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Arquivo para janeiro, 2010

O Bloco

31 de janeiro de 2010

Essa história de bloco deveria ser tratada com fichinhas tipo BA - Blocos Anônimos.
A gente vicia na emoção que esse estatuto traz, perde e ganha amigos, rifa a alma pra conseguir comprar as camisas, convence um craque amigo de criar a estampa consagradora, jura que será a última vez que se mete nisso, mas quando a bateria cadencia, chora…
O desfile desse ano do Nem Muda Nem Sai de Cima me deu nó na garganta. Fui o enredo.
Acostumado a homenagear, fui pego de supresa na emoção, nasceu um riso na boca que só amenizou quando amanheci repetindo o último verso, - Cabô. Meu Pai, cabô…
O arredor desse estado todo é a cidade.
As pessoas chegam de bairros distantes, ouso dizer que conheço todos. Vêm do Meier, Copacabana, Irajá, Baixada Fluminense.
Uns deixaram o churrasco na birosca da esquina pra alimentar de canto o rio de gente que transborda à rua. Outros não quiseram se bronzear, cruzando o túnel que separa status pra abraçar a Muda com seus apêndices -Formiga e Borel.
Vejo os ambulantes suados. Carregam gelo nas costas, abanam com a outra mão o braseiro de “asinha” e salsichão.
Agora um latão é tres, dois é cinco!
Os rolimãs numa ladeira tangeciam nossos corpos enquanto o carro de som cresce na microfonia do intérprete.
Meus queridos Gabriel, Pedrinho e Guilherme gesticulam animados uma garrafa de maracujá.
O mestre Capoeira pede atenção ao cavaco, vem aí a Bateria do Império da Tijuca.
Mesmo longe da passarela, eu recuo.
Na outra margem correm as caixas pro foguetório:
- Só ‘pode’ durar 30 segundos, ordem da prefeitura!
Hoje tem corda no bloco protegendo os ritmistas.
Sai a primeira estrofe, e, junto com as rimas, o primeiro morteiro…
“Aplausos, pois o samba somos nós”.
Não sou da Polícia Militar pra contabilizar o público. Acho que , feito a final de 50, O Rio de Janeiro compareceu.
Basile e Lula subiram pra pedir à São Pedro que não chovesse, destino contínuo dos nossos desfiles, e o bloco saiu pela Garibaldi,  itinerário tijucano que inclui um congestionamento da Conde de Bonfim.
Percebi que tempo passou, 15 anos.
As crianças que habitavam os primeiros enredos, hoje são pais de novos foliões.
O coração permanece amarelo e vermelho, cores da nossa bandeira.
Eu sai sa Tijuca, mas a Tijuca não saiu de mim.
Até a garça do Rio Maracanã me acenou. Só não fui à dispersão porque o coração engasgou na boca, os olhos molhados não enxergariam meus diretores pra agradecer.
Juro que foi a última vez, mas a bateria cadencia, o peito acelera e…

Nem Muda Nem Sai de Cima

29 de janeiro de 2010

 

 

Cópia de moacyr nem muda red (3) (2)

Não conhecia a timidez que me dominou desde os preparativos para o desfile do Nem Muda Nem Sai de Cima, este ano.
Sou o enredo.
Me sinto nome de avenida, estátua de praça, beco da cidade preferida, sei lá.
O bloco nasceu na minha casa da Tijuca, ensaiou nesses 15 anos na rua que morei, mas virar enredo, emociona.
Me preparei pra escrever um longo texto. Engasgo.
O Desfile será nesse sábado, 30 de janeiro.
A turma começa a se reunir depois das quatro da tarde.
Segue a letra do samba-enredo composto pelos meus  queridos Alípio Carmo, Celso Lima, Gabriel da Muda, Guilherme Sá, Serjão e Pedrinho da Muda.

EU JÁ MORRI DE RIR
DE TUDO QUE EU VIVI
NOS BOTEQUINS MAIS VAGABUNDOS
ME EMBRIAGUEI DEMAIS
NA BOÊMIA ATÉ DEIXEI MEU SONO
PELAS RUAS DA CIDADE
BOTEQUIM DE BÊBADO TEM DONO
BRINDEI A VITÓRIA DA ILUSÃO
SAÍ DO MOMO, FUI DIRETO PRO PAVÃO

PÕE TEMPERO, NA PANELA EU METO A COLHER
MANDINGUEIRO, O MEU SAMBA É UM CANTO DE FÉ BIS
SE SÃO JORGE GUERREIRO É MEU PROTETOR
ME DIGA PRA ONDE EU VOU

