Só Dói Quando eu Rio
Em 1989 eu reunia uma turma forte de cantores e compositores na minha casa da Tijuca.
Já escrevi sobre isso, eu sei, mas ainda não tinha citado a Selma Reis, voz única, uma beleza brasileira, frequência constante nessas rodas.
Selma está lançando disco novo em homenagem ao parceiro Paulo Cesar Pinheiro, outro amigo presente nesses saraus tijucanos. Se chama ‘Poeta da Voz’.
O trabalho com o Aldir corria solto em inspiração. Morar na mesma rua, no mesmo prédio, estreitava sempre mais esse encontro de letra e melodia, conclusões regadas a longas conversas no corredor, na garagem que ancorou o primeiro convite pra parceria.
Selma chamava atenção pela extensão que seus graves alcançavam. Cantava com imensa emoção mesmo para uma platéia pequena, e já cascudos na carreira.
Um parêntesis.
Às vezes, na mesma noite, cruzavam a sala cantoras como Beth Carvalho, Leila Pinheiro, Leni Andrade, e autoras como Fátima Guedes e Sueli Costa, além da nossa Selma Reis, claro.
Uma noite, num intervalo de inspirações, ela conversa sobre um disco novo, procura de repertório, novas canções, coisas assim.
Fomos dormir com essa encomenda.
Havia um eco do ‘Saudades da Guanabara’ no sentimento, na referência.
A música precisava ter a tessitura que permitisse à intérprete mostrar com sutileza, o seu talento.
Quanto a letra, destino traçado: - Rio de Janeiro.
Assim nasceu ‘Só Dói Quando eu Rio’, música que me emociona pelo Ãntimo de cada nota e, por falar da cidade e de Copacabana, um dos bairros da minha vida.
Ainda me lembro, embargado, pegando o telefone e cantar nervoso, a canção pronta pra nossa querida cantora.
O silêncio do outro lado da linha só foi interrompido pela voz assustada do Loca, seu eterno companheiro:
- Ô Môa, o que aconteceu? Selma está chorando aqui.
Eu também chorava.
Nos versos, um dos mais lindos achados do meu parceiro Aldir:
E Copacabana
linda meretriz, princesa
Loira mãe de santo
Com sua gargantilha acesa…
Em 1991, com o tÃtulo de ‘Só Dói Quando eu Rio’, Selma Reis lança um belo LP pela Universal Music, um grande selo.
Minha grande amiga Fátima Guedes, pra quem pretendo escrever um longo post, regravou a canção em 1995 com o CD ‘Grande Tempo’ e eu tenho uma versão intimista no ‘Moacyr Luz - Voz & Violão - Deckdisc’.
Só fico à vontade
Na minha cidade
Volta sempre a ela
Feito criminosa
Doce e dolorosa
A minha história escorre aqui.
Há que m não se importe
Mas a Zona Norte
É feito cigana lendo a minha sorte:
Sempre que nos vemos ela diz
Quanto eu sofri.
E Copacabana
A linda meretriz-princesa,
Loura mãe de santo
Com sua grgantilha acesa…
Ela me ensinou pureza e pecado,
A respiração do mar revoltado…
Rio de Janeiro, favelas no coração.
Tags: Fátima Guedes, Selma Reis
2 de dezembro de 2009 às 11:18
Com os olhos mareados depois de ler essa cronica, fico ancorado no exato instante ouvindo na extensão esse tefonema, essas historias nos brindam o coração. que belo alento.
valeu Moa
2 de dezembro de 2009 às 11:41
querido Dudu, sempre visitando esse canto..
a gente faz as músicas..
o tempo vai dando vida a elas…
as vezes nos pega de supresa, até…rs
as forte
moa
2 de dezembro de 2009 às 12:28
Moa querido, meu CD Jogos de Ilusão, acabou de sair do forno, quero enviar um exemplar pra vc ouvir os sambas que fazemos aqui pelos trópicos.
abraço grande
muita luz
2 de dezembro de 2009 às 16:48
Essa canção é espetacular. A imagem que o Aldir criou, da Atlântica como uma gargantilha acesa, me vem à memória a cada vez que passo pela avenida à noite.
2 de dezembro de 2009 às 18:33
“Quem não gosta de samba bom sujeito não é…” . Hoje é o dia do samba, é o dia do bom sujeito. Hoje é dia do samba, que de longe é a maior manifestação da arte brasileira. Parabens a todos que cultuam esta grande arte. Parabens a você Moacyr que faz da sua vida um grande samba.
4 de dezembro de 2009 às 9:39
ah, essa canção é demais…
9 de dezembro de 2009 às 12:25
moacyr fiquei maravilhado ao ler e com lagrimas no olhos,beijo no coração joe.