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PEQUENOS TEXTOS

27 de janeiro de 2010

Ando rateando, confesso. Um estado de observação tem me deixado menos atuante nesse canto escrito da minha vida. Também culpo algumas taças de vinho a mais. Acontece que viver inclui o que te faz feliz, se for preciso encurta-la um pouco pra permanecer pleno, sigo o barco.
Penso novas músicas.
Penso muito no parceiro Aldir.
Fizemos mais de cem músicas, quase todas gravadas. Um descuido me fez perder nossa primeira canção.
Várias histórias nesses 27 anos de amizade e trabalho.
Conto uma.
Consegui convece-lo de participar de um show em São Paulo. Foi o Esquina Carioca III junto com Martinho da Vila, Monarco e a minha querida Surica.
Sua participação nesse evento guardava semelhança com as aparições do João Gilberto, uma raridade.
Não sei se você sabem, mas meu parceiro tem uma biblioteca invejavel. Passa de dez mil títulos.
Morávamos no mesmo prédio, já contei. Era um sábado, tres dias antes do espetáculo. Manhãzinha tranquila, lendo o jornal pra saber das novidades, quando escuto uma barulheira estranha, vidros quebrando, alguem gritando socorro.
Corro à entrada de serviço acreditando ser um assalto, algo assim e da escada a voz, repetindo: - incêndio! Incêndio!
Percorro os fundos do prédio e vejo sair do terceiro andar enormes línguas de fogo, uma tragédia se anunciando.
Tumulto na portaria. Vou lá.
Encontro Aldir sentado de short na escadaria que abre nossa fachada, os cabelos despenteados, falando baixo: - o fogo vai alcançar a janela da minha biblioteca e nao vai sobrar nem um gibi!
Mais.
- Ô Moa! Esquece São Paulo! Não vou mais.
Eu mesmo peguei um balde partindo pra cima das labaredas.
O prédio ficou o dia todo sem luz. Me vesti e fui beber no outro lado da cidade.
Rezei pra São Jorge e o fogo acalmou.
No dia marcado, Aldir me liga da estrada. Estava chegando na Marginal Tietê.
As dez noite, o Tom Brasil abre as “cortinas” e, durante duas horas, cantamos de se esgolear.
No último número, meu parceiro, de pé, ergueu os braços e puxou: - Caía, a tarde feito um viaduto…
literalmente a platéia incendiou.
Tenho guardado esse momento pra um dia virar samba.