VOU PRA TIJUCA ME ACABAR
EU VOU TOCAR MEU VIOLÃO
É CARNAVAL TE PEGO NA ESQUINA
NEM MUDA NEM SAI DE CIMA

ME BEIJA NA BOCA, AMOR
SENÃO CABÕ MEU PAI, CABÕ BIS

PEQUENOS TEXTOS

27 de janeiro de 2010

Ando rateando, confesso. Um estado de observação tem me deixado menos atuante nesse canto escrito da minha vida. Também culpo algumas taças de vinho a mais. Acontece que viver inclui o que te faz feliz, se for preciso encurta-la um pouco pra permanecer pleno, sigo o barco.
Penso novas músicas.
Penso muito no parceiro Aldir.
Fizemos mais de cem músicas, quase todas gravadas. Um descuido me fez perder nossa primeira canção.
Várias histórias nesses 27 anos de amizade e trabalho.
Conto uma.
Consegui convece-lo de participar de um show em São Paulo. Foi o Esquina Carioca III junto com Martinho da Vila, Monarco e a minha querida Surica.
Sua participação nesse evento guardava semelhança com as aparições do João Gilberto, uma raridade.
Não sei se você sabem, mas meu parceiro tem uma biblioteca invejavel. Passa de dez mil títulos.
Morávamos no mesmo prédio, já contei. Era um sábado, tres dias antes do espetáculo. Manhãzinha tranquila, lendo o jornal pra saber das novidades, quando escuto uma barulheira estranha, vidros quebrando, alguem gritando socorro.
Corro à entrada de serviço acreditando ser um assalto, algo assim e da escada a voz, repetindo: - incêndio! Incêndio!
Percorro os fundos do prédio e vejo sair do terceiro andar enormes línguas de fogo, uma tragédia se anunciando.
Tumulto na portaria. Vou lá.
Encontro Aldir sentado de short na escadaria que abre nossa fachada, os cabelos despenteados, falando baixo: - o fogo vai alcançar a janela da minha biblioteca e nao vai sobrar nem um gibi!
Mais.
- Ô Moa! Esquece São Paulo! Não vou mais.
Eu mesmo peguei um balde partindo pra cima das labaredas.
O prédio ficou o dia todo sem luz. Me vesti e fui beber no outro lado da cidade.
Rezei pra São Jorge e o fogo acalmou.
No dia marcado, Aldir me liga da estrada. Estava chegando na Marginal Tietê.
As dez noite, o Tom Brasil abre as “cortinas” e, durante duas horas, cantamos de se esgolear.
No último número, meu parceiro, de pé, ergueu os braços e puxou: - Caía, a tarde feito um viaduto…
literalmente a platéia incendiou.
Tenho guardado esse momento pra um dia virar samba.

São Sebastião do Rio de Janeiro

20 de janeiro de 2010

Dia 20 de janeiro é dia de São Sebastião, padroeiro da Cidade Maravilhosa.
Um vento forte varreu na véspera do feriado as nuvens que teimavam nublar nossa festa.
Várias rodas de samba romperam a madrugada no mais autêntico espírito carioca.
A Lapa ferveu no Democráticos do querido Nano Ribeiro, o talento de Moyseis Marques cravou na Fundição e a banda de cá, com a turma do Renascença, marcou presença na laje do Santa Luzia.
Tenho um sentimento de gratidão com essa cidade que estrapola minha razão e compostura.
Foi ela, à partir de ‘Saudades da Guanabara’, quem ditou o destino da minha carreira, da minha profissão.
Nos versos escritos por Paulinho Pinheiro & Aldir, a geografia dessa história foi construída.
A livraria Folha Seca hoje também comemora seu aniversário. Curioso, quando, junto com Aldir & Victor Martins fizemos o samba ‘Centro do Coração’ marcando a Rua do Ouvidor no caminho  da melodia, novo destinatário da ‘Folha’, nova calçada de tamborim e cavaquinho.
Morei em Bangu, em Botafogo, no Catumbi, Copacabana, Meier, Tijuca e Santa Tereza.
Os bairros foram virando meus melhores amigos de cada época.
Quando fui atropelado aos  18 anos na Rua Goiais, em Quintino, acabara de comer um churrasquinho na subida do viaduto de Cascadura.
Não sei se o descuido da travessia se deu pela ânsia de voltar ao Meier a tempo de ver o João Nogueira ensaiar com o bloco Labareda embaixo do meu prédio, na Constança Barbosa.
A gente bebia em doses industriais e em todos os botequins mais vagabundos que uma esquina pudesse oferecer.
Lembro de uma madrugada na Praça Barão de Drumond, em Vila Isabel.
O único bar aberto mantinha na estufa do balcão uma bandeja de pé de galinha ensopado.
Estava uma delícia.
Devo ter sido um dos primeiros a comer o bolinho de bacalhau no Cachambi.
Subi o Morro dos Prazeres no inicio dos anos 80 fazendo campanha política e depois descia até a Rua Alice, pra beber cerveja de garrafa no clássico Serafim.
Anos depois, meu parceiro Aldir escreve: - Rio de Janeiro, favelas no coração - é a nossa música aumenta na galeria de devoção à cidade.
Ainda está silêncio, acabo emocionado.
Conheci Albino Pinheiro e Basile.
Sorri muito vezes com as frases do Juca numa de suas tabernas.
Vi com meus próprios olhos o Tom Jobim bebendo em pé numa das barracas ainda nada estilizadas que rodeavam os corredores da Cobal do Leblon.
Também vi Fausto Wolf feito um lobo, devorar um litro de uisque em 15 minutos com Chapeuzinho Vermelho e tudo o mais.
Assim sinto o Rio de Janeiro.
Morei na Rua Sá Ferreira, 44 na subida da ladeira Saint Romã. Quem conhece o endereço sabe do que estou falando.
Fui assíduo do Aboim, bar na Souza Lima. Cito o estabelecimento pela ausencia que faz o dono,o querido Ademar.
Na Tijuca fui visitado pelo portelense Zé Keti, e fiquei ínitmo de outro mestre, Guilherme de Brito.
Todas figuras cariocas.
Recentemente com o craque Sereno, fizemos um samba chamado ‘Beleza em Diamante’.
A letra fala em balas traçantes, palácios e barracão.
Nos somos assim, essência e banal, ou, nos versos do parceiro tijucano, simples e absurdo.
Temos Renatinho Sorriso e Chico Buarque na mesma mesa.
Temos angu a baiana e Roberta Sudbrack, e temos sol e chuva, casamento de viúva.
Temos enfim a esperança, feito essa véspera de trovoadas anunciando uma manhã de céu azul.

