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Receita Carioca

28 de julho de 2010 por Moacyr Luz

Amigos, nesse sábado, tomado de admiração, participo da feijoada da Tia Surica no Café Teatro Rival.
O coração bate forte no convívio com essa pastora. Ela me olha de cima, embaixo, “parecndo” adivinhar as besteiras que ando fazendo com o fígado, os erros e acertos da vida,  e me perdoa com o sorriso de baluarte do espírito carioca.
Ela é marailhosa.
Peço licença ao Batucadas Brasileiras e reproduzo um texto que escrevi faz um tempo pra esse receita de samba chamada feijoada.

Quase um convite não impresso, Paulinho da Viola elogia o famoso feijão da
Vicentina, e rima inspirado, que só quem é da Portela é que sabe que a coisa
é divina. Eu me emociono com essa história carioca, comida e samba. Não pude
provar desse tempero, mas cheguei a tempo de enxerir na cozinha da Tia Surica,
quando o prato era servido na deliciosa vila da Rua Julio Fragoso, dessalgando
nossas angústias da vida de compositor.
Recordo uma visita que fiz com meu mestre e amigo João Nogueira - sede enorme
- a esse cafofo protegido por um manto azul e branco. A feijoada foi feita
pra nós, veteranos, evitando as extremidades que me fazem ajoelhar: pé, orelha
e rabinho. Sei da boa intenção, mas nem sequer uma lasca de tocinho fumeiro,
meu pecado público. João já tinha excluído tudo isso do seu cardápio íntimo,
fazendo uma justa exceção pra torresmo e mocotó, segundo ele, carnes brancas.
Surica mandou buscar na vendinha na esquina da rua um lote de jiló transformado
no ingrediente único do prato do nosso sambista. Fominha, provei o fruto
no feijão, e até hoje o paladar mora na minha boca.
Essa exagerada apresentação saboreia um único sentido: - Que maravilha participar
de uma feijoada organizada pelas Velhas Guardas nas nossas escolas de samba!
Ainda fugindo do assunto principal, lembrei de uma história contada por outro
baluarte da Portela, o grande Casquinha. Permita uma divulgação, mas eu produzi,
ao lado do querido Mauro Diniz, um disco do autor do Leva o Recado, em 2001,
com a Velha Guarda de convidada. As gravações corriam num estúdio tradicional,
às costas da Rua da Lapa, a Joaquim Silva. Casquinha me conta que foi apresentado
a um jovem talento, proposto novo integrante da escola, Paulo Cesar, mais
tarde, da Viola. Paulinho levara a primeira parte de um samba, exigência
para ingresso, à ala dos compositores, e ele, de improviso, compôs a segunda,
ali mesmo, na quadra. Zé Kéti, presente na ocasião, adorou o samba e foram
cantar todos numa birosca perto dali, um arredor do lugar.
Paulinho acabou gravando a faixa no mitológico A Voz do Morro, e credito
o sucesso dessa obra à convivência dos compositores, dos amantes do samba,
na vida de uma escola de samba.
Quesito que evolui a cada sábado na cidade, as escolas, numa Liga silenciosa,
distribuíram a data para que todos pudessem sentar nas mesinhas azuis da
Portela, rosas da Mangueira e verde-escuros do Império Serrano, dispensando
o famoso “água no feijão que chegou mais um” porque cada cozinheira foi cuidando
da sua receita sabendo as bocas que tem.
Salgueiro e Vila Isabel também têm panela no fogo, só que aos domingos, porque
Deus, quando inventou o calendário, não esperava tanta couve, farinha e pimenta
num dia só. Achou melhor que domingo fosse brindado com cozido à portuguesa,
e só mesmo a nossa Márcia Black pra apostar no prato como atração num pagode
no Recreio dos Bandeirantes. Zeca Pagodinho era presença certa.
A feijoada já desenhou o mesa da MPB com mestres como Chico Buarque e Paulo
Cesar Pinheiro, dois sambistas de primeira. Chico cantou todos os itens da
iguaria e ensinava em versos o preparo, até aproveitar a gordura da frigideira.
Meu parceiro Paulinho pedia essa comida pra voltar do exílio - era armando
o coreto e preparando aquele feijão preto, que “estamos” voltando!
Foram tanto refogados…
Conheci o Renascença bem antes do Samba do Trabalhador por conta de um feijão
à lenha feito pelo Jorge Ferraz, presidente do clube. Nei Lopes, um craque,
recebeu lá a Medalha Pedro Ernesto, debaixo da caramboleira que protege a
agremiação. Cheguei de São Paulo com uma goiabada cascão na caixa, mas o
sucesso tava no pretinho, feijão mexido numa colher de pau do meu tamanho,
acessório que também cutucava o tronco que fazia ferver a panela. Fila de
Maracanã lotado sentir vergonha, o caldeirão durava o sopro de uma vida.
De uma chaleira gigante, doses generosas de limão da casa eram servidas pra
melhorar a digestão já engasgada de alegria, num arroto de prazer.
A cidade tem vocação pra inventar modas saudáveis e a feijoada está em alta.
Toquei outro dia na Tia Elza, feijoada. Uma roda de samba que cresce no andamento
enquanto o apertado quintal da casa recebe equilibristas de prato cheio e
ginga no pé. O bufê é montado na varanda, fitas no pulso dão acesso ao banquete
e é uma maravilha…
Também dividi acordes na Casa Rosa, feijoada. Eu que tantas vezes me vi em
delírio entrando secretamente na casa de arquitetura mexicana, desperto,
cantando um refrão popular entre meninas de sandálias havaianas e jovens
aspirantes a boêmios, enquanto na mesa em frente um sujeito destrincha uma
costelinha defumada.
Feijoada no Beco do Rato, no Rival, até na Barraca do Pepê, na Barra, servem
uma lauta feijoada com a mesma moldura no quadro, samba.
Sinceramente, esse texto não tem conclusão alguma, apenas um orgulho carioca.
Já nos fartamos de angu a baiana, já fomos os reis da maminha e picanha enfumaçando
nossos tamborins, e o repertório pode a qualquer momento mudar pra mocotó
no osso.
Tirando o preço, o que interessa é a gente reagir com inspiração às tempestades
de violência que inundam nossas ruas, nossos bairros, tão repletos de melodia.
Moacyr Luz

