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Arquivo para abril, 2011

Dia do Trabalhador

29 de abril de 2011

Domingo agora o Samba do Trabalhador estará na sua casa, o Renascença, comemorando o Dia do Trabalhao.
Outra cereja será colocada nesse bolo. Estamos ali, todas as semanas do ano, desde 2005, quando, sentados embaixo da caramboleira do clube, tocamos o primeiro samba dessa roda.
Recordo a chegada do Tantinho da Mangueira. Quadra vazia, o mestre, de pandeiro na mão, versou a mais inspirada das rimas, a benção desse evento que, amadurecido, faz partido do bem estar da cidade.
Um samba começando as duas da tarde de uma segunda-feira, em pleno sol carioca? Nem pensar.
O clube arrumando as mesas, esperando os convidados. Eu, em silêncio, imaginando o vazio sentado, as folhas secas roçando feito reco-reco, no cimento descascado.
Acontece que meu coração ficou quente.
A cada encontro, novos adeptos deste dia preguiçoso.
Ilustres e anônimos no mesmo compasso.
Compomos a mesa com doze músicos. E o grupo se espantou com a chegada do João Bosco e Aldir Blanc, ali, ao vivo, antes de completar um mes do Samba do Trabalhador.
A imagem está registrada no filme “Os Tres irmãos de Sangue”, cenário fiel do nosso terreiro, ainda sem teto, ainda sem som.
A vontade de criar era grande.
Não havia ingressos. Nem porteiro, nem garçom.
Mas o samba tem razões que a propria razão desconhece.
Amanheceu uma segunda feira com quase mil pessoas nos esperando.
Figura de linguagem, as vozes se multiplicavam de tal ordem, que um grande sambista, craque no enredo, dispara:
- Cadê o microfone, Moa?

No mesmo ano lançamos o “Renascença Samba Clube” - uma referência aos ilustres cubanos.
No dia 1 de maio de 2006, com cerca de tres mil pessoas atravessando a roleta azul da agremiação, foi apresentado o DVD.
Outras cidades querendo conhecer o canteiro deste trabalho,e foram chegando grupos de excursão, ônibus de distantes praças, curiosos estrangeiros e os baluartes cariocas, viga mestra dessa história chamada Samba.

Domingo agora, duas da tarde, quando eu abrir a roda com um clãssico do Zé Keti e o coro repetir’…levando o violão debaixo do braço…’, a missão foi cumprida.

Espero vocês!

(A foto com o Lula foi tirada num país distante)

Fortaleza

26 de abril de 2011

Nesta sexta-feira estarei abrindo o projeto Samba á Meia-Noite, eme Fortaleza.
A trabalho, conheci a cidade com o meu parceiro Luiz Carlos da Vila, dentro da série Seis e Meia, vitorioso capítulo de incentivo à música brasileira.
Ficamos hospedados no Othon local, na época, um classico endereço da praia de Boa Viagem.
Fígado em dia, sentei com o meu poeta da Vila da Penha numa birosca encostada nos boxes de Mucuripe, a praia que inspirou Fagner e Belchior.
Compramos lagostas a preço de sardinha, o dono do “balcão” ferveu a preciosidade num latão com água e sal. Felizes da vida, feito ary barroso  num samba melodioso, mamamos um litro e meia de cachaça.
Divulgando o show, fomos levados pelo secretário de cultura até uma distante sede de televisão.
Periferia, terra batida, achamos uma tendinha decorada por mantas de carne de sol.
Quase perdemos o show.
Essa lembrança tem data, 1996.

