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Arquivo para agosto, 2010

O Trem da Vida

22 de agosto de 2010

Uma semana especial.
O encontro com meus amigos de palco, Guinga, Macal e Zé Renato, ajeita a minha vaidade.
São todos nobres em seus afazeres musicais. Eu ali perto, cuido de buscar acordes, tabelar é preciso, viver, também.
Já passamos de cem apresentações em onze anos de palco  e apenas um samba mudou na grade do roteiro.
Essa fidelidade tem um significado considerável no panorama da música brasileira: - quando o repertório é honesto, tudo em volta é atemporal.
Somos sim compositores, mas, dos nossos arranjos, as quatro vozes repetem melodias de Pixinguinha, Paderinho, Ze Keti e Ari Barroso.
Estamos ali trocando timbres pra manter a chama acesa.   Segue o parador.
Inquieto, lancei outro livro falando de bares e minhas modestas observações.
Agradecido, escrevi sobre os dez anos do Pirajá, maravilhoso bar paulista, braço direito de outra razão brasileira: - a arte popular.
Nesse tempo de convívio estreito, chops e diversos paladares bem temperados, fornadas de shows e fundamentais documentos dessa ponte-rio-sampa, sairam daquela cozinha arejada de bem-querer.
No blog, venho contando história desse balcão de talentos, agora apenas pontuo o nascimento deste trabalho - “Pirajá, Uma Esquina Carioca”.
o Livro é recheado, termo bom, de fotos dos nossos melhores salões cariocas, relíquias do Lamas, Bar Luiz, Capela, até as calçadas do Bracarense, a sombra do Bar da Maria às inacreditáveis panelas do lendário Adônis.
Escrevi o que pude, inventei receitas, sugeri um roteiro musical como um holograma de cada ambiente.
Ainda faltava algo feito uma azeitona, um camarão a mais na empada, a última lágrima do melhor azeite.
Assim, quase bússola, dos gênios desse traçado puseram a colher na sopa e a fervura ganhou o ponto, Ruy Castro e Jaguar.
Pra mim, um orgulho de vida.
Por isso, uma semana especial.
Dobrando outras ruas cariocas, sambas cantados com Paulão 7 Cordas e Pedro Miranda, numa tarde de assinaturas, pão, vinho e amizade.

Simples e Absurdo

17 de agosto de 2010

Lendo a bela matéria sobre o Guinga no O Globo, juntei um pouco mais duas palavras: música e paciência.
Conheci esse genial compositor em 1973 quando frequentávamos a casa do Helio Delmiro, no Meier.
Eu, mal sabia afinar um violão. Entorno do Guinga artistas como Clara Nunes e o grupo MPB-4, já rondavam o repertório.
De rara sensibilidade, acordes pessoais, melodias únicas, só agora perto de quarenta anos de carreira, vem sendo reconhecido.
Passei os últimos dias ouvindo discos e arquivos com músicas novas, novos talentos.
Aos que me pedem opinão, sugiro: - paciência.
E junto mais outra palvra: música, sinceridade e paciência.

Estaremos apresentando o show Dobrando a Carioca no Sesc Santana/SP - segue o folheto.

Nosso show ultrapassou a marca de dez anos.
Histórias diferentes venho contando por aqui nas vezes que o grupo se reúne, mas hoje os refletores acendem pro meu amigo particular, Carlos Altier, Guinga.
O homem em permanente trânsito aéreo, circula com razoavel intimidade nos aerportos de Roma, Madrid e Nova york, como se fossem estações da Leopoldina, sua base preferida.
Toda essa banca internacional ele guarda na mala quando aos sábados, num ônibus de carcaça curva, cruza a estrada que leva à Raiz da Serra, aonde, short, camisa e meião, desfila seu talento pro futebol.
Receoso com a distância, aceitei participar no Horto daqui mesmo de uma pelada de fim de ano que ele promovia.
Precavido, levei meu amigo Baiano de arqueiro, evitando o vexame de ficar por último no par-ou-ímpar.
Times formados, lancei a primeira bola pro nosso craque, Guinga.
Quer dizer, chutei um palmo de grama e a bola foi parar no ataque adversário.
Fuzilado com os olhos, inventei uma caibrã e pedi pra sair, mancando desacaradamente.
Quase ao mesmo tempo, falta na nossa meia lua e Baiano grita: - sem barreira!
Pois bem, a pelota vazou lentamente sobre as pernas  do gaiato, um frango que em dias atuais entraria na galeria dos bola-murchas.
Guinga xingando o meu amigo goleiro, jurou processa-lo por falsidade ideológica, quase perdendo a voz pro show do fim de semana.
Fugimos pelo Jardim Botânico afogando as mágoas do Bacalhau da Gávea.