Os Botecos e a Estácio

8 de novembro de 2009

Nesta terça feira, dia 10, participo dessa festa carioca chamada Os Botecos e a Estacio, mistura de samba e tira-gosto que vem acontecendo na quadra reformada da Escola de Samba Estácio de Sá.
Intuitivamente sempre gostei do bairro.
Meu grande parceiro Aldir Blanc viveu por ali na infância. Alceu, eu pai, ainda está na área.
Ali nasceu Luiz Melodia e foi a raiz do samba nas mãos de Ismael Silva.
Na minha juventude boêmia conheci um santuário local, a Adega Fontan perto da Paulo de Frontin. As obras do metrô desfiguraram o casario e, com ele, o bar virou escombros.
Quem comanda a cozinha musical do evento é o meu querido Luiz Felipe de Lima, por isso vou despreocupado, violão no braço só pra fazer figuração.
***
Estou no Santa Luzia, o samba cheio de alegria, uma pessoa amiga pede mais história de bar no blog.
Quando gravei minha primeira música em 1979, pensava que a vida seria curta, que o futuro era uma porta já aberta, sem surpresas.
Depois de trinta anos, só faço agradecer, mesmo com os dedos mais lentos, o que ainda se tem pra viver.
***
Sempre fui apaixonado por butiquim e todo o seu universo: - o dono, mau humorado, a frigideira encardida das sardinhas fritas, o balcão melando no cotovelo o traçado do fregues anterior. Uma meia porção até de ovo cozido.
Li com orgulho o suplemento Rio-Show aonde nosso querido Guilherme Studart foi capa e mais inúmeras páginas de birosca e baixa gastronomia.
Já desfrutamos de várias boas mesas. Ou melhor, já descarnamos, visto que de fruta, só o limão dos áureos tempos etílicos.
No livro Botequim de Bêbado tem Dono, ele aparece ilustrado pelo mestre Chico Caruso no belo Retrô Casual, um clássico da Rua do Rosário.
Num desses sábados inventados por Deus em extremo bom humor, participei da caravana que o Guilherme organizou rondando pela cidade à procura de bons jilós.
Entre os destaques, uma preciosidade gratinada nos foi servida no Original do Brás, uma cereja de bar no ensolarado bairro de Brás de Pina.
Também comemos, numa arquitura de cachorro-quente, o jiló do Enchendo Linguiça. O embutido vem no molho, mas sanduichado pela ‘fruta’.
Como estamos no terreno da Web, faço um link.
Os dois bares estão na quermesse gastronômica do Botecos e a Estácio.
***
Na minha parceria com Aldir, convivemos com algumas diferenças: - sou Flamengo, ele, Vasco.
Combinamos desde os primeiros versos de não tocar muito nesse assunto e assim estamos bem desde 1984, vinte e cinco anos.
Outra polaridade são os temperos.
Se eu pudesse comeria alho já no café da manhã, enquanto o parceiro, evita.
Ha tempos, fomos passar umas férias em Búzios, o paraiso na terra.
Quando o sol fazia o caminho de casa resolvemos ir à praia.
Na primeira cerveja um novo amigo muito envolvente insiste que a pedida é  comer a peixada do fulano na rua tal, coisa pra já…
Aldir me puxa num canto, e:
- Moa, to pressentindo. Esse prato vai ter mais alho e cebola que a feira da Tijuca. Vou fugir pelos fundos. Vai você!
Esganado, fui às cegas pro almoço prometido.
Peixe servido, sabor inigualável, corro ao ouvido do cozinheiro procurando segredos da receita. Lacônico, responde:
- Meu amigo, com um pescado fresco desses, é só sal, mais nada!
Na volta, encontro Aldir debruçado na janela:
- Perdeu, parceiro. Uma delícia! E só sal!
Ele riu, eu fui descansar.
Dia seguinte uma música familiar ecoando do fundo do quintal.
Era um samba que eu tinha deixado pro mestre letrar.
Entre solfejos e cervejas, identifiquei na melodia o refrão.
Graças a peixada, mais uma música ficou pronta.
‘Meu Tempero é Sal’ foi gravado por mim no CD ‘Vitória da Ilusão em 1995 e, tempos depois, uma versão mais moderna do querido Claudio Lins para o disco ‘Um’.

Sou macaco velho
Manjo de cumbuca,
Eis o meu tempero
Como mestre cuca:
Pouco açafrão,
Pimenta um nada,
Nem estragão,
Nem noz-moscada,
Meu tempero é sal!
Dendê, “tantin”
Sálvia, a lembrança,
Do alecrim, só a “nuança”
Meu tempero é sal!
Páprica penso e não ponho
Gengibre eu tenho e não boto
O louro eu tiro na hora agá.
A salsa ia mas sai
A erva-doce acabou,
O cravo eu cismo e não vai
- Só abuso do que não vou por!

Praça Mauá, Que Mal Há?

26 de outubro de 2009

Não sei onde escrevi essa confissão, mas minhas primeiras idas ao Cordão da Bola Preta tinha um motivo óbvio: - poder beber as sete da manhã sem culpa.
Ainda existia o Carlito’s que se chamava ‘Moringuinha’ em frente ao teatro Rival e a turma se reunia ali quando amanhecia o sábado do desfile, pedia um clado de mocotó na tijela e na outra mão, a sem talher, ja encostava um chopp pra comemorar o carnaval.
O dono do bar, Antônio, hoje, imperador da rede Belmonte, inventava com barris e madeira um balcão na calçada e quando o trombone anunciava ‘…Quem não chora, não mama…’ metade dos foliões estava bêbada.
O bloco arregimentava um mínimo de adeptos. Dava pra fazer a curva já na Rua do México.
Hoje mal se consegue arranjar um centimetro quadrado na  concentrção da Cinelándia,
Melhor assim.
Num dos posts desse blog eu falo sobre o Escravos da Mauá, o bloco que  adotei depois do ‘Nem Muda Nem Sai de Cima’ na Tijuca.
Nascido entre os bairros que receberam pela vez primeira o samba trazido de mares baianos, dizem alguns, Saúde, Gamboa e Praça Mauá, o Escravos mudou a face incógnita daquela região.
Pois é. Nesta sexta-feira que passou fui visitar a ‘agremiação’.
Cantei alguns sambas na roda do ‘Fabuloso’ até chegar ao último verso engasagado de emoção com o carinho dos amigos.
Eu tinha chegado do show do Dobrando a Carioca no Rival, outro projeto que mexe fundo comigo nessa estrada chamada Música.
O Dobrando comemorando dez anos da primeira apresentação manteve o repertório original de 1999. Por isso confirmei que a minha paixão pelo ‘Escravos’ também é antiga.
No show, cantamos ‘Praça Mauá, Que mal Há?’ samba que fiz com o meu querido Aldir Blanc pra contar do encantamento que aquele convívio nos proprocionou.
O samba é irmão gêmeo do enredo que compus pro bloco,e nos dois a mesma pergunta: - Que mal há?
Talvez a dúvida inconsciente do vazio social que esse reduto carioca se encontrava até ressurgir o primeiro tamborim convocando o samba e, de novo, a cidade ancorando nas águas da Praça Mauá; a Rádio Nacional merecidamente no topo da ‘Noite’ dando picos de audiência com as nossas melhores músicas, a Pedra do Sal guardando no mineral o calor do dia pra esquentar a madrugada dos foliões, dos estivadores, dos apaixonados por essa magia chamada Rio de Janeiro.

