegucigolpe  foi dado, o homem já está recomposto com roupas de vaqueiro, dormindo vestido na nossa Embaixada. Não cabe ao nosso presidente resolver esse problema. A encrenca é da América, da OEA, da ONU.
Mas se Lula quisesse resolver a querela, seria o caso de propor um jogo amistoso entre a Seleção brasileira e a hondurenha. Não fizeram um espetáculo semelhante no Haiti? Se a Seleção de Honduras perder, o Zelaya volta ao poder e promete ficar quietinho dentro do seu pijama, dormindo tranquilo na sua casa, até  passar as próximas  eleições. Se o selecionado canarinho perder, o Zelaya volta no mesmo avião para o Brasil e depois vai para a Venezuela onde poderia montar seu governo no exílio. (Nos anos 60 Paris comportou vários governos no exílio).
Tem gente que vai achar que não é uma solução justa, mas sabe como é que é: futebol é uma caixinha de surpresas, no entanto é uma instituição civilizada( veja ensaio de Norbert Elias e Eric Dunning), mesmo com zagueiros violentos, é muito melhor que certas “políticas” que se praticam no nosso continente.

O Senhor Embaixador

26 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

Confesso que sou distraído . Em geral me perco olhando bobagens, detalhes da arquitetura de um prédio, o desenho de uma árvore, borboletas a dançar na Candelária…  Quando estou no meio de muita gente, como, por exemplo, numa vernissage, luto para não fugir dali, mas quando é invevitável ficar, sinto que ponho em perigo todos que estão em volta com minhas trapalhadas de homem tímido. Foi o que aconteceu num verão de 1992,  por ocasião de uma exposição coletiva de cartuns, em Buenos Aires, mais precisamente no centro cultural que fica num antigo ex-mosteiro, no simpaticíssimo bairro de La Recoletta. Dizem que esse bairro é tão bacana, que até o cemitério não mete medo. Em todo caso não fui conferir.
Minha aventura começou logo na madrugada do dia da viagem. O despertador me acordou de um sono que eu não tinha dormido, de tão tenso que estava. Peguei um táxi e fui voando para o aeroporto onde embarquei, morto de medo  num avião da Varig. Nessa hora já se descortinava uma manhã de sol lindo no Rio de Janeiro. Quando o avião levantou voo, olhei pela janelinha e vi  um céu de brigadeiro que anunciava que tudo iria dar certo. Coitada da simpática mocinha que sentou ao meu lado, teve que ouvir minhas histórias  em portunhol, já que tinha esquecido “Fenomenologia do Espirito” em casa. ( eu tenho um medo real de voar e compenso de várias formas, ou falando ou lendo Hegel)
A pobre garota, que no íntimo, deve ter me achado um chato de galocha, me perguntou no meio da conversa se eu era originário da Galícia, onde se fala um português misturado com espanhol, fingi não entender a ironia.  Porém a garota foi generosa e me aturou, talvez compreendendo o pavor - que devia estar estampado em letras garrafais em meu rosto.
Minha aventura continuou no Aeroporto Ezeiza, onde com um pesado portafólio cheio de desenhos debaixo do braço e um blazer escocês de inverno, sob um sol de fritar ovo frito no asfalto, embarquei num ônibus de linha comum em direção ao centro da cidade. O referido coletivo fez um verdadeiro tour pelos bairros periféricos de Buenos Aires onde conheci uma avenida que é cortada por várias  ruas com nomes de poetas. Um encanto!
Depois de horas saltei perto da calle Marcelo T. Alvear onde , uma amiga jornalista , corresponsal  (como se fala por lá) do jornal onde eu trabalhava  tinha feito a gentileza de reservar um quarto num Hotel por um preço módico.
Tomei um banho quente e afundei num sono justíssimo,  para saldar o débito  que tinha acumulado entre a minha cama do Rio e aquela de Buenos Aires.  Fui acordado por Rrulio, meu querido amigo que organizou a exposição . Ele me convocava  para comparecer a um programa de TV naquele exato momento. Eu, bêbado de sono, disse que não me encontrava em condições de pensar, que estava catatônico, que Tico no hablava com Teco naquela altura do campeonato. Ele foi compreensivo,  e então combinamos que eu participaria  de um encontro com os cartunistas-expositores num programa de uma rádio local. Em seguida  participaríamos de um progama de TV onde faríamos a divulgação da nossa mostra de cartuns.
E foi o que aconteceu. Encontrei um time fabuloso de desenhistas de humor de nuestra América  e nos divertimos a valer num progama de rádio muito descontraído. Num determinado momento me perguntaram o que eu achava do governo Collor (que já provocava polêmica e uma certa curiosidade pelo seu fraseado) e eu disse que responderia se eles me dissessem o que significava a expressão “Duela a quien duela” que nosso ex-presidente tinha usado naquela época - não me lembro em relação ao que. Como eles não souberam responder qual o sigificado dessa frase lapidar, eu disse que esse era o problema do governo collorido, ninguém conseguia entender o que ele hablava. Depois gastei meu portunhol num programa de TV - desses que fazem a delícia das tardes das donas-de-casa, onde se discutia o tema da “mulher separada” que era a última moda que chegava tradiamente ao território portenho.  A mulher de um dos desenhistas argentinos, que estava no nosso time, disse mais tarde, que viu o programa na TV com muita atenção, mas não entendeu nada do que eu falei.
O que importa é que saimos vivos do estúdio, porém quase morremos afogados depois que uma tromba d’agua se abateu sobre a cidade. Nunca pensei viver uma enchente na Londres do Mercosul!
Voltei todo molhado para o hotel, tomei um banho quente para afastar o resfriado e botei minha fatiota para a noite de glória.
No centro cultural de La Recoletta tava uma animação danada, lá vi meu cartum com modura e tudo , pendurado  ao lado dos meus companheiros de traço e entre eles, o do magnífico Quino, nosso herói, que ainda não tinha pintado por lá e era aguardado com grande expectativa por todos.
De repente Rrulio me pega pelo braço e diz , Bruno, você tem que conhecer o embaixador da Itália , venha comigo… e lá fomos para a porta de entrada . Eis que um homem meio calvo, de óculos de aros grandes , dentro de um terno bem cortado, com uma gravata esplendorosa vinha subindo a escada e eu sem mais nem menos cumprimentei:
- Seja benvindo Senhor embaixador!!!!
Riso geral….Rrulio recuperado da gargalhada me disse:
- Bruno , você acabou de saudar Quino….qua qua qua…
Tratei de me refazer rapidamente da gafe e mandei essa:
- E Quino não é nosso embaixador do humor?!
Confesso que  essa saída foi meia boca, mas  Quino foi muito simpático, disse que eu parecia com um dos personagens dele- e para minha surpresa, fez questão de conhecer meu cartum …Pois é foi assim que paguei um belo mico na bela ciudad de las cupulas ao confundir o grande Quino , ou melhor o grande Joaquín Salvador Lavado com o embaixador da Itália.
***
Faz pouco tempo, soube que inauguraram uma estatueta de Mafalda em San Telmo , bairro onde Quino passou sua infância. Eu o vi numa foto ao lado de sua personagem. Fiquei imensamente feliz de ver que ele não tinha mudado em nada.