Até o fim da semana falo um pouco sobre o livro que lançarei no Pirajá de São Paulo, minha embaixada carioca na terra garoa.

Zoombido

12 de agosto de 2010

Quando fui convidado pelo craque Moska pra participar do Zoombido, respirei aliviado: - é som de asas, vou voar…
O programa tem uma elegância particular que só fui entender quando pendi traço dessa pintura, câmeras e espelhos, tecnica e sensibilidade, com muita generosidade do anfitrião.
No quadro da música a quatro mãos, Moska conhecia o meu samba como se fossemos vizinhos de porta, da mesma domingueira.
Agradeço a parceria!
Como o efeito de vaga-lembrança é cotidiano, corro atras do que me ocupa.
Ser músico era um sonho, os dedos frenéticos reproduzindo escalas acrobatas, virtuoses sobrepostas na trilha de um solista-andarilho, palcos em dominó sendo percorridos no  infinito mapa que começa na cabeça e, claro, nunca termina.
Nosso mestre Hermínio Bello de Carvalho achou que fosse possivel ser esse o meu destino e me incluiu como vilonista num tributo à grande cantora Rosana Toledo.
Um trio foi criado pra este especial: - eu, violão acúsico, Luiz Fernando Zamith, violoncelo, e Mauricio Einhorn, gaitisca do mundo inteiro se curvar.
Confesso a minha euforia após o programa: - sou músico!
Ainda arrisquei a carreira acompanhando maravilhosas intérpretes como Leila Pinheiro, Lenita Bruno, Célia e Alaíde Costa, entusiasmado com os acordes rebeldes em versos afinados.
Acontece que amanhecia com livros de arpejos, estudos de Villa-Lobos e dezenas de standarts disponíveis num song book caseiro, cavando dentro de mim o perfeito instrumentista.
No primeiro minuto dedicado, surgia feito um zoombido, uma canção virgem, um sopro qualquer de melodia aquietando as mãos. E todas aquelas partituras e tons voavam na janela do meu limite.
Um eco se materializou, eu sou compositor.
O violão é meu parceiro.
As escalas, eu deixo pros geniais músicos brasileiros.

Toda essa volta tem um itinerário: - o programa do Moska reavivou essa vontade de ser um tocador. É tudo tão límpido no Zoombido que as notas se cristalizam nesse ambiente musical.
Fiz o que pude no polimento.
Valeu, grande amigo.

***

Fechando a tampa: Uma rapaziada nova, marinada de novidades, cria um site e projeto que funde dois talentos brasileiros, samba e botequim.  Sóbrio, encarei um bate-papo.

http://www.sambadebar.com.br/

Passado, Presente e Futuro

9 de agosto de 2010

Lembro bem a data, 10 de abril de 1973, dia que encostei pela primeira vez num violão.
Ando repetitivo e saudoso, reconheço.
Um encantamento me tomou de assalto, um amor definitivo.
Meu anjo da guarda tinha um nome brasileiro: Helio Delmiro.
Cismou comigo, um sujeito até então magro feito papel de pipa, um barba expessa e negra, olhos e gestos ansiosos, únicas manifestações que se mantém e a vontade de aprender.
Carlinhos Delmiro, irmão, foi meu primeiro professor. Meu e do Mauro Diniz, esse craque permamente.
A gente estudava harmonia sem saber que o nosso mestre conhecia os melhores acordes possíveis pra nossas canções.
Enquanto escrevo, me emociono com a recordação dos seu dedo enrugado de pestanas, mostrando um caminho diferente no braço do  instrumento.
Eu tinha completado 15 anos.
Na varanda, Helio me chama pra um ‘prossiga‘ e assim saí pra vida.
Entre arpejos de Guilliani, fui conhecendo meu futuro na primeira caneca de vinho do Rei do Bacalhau, as incertas por todo o bairro, do El Chope até um pé sujo no Engenho Novo, um bar de piso brilhando no vermelhão, o banheiro limpo de querer morar dentro e música clássica tocando num rádio de antiquário.
Já estava cravado, loteria do destino, os números da minha história.
Esta semana Gabriel Cavalcante faz seu primeiro show solo num palco carioca, O Teatro Rival.
Voz privilegiada, vi nascer nas mesas do bar da Dona Maria, o talento desse tijucano, alma boêmia, timbre de elepê num repertório que lustra de novidade a tradição do samba brasileiro.

