youPode

Ruy Castro

10 de fevereiro de 2010 por Moacyr Luz

Nesta segunda-feira que passou recebi no Renascença a especial visita do craque Zé Renato e dos meus queridos Heloisa Seixas e Ruy Castro.
Uma honra.
Me afinei definitamente com ele, Ruy, quando li o ‘Anjo Pornográfico’. O cuidado com a obra do Nelson Rodrigues o eleva também à categoria de anjo, mas o da guarda.
Depois veio a biografia do Garrincha, páginas que me deixaram sem domir até o epílogo.

Mantendo o fôlego, desde as histórias da bossa nova, apresenta o fascinante ‘Carnaval no Fogo’.
Coisa de gênio.
Um dia me vi citado no ‘Orgasmos Amestrados’ e deduzi: - virei imortal!
Rubro-Negro doente, vim fazer uma conta dos nossos encontros. Me espantei.
Convivo muito com meu ídolo.
Participamos juntos de mesa redonda sobre nosso clube de coração, conseguimos nos encontrar no Bola Preta, e até no Escravos da Mauá, um brinde de Coca Zero e cerveja aconteceu.
Ilustres ‘foliões’ do Nem Muda Nem Sai de Cima, Ruy e Heloisa por muitas vezes provaram as sardinhas feitas na ruidosa barraca de feira que mantive por dois anos na Tijuca.

Fã dos pratos básicos de ‘butiquim’, recebi do amigo uma foto tirada  em Portugal onde resgitrava no cardápio de lá, um sanduiche de torresmo.
Salivei.
De um projeto nascido no Bar Pirajá, em São Paulo, fizemos uma tabelinha pra apresentar o “Delírio da Baixa Gastronomia. Ele escreveu o manifesto. Eu, motivado pelo texto, fiz  o samba homônimo que encerra o CD ‘Batucando’.
Fechamos a tarde com samba e a feijoada da Surica.
As histórias percorrem e pulsam no coração dessa cidade.
Acho que foi comigo que o parceiro conheceu o menu do Chefe Santos.
Ao fim da refeição, provando um pastel de belém, ouviu do criador:
- Gostou? Eu sou o melhor!
Ponto marcado no Samba da Ouvidor, o passeio avança pelo Copacabana Palace, onde desarrolhei um champagne ao lançamento de ‘Carmem: Uma Biografia’.
Há poucos dias, acompanhei seu depoimento para o Museu de Imagem e do Som, no Rio de Janeiro.
Impressionado com a sua biografia, ando tímido de conjugar qualquer verbo, com ele perto.
Quem já leu ‘O leitor Apaixonado’, entende o meu sentimento.
As fotos do post, presente do mestre Jorge Grisi, foram tiradas no seu apartamento no Leblon.
Uma notável coleção de discos, livros e filmes, em todas as mídias possíveis, povoam as estantes do lugar.
Neste dia, sentávamos pra escolher as fotos que sairiam na série Álbum de Retratos, livros criados feito uma espécie de biografia fotográfica, com um texto maravilhoso da Heloisa.
Aliás, Heloisa Seixas escreveu uma crônica chamada ‘Luz’, na época dos ‘Contos Mínimos’, página especial da Revista de Domingo - JB.
Tá emoldurada na parede.
Ainda conto essa história.

Baile de Gala

8 de fevereiro de 2010 por Moacyr Luz

Hoje tem brincadeira nova no Renascença!
Vamos apresentar o I Baile de Gala do Samba do Trabalhador.
Na verdade, a roda pouco altera o repertório, mas pretende modestamente acrescentar mais um bloco nas veias dessa cidade.
Na minha juventude, morando no Meier, ia escondido ver o desfile proibido do bloco Chave de Ouro.
Proibido pela ditadura que considerava o samba na quarta-feira de cinzas um ato terrostista, o que batucava na pele eram os cassetetes militares. Pele humana, vocês entendem.
Hoje tem bloco até nos Finados - o Só Não Vai quem já Morreu.
O nosso calendário também corre na contramão.
Vamos brincar na concentração, evoluir e sambar sem sair do lugar,dentro da nossa data oficial: - segunda-feira.
Vai ter camisa, confete e seperntina.
Na arte estampada, o presente dado pelo craque Amorim
Também tem samba, claro!
***
Desculpe o texto pequeno, é carnaval, não me levem a mal…

Fim de Semana

4 de fevereiro de 2010 por Moacyr Luz

Um verão inesquecível.
Minha garganta sucumbiu aos efeitos de um ar-condicionado na mais baixa temperatura construída.
Mesmo assim, agradeço.
Costumo falar que roda de samba vazia, não funciona.
Outra situação que merece volume é o som de um disco de samba. Ouvir esse enredo baixinho é quase uma heresia aos graves do surdo ou mesmo desprezar as inversóes agudas de um cavaquinho.
Pois o clima também afeta o sentimento desse estilo.
Uma roda de samba debaixo de chuva, só mesmo Casquinha da Portela pra nos fazer aceitar:
- A chuva cai lá fora, você vai se molhar.
  Quero pedir, não embora, espere o tempo melhorar
  Até a própria natureza está pedindo pra você ficar…
Então, muita estrela brilhando no céu porque nesta sexta-feira tem Santa Luzia e eu estarei por lá com os meus amigos-músicos do Renascença.