Voltei em 2000 com o grupo Dobrando a Carioca, repertório afinado e mais comedido nos drinks caseiros.
O produtor do nosso show insiste em nos convidar pra um bar onde os músicos, garante, são admiradores do trabalho autoral de cada um.
Eu que já morei na Vila Aliança, sub-bairro de Bangu, não acostumado a certos elogios, fui conferir.
Dragão do Mar, um parte restaurada da zona portuária, compreende um centro de arte com teatros, lojas de artesanato e bares, muitos bares.
Lá estavam os músicos numa formação de roda de samba, apresentando ritmos diferentes, autores brasileiros, fieira da nossa arte.
A apresentação no auge do roteiro,  o intérprete agradece a presença da nossa turma e toca “Mico Preto”, “Mandingueiro” e “Chupa Cabra e Ketchup”, sambas que nem eu toco mais.
Amanheci na intenção da tal birsoca de Mucuripe.
Supresa boa, o dono sentado como o deixei ha quatro anos, sorri pra mim e aponta pra pratileira: - ele tinha o CD “Esquina Carioca”, disco ao vivo aonde participo com o querido Luiz Carlos da Vila.
Valeu, Zumbi.
Fiquei assíduo da cidade.
Outros shows aconteceram, novos amigos.
Os boxes e a birosca mudaram de formato.
O dono, Seu Zé Maria, morrreu.
A brisa continua maravilhosa e, se a lagosta tá no defeso, não faltam mexilhões pra brindar esta visita.

Padroeiro

22 de abril de 2011

Dia 23 de abril, dia de São Jorge e aniversáro do Pixinguinha.
Comemora-se também o Dia do Choro, uma homenagem ao maestro.
Sou frequente na capela que o Padoreiro mantém no Campo de Santana, nosso solitário parque.
Já tietei o grande intérprete Jamelão, mal humorado, ouvindo a primeira missa pelo alto-falante da torre, e, cabeça baixa, a devoção de Jorge Benjor diante da imagem sagrada.
Tenho músicas em que cito o cavaleiro, e uma canção em especial ,”Medalha de São Jorge”, parceria com outro guerreiro, Aldir Blanc.
Aprendi a venerar o santo por conta do meu avo paterno que ostentava um quadro na porta de entrada da casa.
Depois, confesso, a cerveja gelada e as tijelas de mocotó na Clarimundo de Melo, rua de Quintino da igreja matriz do santo, me tornaram de vez fiel servo da sua espada.
O saudoso Camunguelo, flautista de mão cheia, abria os portões da residencia em Vista Alegre, já à meia-noite.
Com o  trumpete de Silvério Pontes fazendo de clarim da banda mlitar, o regabofe dava início.
Amanhecia com os primeiros adeptos dosados de Marimbondo, cachaça nordestina de 52°, recepcionando os vermelho-e-brancos da alvorada.
Os acepipes, providos do famoso livro de ouro, mantinham a categoria de pé sujo oficial: siris ao molho de tomate, moelas e outros miudos de galinha, e um feijão gordo temperado a base de pé e garganta, suinos.
O samba já batia ponto na varanda improvisada.
Quem conheceu este “terreiro” sabe do que estou falando.
O tempo mudou.
O pai de santo do Camunga mandou ele trocar a uca por uisque 12 anos.
A despesa aumentou e ele morreu cedo pra nossa saudade, aos 60 anos.

***

Um guia me levou pra igreja da Nossa Senhora dos Passos.
Ainda haviam cavalos abrindo a primeira missa.
A festa cresceu, a fé também.
São Sebastião é o padroeiro oficial do Rio de Janeiro. São Jorge protege as duas bandas da cidade.
Tenho o hábito de acendes velas pros amigos que partiram.
Recentemente perdemos dois ilustres do nosso samba, Ratinho e Deni de Lima.
Se o fígado deixar, darei uma esticada na Gomes Freire pra encarar um caldo de galo, do meu rubro-amigo Ataíde.

Lembrei de outro cavaleiro de primeira linha, Sereno, meu grande amigo do Fundo de Quintal.
Nossas músicas estão aí, tomando fôlego. Uma delas, “Que Batuque é Esse?” fala de Jorge, Guerreiro:

Ouvi de Jesus Menino
Que folia era de Reis
São Jorge subiu Quintino
e pediu a sua vez
Quando a vda se acomoda
Eu me lembro do dragão
Se o batuque “tá” na moda
começou na minha mão…