Ah, me diz aí; mas que mal há
Em ir lá pra Praça Mauá
Relembrar…
Se eu tô sem brio e estrela guia
Se há no barco uma avaria
Vou pra lá…
Meio adernado meu navio
Retomo o rumo, encontro o fio
Num samba do melhor que há
Meu porto ta lá
No cais eu ressurjo
É como se o Meier brotasse a beira-mar
Que sacanear
Encaro e não fujo
Eu sou marujo da Praça Mauá

Em São Francisco da Prainha eu gostei
De uma cabocla da Pedra do Sal
Que, incentivada pela grande Nora Nei
Tentou a vida de cantora ali na Rádio Nacional
Seu nome: Conceição feito a igreja
fazia um peixe com cerveja
atras da Sacadura Cabral
que João da Baiana
louco por matizes
provou com caiana
depois pulou no mar
encontrou Netuno
com tres meretrizes
e foram juntos pra Paquetá !

- Um dia vi iemanjá!
- cantando num dancing lá…
- Me diz aí: que mal há
- Em ser da Praça Mauá?

Centro do Coração

21 de setembro de 2009

Por conta de um projeto identifiquei entre as músicas que compus mais de 40 delas citando o Rio de Janeiro.
Gravei um disco aonde musiquei vários poemas usando esta cidade como inspiração. Se chama ‘A Sedução Carioca do Rio de Janeiro’.
Na verdade, estou me referindo a um repertório cotidano, quando naturalmente o carioca como humano ou natureza, se expoem por completo. São essas músicas que me fazem viver mais.
Na época do ‘Saudades da Guanabara’ percebi a necessidade de proteger com música o lugar aonde vivo. E aprendi muito dessa orientação com o parceiro Aldir Blanc.
A gente fazia as primeiras músicas falando do bairro, Tijuca, como em ‘O Mar no Maracanã’ e, já num contrato íntimo, o Rio, feito ‘Vitória da Ilusão’:
Carnaval…
Coração,
Bordadeira e carpinteiro
Armam outro Rio de Janeiro.
escultor, artesão…
Com o Saudades gravado pela madrinha Beth Carvalho nossa carapuça pessoal foi vestida.
Isso também tem uns 20 anos.
Estou bebendo umas na casa do parceiro Aldir, quando o interfone toca anunciando a chegada de outro craque, Victor Martins, letrista dos grandes sucessos da obra do Ivan Lins, cá pra nós, outro tijucano.
Quis o destino que naquele dia eu tivesse trazido numa fita cassete mais um samba pra ser musicado.
Sentamos os tres tratando uma garrafa de uisque como ilha: cercado de mãos por todos os lados.
O conteúdo diminuindo, as idéias crescendo, nosso querido Victor comenta sobre ‘Saudades da Guanabara’ e da experiência que devia ter sido, dois grandes letristas, Paulinho Pinheiro e Aldir, trabalhando na mesma melodia, cada um cedendo um pouco pro versos nascerem de uma só alma.
Á toa, brinquei que foi num encontro parecido com o daquele momento, a feitura do samba.
Do nada o Aldir levanta, traz a fita com os acordes e a melodia que eu havia lhe entregue  a pouco e propõe:
- Vamos falar mais de Rio de Janeiro, Victor? Topas?
E foi assim, dessas tardes que eu não canso de dizer: - O tempo para pra não incomodar - que nasceu ‘Centro do Coração’ - Moacyr Luz, Aldir Blanc e Victor Martins.
Esse samba foi gravado em 1994 pro CD ‘Vitória da Ilusão’ e registra na introdução o clarinte pessoal de um gênio brasileiro, Paulo Sergio Santos.
Tempos depois, com a mudança da Livraria Folha Seca pra Rua do Ouvidor, e o surgimento maravilhoso do Samba da Ouvidor dos meus queridos Gabriel e Pratinha, entre outros, atualizei a geografia dessa música reconhecendo nesse caminho as pontes de safena do meu coração.
Deus desenhou meu coração
De um jeito igualzinho
Ao velho Centro do Rio
São tantos pontos de luz
Em direção a procissão da festa
Da Candelária
Eles percorrem minhas coronárias,
Vejam vocês:
No carnaval, o bonde 66
Na Sete de Setembro apareceu mais uma vez
Tem condutor, motorneiro,
Tem o Guinga, o Paulinho Pinheiro,
O Nogueira e o velho Hermínio num reduto biriteiro.
Um trocador troca as fichas do meu coração
De quebra me vende mais uma ilusão.
Rua do Carmo, Uruguaiana, Ouvidor
São pontes de safena pra tamanho amor
Mas se o ar tá me faltando porque alguém sujou
Cruzo a Primeiro de Março e até o mar azul eu vou
.

