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Arquivo para setembro, 2009

Amenidades

28 de setembro de 2009

O caríssimo Sergio Moreno reclama em seu blog pela minha ausência nos botequins mais vagabundos.
Feito uma coleira eletrônica que, presa a um condenado, monitora e sinaliza qualquer fugida, meu fígado apita aos exageros.
Acabo encoleirado aos meus limites.
Na verdade, tenho meus prazeres.
Neste sábado fui dar um abraço no Chefe Santos, o novo midas dos arredores da Rua do Ouvidor.
Seu aniversário coincidiu com a roda de samba da Ouvidor, um movimento forte e imperdivel nessa cidade maravilhosa.
Bebi algumas taças de vinho, o suficiente pra puxar o microfone do Gabriel Cavalcante e cantar os meus sambas de sempre.
O lugar como um todo é mágico. Cada rua desse pequeno hemisfério tem seus atrativos, o Casual, o Baiacu, a maravilhosa Livraria Folha Seca até entrar pela Rosário, com a Bressarie Rosário, o Bem Fato, o sebo-restaurante Al-Farabi, fechando no Retrô Casual, o melhor cozido do Rio de Janeiro.
Entre os sambas que venho repetindo por aí, ‘Benza,Deus’, parceria com Luiz Carlos da Vila. A música foi título de um belo disco do ausente amigo um dia conto como ele foi composto.
Domingo fiz um programa esquecido, mas maravilhoso: - fui de barca à Niterói pra sentar numa das mesas dos restaurantes do segundo andar do Mercado de peixe São Pedro.
E assim, bebendo minhas taças de vinho,é servido um rodízio de ovas, camarão, sardinhas no alho até o caldo estilo leão veloso, de matar qualquer saudade marítima.
Se o amigo levar um pequeno isopor, pode voltar pra casa lotado de pescados diversos, os preços são imbatíveis.
Peço desculpas pelas abrobinhas ditas aqui, mas não queria deixar o blog em branco, aproveitando pra justificar a minha não total abstinência.
Em tempo: nesta terça/29 estarei com o grande radialista Amaury Santos participando do projeto DE CONVERSA EM CONVERSA no espaço Santo Scenarium, Rua do Lavradio.
O papo-musical começa as 19 horas e a entrada é franca.

Estudantina

25 de setembro de 2009

Assunto batido,músicas minhas com o Rio de Janeiro como tema, encontro um samba que fala de raspão na Estudantina, o motivo desse texto.
Se chama ‘Encontros Cariocas”.
Num sentido anti-horário, volto a presença do meu querido Lulu, amigo que já está no andar de cima.
Lulu frequentava diariamente o Arco da Velha, extinto bar que usava um arco do aqueduto para entrada do estabelecimento, bem na subida da ladeira Santa Tereza.
Nesse época até Madame Satã evitava o bairro receoso com os fantasmas: - as ruas, vazias, eram habitadas por assombrações, e isso às vezes.
Em frente, outro bar de origem, mas de reperório cubano, só rumbas e outros ritmos da ilha. Era o Semente.
Lulu empolgado e visionário, sonhava em criar um bar aonde o samba fosse palavra de ordem.
Assim, em 1989 abre o Encontros Cariocas na Rua da Carioca número 40, um sobrado.
Com o  samba ‘Saudades da Guanabara’ recem composto, levei a madrinha Beth Carvalho ao novo salão do bairro.
Detalhe. Um entrave na obra impedia a inauguração oficial. Prédio tombado, só quando uma águia de gesso recuperasse as asas, a fachada retomaria a arquitetura original, selo pro aval do legislador.
Por conta disso o bar so descerrava suas portas depois de meia-noite. Rua deserta, os carros iam encostando feito filme de suspense e, na alta madrugada o samba corria solto.
Acreditem. Subia-se uma escada íngrime até alcançar o salão do bar, passando antes por uma bela porta de vidro e madeira estilo sanfona, um vai-e-vem.
Quando se ouvia o ranger dessa marcenaria todos voltavam a atenção ao visitante. Um dia, ainda nesse tempo de ‘aparelho’ entrou o mestre Paulinho da Viola. Foi espetacular.
Com o alvará liberado o comando do palco ficou a cargo do portelense Noca e em pouco tempo a casa transbordava de apaixonados pelo enredo.
Parece mentira, mas fiz um show ali com o inesquecivel João Nogueira.
Ali também bebi muito underberg com o craque Jaguar, enchi a cara com Elifas Andreato e, claro, com meu parceiro Aldir Blanc.
Outro grande frequentador, o jornalista Hugo Sukman, fazia a primeira máteria sobre esse reduto, era por JB, e foi nesse momento que surgiu a inspiração: - fazer um samba pra emoldurar o texto do amigo.
Nasceu o Encontros Cariocas, nome do bar e da música que fiz com Aldir.
Depois gravei no CD Mandingueiro.
Na letra, um passeio por nossos cantos preferidos até incluir a Gafieira Estudantina, afinal o motivo desse post.
Hoje, sexta-feira, modestamente, estarei recebendo uma homenagem nesse maravilhoso clássico dos bailarinos cariocas, da eterna Antonieta, uma rainha no sapateado.
Começa depois das 22 horas. Adoraria mais uma vez a presença de todos.

