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Comida Di Buteco

16 de julho de 2010

Nesse fim de semana nosso barco encosta na Cidade do Samba dentro do evento Comida Di Buteco.
Posso dizer que o cotovelo tem balcão certo pra ancorar.
Virei voyeur dos butiquins, mas não canso de admirar todo o movimento que me faz afirmar sem dúvida: - Um belo bar é tão postal quanto o Pão de Açúcar, tão de fé feito o Redentor, intensamente vasto tal a Mata Atlântica, nosso cinturão verde.
Ando atento a nova arquitetura dos bares.
Gosto da maioria.
Há alguns anos as cervejarias inventaram essas mesas de plástico empilháveis, verdadeiras balsas com quatro pernas e um vão nos cantos pra cair seus copos americanos.
A nova mobília recuperou a madeira, ajeitou as cadeiras e até o mármore, dos centenários salões cariocas, voltou a fria mesa, no pé de ferro.
Um aparte das cadeiras. Certos modelos são tão trapézios que na primeira relaxada, o tombo é fava contada.
Fico feliz com essa retomada.
Já participei de várias momentos de exaltação ao Butiquim Carioca.
Fui da comissão do “Rio-Botequim” e até de mestre-de-cermônia, com o falecimento do insuperável Oswaldo Sargentelli, me vesti.
Em 1998, com ajuda da Prefeitura, lancei o CD “Mandingueiro” em frente ao Bar da Dona Maria.
Um palco gigante foi montado na rua, protegida pela Guarda Municipal.
Para garantir a elegância da noite, refletores com suas gelatinas coloriram esse asfalto doméstico.
No fundo eu queria homenagear meu habitat natural, os butiquins mais vagabundos.
O tempo foi cruel num aspecto, me impôs limites.
O agradecimento a essas instituições, permanece.
Considerando o Capela um buteco, me ajoelho aos cabritos que já encarei com meus amigos Paulão 7 Cordas  e Aldir Blanc. Aldir gosta com mamão papaia,  verdade seja dita!
Aceitar o mesmo título ao Bar Luiz, rememoro os tempos do Seis e Meia que fiz com o João Nogueira, e defumados divididos com Sergio Cabral, pai.
Na mesma foto, calderetas com Albino Pinheiro, no Brasil; milanesa a francesa servido pelo Vieira, no Lamas e outros tanto Underbergs ao lado do Jaguar fechando os bares que sobraram.
Posso seguir cidade adentro.
Passei por todas as vitrines de pernil e carne assada que existem na 28 de setembro.
Lá, conheci o Perna, apresentado pelo meu querido Helio Delmiro no salão do Asia.
São inúmeras recordações: - Meier, do Só na Brasa; Bar das Pombas, na Usina e o Tem Tudo, de Madureira.
Neste sábado 31 bares apresentam suas novidades pra melhor descer a cerveja, os tira-gostos.
No meio desses sabores, o Samba do Trabalhador bebendo samba.
Uma brincadeira carinhosa pra deixar a cidade mais butiquim, pezinho limpo na traição dos pés-sujos.

Samba, Luzia

1 de maio de 2009

Neste feriado do Dia do Trabalho, 1 de maio, estarei com os músicos do Samba do Trabalhador tocando na roda do Samba, Luzia.
A história desse espaço nasce do fenômeno Samba do Trabalhador todas as segundas-feiras no Clube Renascença. Peço desculpas pelo exagero, mas imaginar que uma roda de samba marcada pras duas da tarde numa segunda-feira preguiçosa pudesse estimular um público aproximado de mil pessoas a cada semana pra cantar sambas feito um feriado, só pode ser fenômeno.
Ainda vou escrever sobre o Renascença.
Em 2006 conheci o Beco do Rato e, dentro dele, a figura agitada do Marcio Pacheco, o Marcio do Beco.
O Lugar comandado por ele tinha exibição de documentários as quintas, poesia as quartas, choro, samba, feijoada, tudo acontecendo todos os dias e ele pensando mais.
Do meu lado, uma reclamação constante:
- Moa, samba segunda à tarde? Eu trabalho!
Repetir a fórmula em outro espaço pediria algo especial. Eu sempre pensava no Samba do Trabalhador como uma resposta do Rio, nossa cidade, pra tanta notícia ruim, pra tanta bala perdida.
E a fonte brota desse sentimento: o Rio de Janeiro.
Num sábado de dezembro, céu azul de verão, fomos, eu e Marcio, conhecer o terraço do Clube Santa luzia. Quem nos recebeu foi o Pão de Açúcar, como diria Murilo Mendes, poeta mineiro, o cão de fila da Baia da Guanabara.
Ná véspera do Natal do mesmo ano, 2006, começamos o samba. É so fazer as contas de quantas sextas-feiras subimos aquela lage pra cantar os nossos partidos.
A sorte nos acompanhou e visitantes ilustres abençoaram a mesa que tem São Jorge como Guerreiro: Alcione, Beth Carvalho, Dudu Nobre, Serginho Meriti, Toninho Gerais, Zé Luiz do Império Serrano, toda a família do samba.
Hoje, 1 de maio, a primeira sexta do mes, tocamos lá. Revezando outras datas, grandes amigos: Surica, Wanderley Monteiro e Paulão 7 Cordas.
A foto é um presente do Beto Gonzáles, de los Angeles.
Segue um link como dica:

