Bailes da Vida I
29 de setembro de 2010
Fui escrever sobre o meu ombro numa conversa solitária de “tuiteiros” e a cabeça me aparece com recordações feito followers seguindo o meu presente.
Quando comecei minha carreira profissional, relação música-prato de comida, fui tocar numa bela casa ancorada aos pés do Arpoador chamada Castelinho.
Entre as vagas lembranças, legado etÃlico, meu maestro era o pianista Ênio, reservado músico de Olaria e, à s vezes de saxofone, o talentosÃssimo Carlos Sion desenhando ares de importância aquelas noites de vida.
Na mesma época, arriscava uns acordes no Dancing Brasil, quase uma exigência de currÃculo.
Tenho certeza que numa dessas jornadas, fechando o naipe de sopros, o craque Zé Nogueira apresentava um barÃtono ou solava em soprano as melhores frases possÃveis.
A dimensão de tudo, só depois se alcança.
O corpo acende imediatamente aos desejos.
Havia um bar no Meier chamado 689, na Dias da Cruz.
Eu tocava no sobrado. Embaixo, o dono assava na brasa o mais diferentes espetos da moda.
Sem ventilação, a fumaça fazia tabelinha com o pequeno público presente, uma fantasia londrina em pleno subúrbio carioca.
Também me apresentava no terraço no prédio Imobil, “cep” do mesmo bairro.
Nesses shows, harmonias diferenciadas brotavam juvenis das mãos do Fernando Merlino, hoje reconhecido por todos os intérpretes desse enredo.
A gente zanzava inocente pelos ônibus da madrugada, percurso de esperança nos distantes palcos permitidos.
Itineráios opostos, um bumerangue por São Conrado com o maestro Cipó na Gafieira Flor de Lis, Picolino Ou Duka’s, no Grajaú, passando pelo Manjericão e Beco da Pimenta, em Botafogo,
Parentesis.
No Beco da Pimenta eu era músico do querido Sergio Sampaio, uma temporada que se estendeu por uns dois anos Brasil afora. Recentemente, li na internet que está circulando um disco independente gravado ao vivo em Belo Horizonte, dessa história.
Tenho muita curiosidade de ouvir.
Essa volta nasce de uma dor no ombro.
Neste fim de semana o show foi em BrasÃlia ao lado da estrela Elza Soares. Um privilégio.
Chego no aeroporto e o produtor me conduz ao motorista particular que, num reluzente carro preto, será o meu guia nos quatro dias de Distrito Federal.
De terno e gravata, abre a porta e eu entro meio assustado. Não há trocador, nem fichas ou cédulas entre os dedos.
O belo carro sai, ar gelado, vidro fumê e a dor no ombro dando trégua, apreciando a catedral, os Tres Poderes.
***
Voltei a tempo de sentar na mesa do Samba do Trabalhador, no AndaraÃ.
De carona, o ombro moÃdo e a certeza que é preciso ir aonde puder estar


