youPode

Posts com a tag ‘Nei Lopes’

Senhora Liberdade

13 de outubro de 2009

O Renascença estava lotado.
Jorge Ferraz, nosso presidente, organizara  mais cedo uma festa ‘pro’ dia das crianças.
A data também homenageia Nossa Senhora Aparecida, não por acaso padroeira do Brasil e do clube, batizado em azul e branco.
As pessoas têm dificuldades pra conseguir cerveja, o banheiro, longe, anuncia uma corridinha pra aliviar o corpo.
Eu penso que só assim tem graça essa história em torno de nós.
Vem a imagem de uma praia deserta. Linda no poema, mas melancólica no convívio.
O ser humano senta na areia e não passa  viva alma vendendo uma latinha gelada, uma empada caseira, um jornal descabelado pelo vento, um bronzeador vermelho, nada… Nem um par de pernas de qualquer sexo pra você disfarçar e notar.
Nada.
Assim é o nosso samba. Só serve lotado.
Todos se empurram pelo prazer de serem imãs de carinho, de bem-estar.
Estou cantando ‘Senhora Liberdade’ da genial dupla Nei Lopes e Wilson Moreira.
Ha uns 5 anos eu fazia um pequena temporada no Canecão e convidei o mestre ‘Moreira’, nosso Alicate, para uma participação especial.
Nos versos desse samba antológico, um apelo à senhora liberdade: - abre as asas sobre mim..
Moreira ergue o braço dormente num gesto de prece e todos se emocionam com esse gigante de bondade e talento.
Meu ombro também anda doendo.
Recorro à mesma oração dessa dupla maravilhosa e canto o que posso, os olhos ardendo enquanto a platéia, de ‘cór’, desfila a melodia.
Ando distante desse querido amigo, Nei lopes. Fizemos poucos sambas, alguns pude gravar.
No CD ‘Mandingueiro’ abri o roteiro com ‘Jogo Rasteiro’ nossa primeira parceria.
Esse samba entrou depois no disco ‘Esquina Carioca’ também de anfitrião do encontro.
Comecei a brincar com essa ferramenta chamada twitter e gostei, confesso.
As pessoas cruzam em poucas palavras dicas que, acreditam, o outro se interessa.
Nesse vai-e-vem de ócio do bem, fui convidado para uma entrevista virtual para o blog ‘Samba de Classe’.
logo de cara, na primeira das boas perguntas, uma frase que o Nei escreveu sobre mim e que guardei como um aprendizado.
Se, em vez de livros de cabeceira, eu possuisse uma frase, penderia junto ao ‘abajur’ a escrita pelo meu amigo, Nei Lopes:
- Moacyr não é sambista. Ele é um compositor.
Vou deixar aqui o link desse papo, caso algum amigo esteja ainda de ressaca do feriado e tente entreter o dia.
http://sambadeclasse.blogspot.com/2009/10/nove-nao-e-dez.html

a foto acima parece repetita, mas foi tirada ontem, dia 12 de outubro de 2009.

Renascença

29 de maio de 2009

Em maio de 2005 eu voltava de uma turnê pelo Projeto Pixinguinha cego de saudade dos amigos mais vagabundos. O Renascença estreara uma roda de samba aos sábados e a gente, com uma sede de anteontem, chegava cedo, antes do primeiro tamborim, pra saborear alguma novidade etílica, inventar um tira gosto, até o samba roncar no cair da tarde.
O clube entre outras tradições, servia um feijão na lenha que nem os deuses ousavam imitar. Jorge Ferraz, nosso presidente, tratava os salgados feito caviar de um banquete elegante e o resultado era sempre o mesmo na abertura dos trabalhos: - Um suspiro de prazer.
Lembro de uma festa feita na quadra em homenagem ao meu querido Nei Lopes por conta da entrega da Medalha Pedro Ernesto. Feijão na lenha e muito samba eram a base do cerimonial. Foi em 1999, guardo a data por motivos profissionais: - Eu vinha de São Paulo com o jornalista João Pimentel depois de uma longa entrevista sobre o primeiro Esquina Carioca. Na viagem, de carro, paramos na estrada quando notamos uma barraca vendendo goiabada cascão em caixa, bem descrito pelo Nei: - É coisa fina, Sinhá, que ninguem mais acha!
No sábado da nossa história corria solto o aniversário do Ivan Mobílio, amigo e parceiro, meu padrinho na ala de compositores da Unidos de Vila Isabel.
Pra variar, preparei uma panela de jilós.
Sentado embaixo da caramboleira que protege o clube, a fruta servindo de abrideira, notei o Jorge, nosso presidente, de longe, em pé na porta da cozinha olhando o movimento do clube.
Melancólico da viagem, desejei que aquele momento de confraternização durasse para sempre. Essa combinação de amigos, uma purinha, algo saboroso de se provar e um samba de cadência elegante daria , entre carbonos, a química ideal de felicidade.
Como somos feito de idéias, nasceu uma: - Fazer uma roda de samba pra se comemorar  a amizade. Algo despretensioso, feito, quem sabe, numa segunda-feira e, de preferência, cedo, pra não dar problema em casa.
Encostei no Jorge:
- Mestre, tu abriria o clube pra uma roda de samba feita numa segunda-feira começando as duas da tarde?
- Já é! Faço uma costela com batata, quer?

E assim, vinte dias depois, nascia o Samba do Trabalhador. Dia 30 de maio de 2005.
Segunda agora, o samba completa 4 anos.
O que essa história virou, conto nesse santo dia, segunda que vem.