Ai, meu Deus do céu, eu fui feliz
bebendo com você
no Bar Luiz
e hoje quem diz
que havia um riso permanente em nossa boca…
Louca, a saudade cende as chamas:
revejo o Lamas,
você brejeira, mãos de menina,
pedindo ao Vieira a conta
e nós indo dançar
pra descerrar na Estudantina
o que há na vida da Bailarina…

Que prazer, com você, ouvir o Noca
na roda dos Encontros Cariocas…
Hoje a madruga, anda vazia,
quanto mais a gente enxuga rugas e agonia.
Cresce no Bar da Dona Maria
a falta que faz a tua companhia
- No Bip Bip te vejo qualquer dia
  Em São Cristóvão Monarco é garantia
É o Rio fazendo pra mim a melodia!

QUASE SETE

23 de setembro de 2009

Nesta quinta-feira, dia 24, estarei me apresentando no Teatro Gonzaguinha dentro do projeto Quase Sete, iniciativa da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Começa as 18:45 e o melhor, é gratis.
Ao meu lado, Zero, meu comandante na percussão.
O espaço fica na Praça XI, praticamente em frente ao Terreirão do Samba.
Terreno dividido com os Orlando Orfey e Beto Carreiro, circos de toda a vida, o Terreirão orignal não tinha grade, nem cimento como piso do samba.
De terra batida, abrigava barraquinhas clássicas de angu a baiana, mocotó e sarapatel, cardápio suficiente pra deixar sambista em estado de passista-destaque.
Eu frequentava o cantinho comandado pelo querido Rubens Confete, abre-alas pras receitas da sua esposa.
Comida de primeira, a cidade mais calma, rompiamos a madrugada ouvindo samba em pequenas rodas, cachaça boa como boa era a companhia.
A madrinha Beth Carvalho era presença constante. Quando o sol dava o primeiro tom no céu, perto da Providência, os ônibus aumentando o fluxo da Presidente Vargas, a panela era fechada aguardando a próxima noite.
Outra lembrança marcante dessa área, mais à direita do teatro, é o barracão da Mangueira.
Já devo ter escrito aqui, disputei um samba-enredo na verde e rosa, desfile dedicado ao Chico Buarque, compositor imbatível. Vivíamos em 1998.
O cortes de samba aconteciam tanto na quadra em Mangueira ou ali, no barracão.
Varei muita madrugada bebendo no Terreirão ou no Balança me preparando pra cair, de bêbado, ou pela desclassificação do samba.
Emocionado, chegamos à final.
Hoje, murado, o espaço do samba se chama João da Baiana, bela homenagem.
O teatro, dentro do Centro de Artes Caloustre Gulbenkian, tem o tamanho do nosso coração: - pequeno, mas sempre cabe mais um.
Será um prazer receber o amigos.

