youPode

Arquivo para agosto, 2011

Em Dia

26 de agosto de 2011

Desço as escadas do MAM na festa do Rio Gastronomia ao lado do querido Cícero, eleito o melhor garçom da cidade nesta última edição.
Cícero trabalha no Nova Capela, uma espécie de bunker da madrugada carioca.
Em tempos de documentários, o banheiro de lá daria um longa de agitados personagens.
Passei dos 50 anos, já posso dizer - no meu tempo - e, nele, dois pratos mantinham na casa a tradição de comida boêmia: Canja e Cabrito com Arroz de Brócolis.
Com excepção do meu querido Paulão 7 Cordas, podia-se tranquilamente dividir a porção e ainda sobrava pra quentinha.
Bebi muito por ali.
Meu garçom sempre foi o Cícero. Nasceu cearense, isso dá um baita pedigree.

Rápida história.
Estou na mesma mesa que a madrinha Beth Carvalho, rebatendo críticas aonde o Rio de Janeiro é fraco em restaurantes. De repente, com aquele maravilhoso timbre de voz, nossa mangueireinse bate o martelo:
- Ô, meu filho! Até em arroz com ovo nós somos os melhores!
Guardo esse momento como premonição da nossa culinária.
Ainda na festa do MAM, trocavam figurinhas, na mesma bacia, pés sujos ou limpos; franceses e nordestinos, sucos e cachaças da nossa diversidade.
O Rio está em alta, sardinhas e cavaquinhas, diminutivos naturais desovando a  melhor safra.

***

Abusando do título de padrinho, participo da roda do Bar Samba, uma resistência do enredo em terras paulistanas.
O Dose Certa, grupo oficial e de disco novo, tem a generosidade de decifrar meus tortos acordes enquanto apelo aos deuses Cartola e Nelson Cavaquinho, um repertótio decente.
Sem ter bebido, troco as bolas pra falar de Guilherme de Brito.
Produzi dois discos desse genial compositor e, esse privilégio, me deu a oportunidade do convívio.
Magro por educação, dividia o prato raso com o seu fiel cachorro pinscher até a sobremesa.
Crédito merecido, a famosa frase do samba “A Flor e o Espinho” é dele. Venerava seu parceiro consagrado até o último verso e morreu jurando que, de novo, foi o Paulão 7 Cordas quem o ensinou a beber conhaque.
Ele aprendeu com todas as doses.

Em tempo: Neste domingo também tem Sesc Bom Retiro.

Na Ativa

24 de agosto de 2011

Os shows têm bagunçado a regularidade do blog.
Bom motivo.
Nesse frio fim de semana passado o samba me esquentou num  encontro com amigos musicais.
O Pirajá, minha casa de São Paulo, nos recebeu, entre vinhos e petiscos da Dona Rose, a chefe do Pontapé, um bar graduado na Ilha do Governador, pisando o imaginário tapete, não vermehlo, mas voador de felicidade.
Era o projeto Para Ver As Meninas apresentando duas estrelas, Aline Calixto e Thalma de Freitas.
Pensei no Brasil, vazio na tarde de domingo, afinal, aqui é o país do futebol.
Parafraseando: Brasil está sonoro na tarde desse sábado, timbres agudos, aqui é um país de mil de cantoras.
Somos, em diferentes épocas, regidos por Araci de Almeida, Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Lana Bittencourt, Maysa, Dolores Duran, a nossa Billie Holiday, emoldurados com Nara Leão, Elis REgina, Emilinha, as escondidas Marisa Gata Mansa, Rosana Toledo, Claudia, até divas de hoje, Nana Caymmi, Bethânia, Alcione e Beth Carvalho, Rosa Passos, Fátima Guedes, tantas e glórias mais.
Nascem talentos feito frutas da tamarineira, da caramboleira no Andaraí.
Doces sabores, acordes musicais pra uma música sem fim. Um suite feminina.
Dessa vez, Thalma e Aline.
Antes, com a gente, Mart’nália, Ana Costa, Mariana Baltar e Verônica Ferriani, repertórios pra uma vida inteira.

Me sentindo feito agenda de dupla sertaneja, lotado. Com todo o respeito.

Nesta sexta retorno ao Bar Samba, na Vila Madalena. Palco aonde insistem em me chamar de padrinho.
No Domingo, participo da inauguração do novo Sesc Bom Retiro, tambem na cidade da garoa que me protege.

No meio dessa jornada, Samba do Trabalhador, sempre respirando, sem contar a temporada no Rio Scenarium, nas quartas de agosto.

O que sobra de tempo, recorro aos vinhos em quantidades homeopáticas, mas alguns deslizes irresponsáveis.

Em Trânsito

19 de agosto de 2011

Semana de shows em diferentes lugares, a chave de casa em formato de cartão, tevê distante dos olhos, outros canais e ovos mexidos na cozinha do hotel.
A água quente brota de uma torneira aerodinâmica, e eu,  nú de dúvidas.
O chuveiro dispara o jato em outra direção enquanto você pipoca no box pra não ser escaldado.
As diferenças valem a pena. Estamos tocando, e esse é o nosso prazeroso destino.