Belo Horizonte

15 de janeiro de 2010

Encontro duas fotos recentes que fiz em Belo Horizonte. Ambas do evento Comida di Buteco. Tocamos na Saideira.
Em 2008 abrimos a série com a primeira formação do Samba do Trabalhador e, em 2009, tive a horna de dividir o palco com Elton Medeiros e Luiz Melodia.
Falo, sinceramente orgulhoso, tivemos um público superior a 9 mil pessoas.
Uma festa.
Acontece que minhas andanças com Beagá é antiga.
Em meados dos anos 80 fui com meu parceiro e mestre das palavras Paulo Emilio fazer o programa Arrumação do Saulo Laranjeiras.
Nosso poeta tinha pavor de avião e o nosso aparelho fazia mais barulho nas turbinas que uma charanga organizada.
Com poucos assentos, Paulo duvidada da capacidade daquela máquina voar.
Graças a uma bela aeromoça e seis doses de uisque ainda na escadinha de acesso, embarcamos.
Na mesma época, fiz show acompanhando o saudoso Sergio Sampaio no mágico lugar chamado Cabaret Mineiro.
Também toquei em outro santuário mineiro, o Aqui,Oh! do genial Toninho Horta.
Cheguei um dia antes com o objetivo de divulgar o show e dei sorte. Toninho acabara de chegar do estrangeiro e me esperava na casa para uma conversa com a TV local. Passamos o resto da noite tocando acordes e novas músicas, eu, emocionado e ele, generoso.
Nessas idas e vindas me apresentei no Cartola, no Do Morro ao Asfalto, No Lapa Multishow com a rapaziada do Samba da Madrugada, até numa temporada do projeto Pixinguinha, aonde a caravana fez pousada em 2005.
Encosto numa história pra alimentar o blog.
Estávamos todos no OuroMinas, grande hotel da cidade.
Diferentes shows, mas todos hospedados ali: a turma do Zeca Pagodinho, da Beth Carvalho e nós, uma grande família.
Minha apresentação acabou mais cedo e combinei com o mestre Elton Medeiros de tomar um vinho no proprio hotel.
Chegamos com a calma da hora, quase meia-noite.
O ‘maitre’ nos conduziu pro bar do salão alegando que o restaurante era destinado a jantares, ou coisa parecida.
Insisti em sentar nas poltronas mais confortáveis, na mesa de belas toalhas , alegando que a nossa despesa justificaria.
A contra-gosto, o chefe puxa cadeira oferecendo a carta.
Vinho escolhido, rolha sacada, na primeira taça entra a energia máxima de Zeca Pagodinho. Nitidamente feliz, pede pra espera-lo por cinco minutos pra dividr a garrafa.
Conforme o combinado, nosso craque volta e pede uma taça.
No brinde, o ônibus com a equipe dele chega no saguão correndo ao nosso encontro.
Esguleba, Oswaldo Cavalo, Galeto, todos felizes.
Parecia combinado. Estaciona também o elenco da Beth Carvalho. Na proa Paulinho da Aba e Charles do violão.
Zeca Pagodinho pede ao Mosquito, seu assitente, que pegue no quarto umas garrafas e uisque e outras tantas de vinho largadas no camarim: - e aproveita pega todas as cervejas do carro! Dispara.
Depois acena por ‘matrie’ pedindo um champanheira com muito gelo pra preparar as latinhas.
Alguem pega um pandeiro e o partido-alto atravessa a madrugada.
Olho irônico pro ‘matrie’ e pergunto:
- E aí?
- Perdi o controle….
Nesse fim de semana estarei com a nova turma do Samba do Trabalhador em dois endereços de Belo Horizonte: sábado no Vinil e, domingo. no Etabelecimento.
Dedico esse papo de hoje aos queridos Sergio Santos, Aline Calixto, Miguel dos Anjos, Mestre Jonas e Dudu Nicácio, condutores mineiros desse trem chamado samba.