Centro do Coração

21 de setembro de 2009

Por conta de um projeto identifiquei entre as músicas que compus mais de 40 delas citando o Rio de Janeiro.
Gravei um disco aonde musiquei vários poemas usando esta cidade como inspiração. Se chama ‘A Sedução Carioca do Rio de Janeiro’.
Na verdade, estou me referindo a um repertório cotidano, quando naturalmente o carioca como humano ou natureza, se expoem por completo. São essas músicas que me fazem viver mais.
Na época do ‘Saudades da Guanabara’ percebi a necessidade de proteger com música o lugar aonde vivo. E aprendi muito dessa orientação com o parceiro Aldir Blanc.
A gente fazia as primeiras músicas falando do bairro, Tijuca, como em ‘O Mar no Maracanã’ e, já num contrato íntimo, o Rio, feito ‘Vitória da Ilusão’:
Carnaval…
Coração,
Bordadeira e carpinteiro
Armam outro Rio de Janeiro.
escultor, artesão…
Com o Saudades gravado pela madrinha Beth Carvalho nossa carapuça pessoal foi vestida.
Isso também tem uns 20 anos.
Estou bebendo umas na casa do parceiro Aldir, quando o interfone toca anunciando a chegada de outro craque, Victor Martins, letrista dos grandes sucessos da obra do Ivan Lins, cá pra nós, outro tijucano.
Quis o destino que naquele dia eu tivesse trazido numa fita cassete mais um samba pra ser musicado.
Sentamos os tres tratando uma garrafa de uisque como ilha: cercado de mãos por todos os lados.
O conteúdo diminuindo, as idéias crescendo, nosso querido Victor comenta sobre ‘Saudades da Guanabara’ e da experiência que devia ter sido, dois grandes letristas, Paulinho Pinheiro e Aldir, trabalhando na mesma melodia, cada um cedendo um pouco pro versos nascerem de uma só alma.
Á toa, brinquei que foi num encontro parecido com o daquele momento, a feitura do samba.
Do nada o Aldir levanta, traz a fita com os acordes e a melodia que eu havia lhe entregue  a pouco e propõe:
- Vamos falar mais de Rio de Janeiro, Victor? Topas?
E foi assim, dessas tardes que eu não canso de dizer: - O tempo para pra não incomodar - que nasceu ‘Centro do Coração’ - Moacyr Luz, Aldir Blanc e Victor Martins.
Esse samba foi gravado em 1994 pro CD ‘Vitória da Ilusão’ e registra na introdução o clarinte pessoal de um gênio brasileiro, Paulo Sergio Santos.
Tempos depois, com a mudança da Livraria Folha Seca pra Rua do Ouvidor, e o surgimento maravilhoso do Samba da Ouvidor dos meus queridos Gabriel e Pratinha, entre outros, atualizei a geografia dessa música reconhecendo nesse caminho as pontes de safena do meu coração.
Deus desenhou meu coração
De um jeito igualzinho
Ao velho Centro do Rio
São tantos pontos de luz
Em direção a procissão da festa
Da Candelária
Eles percorrem minhas coronárias,
Vejam vocês:
No carnaval, o bonde 66
Na Sete de Setembro apareceu mais uma vez
Tem condutor, motorneiro,
Tem o Guinga, o Paulinho Pinheiro,
O Nogueira e o velho Hermínio num reduto biriteiro.
Um trocador troca as fichas do meu coração
De quebra me vende mais uma ilusão.
Rua do Carmo, Uruguaiana, Ouvidor
São pontes de safena pra tamanho amor
Mas se o ar tá me faltando porque alguém sujou
Cruzo a Primeiro de Março e até o mar azul eu vou
.