Estaremos lá, como me ensinou a família Delmiro.

***
Sinceramente surpreso, li a crônica do querido Luiz Fernando Vianna desse domingo na página de opinião da Folha de São Paulo - Enfim, Luz.
Quis registrar meu agradecimento.
Como tenho minhas cismas boas em relação à coincidências, lembrei que foi ele, LFV, quem primeiro escreveu sobre o Samba do Trabalhador no início da roda em 2005.
A cabeça procura mais e recorda que o amigo também esteve próximo quando nosso presidente Lula, então candidato em 1998, esteve na minha casa da Tijuca querendo conhecer um pouco da nossa música.
Valeu, irmão!
(por pura vaidade, segue o link)
http://sergyovitro.blogspot.com/2010/08/luiz-fernando-vianna-enfim-luz.html

***

Pra fechar, outro carinho do compositor e apaixonado por nossa música, Ricardo Brito.
Uma entrevista pra eu guardar e agradecer,
http://www.ampbestanoar.blogspot.com/

Cacique de Ramos

2 de agosto de 2010

Semana abrindo, leio a bela matéria do jornal lembrando o tempo de amizade entre entre Beth Carvalho e Zeca Pagodinho.
São duas entidades.
No texto, histórias do Cacique de Ramos, raiz do Fundo de Quintal.
Estou há cinco anos no Renascença, dividindo a mesa do Samba do Trabalhador.
Nesse quintal, estreitei o convívio com essa turma de gênios do samba, mais próximos de Bira Presidente, Ubirany e meu parceiro Sereno.
Na verdade, a nossa madrinha, Beth, me carregou pra testemunhar um pouco dessa nascente em 1984, numa das famosas quartas-feiras aonde o samba corria solto no céu de Olaria.
A imagem se mantém viva na memória.
Um certo breu de rua mal iluminada nos guiava belo bairro até encontrar a imagem de um índio realçado de vermelho como indicação do lugar.
Dentro da nave, nossa comandante Beth Carvalho, eu e Leni Andrade.
Sentados numa privilegiada mesa perto da roda, uma jarra de chopp surgiu como se fosse um fruto da tamarineira.
Inesquecível.
O tempo passou. Conheci e vivi parceiro do Luiz Carlos da Vila.
Beth Carvalho, nosso eterno talismã, me gravou seis vezes.
Em 2005, com a tal barraca de feira na Tijuca, recebi a visita do mestre Sereno.
Ele me trouxe uma cachaça de recente turnê e, o principal, uma fita com tres músicas.
Bebemos o que foi possível naquele dia.
Os sambas ficaram prontos e estão sendo gravados por pessoas maravilhosas como Dorina, Martinália e uma revelação de nome Thais Macedo.
A história em movimento.
Resolvo gravar um disco registrando este acontecimento no samba, modestamente o Samba do Trabalhador.
É tempo de proteção.
Convidei um iluminado pra nos abençoar, Bira Presidente.
Outra fonte necessária, Rildo Hora.
O abraço da foto ecoou como um apito da antiga fábrica de tecidos, próxima ao clube:
- Vamos lá, rapaziada!

Hoje, relendo a entrevista maravilhosa com Beth e Zeca Pagodinho, concordo mais e mais um nome próprio chamado Raiz.
Ãrvore imensa, o samba se renova mantendo todos os galhos de pé.

Em tempo: Zeca me gravou de novo.