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Arquivo para agosto, 2009

Fotos Avulsas II

31 de agosto de 2009

Estou num avião da Oceain Air voltando de São Paulo aonde fiz dois shows nesse fim de semana.
Na Foto Avulsa dessa grade duas pessoas fundamentais na minha vida, Aldir Blanc e Helio Delmiro, dupla que sedimentou a face da minha identidade.
Devo ter contado aqui, conheci o Helio quando eu completei 15 anos.
Pra se compreender a vida e o que nos rodeia, não tinha a menor noção da transformação que esse encontro provocaria no meu futuro.
Helio, o maior violonista brasileiro, então, participava como instrumentista em quase todas as gravações da época. Algo que não se explica nos aproximou. Ele tinha uns dez anos a mais de vida, e uma distância cultural abissal. Convivia com a nata da criação musical brasileira, e eu, ali, quase arrimo de família, ganhando feito óstia sagrada o privilégio do convívio.
Nessas primeiras andanças, anos 73-74, o Helio me levou a casa do genial Victor Assis Brasil. O saxofonista morava em Botafogo ou Flamengo. uma recordação ruidosa soava na obra em frente a sua casa. Era uma cratera aberta pra receber o metrô. Outra, muito significativa, também guardo nos ouvidos. Ele me pedindo pra improvisar uma tema assovindo pelas ruas.
Helio tocava com o Victor e Luiz Eça, um trio batizado de Triângulo, com shows regulares no Morro da Urca.
Nesse mesmo limite de bairros, Flamengo ou Botafogo, saí uma tarde com o Helio pra assistir ao ensaio que faria pra uma apresentação no Japão, da única divina, Elizeth Cardoso.
Fui, garoto, achando tudo especial, mas longe de dimensionar a raridade desses talentos.
Helio me levou pra acompanhar as gravações do disco ‘Samambaia’, importante disco instrumental brasileiro,e me permitiu ficar todos os dias sentando num canto enquanto a imortal Elis Regina gravava, junto com a base, o disco Essa Mulher.
Com o Helio fui ao Chico’s Bar ouvir Nana Caymmi e Leni Andrade. Também de cambona presenciei outras gravações de Roberto Ribeiro e do meu querido João Nogueira.
Quando fiz 18 anos, Helio e então sua mulher, Helena, me hospedaram em sua casa. A estadia durou um ano, uma dívida que só algo superior pra saldar.
Em 1984, foi a vez do parceiro Aldir Blanc interferir no meu futuro.
as histórias cotidanas são tantas que, perto de pousar esse jato que não me acostumo, reservo pro próximo post.

Gigantes em Pílulas

28 de agosto de 2009

A agenda fechando o mês, faço dois shows nesse fim de semana em Sampa.
Sábado participo da roda de samba do Traço de União, dos meus queridos Germano e Cidinha.
Modestamente fui um dos primeiros a tocar na casa batizada pelo parceiro Luiz Carlos da Vila e a nossa Beth Carvalho.
Também tentamos uma temporada as sextas, eu e Luiz, por um tempo bacana.
Duas lembranças.
Num aniversario do Germano o prato único era pernil. Antes de parecer fofoca, explico.
o craque comprou um pernil inteiro do Estadão, o mais famoso da capital. Foi um sucesso aquela peça na mesa com cara de um Monet em bronze.
Outra recordação é pra mostrar o número da matrícula.
Fui fazer um show em Santos com o Mestre João Nogueira. Eu, ali, tímido diante do ídolo,  apreensivo com o repertório. Era algum mês de 1995.
De repente, me chega Cidinha e João Paulo. Fizeram fotos que ilustraram uma matéria de jornal dias depois.
Ainda guardo o recorte pra provar que vivi esse momento.

No domingo estarei no Sesc Santo André encerrando a exposição “Gigantes em Pílulas’ do grande artista Zé Andrade.
Zé inventou essas miniaturas que muita gente tem em casa dos nossos grandes ídolos como Tom Jobim, Dorival Caymmi e Villa-lobos.
Recentemente passei dois anos morando em Santa tereza, um bairro abençoado.
Pra aumentar o privilégio, a janela do meu quarto toma o formato de uma sacada, quase varanda.
‘Tô’eu ali, pano de fundo pra cena carioca, quando noto um aceno no bar em frente.
Era o Zé Andrade.
Desço pra cumprimenta-lo e um assunto me emociona:
- Ô, Moa, pensei de fazer você em miniatura. Gosta?
Quase chorei.
Na festa dos meus 50 anos, recebi a primeira cópia.
Foi  presente de uma vida inteira.
O show acontece domingo agora as quatro da tarde.

