Há poucos dias ganhei algumas fotos de presente do craque Paulo Thiago. O ‘ensaio’ registrava uma noite de autógrafos do Manual de Sobrvivência nos Butiquins Mais Vagabundos - livro que lancei em 2005 pela Editora Senac-Rio.
Uma coincidência: - eu voltava de um encontro com o parceiro Hermínio Bello de Carvalho e, entre os anexos do Paulo, um abraço revelado desse amigo de história tão importante na música brasileira.
Pois é, horas antes eu com o autor de ‘Pressentimento’ dividindo um vinho espanhol da região de Rioja e, num tom em preto e branco, contando o tempo da nossa amizade.
Eu jurava ter conhecido o Hermínio pelas mãos do Aldir, mas o amigo me lembrou dois programas que eu fizera sob sua orientação na TV Educativa, um deles em 1981.
Gravei minha primeira música em 1979 com a cantora Lana Bittencourt. Havia um quadro na TV-E chamado ‘Primeiro Degrau’, bem à propósito. Participei.
Eu gostava muito das intérpretes mais experientes. Adorava Elizeth Cardoso, acompanhei no violão outras vozes raras como Lenita Bruno e Célia, e com essa preferência, cheguei a casa da Marisa Gata Mansa, na época casada com um violonista e foi com ele que fiz outro programa, ‘os Músicos’, em 1981, acho.
Hermínio era um mito em meu universo. Ao lado de Mauricio Tapajos, compos ‘Mudando de Conversa’. Só esse samba, uma letra carioca, coloquial e elegante ao mesmo tempo, era o máximo das pretensões.
E foi com ele, e a minha paixão pelas intérpretes de uma geração anterior, que gravei um dos clássicos daquela grade cultural, o programa ‘Contra-Luz’.
A cantora que fui músico se chamava Rosane Toledo.
Tive o privilégio de ver interpretado por ela um canção minha tendo como complemento musical dois ases; Zamtih e Mauricio Einhorn.
Tempos depois, ainda com a direção do parceiro, fiz um número com a atriz Cassia Kiss para um especial sobre Mario de Andrade.
A convivência com Aldir estreitou muito os laços como esse mestre das palavras, Hermínio Bello de Carvalho.
Quando o visitei na Urca pela primeira vez, fui levado pela madrinha Beth Carvalho.
Nas paredes da casa, fotos fundamentais pra se compreender melhor a nossa música.
Hermínio com Araci de Almeida, Hermínio com Clementina. Duas experientes cantoras.
Um sonho.
Bebemos muito por aí até compormos a primeira canção juntos. Acho que uns dez anos de flerte.
Uma tarde fomos comer um bacalhau no Belmonte Flamengo. Com seu jeito generoso de presentear os amigos, ganhei o livro de poemas ‘Contradigo’ lançado pela Editora Folha Seca.
À noite, lendo a poesia-título, consegui inaugurar nossa parceria.
o samba Contradigo está registrado em 2005 no meu disco ‘Moacyr Luz - Voz & Violão, pela DeckDisc.
Logo depois, Hermínio lança ‘Timoneiro’, uma caixa com 5 CDs, praticamente uma antologia musical. Nesse trabalho, participei como autor, ao seu lado, no choro ‘Quem Mandou’ interpretado pela bela cantora olívia Hime.
Aproveitei e regravei a música no disco ‘Sem Compromisso’ feito em duo com meu irmão Armando Marçal.
Em 2006 pela Casa da Palavra, Alexandre Pavan escreve - Timoneiro, Perfil biográfico de Hermínio Bello de Carvalho.
Dentro, encartado, em especial CD chamado de Manuscrito Sonoro, aonde seus parceiros gravam músicas inéditas.
Das nossas, ‘Nem Sempre o Amor Constrói” e ‘Quando o Amor acaba’.
Recentemente uma relevação de voz, Juliana Amaral, registrou mais um samba nosso nessa galeria pessoal, ‘Da Vida tudo se Leva’.
Posso afirmar que em nosso pequeno baú já contam cerca de 20 músicas prontas.
No novo CD ‘Batucando’ inclúi mais 3 batuques pra nossa história: ‘Meu Nego’, ‘Daquela Mulher’ e ‘Banguelas’.
Pedindo ajuda as palavras do poeta, transcrevo a letra de ‘Banguelas’ que no disco teve a fundamental participação de Luiz Melodia.
Dei sorte.
O menino banguela é um fiapo
De gente
E a menina ao seu lado é também
Indigente
Lá se vão de mãos dadas à vista do mundo
Indiferente
Nem parecem ter fome e nem sede
E é patente
Que o sarnento lhes deu porção
Indecente
Que os o imantou de uma luz
Incandescente
E os corpinhos se unem à noite
Luzente
E esperam do céu que uma estrela
cadente
Os cubra dum manto de nuvem
fulgente
E cure essa febre que arde
fremente
e vem assomando, assim,
num repente
cobrindo seus corpos de uma luz
refulgente
São rios cruzando formando afluentes….
são trilhos dispostos sobre dormentes
que rangem à passagem dos trens que urgentes
os levam, coitados, como pingentes
rangendo de frio os dentes doentes
iguais às carcaças de estrelas cadentes
O menino banguela parece um fiapo
De gente
E a menina está prenha
De mais um indigente