http://www.sambaluzia.com.br/

Medalha de São Jorge

22 de abril de 2009

Ando emotivo. Ponho a culpa na idade, no inventário que esse blog vem me empurrando, enfim, me confesso melancólico.
Parte da minha infância foi vivida ao lado dos meus avós. Morávamos na Rua Souza Lima, Copacabana e tenho um cotidiano muito marcante: Eramos vizinhos do mestre Dorival Caymmi. A banca de jornais na esquina da Raul Pompéia era um ponto de esbarrões e cumprimentos quase diários. Pra seguir íntimo, na vitrola da nossa casa o violão do gênio baiano repetia várias vezes seus acordes praieiros. Meu avô, clrinetista, gostava também de Beethovem, por isso os domingos eram reservados pra ir a TV Rio no Posto Seis e assistir ao programa Concertos Para Juventude.
Nos dois movimentos, a banca de jornal ou o programa de tv, uma reverência em comum: se benzer diante do quadro de São Jorge fixo na parede da porta de entrada do apartamento. Pedir proteção quando saísse e agradecer na chegada.
Esse ritual foi repetido enquanto ele viveu e, na hora da partilha, fiz dois pedidos: o clarinete e o quadro do nosso santo guerreiro.
A vida seguiu com essa fé.
No início dos anos 90 estou eu zanzando na editora e noto o Chico Ribeiro, nosso manager, abrindo um armário de músicas atras de canções que falassem de São jorge. Era um pedido feito pela maravilhosa diva Maria Bethânia.
Meu endereço agora é a Tijuca.
Vejo a procura por sambas, toadas, canções e sinto que essa oração está guardada na minha cabeça.
Foi desse jeito que falei com o Aldir:
- Parceiro, essa música, se você topar fazer, sai em cinco minutos. Fiz ela no dia que nasci.
- Moa, tenho 20 anos de carreira e nunca gravei um verso sequer com a Maria Bethânia, mas o pedido é forte e a intuição sobre isso, maior.
Essa é a inspiração.
Música pronta liguei pro editor. Chico me adianta já ter entregue todas as músicas possíveis naquele mesmo dia. Eu insisto. Marcamos pra manhã do dia seguinte.
As dez horas, fita em mãos, Chico promete enviar imediatamente, sempre alegando prazo esgotado.
Desço o Alto da Boa Vista com uma frase do Aldir na cabeça:
- Fizemos a música pra São Jorge. Qualquer coisa, a gente canta na igreja.
A chegada na Garibaldi foi sem expectativas. Aldir esperava na janela.
- Sobe! A Bethânia ligou!
- Já?
- Vai gravar a música. Medalha de São Jorge.
Pensei logo no meu avô.
Dias depois fomos assisti-la num show de encerramento de turnê no Canecão.
Entre abraços de admiração uma ousadia. Falei pra Bethânia que havia outra canção com o mesmo sentimento de reverência feito em homengem a  Clementina e Jesus, guardada com a gente.
E assim em 1992, no disco ‘Olho Dágua’, Maria Bethânia gravou Medalha de São Jorge e Rainha Negra, dua músicas da dupla Moa & Aldir.
Salve 23 de abril, dia de São Jorge Guerreiro.

Fica ao meu lado, São Jorge guerreiro
Com tuas armas, teu perfil obstinado
Me guarda em ti, meu Santo Padroeiro
Me leva ao céu em tua montaria
Numa visita a lua cheia
Que é a medalha da Virgem Maria.
Do outro lado, São Jorge Guerreiro
Põe tuas armas na medalha enluarada
Te guardo em mim, meu Santo Padroeiro
A quem recorro em horas de agonia
Tenho a medalha da lua cheia
Você casado com a Virgem Maria.
O mar e a noite lembram na Bahia
Orgulho e força, marcas do meu guia
Conto contigo contra os perigos
Contra o quebranto de uma paixão
Deus me perdoe essa intimidade:
Jorge me guarde no coração.
Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão
e muita vez tem ar de anjo e garras de dragão.