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Arquivo para outubro, 2009

Barraca de Feira

30 de outubro de 2009

A sorte tem me soprado. Vira e mexe apareço com minha querida Surica no ‘Samba da Gamboa’ belo programa capitaneado pelo talentoso Diogo Nogueira.
Cada edição aborda um tema como moldura, e o nosso foi comida.
Surica sabe como poucos os segredos de uma boa feijoada, virou referência nos almoços que a velha guarda comanda na Portela. Eu, mais enxerido, arrisco umas entradas para as bebidas nossas de cada dia.
No programa puxei a sardinha pra um dos meus passeios preferidos: - feira livre.
Já escrevi aqui sobre a barraca que mantive pro dois anos na Rua Garibaldi, uma bela feira tijucana.
Sentávmos em volta do tabuleiro e, entre um rudimentar fogareiro, improvisávamos banquetes com a variedade em volta.
Com muito orgulho vi amizades importantes crescerem no prato de jiló, na travessa de peixe frito ou numa batida misturada a fruta recem oferecida pelo vizinho Cafuringa.
Herminio Bello de Carvalho e Ruy Castro, ajustaram a admiração.
Outro fiel escudeiro, o craque Antônio Pedro afinou sua semelhança ao nosso querido Lan por ali também.
Do samba, Sereno e Ubirany apareciam com presentes destilados. Meu querido Luiz Carlos da Vila, Zé Luiz do Império Serrano,e até Paulinho da Viola, batucaram algum samba inédito no cantinho da madeira enquanto a timidez era vendida na segunda dose de Claudionor.
A história, acho que repetida, tem um sentido.
Mais apaixonado, impossível, to enfeitiçado com a arrumação das verduras na primeira barraca da Conde Lage, quando um feirante me cututa com a tabuleta do preço:
- O Moa, te vi no programa do Nogueirinha.
- Nogueirinha?
- É o filho do João…Diogo Nogueira. Você cantou um samba falando de feira, meu departamento. Em que disco eu encontro?
Essa música continua inédita. Com toda sinceridade, recordo: - Cantei esse samba pro João imitando sua interpretação pra seduzi-lo ao repertório.
Uma cena maior brotou.
Estávamos numa reunião para o Projeto Pixinnguinha, ali no prédio Gustavo Campanema, azulejos e pilotis originais. Pauta encerrada, descemos no oval da escadaria olhando pro bar em frente a construção histórica.
Foi uma tarde dessas que o tempo para pra assistir a perfomance.
Pra não morar definitvamente no anonimato, ‘Dia de Feira’, o samba dessa história, está registrado no DVD homônimo filmado nos tempos do nosso tabuleiro tijucano.

Quando na rua tem feira
“vamo” comer peixe de qualquer maneira
É frito, ensopado ou assado na folha de bananeira
Ainda mais acompanhado
Daquela pimenta e uma boa abrideira
Da cabeça do dourado
Um pirão caprichado
É pedida certeira.
Não esquece do coentro na barraca do Cafuringa
Que também vende um caju prá cachaça de moringa
Mexilhão tá lavado
A sardinha tratada no pé da madeira
Tudo bem temperado
Quando na rua tem feira

Só falta a sereia
Acertar o dendê que vai por na panela
Quando na rua tem feira
Sou eu é que faço a comida pra ela

                 Aipim descascado, açafrão um bocado
                  da cor na tigela
                  Quando na tua tem feira
                  Sou eu é que faço a comida pra ela…
                  Limão casca fina, tem laranja lima,
                  da Pérsia e daquela
                  Quando na rua tem feira
                  Sou eu é quem faço a comida pra ela…
                  Batata miúda, um galho de arruda
                  e pau de canela
                  Quando na rua tem feira
                 Sou eu é quem faço a comida pra ela…