Hermínio Bello de Carvalho

16 de setembro de 2009

Há poucos dias ganhei algumas fotos de presente do craque Paulo Thiago. O ‘ensaio’ registrava uma noite de autógrafos do Manual de Sobrvivência nos Butiquins Mais Vagabundos - livro que lancei em 2005 pela Editora Senac-Rio.
Uma coincidência: - eu voltava de um encontro com o parceiro Hermínio Bello de Carvalho e, entre os anexos do Paulo, um abraço revelado desse amigo de história tão importante na música brasileira.
Pois é, horas antes eu  com o autor de ‘Pressentimento’ dividindo um vinho espanhol da região de Rioja e, num tom em preto e branco, contando o tempo da nossa amizade.
Eu jurava ter conhecido o Hermínio pelas mãos do Aldir, mas o amigo me lembrou dois programas que eu fizera sob sua orientação na TV Educativa, um deles em 1981.
Gravei minha primeira música em 1979 com a cantora Lana Bittencourt. Havia um quadro na TV-E chamado ‘Primeiro Degrau’, bem à propósito. Participei.
Eu gostava muito das intérpretes mais experientes. Adorava Elizeth Cardoso, acompanhei no violão outras vozes raras como Lenita Bruno e Célia, e com essa preferência, cheguei a casa da Marisa Gata Mansa, na época  casada com um violonista e foi com ele que fiz outro programa, ‘os Músicos’, em 1981, acho.
Hermínio era um mito em meu universo. Ao lado de Mauricio Tapajos, compos ‘Mudando de Conversa’. Só esse samba, uma letra carioca, coloquial e elegante ao mesmo tempo, era o máximo das pretensões.
E foi com ele, e a minha paixão pelas intérpretes de uma geração anterior, que gravei um dos clássicos daquela grade cultural, o programa ‘Contra-Luz’.
A cantora que fui músico se chamava Rosane Toledo.
Tive o privilégio de ver interpretado por ela um canção minha tendo como complemento musical dois ases; Zamtih e Mauricio Einhorn.
Tempos depois, ainda com a direção do parceiro, fiz um número com a atriz Cassia Kiss para um especial sobre Mario de Andrade.
A convivência com Aldir estreitou muito os laços como esse mestre das palavras, Hermínio Bello de Carvalho.
Quando o visitei na Urca pela primeira vez, fui levado pela madrinha Beth Carvalho.
Nas paredes da casa, fotos fundamentais pra se compreender melhor a nossa música.
Hermínio com Araci de Almeida, Hermínio com Clementina. Duas experientes cantoras.
Um sonho.
Bebemos muito por aí até compormos a primeira canção juntos. Acho que uns dez anos de flerte.
Uma tarde fomos comer um bacalhau no Belmonte Flamengo. Com seu jeito generoso de presentear os amigos, ganhei o livro de poemas ‘Contradigo’ lançado pela Editora Folha Seca.
À noite, lendo a poesia-título, consegui inaugurar nossa parceria.
o samba Contradigo está registrado em 2005 no meu disco ‘Moacyr Luz - Voz & Violão, pela DeckDisc.
Logo depois, Hermínio lança ‘Timoneiro’, uma caixa com 5 CDs, praticamente uma antologia musical. Nesse trabalho, participei como autor, ao seu lado, no choro ‘Quem Mandou’ interpretado pela bela cantora olívia Hime.
Aproveitei e regravei a música no disco ‘Sem Compromisso’ feito em duo com meu irmão Armando Marçal.
Em 2006 pela Casa da Palavra, Alexandre Pavan escreve - Timoneiro, Perfil biográfico de Hermínio Bello de Carvalho.
Dentro, encartado, em especial CD chamado de Manuscrito Sonoro, aonde seus parceiros gravam músicas inéditas.
Das nossas, ‘Nem Sempre o Amor Constrói” e ‘Quando o Amor acaba’.
Recentemente uma relevação de voz, Juliana Amaral, registrou mais um samba nosso nessa galeria pessoal, ‘Da Vida tudo se Leva’.
Posso afirmar que em nosso pequeno baú já contam cerca de 20 músicas prontas.
No novo CD ‘Batucando’ inclúi mais 3 batuques pra nossa história: ‘Meu Nego’, ‘Daquela Mulher’ e ‘Banguelas’.
Pedindo ajuda as palavras do poeta, transcrevo a letra de ‘Banguelas’ que no disco teve a fundamental participação de Luiz Melodia.
Dei sorte.

O menino banguela é um  fiapo
                                 De gente
E a menina ao seu lado é também
                                 Indigente
Lá se vão de mãos dadas à  vista do mundo
                                 Indiferente
Nem parecem ter fome e nem sede
                                 E é patente
Que o sarnento lhes deu porção
                                  Indecente
Que os o imantou de uma luz
                                  Incandescente

E os corpinhos se unem à noite
                                  Luzente 
E esperam do céu que uma estrela
                                  cadente
Os cubra dum manto de nuvem 
                                  fulgente
E cure essa febre que arde
                                  fremente
e vem assomando, assim,
                                   num repente
cobrindo seus corpos de uma luz
                                    refulgente

São rios cruzando formando afluentes….
são trilhos dispostos sobre dormentes
que rangem à passagem dos trens que urgentes
os levam, coitados, como pingentes
rangendo de frio os dentes  doentes
iguais às carcaças  de estrelas cadentes

O menino banguela parece um fiapo
                                 De gente
E a menina está prenha
                                 De mais um indigente