Fotos Avulsas - I

26 de agosto de 2009

Tenho um carinho muito grande por esse blog.
Gosto de por fotos ilustrando um assunto e às vezes é dessa imagem que nasce o  rumo a nossa conversa.
A foto acima estava perdida na pasta de documentos do livro Manual de Sobrevivência nos Butiquins mais Vagabundos, que lancei em 2005.
No fundo, inciando a carreira, o talentoso Gabriel Cavalcante e, no primeiro plano, duas feras: Antonio Pedro e Jaguar.
Os compromissos vão inventando distâncias, mas já fomos muito próximos.
Houve uma época na Tijuca aonde adquiri uma barraca de feira (é verdade) e a presença do Antônio era constante. Além de ator e competente adimnistrador cultural, o craque cozinha como poucos. A idéia da barraca era reunir os amigos em torno do tabuleiro e, aproveitando a diversidade de alimentos em todos os gêneros, preparar pratos para os amigos.
Antonio Pedro era imbativel.
Um dia essa história virou DVD - Dia de Feira - e na capa do documentário um grande destaque para o amigo de faca em punho.
Jaguar também aparecia nos encontros, embora não tão frequente.
No Manual, o livro, foram dele as ilustrações.
Entre as loucuras que fizemos juntos, a mais arrumadinha era a do projeto ‘Samba Falado’ quando formamos uma dupla independente, viajando por ái, Campinas, Brasília, São Pàulo, cantando samba e casos.
E histórias são várias.
Um dia recebo uma ligação do craque:
- Ô rapaz, vamos almoçar na Viera Souto.
Eu não lembrava de bar algum na luxuosa avenida. Tentei desistimula-lo alegando pouca verba pro caro endereço, mas ele me convenceu:
- Caro? O Vieira Souto é quase de graça! Tem o melhor filé da Cruz Vermelha…
- Aonde?
- Cruz Vermelha. Tem duas entradas. Um dá de frente pro Hospital do Cancer…

Também nos apresentamos em Itaipava, seu esconderijo preferido.
Neste dia fui apresentado a ‘Cobal’ de lá.
Nosso mestre havia chegado à pouco de uma palestra em Manaus, algo assim.
E me conta, entusiasmado:
- Õ Moacyr Luz, tu acredita que fui jurado de um concurso chamado ‘Beber Cachaça Sem as Mãos’?
- Sem as mãos? Como é que pode?
Um garçom foi chamado as pressas, ajeitou uma dose num desses belos copinhos apropriados, posicionando o cálice bem próximo, na mesa.
O Jaguar trançou as mãos por tras, curvou as costas, mordeu o copo e levantou o corpo até a bebida descer garganta adentro sem pingar uma gota na camisa.
O lugar todo aplaudiu.
No dia que fomos fazer nosso número em Brasília, o Jaguar me levou pra conhecer a torre de televisão, um equipamento de trasmissão gigante transformado em ponto turístico com barracas de artesanato e tudo mais em volta.
Depois de subir muito num elevador, chegamos a um andar aonde o piso era vasado.
Tive um certeiro ataque de vertigem.
Ele tirando fotos e eu tremendo.
Os carros zunindo embaixo, velocidade de perseguição americana, pergunto suado:
- Mas Jaguar, como se vive nessa cidade?
_ Ô rapaz, isso aqui não é uma cidade. É um autorama!

Quando lancei o Butiquim de Bêbado, a Editora Desiderata o mantinha como o pensador das publicações. Foi dele a idéia de convidar o genial Chico Caruso para as ilustrações.
De presente ainda me deu este prefácio fac-símile reproduzido aqui, no blog.

Sete em Ponto

24 de agosto de 2009

Nesta terça feira 25, reencontro o Teatro Carlos Gomes pra fazer um show ao lado do meu querido Jards Macalé. A apresentação está incluida dentro do projeto Sete em Ponto e vamos contar com aquisição luxuosa do craque Zero, na percussão.
Alguns fatos me emocionam nesse teatro.
Foi que apresentei, fora da programação, o samba que fiz com o Aldir chamado ‘Flores em Vida Pra Nelson Sargento’. Era a festa de 70 anos do nosso baluarte, 1994,e o samba, recém composto, entrou no repertório as pressas. Pra mim, foi emocionante.
Um ano depois lancei no mesmo palco o CD ‘Vitória da Ilusão’. Sinceramente, um show de primeira. Repetindo os arranjos do disco, pude contar com um quarteto de cordas, coro com a participação da Tia Doca e Cristina Buarque, o grupo de percussão Baticum liderado pelo meu irmão Beto Cazes e o mestre Rildo Hora solando na gaita.
Também lançando novo CD - ‘A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro’ - a casa escolhida foi o Carlos Gomes. Estamos em 2005. Em cena, dividindo a emoção, o grupo Água de Moringa, única formação na feitura do disco.
Um respeitoso detalhe na direção deste show: - Roteiro de Roberto Moura.

Agora estou de novo na praça Tiradentes com meu parceiro de Dobrando a Carioca, Macalé.
Aqui no blog já contei várias histórias desse convívio, mas sempre sobra uma pra ilustrar a página.
Estamos em Porto Alegre, casa Mario Quintana, pra mais um show do Dobrando.
Alguma coisa nos fez atrasar e Macalé me pede que pegue na mala dele, um afinador, algo assim.
Cuidadosamente, abro e ziper da bagagem e, de cara, aparece uma enorme bandeira brasileira.
Pergunto ao cumpadre:
- Tu trouxe uma bandeira?
- É Moa, sempre que viajo carrego esssa ensígnia. Pode haver um levante…Sei lá.
Esse é Jards Anet, o Jards Macalé.