A morte de uma velha senhora

21 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

(Hoje é dia da árvore. Aproveito para publicar uma croniqueta que está na gaveta faz algum tempo. É que ela sempre me parecia provocação comparada ao gritante noticiário político policial do Brasil.)
Assisti de camarote a tortura e o assassinato de uma árvore, uma senhora que estava perto dos seus 7o anos. Não fiz nada para impedir a sua destruição. Se fizesse, creio que seria preso ou internado num manicômio. Lembro-me do cineasta Roberto Santos que dirigiu o maravilhoso “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” baseado no conto de Guimarães Rosa. Ele, um dia, para evitar a remoção de uma árvore que ficava perto de sua casa, subiu nela e lá ficou em protesto.
Diz aquele ditado popular que todo homem para se sentir realizado deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Quanto ao assunto filhos, só posso dizer que estou contente com os meus, mas a questão é polêmica. Um personagem de Machado de Assis, parece que, expressando seu pensamento, disse que não deixaria o legado de sua miséria neste mundo. O poetinha Vinicius de Moraes dizia que seria melhor não tê-los, mas se questinonava como sabê-los sem tê-los? Conheço muitos livros péssimos,mas nenhuma árvore má. Apesar dos homens usarem os galhos de algumas para enforcar outros, acusados de serem bandoleiros, ladrões de gado, como nos filmes do velho Oeste. As árvores são sempre benéficas, mesmo quando com suas raízes ameaçam as tubulações de um edifício ou derrubar os muros que o homem constrói, como diz o biólogo Kinsey à sua esposa no filme que leva seu nome, as árvores são sempre felizes com suas raízes firmememente plantadas na terra.