Saideira

21 de julho de 2010 por Moacyr Luz

Quando lancei o livro “Manual de Sobrevivência nos Butiquins Mais Vagabundos”, lá se vão cinco anos, publiquei as entrevistas que fiz com as grandes referencias da vida carioca.
No capítulo Saideira, meu personagem foi o Haroldo Costa.
Pensei óbvio: - um homem que permanece lúcido na tevê, fluente até a última escola de samba dispersar na Apoteose, conhece do assunto, saideira.
Já éramos amigos de outras doses.
No projeto “Samba Falado”, um trabalho que me orgulha, Haroldo fez dupla com o craque Baianinho, o grande  compositor da Em Cima da Hora.
É importante resgistar, Haroldo Costa é carnaval, é cinema, é literatura.
Há pouco tempo, convoquei sua expêriencia pra criar no projeto “Álbum de Retratos” a biografia fotográfica da atriz e amiga, Ruth de Souza.
Pois é.
Nesta sexta-feira, 23 de julho, vamos fazer uma tabelinha, música e conversa, no SESI do Centro da Cidade.
Pra facilitar, a entrada é franca e o show, ao meio-dia e trinta.

***

Como nem tudo é agenda, já passei por várias saideiras nessa encarnação.
Síndico desta cidade, uma noite o eterno Albino Pinheiro, cochichou com o garçom de bigode do Bar Brasil: - Tá fechando? Traz a saideira.
Foram 32 chopps a mais.
Numa tarde de domingo,visitando nossa madrinha Beth Carvalho na litorânea casa de Maricá, resolvemos voltar no começo da tarde pra casa.
Enquanto a geladeira era esvaziada com os excessos do fim de semana, resolvi abrir uma última Antárctita visivel.
Um queijo do reino tambem porejava num prato sobre a mesa.
Moral: - desligamos o motor do carro “praquele” copo e quando reparamos na janela, amanhecia a segunda-feira.
Pra fechar.
Emocionado por ter reencontrado o meu querido Helio Delmiro, convoco eufórico, o melhor saideira do mundo, Aldir Blanc, pra uma cerveja no Bar da Dona Maria.
Estabelecimento familiar, as portas são cerradas no primeiro lampejo da noite.
Aldir propõe uma saideira na residência particular.
Chegando, esbarramos num caixa de vinho tinto.
Helio, confessa: - um vinho, eu compartilho.
Seis da manhã fui jogar na lixeira os cascos vazios e fugi pelos fundos.

