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Pra Que Pedir Perdão?

13 de maio de 2009

O Villággio Café, no Bexiga, Sampa, foi durante a segunda metade da década de 90 um dos únicos lugares da cidade com uma programação de samba. Acho que ali, nesse estilo, estreei, confesso. Depois e, pensando hoje, quase inacreditável, passaram pelo pequeno palco e um salão de 70 lugares, artistas como Dona Ivone Lara, Nei Lopes, Walter Alfaiate e Guilherme de Brito, entre outros.
Repito, inimaginável na febre atual.
Os donos, Rosana e Zé luiz Soares, viraram irmãos de sangue e as noites nesse reduto, históricas.
O Quinteto em Branco e Preto se chamava Grupo Café com Leite e, apesar de recente, era um tempo em que ainda podia-se fumar e beber a vontade.
Com o tempo, eu e Luiz Carlos da Vila viramos arroz de festa do lugar. A gente fazia o samba e depois dormia em cima, no apto do Zé, rodopiando  toda a madrugada  numa rede nordestina. Época boa, tenho certeza.
Voltando a minha estréia, um dia frio de semana, estava na platéia o compositor José Carlos Costa Neto, também diretor da Dabliú, pequena, mas frondosa gravadora paulista.
No fim do show, um convite para lançar um disco por lá. Perguntado sobre meu agente, olhei pro balcão e respondi de prima:
- Zé Luiz Soares!
E foi assim que dois meses depois entrei em estúdio para gravar o CD Mandingueiro.
Queria muito fazer o trabalho no Haras, o estúdio em que nasceu a minha maior referência, o disco ‘A voz do Morro’, e deveria ser feito com o mesmo sentimento: - Ao vivo.
Corri com alguns sambas. Já tinha guardado o ‘Anjo da Velha Guarda’, o ‘Cachaça Ãrvore e Bandeira’  e a propria música do título, feita bem antes  para a diva Leni Andrade.
Eu estava apaixonado por dois artistas, Guilherme de Brito e Roberto Martins.
A voz seresteira do parceiro do Nelson Cavaquinho me enevoava. A pegada forte no conhaque, o riso triste, mas sem piedade, tudo me inspirava.
Entreguei pro Aldir o samba com introdução e tudo faltando cinco dias pra gravar as bases. Melhor dizendo, pra gravar de uma vez a música completa, era essa a proposta.
O querido Zé Luiz veio de São Paulo pra minha casa da Tijuca, empolgado com o trabalho.
Estúdio marcado pra segunda as dez da manhã, eu passo o domingo olhando pro telefone na esperança de ouvir a voz do parceiro Aldir ditando os versos do samba.
Perto da meia-noite, a ansiedade do tamanho de um samba-enredo, escuto o sinal do fax. No visor o prefixo conhecido.
Zé, radiante, tira uma foto da letra saindo pelo aparelhinho, num som de datilografia eletrônica.
Eram as estrofes de ‘Pra Que Pedir Perdão?’.
Tenho por esse samba um orgulho enorme.
Numa dessas maravilhosas crônicas do Luiz Fernando Veríssimo, vejo uma frase em destaque - Estrela é só incêndio na solidão
Veríssimo citava esse trecho com um dos mais lindos da música brasileira.
Fiquei emocionado.
No disco Mandingueiro, convidei meu querido Aldir Blanc pra cantar e a música virou um amuleto em nossas rodas de samba.
Depois gravei no Esquina Carioca, mas ele já estava consagrado no pequeno universo dos nossos ‘partidos’. 

Se é pra recordar dessa maneira
sempre causando desprazer,
jogando fora a vida em mais uma bebedeira,
ó, sinceramente, é preferível te esquecer.
Eu te prometi mundos e fundos
mas não queria te magoar.
Eu não resisto aos botequins mais vagabundos
mas não pretendia te envergonhar.
Vi muitas vezes o destino
ir na direção errada
e a bondade virar completo desatino,
a carícia se transformando em bofetada.
Ah, eu sou rolimã numa ladeira
não tenho o vício da ilusão:
hoje eu vejo as coisas como são
e estrela é só um incêndio na solidäo.
Se eu feri teu sonho em pleno vôo,
pra que pedir perdão se eu não me perdôo?