Bares Cariocas

28 de outubro de 2009

Essa mania de twitter vai me transformar em síntese, opinando em 140 caracteres, mas…
Outro dia me deparei com o grande Marcelo D2 na salinha e o assunto desaguou na lembrança do querido Juca, dono de vários botecos pelo Rio, inclusive o Serafim que sobrevive, segundo alguns, saudoso de sua administração.
Lembrei de um sofrido porre vivido nas mesas desse bar. Cismado com alguma coisa, liguei pro amigo Roberto Moura e ele, ofegante, disparou: - O Rafael Rabelo morreu!
O Orelhão dessa ligação margeava a esquina da Rua Alice, Laranjeiras, rua do Serafim.
Atravessei a calçada, o último movimento lúcido, e bebi cerca de dois litros do maracujá da casa.
É bom que se diga, bar foi feito pra isso. De preferência, passar o dia ali, bebendo, vendo a tarde escurecer, os vasilhames formando fila no canto do balcão, sem ter medo de fazer vergonha, mesmo com água na bainha da calça.
Você se achando educado, mas a voz já está rouca de tanto falar.
Há a opção de permanecer mudo em definitivo, sintoma que alguns deprimidos afloram na primeira tulipa.
O bar da foto fica em Santa Tereza, Bar do Mineiro.
Morei no bairro por dois anos, em frente a esse santuário de cervejas geladas e pastéis de feijão.
Nos finais de semana a freguesia cresce de tal forma que a lista de espera invade o bondinho no vai-e-vem do percurso.
Curioso disso tudo é notar o outro bar quase gêmeo do ‘Mineiro’. Não entra uma mosca.
Um dia, entre doses de gengibre, Beltrano, amigo íntimo, reparou na parede uma bela coleção de quadros originais pintados a óleo. Uma preciosidade.
Se achando o máximo, o rei da cocada preta, ligou pra um entendido em arte:
- Meu camarada, acho que encontrei petróleo a céu aberto! Tenho certeza que o dono nem sabe o que tem nas máos. Pega o bonde, urgente!
Meia hora depois, Beltrano e o ‘manager‘ com ar de pouco caso, puxam assunto com o dono do bar:
- Pois é meu amigo. Esses quadrinhos aí, venderias?
- Sim…Vendo
- Ah, é? E por quanto o amigo pensa em pedir?
- A coleção toda posso fazer por quinhentos…
- Quinhentos reais?
- Não. Quinhentos mil dólares. A vista…
Bem, nos dois anos que morei de porta com a casa, nem Beltrano, nem Sicrano foram vistos na redondeza.
Essa é uma história carioca, conto com emoção por essa cidade.
Acho que meu mapa astral está sendo regido pelos elos olímpicos em sua constelação.

A foto é do craque Américo Vermelho.

Praça Mauá, Que Mal Há?

26 de outubro de 2009

Não sei onde escrevi essa confissão, mas minhas primeiras idas ao Cordão da Bola Preta tinha um motivo óbvio: - poder beber as sete da manhã sem culpa.
Ainda existia o Carlito’s que se chamava ‘Moringuinha’ em frente ao teatro Rival e a turma se reunia ali quando amanhecia o sábado do desfile, pedia um clado de mocotó na tijela e na outra mão, a sem talher, ja encostava um chopp pra comemorar o carnaval.
O dono do bar, Antônio, hoje, imperador da rede Belmonte, inventava com barris e madeira um balcão na calçada e quando o trombone anunciava ‘…Quem não chora, não mama…’ metade dos foliões estava bêbada.
O bloco arregimentava um mínimo de adeptos. Dava pra fazer a curva já na Rua do México.
Hoje mal se consegue arranjar um centimetro quadrado na  concentrção da Cinelándia,
Melhor assim.
Num dos posts desse blog eu falo sobre o Escravos da Mauá, o bloco que  adotei depois do ‘Nem Muda Nem Sai de Cima’ na Tijuca.
Nascido entre os bairros que receberam pela vez primeira o samba trazido de mares baianos, dizem alguns, Saúde, Gamboa e Praça Mauá, o Escravos mudou a face incógnita daquela região.
Pois é. Nesta sexta-feira que passou fui visitar a ‘agremiação’.
Cantei alguns sambas na roda do ‘Fabuloso’ até chegar ao último verso engasagado de emoção com o carinho dos amigos.
Eu tinha chegado do show do Dobrando a Carioca no Rival, outro projeto que mexe fundo comigo nessa estrada chamada Música.
O Dobrando comemorando dez anos da primeira apresentação manteve o repertório original de 1999. Por isso confirmei que a minha paixão pelo ‘Escravos’ também é antiga.
No show, cantamos ‘Praça Mauá, Que mal Há?’ samba que fiz com o meu querido Aldir Blanc pra contar do encantamento que aquele convívio nos proprocionou.
O samba é irmão gêmeo do enredo que compus pro bloco,e nos dois a mesma pergunta: - Que mal há?
Talvez a dúvida inconsciente do vazio social que esse reduto carioca se encontrava até ressurgir o primeiro tamborim convocando o samba e, de novo, a cidade ancorando nas águas da Praça Mauá; a Rádio Nacional merecidamente no topo da ‘Noite’ dando picos de audiência com as nossas melhores músicas, a Pedra do Sal guardando no mineral o calor do dia pra esquentar a madrugada dos foliões, dos estivadores, dos apaixonados por essa magia chamada Rio de Janeiro.