Instantâneos

19 de julho de 2010 por Moacyr Luz

Vou chamar de instantâneo.
Sim, o nome é par de impulso neste pequeno post.
Cuidadoso pra não exagerar, gostei da apresentação do Samba do Trabalhador incluída no evento Comida Di Buteco.
Não fui do juri, não indiquei bar nenhum e dos 31 petiscos, apenas em dois e meio testei o paladar.
O motivo de espontânea alegria reside na manifestação.
Um sábado chuvoso, com os postes e árvores caindo mais que bêbados, o carioca lotou a Cidade do Samba e, acredito, cravou no calendário, mais uma festa popular pra se bater pernas e copos.
Prefiro sempre motivos coloridos nas manchetes ao único vermelho no uniforme de um menino caído para sempre no avesso do Rio de Janeiro.
Domingo fui comemorar.
Na foto, a vista do Pão de Açúcar. Estou na sala do amigo Dacio Malta.
Ao meu lado, uma garrafa magnum de um tinto frances, maravilhoso que nem consigo escrever o nome.
Embaixo, aonde os olhos não veem, o Aterro do Flamengo fechado para os velozes corredores da Maratona Da Gema, imagino.
Reconheço: - Ilustração vaidosa, essa!
É o orgulho de insistir.

***

Em tempo: Pedro Landim, jornalista e autor do melhor blog sobre comidas e seus truques, experientou e aprovou o tira-gosto vencedor desse ano.
http://odia.terra.com.br/blog/bocanomundo/index.asp

Comida Di Buteco

16 de julho de 2010 por Moacyr Luz

Nesse fim de semana nosso barco encosta na Cidade do Samba dentro do evento Comida Di Buteco.
Posso dizer que o cotovelo tem balcão certo pra ancorar.
Virei voyeur dos butiquins, mas não canso de admirar todo o movimento que me faz afirmar sem dúvida: - Um belo bar é tão postal quanto o Pão de Açúcar, tão de fé feito o Redentor, intensamente vasto tal a Mata Atlântica, nosso cinturão verde.
Ando atento a nova arquitetura dos bares.
Gosto da maioria.
Há alguns anos as cervejarias inventaram essas mesas de plástico empilháveis, verdadeiras balsas com quatro pernas e um vão nos cantos pra cair seus copos americanos.
A nova mobília recuperou a madeira, ajeitou as cadeiras e até o mármore, dos centenários salões cariocas, voltou a fria mesa, no pé de ferro.
Um aparte das cadeiras. Certos modelos são tão trapézios que na primeira relaxada, o tombo é fava contada.
Fico feliz com essa retomada.
Já participei de várias momentos de exaltação ao Butiquim Carioca.
Fui da comissão do “Rio-Botequim” e até de mestre-de-cermônia, com o falecimento do insuperável Oswaldo Sargentelli, me vesti.
Em 1998, com ajuda da Prefeitura, lancei o CD “Mandingueiro” em frente ao Bar da Dona Maria.
Um palco gigante foi montado na rua, protegida pela Guarda Municipal.
Para garantir a elegância da noite, refletores com suas gelatinas coloriram esse asfalto doméstico.
No fundo eu queria homenagear meu habitat natural, os butiquins mais vagabundos.
O tempo foi cruel num aspecto, me impôs limites.
O agradecimento a essas instituições, permanece.
Considerando o Capela um buteco, me ajoelho aos cabritos que já encarei com meus amigos Paulão 7 Cordas  e Aldir Blanc. Aldir gosta com mamão papaia,  verdade seja dita!
Aceitar o mesmo título ao Bar Luiz, rememoro os tempos do Seis e Meia que fiz com o João Nogueira, e defumados divididos com Sergio Cabral, pai.
Na mesma foto, calderetas com Albino Pinheiro, no Brasil; milanesa a francesa servido pelo Vieira, no Lamas e outros tanto Underbergs ao lado do Jaguar fechando os bares que sobraram.
Posso seguir cidade adentro.
Passei por todas as vitrines de pernil e carne assada que existem na 28 de setembro.
Lá, conheci o Perna, apresentado pelo meu querido Helio Delmiro no salão do Asia.
São inúmeras recordações: - Meier, do Só na Brasa; Bar das Pombas, na Usina e o Tem Tudo, de Madureira.
Neste sábado 31 bares apresentam suas novidades pra melhor descer a cerveja, os tira-gostos.
No meio desses sabores, o Samba do Trabalhador bebendo samba.
Uma brincadeira carinhosa pra deixar a cidade mais butiquim, pezinho limpo na traição dos pés-sujos.

