Meier
16 de abril de 2010
Uma semana sem escrever.
Peço desculpas.
Reunidos, o Dobrando a Carioca, fizemos um show em Araraquara neste sábado, 10 de abril.
Mesmo chegando rápido de avião à capital paulista, restavam quatro horas de viagem pela Estrada Bandeirantes até o destino final.
No carro, com meu querido Guinga, lembro histórias do nosso mestre, Helio Delmiro.
Conheci o Helio em 1973, dois dias após a morte do meu pai. A perda me fez parar uns dias no Meier, bairro de parte da minha família e assim, um empurrão do destino, fui parar na casa dos Delmiros, Rua Barão de São Borja, 68.
Levado por um primo, tentava distrair a cabeça e a saudade, ouvindo uma aula de violão que o Carlinhos, irmão do mestre, promovia na varanda da velha casa.
E assim tudo começou.
Dois anos depois, fui morar na casa dele na parte alta da Rua Vilela Tavares.
Eu era bem novo. Dormia pouco querendo aproveitar da convivência toda a inspiração de uma vida.
Tentarei resumir.
O Helio era um dos músicos mais importantes do Brasil, talvez do mundo.
Participava de inúmeras gravações e definitvos shows com os principais intérpretes dessa arte chamada Música.
Quieto num canto do estúdio de gravação ou de ensaio, eu passava o dia aprendendo os fundamentos dessa estrada. Principal: talento e modéstia.
Às vezes, de manhã, a agenda marcava encontro com o Victor Assis Brasil e Luiz Eça.
Victor morava numa das ruas do Flamengo aonde o metrô um dia por baixo, passaria.
Lembro dos tapumes e do grande saxofonista me dizendo: - pensa na harmonia e assobia uma nova melodia em cima.
Também no Flamengo, Helio me levou à cobertura da enluarada Elizeth Cardoso. Eles ensaiavam pra uma turnê ao Japão.
Sentado num banquinho, eu não tinha a noção que estava vivendo um momento de rara oportunidade.
Parentesis.
Eu tinha 17 anos, totalmente diferente dos dezessetes anos de hoje em dia.
Na marioridade, passava as madrugadas assistindo ele tocar com a Nana Caymmi no extinto Chico’s Bar.
A idade adulta me permitiu alugar sozinho um apartamento na Pedro de Carvalho, no mesmo bairro suburbano.
Num desses domingos de ruas vazias, encontrei o Helio tentando resolver questões pessoais.
Momento delicado, ofereci a morada pra ele esfriar a cabeça.
Esse capítulo durou mais uns dois anos, quando rindo de tudo isso e com mais um querido amigo, fomos os tres pra outro endereço na mesma rua até somar cinco anos de mesmo teto, desde os primeiros dias.
Uma particularidade gostosa.
As manhãs na mesa do café eram inesquecíveis.
Helio fervia duas águas no bule. Uma apenas pra dar um suingue na panela.
Só depois, coador de pano, a bebida era servida.
Eu passava o resto da hora tentando estudar os arpejos de Guilliani, na verdade, torcendo pra ele pegar o violão e a verdadeira aula acontecer nos meus ouvidos.
Em algumas tardes chegava outro mestre, Paulo Russo e seu baixo acústico.
Cheguei a passar meu anversário com eles tocando até parabéns pra você no ultimo número.
Guinga também aparecia e tocava seus choros com surpreendentes acordes.
Outro gênio, Paulo Cesar Pinheiro, visitava a casa.
Era o autor de “Viagem” sentado assim, sapato sem meia, cigarro e voz rouca, como se fosse um simples mortal transeunte do acaso, perdido no pequeno sofá da sala.
Hoje, completado 52 anos semana passada, ainda levo um susto com essas memórias.
Abro minha caixa de mails e recebo um notícia maravilhosa do meu querido Helio:
- Chegou o filhote da Marcela e do Cristiano;
João Pedro, meu netinho.
Se eu disser que as seis horas da manhã me emocionei de chorar, vai parecer mentira.
Aliás, corre o riso dos amigos pensarem que tudo que escrevi aqui é invenção de um sonhador.
Mas é isso.
A vida.