Ah, me diz aí; mas que mal há
Em ir lá pra Praça Mauá
Relembrar…
Se eu tô sem brio e estrela guia
Se há no barco uma avaria
Vou pra lá…
Meio adernado meu navio
Retomo o rumo, encontro o fio
Num samba do melhor que há
Meu porto ta lá
No cais eu ressurjo
É como se o Meier brotasse a beira-mar
Que sacanear
Encaro e não fujo
Eu sou marujo da Praça Mauá

Em São Francisco da Prainha eu gostei
De uma cabocla da Pedra do Sal
Que, incentivada pela grande Nora Nei
Tentou a vida de cantora ali na Rádio Nacional
Seu nome: Conceição feito a igreja
fazia um peixe com cerveja
atras da Sacadura Cabral
que João da Baiana
louco por matizes
provou com caiana
depois pulou no mar
encontrou Netuno
com tres meretrizes
e foram juntos pra Paquetá !

- Um dia vi iemanjá!
- cantando num dancing lá…
- Me diz aí: que mal há
- Em ser da Praça Mauá?

Dez Anos

21 de outubro de 2009

Eu já havia vivido a experiência de participar do Seis e Meia do João Caetano em 1995 quando fiz a temporada ao lado do mestre João Nogueira, até, quatro anos depois, surgir o convite pra retornar à casa.
Considero um palco sagrado do Rio de Janeiro, feito o Canecão.
Boca de cena capaz de engolir uma orquestra, a intuição reduziu à quarteto quando pensado o projeto desse novo show. Eu zanzava muito com o Ze Renato, admirado pela dedicação ao repertório do Ze Keti, aos duetos com Elton Medeiros e, principalmente, pela generosidade no relacionamento.
Jards Macalé está acima de tudo. Trânsito livre nessa estrada chamada cultura brasileira, consegue ser criador e personagem ao mesmo tempo. E um detalhe que eu sempre recordava na sua história; - acompanhou a grande Nora Ney no mitológico show Rosas de Ouro.
O mais próximo a mim era Guinga. Não ha exagero quando eu o indico como um dos maiores compositores da música brasileira de todos os tempos.
Eu o conheço desde 1973, parece o infinito.
Pelo telefone confirmamos o show a produção do evento e marcamos no Bar Luiz para pensar o repertório e tirar as primeiras fotos de divulgação.
a revista Veja já estaria presente nesse encontro, um espaço que anuncia os espetáculos com uma certa antecedência.
Chegamos com um nome pronto pro grupo, ‘Linha de Passe’. Dentro do João Caetano o show era batizado de ‘Os Violões’.
O encontro foi mágico, falo muito modestamente.
Cada riso trocado anunciava um futuro garantido nesse convívio.
Estamos falando com o repórter do magazine sobre o prazer de dividir os acordes, embora no roteiro, uma música sequer fora escolhida.
O fotógrafo insiste num ângulo em outro ambiente.
Estamos no Bar Luiz, Rua da Carioca, e ele pergunta:
- Aonde fica mesmo o João Caetano?
Um de nos levanta e aponta:
- É ali, dobrando a carioca…
Olhares cruzados, quase em uníssono, pensamos: - Dobrando a Carioca!
Com um público surpreendente, terminamos a série com casa cheia e a proposta de seguir por mais tres dias no Espaço Cultural Sergio Porto.
Essa história aconteceu em outubro de 1999.
Entramos o fim do século com shows marcados em São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Vitória, Brasília e parte  do nordeste, Natal, Fortaleza e João Pessoa.
Eu tenho computado mais de oitenta apresentações, convívio pro quarteto virar uma família.
Hoje, dez anos depois, estaremos comemorando a data em curtíssima temporada no Café Teatro Rival. Dias 23 e 24, sexta e sábado, agora.
Mais um cereja naquele encontro do Bar Luiz: - ali escolhemos o nome do show e, sentados com mais calma, traçamos o roteiro que permanece o mesmo desde a primeira noite no João Caetano.
Na minha carreira, foi um momento decisivo.

Convite

19 de outubro de 2009

Uma semana agitada de ensaios para o show do ‘Dobrando a Carioca’no Rival está apertando a cabeça que não cria uma história sequer para o blog.
A dificuldade de juntar duas palavras tabela com o meu curso inacabado de datilografia, moral: cato milho enquanto o trigal não brota.
Nesta quarta-feira, com muita honra, participo de um programa de auditório na Rádio Roquete Pinto, uma emissora fundamental nessa mídia tradicional.
O formato desse bate-papo musical se completa com a presença do público, por isso, o motivo desse post: - um convite aos amigos que rondam por aqui.
Depois recorro a antigos casos desse encontro de parceiros chamado ‘Dobrando a Carioca’.