Pra fechar, mala apertada, a gola saindo no fecho-ecler, não consegui trazer a bendita inspiração pra postar no blog, as atividades desse meio de agosto.

Mais uma vez, Pirajá, minha casa.
Para Ver as Meninas, um show caseiro, traz belas novidades nesse cenário tão feminino e sensivel da nossa música.
Thalma de Freitas e Aline Calixto.
Cantoras que andam também nessa vida, descalças nos implacáveis raios-xis dos aerportos, correndo com as inéditas letras pra interpretar com sorriso brejeiro, o que a nossa alma pede nesse balcões mais vagabundos.

Escrevo pouco, peço desculpas.
Hoje estou vestido de agenda.

Ouvidor

16 de agosto de 2011

Quando você alcança uma idade aonde a balança tende mais à recordações, algo do teu presente precisa ter um peso melhor.
Não pude conviver com o genial Cartola, nem provei do feijão da Vicentina, mas, do outro lado do prato, dividi todas as sardinhas com o Luiz Carlos da Vila, varei noites com o parceiro Aldir Blanc e, de refogado, a cozinha da Surica é um orgulho.
Essa introdução, sem pausa de mil compassos, tem um canto: - As rodas do Samba da Ouvidor, no sábado “sim”  desse arredor.
Escureceu antes do previsto. Distraído com incontáveis taças de vinho que o Chefe Santos “postava” na minha mesa, só fui dar conta do samba quando o surdo entrou na volta do samba.
Dobrei a rua do Rosário, calçada de lastros, luz de passado, até me render na  rua do Mercado, outro nome colonial, pra me assustar notando o público enfeitiçado com o repertório.
Eu estava vivendo  o Rio de Janeiro em seu estado sólido. Ou  líquido na química dos suores.
Gabriel Cavalcante em versos de Candeia, mesa jovem com seu tamborins, pandeiro, violões e reco-reco.
Salvo pela ausência dos óculos, não percebo meus tropeços, avançando pra roda.
O Rio está todo ali.
Se os franceses cismassem, poderiam novamente invadir a cidade pelo Pão de Açúcar.

Lembrei do Flavio Loureiro.

De onde veio a afinação, eu não sei. Os cabernets ressecavam a garganta, tintos de irresponsabilidade saindo feito perdigotos pra cantar um samba.
A vontade era varar a madrugada.
Minha balança tem pesado com algumas ausências, amigos que se foram, cadeiras vazias da nossa casa. Participar desse momento é fundamental pro ponteiro se acalmar.

O texto acaba pequeno.
Os amigos que estiveram nessa tarde podem escrever mais.
É quando se adapta uma frase:
- Um samba vale mil palavras!

(foto de Nico Kaiser)

Cuba

9 de agosto de 2011

Um time forte invadiu a ilha de Cuba cumprindo  minitemporada de shows na baía de Fidel.
Eu, Luiz Carlos da Vila e Pedro Amorim, Paulino Dias, Alison e Thiago Prata, sambistas em rumbas dançantes.
Uma das apresentações aconteceu no teatro Karl Max, cinco mil lugares.
Artistas de vários países dividindo um corredor de camarins para o  CubaDiscos - festival da diáspora africana.
Eu ainda bebia quantidades industriais.
Se existisse Lei Seca pra pedestre, teria a minha carteira apreendida no café da manhã.
No mesmo calibre, Luiz tabelava comigo saboreando os runs carta oro vendidos em qualquer esquina, flainava nessa cidade tão Lapa, tão Rio de Janeiro.

O post, sei lá, teve uma motivação: agosto é mes de Obaluaê.
São entidades diferentes, mas…
Em Cuba, o Ifá é um culto muito importante.
Curioso, suas cores são verde e amarelo.

Zanzando com o Luiz atras de sorvetes da  Coppélia, escuto um voz: - brasileiros!
Um sujeito magro, camisa da nossa seleção, se apresenta e fala do amor por nós, música e futebol…
No fim, um convite: - ir a festa de Orunmila que a sua família preparava pro dia seguinte.
Sou feito de fé, de toda a emoção da crença.
Encaramos uma lambreta em formato de caju com cilindradas até encontrar a palha-da-costa que previu o nosso futuro: - seremos felizes, sempre!
A festa tinha acordeon e uma cantora com timbres de Buena Vista Social Club.
Bebemos morritos, muitos, num quintal florido com galinhas ciscando ao fundo.

Foi uma semana de revolucionar conceitos.
Os carros antigos, viagens em troca de uma moeda, o mar na rebentação, Havana.
Cerveja Bucanero, run Havana Club. Loucura total.

Mes de Obaluê, lembrei de Orunmilá.
Peço Licença.