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Posts com a tag ‘Jorge Ferraz’

Segunda-Feira

7 de setembro de 2009

O texto é curtinho afinal 7 de setembro é dia de parada. Como a data caiu numa segunda-feira, hoje tem Renascença.
Lembro dos primeiros sambas da nossa roda. Aldir me liga com uma história:
- Moa, preciso gravar com o João Bosco um depoimento pro filme sobre o Betinho, nosso guerreiro fundamental. Alguma sugestão?
Contei que estava fazendo uma roda de samba justamente no dia marcado para as filmagens, uma segunda. Que o lugar era lindo, uma quadra com ares de terreiro e duas árvores de frutas, mangueira e uma caramboleira carregada dessa delícia.
O Samba do Trabalhador ainda não contava com a formação tradicional da roda, 12 músicos.
A equipe do documentário armou um set perto da entrada do nosso quintal, um pouco distante da mesa e dos instrumentos, mas havia um clima mútuo de paquera.
Aldir não conhecia Jorge Ferraz, presidente do clube, meu irmão e protetor nessa empreitada.
De repente, o mestre João Bosco se aproxima da roda, violão em punho, e pede pra tocar um pouco com a gente.
A emoção é grande. A roda abre espaço e ganha em importância pra história desse trabalho.
Aldir de tamborim, João de violão, e todos cantando ‘O Bêbado e a Equilibrista’.
Está lá registrado no filme ‘Tres irmãos de Sangue’.
Desse encontro nasceu uma grande amizade entre o Aldir e o nosso Ferraz.
Meu parceiro em inúmeros sambas passou a frequentar as nossas ’segundas’ sempre chegando na roda e cantando seu repertório infinito.
Perto de completar 60 anos, com o projeto de gravar um CD pra marcar a data, Aldir rememora as idas ao clube e me mostra uma letra pra, musicada, quem sabe entrar no disco.
Era o “Recreio das Meninas II”.
Música feita, tive a honra a participar na faixa e, os versos de puro carioquismo, registram o carinho de uma amizade.
Hoje, 7 de setembro, Ferraz preparou uma feijoada especial. Ouvi dizer que um grupo com cem amigos de São Paulo vai nos visitar no samba.
Estou na expectativa de que outros tantos ‘cumpadres’ daqui também apareçam.

Eu fui de bengala, tossindo, com febre, lá no Renascença,
porque em toda a vida o samba foi cura pra minha doença.
Sentei no meu canto, uma voz perguntou: “O que qui vai querer?”
Perdi a cabeça e falei pra menina:
- Eu queria você…

Um riso de aurora acolheu meu ocaso e a pressão subiu.
Peguei meu remédio mas as mãos tremiam e o vidro caiu.
Chutei a caixinha, pedi caipirinha, pernil e café.
Receita infalível pro meu coração é um corpo moreno de mulher.

Eu vou com ela ao Capela, ao Siri e traço moqueca, carré, javali…
Digo sempre, bebendo com o Jorge:
- Foi no Renascença que eu renasci.

Aos que me gozam no bar,
dizendo que eu sou
o Recreio das Meninas,
respondo:
- Andorinhas fazem ninho nas ruínas.

Holanda

24 de junho de 2009

Alguns amigos comentaram a foto com o Lula. Recorro ao tema.
Em maio de 2008, junto com Luiz Carlos da Vila e Nilze Carvalho, fizemos um show na Holanda dentro de um cerimonial oferecido pelo governo brasileiro a Rainha Beatrix, soberana dos países baixos. Participavam também os queridos Tiago Prata, Paulino Dias e Mestre Trambique.
O show aconteceu dentro de uma igreja restaurada aonde, atualmente, só é aberta em eventos especiais.
Nossa estadia foi maravilhosa. Eu e Luiz no auge da carreira etílica sentávamos em tabernas wikinguianas bebendo os mais graduados steinhaegers suportados a um ser humano.
Um dia acordamos cedo e encaramos um trem para Amsterdã.
Cidade das mais livres no mundo, é formada por ruas entre os rios que dobram os moinhos dos nossos souvenirs.  Em todas elas,  bares exclusivos pra você curtir sua marijuana.
Eu, careta ao extremo, resolvi me entorpecer de Heineken, a cerveja deles, e abri uma super lata na primeira esquina que encostei. Quase de imediato uma senhora com cara de louça, me interrompe:
- Mister, é melhor esconder essa bebida senão o senhor acaba preso por maus modos na rua!
Enquanto tentava entender o dialeto que ela se comunicava, a calçada inteira baseava.
Me escondi numa delicatessem enquanto meu cumpadre Luiz ria da situação.
Mais.
Eu tinha prometido ao meu outro presidente, Jorge Ferraz, autoridade máxima do Clube Renascença, um empenho para presentear o Lula com o DVD do Samba do Trabalhador afinal, o homem é do Partido dos Trabalhadores, tudo a ver.
Mirei nesse alvo.
Terminado o espetáculo, com o primeiro protocolo quebrado pela própria rainha ensaiando passos de destaque, fomos convidados a participar do coquetel realizado na ‘cave’ do santuário.
Autoridades num canto, músicos do outro, vi a possibilidade do encontro Lula & Moa se evaporar feito um Uroco, absinto espanhol.
Perto do desânimo, o Ministro das Relaçoes Exteriores, Celso Amorim, se aproxima e diz a senha:
- O presidente pede a presença de todos.
Foi uma festa.
Conversamos muito, a rainha no alto pedestal da simpatia e eu pude enfim oferecer o presente que veio do Andaraí.
O resto é tamanco.