***

Neste domingo, Casa Rosa

Curitiba e João Nogueira

19 de abril de 2011

Conheci Curitiba com o mestre João Nogueira, uma honra.
A cidade que passava por uma longa estiagem, resolveu chover tudo no período da nossa estadia.
Despreparados, saimos atras de cachecol e boina com abas para as orelhas.
João adorou, comprador compulsivo, aproveitou e levou dois jogos completos de ‘aparelho para jantar’. Um, exculsivo para os dias de bacalhau.
Na mesma entrega, vários pares de sapatos e algumas camisetas para os filhos pequenos.
Isso aconteceu em 1995.
Foram dois shows no clássico Teatro Paiol, antigo depósito de pólvoras do inicio do século passado.
Também cantamos alguns sambas no Conservatório de Música popular Brasileira, um luxo para época.
Eu tinha um sonho musical. Acompanhar no violão o João Nogueira em “Albatroz”: o mesmo arranjo apresentado no disco ‘Vem Quem Tem’, obra-prima do craque.
Eu, que comecei meus primeiros acordes no Meier, terra do homem, chorava por dentro a emoção da melodia.

Uma aluna aplaude efusiva e pergunta de cara:
- Senhor João, quais exercícios são usados para esse grave tão perfeito?
- Minha filha, no meu caso, capricho no conhaque e no cigarro.

Inesquecível.

Voltei à cidade com o grupo Dobrando a Carioca, no antigo palco dos Diários Associados.
Teatro enorme, o recado foi dado.
Tenho duas recordações:
No meio do show, do nada, meu cordão arrebentou. Passei o resto do espetáculo localizando com os olhos as contas que rodopiavam pela coxia.
Terminamos a noite ouvindo um cover do Edson Cordeiro num salão de luzes estroboscópias.

Lembrei de algo!
Numa bela de feira de artesanato, realizada aos domingos no centro histórico da cidade, fui presenteado pelo meu irmão Jards Macalé com um grilo feito a partir de um pregador:
- Moa, leva esse grilo pra você! E não me arranje mais nenhum tão cedo…

Maravilhoso.

Em 2005, finalizei minha particiapação no Projeto Pixinguinha ao lado de Carlos Zens e Cecília Leite. Encontrei esse vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=GO7vNCsw7s0

Hoje estou no projeto Série Solo Música ao lado do meu violão, apenas.
Como já tenho meu grilo de pregador, estou feliz por tocar minha músicas, novas e antigas, à rapaziada das araucárias.

* (foto tirada no salão do Bar Luiz para o Seis e Meia do João Caetano/Rio de Janeiro)

Santiago do Chile

15 de abril de 2011

Que dizer desse sumiço no blog?
Às vezes você adia a visita  a um parente distante e, quando se dá conta, passou a vida.
Em silêncio por seis meses, buscava no movimento um motivo, uma inspiração.
A música tem me tratado bem. Nesse período estive em situações marcantes como a carinhosa  homenagem feita pelo bloco do Teatro Rival, shows em outras cidades, até estar presente pelo décimo terceiro ano seguido  na calçada da Toca do Vinícius, cantando parabéns ao Rio de Janeiro.
Em cada flash já caberia um post.
Acabo de chegar de Santiago, Chile.
Foi nesse magro e alto país a razão pra voltar ao texto.
A cidade tem quase seis milhões de habitantes em 650 kilometros quadrados, entendi assim.
O meu Rio de Janeiro tem o dobro  de tamanho e de pessoas.
Também somei algo lendo os Wikipédias da vida de que a renda per capita de lá é de 25 mil pratas contra 21 mil reais nossos, cariocas.
Conheci os taxis apenas no trajeto aeroporto-hotel, seguindo os outros dias de metrô, incontáveis vezes.
O metrô de Santiago tem cinco linhas nomeadas por cores em cem estações que alcançam toda a cidade.
São 94 kilometros de extensão.
Duas coisas me chamaram atenção: - a sinalização no piso com setas indicando a pretendida linha na viagem e os inúmeros dizeres de “no correr”.
É simples. Os trens passam praticamente a cada dois minutos, demoram segundos no abrir e fechar das portas tornando desnecessario o nosso desespero urbano.
Mais. Nos horários de maior movimento, o preço da passagem diminui. Aos domingos, reduz ainda mais.
Se, fechando esses números cansativos, temos um PIB que coloca o Brasil em oitavo lugar no mundo contra os 46° chilenos, por que estamos tão distantes desse conforto?
Não preciso justificar o meu amor pelo Rio de Janeiro. Amo esta cidade ao ponto de ser chamado de compositor carioca e inúmeras canções para este encanto no mundo.
Eu olhava da janela, no vai e vem das vias aparentes, um vendedor ambulante no sinais, um atleta pregando balas Garoto no espelho retrovisor e, nada. No terceiro dia, avistei uma criatura encostando volumes nos carros do cruzamento. Era um entregador de jornais gratuitos.
Outra surpresa maravilhosa encontrei nos pães, não importa o mercado que você compre.
Na primeira mordida, o paladar me fez voltar ao Meier dos meus vinte anos, mas por outros motivos.
Havia uma padaria na esquina da rua que eu batizei de ‘bromatão’. A bisnaga esfarelava na serra antes de alcançar a boca, a camisa saia decorada de cascas, quando não se encontrava somente o oco entre um tímido miolo.
Não estou cuspindo no pão que comi.
Havia uma proposta de oportuinismo naquela receita.
Ainda se encontram espalhados pelo suburbio, a ‘padaria-bromatão’.
Ou vai-se ao Celeiro, ou visite o curral.

