Os Botecos e a Estácio
Nesta terça feira, dia 10, participo dessa festa carioca chamada Os Botecos e a Estacio, mistura de samba e tira-gosto que vem acontecendo na quadra reformada da Escola de Samba Estácio de Sá.
Intuitivamente sempre gostei do bairro.
Meu grande parceiro Aldir Blanc viveu por ali na infância. Alceu, eu pai, ainda está na área.
Ali nasceu Luiz Melodia e foi a raiz do samba nas mãos de Ismael Silva.
Na minha juventude boêmia conheci um santuário local, a Adega Fontan perto da Paulo de Frontin. As obras do metrô desfiguraram o casario e, com ele, o bar virou escombros.
Quem comanda a cozinha musical do evento é o meu querido Luiz Felipe de Lima, por isso vou despreocupado, violão no braço só pra fazer figuração.
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Estou no Santa Luzia, o samba cheio de alegria, uma pessoa amiga pede mais história de bar no blog.
Quando gravei minha primeira música em 1979, pensava que a vida seria curta, que o futuro era uma porta já aberta, sem surpresas.
Depois de trinta anos, só faço agradecer, mesmo com os dedos mais lentos, o que ainda se tem pra viver.
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Sempre fui apaixonado por butiquim e todo o seu universo: - o dono, mau humorado, a frigideira encardida das sardinhas fritas, o balcão melando no cotovelo o traçado do fregues anterior. Uma meia porção até de ovo cozido.
Li com orgulho o suplemento Rio-Show aonde nosso querido Guilherme Studart foi capa e mais inúmeras páginas de birosca e baixa gastronomia.
Já desfrutamos de várias boas mesas. Ou melhor, já descarnamos, visto que de fruta, só o limão dos áureos tempos etílicos.
No livro Botequim de Bêbado tem Dono, ele aparece ilustrado pelo mestre Chico Caruso no belo Retrô Casual, um clássico da Rua do Rosário.
Num desses sábados inventados por Deus em extremo bom humor, participei da caravana que o Guilherme organizou rondando pela cidade à procura de bons jilós.
Entre os destaques, uma preciosidade gratinada nos foi servida no Original do Brás, uma cereja de bar no ensolarado bairro de Brás de Pina.
Também comemos, numa arquitura de cachorro-quente, o jiló do Enchendo Linguiça. O embutido vem no molho, mas sanduichado pela ‘fruta’.
Como estamos no terreno da Web, faço um link.
Os dois bares estão na quermesse gastronômica do Botecos e a Estácio.
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Na minha parceria com Aldir, convivemos com algumas diferenças: - sou Flamengo, ele, Vasco.
Combinamos desde os primeiros versos de não tocar muito nesse assunto e assim estamos bem desde 1984, vinte e cinco anos.
Outra polaridade são os temperos.
Se eu pudesse comeria alho já no café da manhã, enquanto o parceiro, evita.
Ha tempos, fomos passar umas férias em Búzios, o paraiso na terra.
Quando o sol fazia o caminho de casa resolvemos ir à praia.
Na primeira cerveja um novo amigo muito envolvente insiste que a pedida é comer a peixada do fulano na rua tal, coisa pra já…
Aldir me puxa num canto, e:
- Moa, to pressentindo. Esse prato vai ter mais alho e cebola que a feira da Tijuca. Vou fugir pelos fundos. Vai você!
Esganado, fui às cegas pro almoço prometido.
Peixe servido, sabor inigualável, corro ao ouvido do cozinheiro procurando segredos da receita. Lacônico, responde:
- Meu amigo, com um pescado fresco desses, é só sal, mais nada!
Na volta, encontro Aldir debruçado na janela:
- Perdeu, parceiro. Uma delícia! E só sal!
Ele riu, eu fui descansar.
Dia seguinte uma música familiar ecoando do fundo do quintal.
Era um samba que eu tinha deixado pro mestre letrar.