Paladino

21 de agosto de 2009

O jornal pede algumas sugestões entre as minhas preferencias de bares e seus arredores.
Eu cito o Paladino na categoria ’sanduiche’ e faço um comentário voluntário: - falam pouco, mas é o melhor da cidade nesse quesito.
Ás vezes, querendo criar caso pelo simples prazer de pertubar, reclamo do recheio: - tem muito!
Naa verdade o Paladino é especial em tudo, chopp, uma ela batida de limão e, carro-chefe, a imbatível fritada de queijo com cebola.
Ano passado lancei mais um livro sobre e assunto - Botequim de Bêbado de Dono - Editora Desiderata.
São história exageradas, mas reais desses ‘butiquins’ que a gente vêm encostando ao longo desses 51 anos.
Peço licença aos meus chefes Gabriela, Paulo Pires e Juguar e reproduzo a crônica no blog.
Quem sabe não aguça o paladar à outras páginas?

A foto é da minha querida Luludi.

PALADINO
O Rio acabou! O Rio acabou! Escuto isso toda hora como se, remetido, a voz saísse de um pequeno jornaleiro na face mais curta da Rua Larga. Eu penso que deve ser o Rio Comprido, o Rio Trapicheiro, sei lá. Aqui, não. A memória de uma cidade com passado me resgata quando vou ao Paladino. É verdade que uma prateleira nova esconde o leão esculpido à esquerda de quem senta ou se estranha um anexo que antes foi, pela Uruguaiana, um outro bar, Tupy, pelo jeito, índio pé-de-cana. Cabe no mapa conferir uma chapelaria na rua principal, a Marechal Floriano. Conheço muito sujeito que resolveu ser sambista começando a profissão ao adquirir um ‘panamá’ nessa bela loja.  Quase comprei um.
O Paladino tem especialidades já consagradas como o sanduíche triplo (combine com o que vier à cabeça. Lá tem) e as fritadas mistas de presunto, queijo e cebola, mas tenho uma dica etílica:  o staneireg e a batida de limão têm preços pra lá de baratos. Sou amigo de dois garçons: Mário Barriga e Severino, dois craques cariocas. Tem um segredo que todos sabem, o Severino fuma “escondido” na escada que dá acesso a um tesouro de bebidas.
Estou com Baiano, amigo de excursões nos butiquins mais vagabundos, sentados numa mesa de canto, quantidade forte de chopps bebidos quando se aproxima um sujeito estrangeiro. Americano, mas falando muito bem português. Ele me conhecia. Estavam em quatro pessoas, também americanos, pedindo dicas de outros bares na redondeza pra fechar a tarde turística. Ele em pé, nós sentados, proposta aceita, juntamos as mesas. “Gosta de cachaça?”, perguntei. Havia uma bailarina que entendeu o termo aguardente e também, curiosa, pede pra provar. Eu olho pro Baiano me sentindo um agiota de subúrbio querendo dar uma volta no último vagão do trem e pensando: - querem uma cachacinha, né? Ô Barriga, desce uma garrafa do marafo, parati pura, tá?
Ri por dentro imaginando o porre que aquilo iria virar. Pensei até em incidente diplomático. Mas o  “novo” amigo americano bebia uma dose por gole. A Bailarina fazia padedê quando ia ao banheiro, ainda voltava num 360 graus enquanto meu rosto “aroseava” alcoolicamente pela bendita ingestão. Faço aqui uma pequena crítica ao bar: os guardanapos são pequenos, feitos num papel raro, não desengordura a mão grundenta do salaminho. Eu, suando mais que personagem de Nelson Rodrigues, gastei um copo do áspero higiênico. A camisa bordada nas axilas, o Severino fumando, o bar enchendo e os quatro americanos pedindo outra garrafa sem tremer um dedinho sequer. Volto ao assunto:
- Mas meu amigo, você fala muito bem português. Vem sempre aqui?
- Sempre! fui casado com uma brasileira.
- É? Brasileira? Do Nordeste?
- Daqui mesmo, carioca. Atriz.
- Atriz? Eu conheço?
- Acho que sim. Sônia Braga.
Quase cuspi o pivô. Eu achando que era o dono da situação, tive queda de pressão e fui levado pra respirar na Igreja de Santa Rita de Cássia, padroeira dos estivadores, fincada na mesma calçada.
É isso.
O bar tem uma mercearia na entrada que nos dias de hoje poderia tranquilamente se chamar delicatessen. Ricardo, o dono, vascaíno, sabe de cor a safra de cada vinho exposto e, se você não apeteceu com os sanduíches ou as fritadas, ainda posso sugerir da lojinha uma lata de sardinhas. Lata portuguesa. Eles servem com cebolas cruas e cheiro verde. Fica uma delícia!!! Mas preste atenção: de lá surgiu o serviço de Azeite na Mão. O garçom traz a lata, mas não deixa você se servir. Fica presa na palma feito celular. Mesmo assim é maravilhoso!