Rio de Janeiro
2 de março de 2010
A cidade comemorou seu aniversário sob baixa temperatura, quase um protesto ao ar livre.
O amor que sinto por esse pedaço de mundo não preciso mais explicar. Talvez seja com esse sentimento que entendi o frio deste dia primeiro de março.
Uma vez, numa caravana íntima pela zona norte, parei num bar em Olaria chamado Copão de ouro.
Sentando numa mesa de canto, fui avisado pela gentil proprietária que o mais assíduo dos seus fregueses foi o maestro-compositor chamado Pixinguinha.
Ainda de olhos esbugalhados, vejo ela apontando pra esquina oposta, uma pequena rua agora batizada com o nome do mestre, um mapa de pequenas casas e um silêncio necessário de subúrbio.
A chuva de ontem de trouxe a melancolia de interpretar como nossos subúrbios estão barulhentos em miséria e violência.
As transversais desse bairro hoje estão proibidas a qualquer hora do dia, e, as pequenas casas com santos em azulejos no teto da fachada, estão transformadas em construções de tijolos desnudos.
Quando fui morar na Tijuca, sentava na arborizada Praça Saenz Penna brincando de par ou ímpar escolhendo o cinema.
Os mais ousados paravam no ‘Só Kana’, compravam litros de batidas exóticas e subiam o Alto da Boa Vista à pé, procurando um banco livre pra namorar.
Agora, sinto frio nessa floresta pública.
As esquinas, se pudessem, também fechariam suas portas temendo outras ordens além dos choques prometidos.
A minha lembrança abre um guarda-chuva.
Alguém está mesmo achando agradável andar à toa sexta-feira na Lapa?
Algum Indiana atravessa tranquilo as muradas da Glória depois de certa hora?
Meu amigo Alexandre Menezes está muito atrasado ao nosso compromisso no delicioso Bar Pavão Azul.
Chega agitado. Nem consigo mostrar o relógio encenando reclamação: - quis vir de metrô e acabou soltando nos trilhos da estação Es
tácio com problemas no ar-comprimido.
Pra mim, ar comprimido era um espingarda que, erradamente, a gente usava em Senador Camará pra matar rolnha. Uma maldade, confesso.
O céu ontem não estava azul.
O mar não estã pra peixe.
Nem a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Nem mar, nem o canal da Barra, praia da Bica, a enseada de Botafogo, nem as acrobacias nas barcas que atravessam a Baia de Guanabara.
enquanto chove no primeiro de março, um canal a cabo na TV mostra uma cidade chamada Siena, na Itália.
Diz o documentário que tem mais de mil anos. E está tudo lá, parede por parede.
E aí me pergunto: - Por que mudamos tanto e sempre pra pior?
A Perimetral parece uma venda negra dos mágicos ocultando a paisagem.
Próximo passo e ‘granitar‘ as calçadas, expulsando de vez as pedras portuguesas, símbolo internacional do Rio de Janeiro.
Um vereador quer criar uma lei proibindo crianças nos blcos de rua.
Choveu feito um recado escrito no espelho do banheiro.
Quase sempre, escrito em baton : - Chega!
Só saio daqui morto, não falta muito.
Mas bem que podia fazer sol nesse dia.
BELEZA EM DIAMANTE
Sereno
Moacyr Luz
Meu Rio de Janeiro
Se fosse preciso dobrar a teus pés
Cantar tão bonito e dizer que tu és
A estrela mais brilhante
Mesmo num céu de outras cores
Traçantes balas e dores
És a beleza em diamante
Assim, passar as mãos nas tuas costas
Carinho de mar nas encostas
Amor de mandingueiro
O sol desponta além do infinito
Trazendo alento aos mais aflitos
Meu Rio de Janeiro.
É tudo paixão, delírio
Palácios e barracão
Nas noites de muito frio
Pedir mais proteção.
O meu samba é pra quem quiser
Usar da mesma inspiração
Cidade mulher, um bem-me-quer
No coração
(meu samba é)
Um cantar de fé pra quem quiser
Usar da mesma inspiração
Cidade mulher, um bem-me-quer
No coração