Entre solfejos e cervejas, identifiquei na melodia o refrão.
Graças a peixada, mais uma música ficou pronta.
‘Meu Tempero é Sal’ foi gravado por mim no CD ‘Vitória da Ilusão em 1995 e, tempos depois, uma versão mais moderna do querido Claudio Lins para o disco ‘Um’.
Sou macaco velho
Manjo de cumbuca,
Eis o meu tempero
Como mestre cuca:
Pouco açafrão,
Pimenta um nada,
Nem estragão,
Nem noz-moscada,
Meu tempero é sal!
Dendê, “tantin”
Sálvia, a lembrança,
Do alecrim, só a “nuança”
Meu tempero é sal!
Páprica penso e não ponho
Gengibre eu tenho e não boto
O louro eu tiro na hora agá.
A salsa ia mas sai
A erva-doce acabou,
O cravo eu cismo e não vai
- Só abuso do que não vou por!
Tags: Aldir Blanc, Guilherme Studart
8 de novembro de 2009 às 11:41
Fala Moa…Saudades de Búzios, de preferência com o Veveco !!!! ” Cê ” sabe que eu tenho pressão alta e por isso maior medo do mês de AGOSTO, por causa do sal meu irmão !!!!!! abçsss
8 de novembro de 2009 às 14:50
Que delícia de histórias. Adorei a letra inspirada no peixe que Aldir não comeu.
E, se Deus quiser e o doabo permitir, dia 10 estarei lá na Estácio (o problema é sempre o diabo permitir…).
8 de novembro de 2009 às 22:05
Moacyr, seu disco ” Batucando ” é um bálsamo para mim. Escuto nas horas de alegria e tristeza. É uma grande benção! Obrigada.
8 de novembro de 2009 às 23:08
Ouvi o belo CD Vida Noturna, do Aldir Blanc. Neste mesmo final de semana li o excelente livro Pontal do Pilar, do Paulo César Pinheiro. Que parceiros e amigos, hein Moacyr?!? Você é um privilegiado. É isso aí…
9 de novembro de 2009 às 8:47
Sua histórias sobre botecos e o amor pelo “baixa gastronomia” realmente remontam um Rio de Janeiro que muita gente não conhece, vale a pena conhecer tantos bares citados por você.
Abraços Moa
9 de novembro de 2009 às 9:10
Os ingredientes dessa receita musical composta a fino trato pelos chefs Aldir e Moa, nos convidam a sorver lentamente esse prato de raro sabor, pra nós grande vantagem… o segredo da receita ele nos presenteia em bandeja de prata.
Obrigado Moa, por mais esse alento
9 de novembro de 2009 às 9:50
Moa, tô passando pra apreciar o blog.
Como sempre, maravilhoso.
Abração, axé.
Ricardo Vila - Jundiaí/SP
9 de novembro de 2009 às 19:41
Tô contigo, alho nunca é demais…
Uma amiga espanhola me ensinou uma dica ótima. Quando for fritar o bife, joga junto uns dentes de alho com casca e tudo.
Ele amolece dentro da casca, vc aperta com o garfo ele pula fora que nem um tremoço …
Mais do mesmo, na brasa:
Bote na grelha da churrasqueira a cabeça inteira (do alho… a cabeça é do alho …!) tb com casca, os dentes agarradinhos uns nos outros.
Deixa pretejar por fora. Por dentro ele fica claro e tenro.
A bra uma cerveja e de gracias a la vida .
abs
10 de novembro de 2009 às 14:43
Caro Moa,aconselho o jiló do Bar Big Bang da Taquara, no centro mesmo do bairro, em frente ao famigerado relógio do Rio Cidade.Com calabresa e tudo.Saudações.
20 de novembro de 2009 às 22:48
Está faltando o registro das Uvas Thompson no jiló… Você esqueceu ???? Jiló com uvas Thompson foi foda…