***

Sábado, latitude 23, sigo pra São Paulo ao lado de duas pessoas maravilhosas: Surica e Carlinhos Sete Cordas.
Vamos fazer uma roda de samba as duas da tarde no Pirajá.
Pra ficar ais carioca ainda, o prato principal é feijoada, ne receita portelense da nossa pastora.
Não sei se contei aqui, história vaidosa, mas quando o prato era servido, poucos privilegiados, na vila da Julio Fragoso, fui com o mestre João Nogueira visitar as panelas.
É que a nossa Surica sabedora das restrições do João com carne vermelha, preparou um feijão carregado no…jiló.
Quase comi a travessa inteira, com tampa e tudo.
Será a terceira vez que sentamos naquela esquina paulistana-carioca, acordes soltos na couve  batidinha enquanto o chopp cruza nosso céu entre bandejas molhadas da bebida.
Vai ter caipirinha, mas dessa vez passo a bola pra Carlinhos Sete Cordas, o rei dos bordões suburbanos.

Império e Dobrando

3 de fevereiro de 2010 por Moacyr Luz

A semana está agitada.
Não estou correndo da raia, mas nem beber meu vinho, ‘to’ conseguindo.
Hoje a noite teremos no Rival mais um show sob a batuta da maravilhosa Escola de Samba Império Serrano.
A turma é forte e, em especial, peço licença ao mestre Zé Luiz do Império.
Lembro com orgulho de uma participação minha no show que a Velha Guarda da agremiação fazia no MIS.
Fim da roda, recebo um convite muito especial do craque Cizinho para um feijoada na Serrinha, dia seguinte.
Quase amanheci no quintal da casa.
Bebi o que podia em cada birosca da esquina, comi feijão sem talher e ouvi sambas de chorar de emoção.
Escurecendo, o saudoso Toninho Fuleiro canta uma ‘jóia’ chamada ‘Tantas Primaveras’.
Um arrepio invade a pele, o cavaquinho seco repetindo a melodia, decidi ali a faixa que faltava pro disco novo.
Foi assim que em 2001, no CD ‘Na Galeria’, gravei esse clássico imperiano.

***

Quinta-feira, sem descanso, volto ao palco da Cinelândia com meus amigos Guinga, Jards Macalé e Ze Renato, no show ‘Dobrando a Carioca’.
História que contei em algum post passado, passamos de dez anos juntos nesse trabalho.
Modestamente, considero um espetáculo de respeito à música brasileira.
Além do repertório pessoal, o grupo canta Pixinguinha, Padeirinho, Noel Rosa e Ary Barroso, uma constelção de orgulhar qualquer bandeira.
Os parceiros de cada um estão presentes, Aldir blanc, Paulo Cesar Pinheiro, Wally salomão e Juca Filho.
Resumindo, quatro violões e carinhosas intervenções de pandeiro e tamborim.

O Bloco

31 de janeiro de 2010 por Moacyr Luz

Essa história de bloco deveria ser tratada com fichinhas tipo BA - Blocos Anônimos.
A gente vicia na emoção que esse estatuto traz, perde e ganha amigos, rifa a alma pra conseguir comprar as camisas, convence um craque amigo de criar a estampa consagradora, jura que será a última vez que se mete nisso, mas quando a bateria cadencia, chora…
O desfile desse ano do Nem Muda Nem Sai de Cima me deu nó na garganta. Fui o enredo.
Acostumado a homenagear, fui pego de supresa na emoção, nasceu um riso na boca que só amenizou quando amanheci repetindo o último verso, - Cabô. Meu Pai, cabô…
O arredor desse estado todo é a cidade.
As pessoas chegam de bairros distantes, ouso dizer que conheço todos. Vêm do Meier, Copacabana, Irajá, Baixada Fluminense.
Uns deixaram o churrasco na birosca da esquina pra alimentar de canto o rio de gente que transborda à rua. Outros não quiseram se bronzear, cruzando o túnel que separa status pra abraçar a Muda com seus apêndices -Formiga e Borel.
Vejo os ambulantes suados. Carregam gelo nas costas, abanam com a outra mão o braseiro de “asinha” e salsichão.
Agora um latão é tres, dois é cinco!
Os rolimãs numa ladeira tangeciam nossos corpos enquanto o carro de som cresce na microfonia do intérprete.
Meus queridos Gabriel, Pedrinho e Guilherme gesticulam animados uma garrafa de maracujá.
O mestre Capoeira pede atenção ao cavaco, vem aí a Bateria do Império da Tijuca.
Mesmo longe da passarela, eu recuo.
Na outra margem correm as caixas pro foguetório:
- Só ‘pode’ durar 30 segundos, ordem da prefeitura!
Hoje tem corda no bloco protegendo os ritmistas.
Sai a primeira estrofe, e, junto com as rimas, o primeiro morteiro…
“Aplausos, pois o samba somos nós”.
Não sou da Polícia Militar pra contabilizar o público. Acho que , feito a final de 50, O Rio de Janeiro compareceu.
Basile e Lula subiram pra pedir à São Pedro que não chovesse, destino contínuo dos nossos desfiles, e o bloco saiu pela Garibaldi,  itinerário tijucano que inclui um congestionamento da Conde de Bonfim.
Percebi que tempo passou, 15 anos.
As crianças que habitavam os primeiros enredos, hoje são pais de novos foliões.
O coração permanece amarelo e vermelho, cores da nossa bandeira.
Eu sai sa Tijuca, mas a Tijuca não saiu de mim.
Até a garça do Rio Maracanã me acenou. Só não fui à dispersão porque o coração engasgou na boca, os olhos molhados não enxergariam meus diretores pra agradecer.
Juro que foi a última vez, mas a bateria cadencia, o peito acelera e…