Vida Leva

11 de julho de 2010 por Moacyr Luz

Tímido, peço desculpas pelo silêncio.
A sensação de vazio se repetiu.
Um blog transita numa linha de equilibristas, a corda bamba que Aldir imortalizou: bambear-narciso ou flutuar-interessante?
Nesse movimento, o branco do bloco de notas virou um nevoeiro que me impedia  decolar.
Permaneci no chão, mas com o meu instrumento, o violão.
A primeira vez que consegui conversar reservadamente com o meu parceiro Aldir Blanc, foi no balcão do bar Erva Doce, na Tijuca.
Esse encontro aconteceu em 1984, bem no fim desse ano.
O bar de, dois andares, definia os ambientes: - em cima, show. Embaixo, boemia.
Fiz um set de músicas bem raras de ouvir num palco como aquele, e, incluí, intuitivamente, duas canções desse craque: “Vida Noturna” e “Transversal do Tempo”.
Sinceramente, foi uma ardente supresa a sua presença na platéia.
No balcão, Aldir comenta sobre Vida Noturna: - uma das minhas preferidas…
No fim da frase, elogiou o jeito que harmonizei a música, fazendo referências à outros instrumentistas brasileiros.
Última forma: - Pega leva no conhaque que você tem futuro…
Antes eu tivesse escutado.

Em 2006, passados vinte anos, produzi para Lua Discos o CD “Vida Noturna” - o mais recente disco do parceiro.

Não sei em que parte da viagem  estou com a minha carreira. O mar, cedido por Netuno ao Deus Dorival, sempre guarda um bem pra gente  pescar.
Um pensamento me persegue: - Que caminho foi esse escolhido pelo autor de pérolas como “Nação”, “Mestre Sala dos Mares”, “O Bêbado…”, em apontar na minha direção apostando uma parceria consistente que se traduziu em mais de cem músicas compostas, quase noventa gravadas?
Da primeira, com Leila Pinheiro, em 85, até “Remanso” com Maria Bethânia, ano passado, foram vários momentos.
A querida madrinha, Beth Carvalho, gravou cinco das músicas nossas.
A face tímida do parceiro, insistindo na sua clausura pessoal, não o impediu de subir as escadas do “Vou Vivendo”, lendário bar paulistano, suando em bicas após um voo detestado, pra me ajudar nos autógrafos do disco de 1988.
Amanhecemos no “Sujinho” ou “Moraes”, não recordo,  ele voltando na primeira ponte.
Um agradecimento eterno.

Toda a reminiscência tem um motivo.
Mesmo sem saber em quantas léguas estou dessa trajetória, preciso retribuir o gole no balcão do Erva Doce.
Tenho feito alguns sambas com dois novos letristas que muito vêm mexido com o meu entusiasmo: Roberto Didio e Rogério Batalha.
Os dois tem estilo, um grande futuro.
Não bastasse outro óbvio meu, Gabriel Cavalcante.
Vem cantando com personalidade.
Parafraseando meu querido Aldir: - Vão de leve no conhaque!

***
Recebi dois presentes:

Julio Cesar Barros:
http://veja.abril.com.br/blog/passarela/
(página 1 e 2)
Gilberto Valle
http://www.revistaclickrec.com/index.php?option=com_content&view=article&id=395:miacyr-luz&catid=49:entrevistasbaque&Itemid=127