***

Alguns amigos convivem com o meu novo hábito de só beber vinhos.
Por alto, explico.
Razões medicas me levaram a tomar entre comprimidos inteiros ou fracionados, 480 cápsulas/mes.
O fígado passa o dia tabelando com essas pílulas coloridas, aceitando a contragosto as taças que insisto em beber.
Feito gritos de ordem na ditadura: “Destilados, Nunca Mais”.
O mesmo caminho me fez abandonar os torresmos mais vagabundos.
Modestamente, ainda ‘tô’ no lucro. Se o doutor receitasse apenas berinjelas como alimento, eu estaria correndo o mundo atras dessa fruta-legume, saboreando as lilases, berinjelas verdes, anãs ou gigantes.

***

Não posso aqui também querer comparar hábitos entre os dois países sobre o consumo de vinhos.
Senti nas pernas os dez graus marcados no termômetro durante o dia, isso em pleno outuno.
Clima mais propício pra um tinto encorpado, impossível. Mesmo assim, preciso comentar.
Tenho um grande amigo, bem na vida, quase um enólogo, dividindo o tempo em grande empresa e ser representante da Casa Valduga, importantíssima vinícola brasileira.
Inúmeras vezes, olhando uma carta qualquer, optei por seus espumantes sem hesitar um instante.
Ainda seguindo pro Chile, malas despachadas, vou ao restaurante principal do terminal 1, tomar um Valguda Brut enquanto aguardo o voo (minha ansiedade me faz chegar sempre quatro horas antes).
Confesso que faço esse ritual a cada longa viagem.
Olho no cardápio o espumante custando 75 pratas.
Lembro do amigo, lembro das gôndolas dos supermercados e noto a saliva do gerente sobre os meus reais.
Quatro vezes mais caro.
Por que isso?
Insisto e peço também, meia porção de azeitonas, completadas com queijo provolone em cubos.
Eu já sabia, é um ritual, lembram?
A azeitona me fez evitar o guichê de embarque. Uma quantidade criminosa de sal na qualidade do fruto fez a pressão subir 37 mil pés sem despressurização. Tive que desviar dos Andes pelo cuspe.
E o provolone? Quem tem mais de 50 anos deve lembrar do sabão UFE de imponente fábrica na Avenida Brasil.
Sabão portugues e o provolone, mesmos sabores.
Por que isso?

Devo ter omitido algum dado econômico, mas somos um país que não cabe de tão grande.
Não é possível vivermos à base do jeitinho, do furafila, do embaixo do pano, vista grossa, quebra o meu galho e outras molhadas de mão, seja qual for a classe social.

Desculpe voltar assim…

***

A agenda está bonita!

Nesta terça, 19 de abril, Curitiba.

Dia 24 de abril, na Casa Rosa, Laranjeiras, com a rapaziada do Samba do Trabalhador.
Dia 29 de abril, Fortaleza, Samba da Meia-Noite.
Dia 07 de maio, São Paulo, Bar Pirajá com a participação especialíssima de Mart’nália.
Dia 14 de maio, Belo horizonte, ao lado do grupo Copo Lagoinha.
Dia 21 de maio, São Luiz do Maranhão.
Dia 29 de maio, Florianópolis, Projeto Nosso Samba.