Segunda-Feira

7 de setembro de 2009

O texto é curtinho afinal 7 de setembro é dia de parada. Como a data caiu numa segunda-feira, hoje tem Renascença.
Lembro dos primeiros sambas da nossa roda. Aldir me liga com uma história:
- Moa, preciso gravar com o João Bosco um depoimento pro filme sobre o Betinho, nosso guerreiro fundamental. Alguma sugestão?
Contei que estava fazendo uma roda de samba justamente no dia marcado para as filmagens, uma segunda. Que o lugar era lindo, uma quadra com ares de terreiro e duas árvores de frutas, mangueira e uma caramboleira carregada dessa delícia.
O Samba do Trabalhador ainda não contava com a formação tradicional da roda, 12 músicos.
A equipe do documentário armou um set perto da entrada do nosso quintal, um pouco distante da mesa e dos instrumentos, mas havia um clima mútuo de paquera.
Aldir não conhecia Jorge Ferraz, presidente do clube, meu irmão e protetor nessa empreitada.
De repente, o mestre João Bosco se aproxima da roda, violão em punho, e pede pra tocar um pouco com a gente.
A emoção é grande. A roda abre espaço e ganha em importância pra história desse trabalho.
Aldir de tamborim, João de violão, e todos cantando ‘O Bêbado e a Equilibrista’.
Está lá registrado no filme ‘Tres irmãos de Sangue’.
Desse encontro nasceu uma grande amizade entre o Aldir e o nosso Ferraz.
Meu parceiro em inúmeros sambas passou a frequentar as nossas ’segundas’ sempre chegando na roda e cantando seu repertório infinito.
Perto de completar 60 anos, com o projeto de gravar um CD pra marcar a data, Aldir rememora as idas ao clube e me mostra uma letra pra, musicada, quem sabe entrar no disco.
Era o “Recreio das Meninas II”.
Música feita, tive a honra a participar na faixa e, os versos de puro carioquismo, registram o carinho de uma amizade.
Hoje, 7 de setembro, Ferraz preparou uma feijoada especial. Ouvi dizer que um grupo com cem amigos de São Paulo vai nos visitar no samba.
Estou na expectativa de que outros tantos ‘cumpadres’ daqui também apareçam.

Eu fui de bengala, tossindo, com febre, lá no Renascença,
porque em toda a vida o samba foi cura pra minha doença.
Sentei no meu canto, uma voz perguntou: “O que qui vai querer?”
Perdi a cabeça e falei pra menina:
- Eu queria você…

Um riso de aurora acolheu meu ocaso e a pressão subiu.
Peguei meu remédio mas as mãos tremiam e o vidro caiu.
Chutei a caixinha, pedi caipirinha, pernil e café.
Receita infalível pro meu coração é um corpo moreno de mulher.

Eu vou com ela ao Capela, ao Siri e traço moqueca, carré, javali…
Digo sempre, bebendo com o Jorge:
- Foi no Renascença que eu renasci.

Aos que me gozam no bar,
dizendo que eu sou
o Recreio das Meninas,
respondo:
- Andorinhas fazem ninho nas ruínas.