Enquanto viajava nesses pensamentos, os homens do Departamento de Parques e Jardins faziam seu trabalho. Parece que a poderosa árvore a que me referi no começo dessa crônica estava ameaçando os alicerces da casa que um dia foi abandonada por um homem e agora tinha sido comprada por outro, que estava salvando seu capital investido naquela ruína.Não adiantaria argumentar que a casa é só daquele homem e a árvore é de todos, principalmente dos passarinhos que se lamantariam no dia seguinte com seus cantos tristes… Haverá quem diga que isso é coisa de poeta, de desocupado, mas pergunto: o que substituirá aquele espécime único? Ela que todos os dias era, enquanto viveu, a alegria das minhas manhãs com o seu verde esperança. Nos dias de sol de rachar catedrais, amenizava o calor com sua generosa presença e se tornava mais alegre com as centenas de pássaros que nela se abrigavam ou faziam pouso para novos voos, A música que deles vinha emocionaria o mais frio burocrata, garanto! Acredito que algum dia, com o avanço tecnológico que temos, será possível “remover” árvores - sem abatê-las. Ela está causando problemas aqui, então transfere a árvore para um lugar onde ela continuará a ser útil.
Sei que deveria falar de política, de bandalheira, de desvio, de quebra de decoro. Preferi falar da tristeza imensa que habitou minha paisagem sem ela, a majestosa árvore para a qual, um dia escrevi este modesto adeus.

Vizinha chavista detona Viver a Vida

18 de setembro de 2009 por Bruno Liberati

Ela não aguentou dois capítulos e ligou lá do spa onde está internada para se recuperar do bombardeio da mídia. Não lê mais jornais, evita o noticiário televisivo. Segundo ela, cansou de ficção barata e por isso se refugia nas novelas, mas pelo que parece não gostou da nova obra do Manoel Carlos.
- Olha aqui meu filho,bote lá no seu “grogue” que essa novela nem parece novela.Tá faltando aquela “pegada”, entende? Ela tenta ser realista e fica no meio termo, soa falsa como uma garrafa de uísque do Paraguai. Tá muito cheia de pose. Numa coisa o Maneco acertou no alvo: pobre gosta de assistir a vida dos ricos, e pobre só aparece como problemático- ou é drogado ou é invejoso, cara ruim, inocente inútil, ou tá metido em encrenca, das brabas.
Pra mim, quem vai dominar essa novela vai ser a filha barraqueira do Zé Mayer. Essa menina, a Alinne Moraes é fogo! Além disso o personagem que deram pra ela é um presente embrulhado em papel cor de rosa com fita verde…dá até para ouvir o sininho da carroça do papai Noel. Aquilo é carroça né?Puxada por um bando de bambis?! Tlim tlim tlim…
O resto do elenco é razoável, mas fica no meio de papos bobos, travam diálogos que me parecem frouxos, frívolos. Onde já se viu uma médica que falta no hospital porque está com dor de cabeça! Onde meu filho????
E aqueles gêmeos, clones do falecido Bôscoli? Um , com aquelas gracinhas fora de hora e o outro sisudo, moço bem comportado e ressentido . Será que o ator está ganhando dois salários. Será que a ótima Bárbara Paz, que enche a cara em todos os capítulos acha que os dois são um só e ela que tá vendo coisas? Se essa vai ser uma novela de superação, acho que a gente é que vai pagar o “parto”, a gente é que vai ter que superar a fragilidade dessa história. O pior é que no spa só servem suco de maracujá!
***
Desligou novamente na minha cara. Nem deu tempo de eu tentar defender a novela. Dizer que temos que dar um tempo a ela. Que ela é a modernidade vista do Leblon, mas é modernidade, poxa! Mas tenho que confessar que senti no meio dessa novela uma tremenda saudade da família do Opash Ananda. De repente o Rajastão ficou tão perto e Búzios tão longe…