Inspiração

3 de junho de 2009

Pra fechar a semana Renascença e deixar o blog respirar um pouco, duas inspirações:
A primeira, gravada em 2006 no disco ‘Vida Noturna’  parceria Moa & Aldir Blanc, canta a importância do clube em nosso cotidiano e se chama Recreio das Meninas II

Eu fui de bengala, tossindo, com febre, lá no Renascença,
porque em toda a vida o samba foi cura pra minha doença.
Sentei no meu canto, uma voz perguntou: “O que qui vai querer?”
Perdi a cabeça e falei pra menina:
- Eu queria você…

Um riso de aurora acolheu meu ocaso e a pressão subiu.
Peguei meu remédio mas as mãos tremiam e o vidro caiu.
Chutei a caixinha, pedi caipirinha, pernil e café.
Receita infalível pro meu coração é um corpo moreno de mulher.

Eu vou com ela ao Capela, ao Siri e traço moqueca, carré, javali…
Digo sempre, bebendo com o Jorge:
- Foi no Renascença que eu renasci.

Aos que me gozam no bar,
dizendo que eu sou
o Recreio das Meninas,
respondo:
- Andorinhas fazem ninho nas ruínas.

Agora, também da dupla Moa & Aldir, um samba que brinca com a história do Geraldo Pereira que deságua na roda de segunda-feira. ‘Samba Pro Geraldo’ está no disco Batucando lançamento recente e tem na gravação a participação especialíssima do Tantinho da Mangueira, não por acaso, um dos presentes no primeiro dia do Samba do Trabalhador:

Geraldo Pereira, meu nego
Na aparência tudo “oquei”
Minha vida se acabou num samba
Num samba de roda que eu rodopiei
- fiquei de pé, me segurei!

Meu nego, Geraldo Pereira
Foi daí que eu inventei
Um samba na segunda-feira
No bom sincopado onde você é rei.

Já pulei feito saci
Fui caqui no Andaraí

Agora Geraldo, meu facha
Se a rasteira aconteceu
Relaxa nessa homenagem
À um escuro direitinho que jamais morreu!

Renascença

29 de maio de 2009

Em maio de 2005 eu voltava de uma turnê pelo Projeto Pixinguinha cego de saudade dos amigos mais vagabundos. O Renascença estreara uma roda de samba aos sábados e a gente, com uma sede de anteontem, chegava cedo, antes do primeiro tamborim, pra saborear alguma novidade etílica, inventar um tira gosto, até o samba roncar no cair da tarde.
O clube entre outras tradições, servia um feijão na lenha que nem os deuses ousavam imitar. Jorge Ferraz, nosso presidente, tratava os salgados feito caviar de um banquete elegante e o resultado era sempre o mesmo na abertura dos trabalhos: - Um suspiro de prazer.
Lembro de uma festa feita na quadra em homenagem ao meu querido Nei Lopes por conta da entrega da Medalha Pedro Ernesto. Feijão na lenha e muito samba eram a base do cerimonial. Foi em 1999, guardo a data por motivos profissionais: - Eu vinha de São Paulo com o jornalista João Pimentel depois de uma longa entrevista sobre o primeiro Esquina Carioca. Na viagem, de carro, paramos na estrada quando notamos uma barraca vendendo goiabada cascão em caixa, bem descrito pelo Nei: - É coisa fina, Sinhá, que ninguem mais acha!
No sábado da nossa história corria solto o aniversário do Ivan Mobílio, amigo e parceiro, meu padrinho na ala de compositores da Unidos de Vila Isabel.
Pra variar, preparei uma panela de jilós.
Sentado embaixo da caramboleira que protege o clube, a fruta servindo de abrideira, notei o Jorge, nosso presidente, de longe, em pé na porta da cozinha olhando o movimento do clube.
Melancólico da viagem, desejei que aquele momento de confraternização durasse para sempre. Essa combinação de amigos, uma purinha, algo saboroso de se provar e um samba de cadência elegante daria , entre carbonos, a química ideal de felicidade.
Como somos feito de idéias, nasceu uma: - Fazer uma roda de samba pra se comemorar  a amizade. Algo despretensioso, feito, quem sabe, numa segunda-feira e, de preferência, cedo, pra não dar problema em casa.
Encostei no Jorge:
- Mestre, tu abriria o clube pra uma roda de samba feita numa segunda-feira começando as duas da tarde?
- Já é! Faço uma costela com batata, quer?

E assim, vinte dias depois, nascia o Samba do Trabalhador. Dia 30 de maio de 2005.
Segunda agora, o samba completa 4 anos.
O que essa história virou, conto nesse santo dia, segunda que vem.