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Arquivo para julho, 2009

Luiz para Moa

31 de julho de 2009

Esse texto foi escrito pra revista Música Brasileira, número 7, de setembro de 1997.

Há nele a luz do bom companheiro, a luz do amigo, a luz do talento.
Brilha também no papo e no copo. Dona Maria e sua turma tijucana que o digam.
Nesse ponto, o bom Moa vem a ser parente de Beth Carvalho. Enquanto o garçom não joga água no pé ou o dono do bar não dá uns breguetes, pra eles a festa não acaba.
Ai que saudades eu tenho do tempo do Torresmos e Moelas e patati-patatá, lalari, larará que é só pra encher linguiça.
Isto é apenas um bilhete meu para o Moacyr, pois não tenho a menor intimidade com essa história de texto, esse papo de crônica, mas, vai assim mesmo.
Meus últimos dias não foram nada fáceis, meu amigo.
Labirintite das brabas, preguiça caymica, tendo que correr rádios na divulgação do meu disco e tendo que fazer este bilhete pra um grande amigo para uma grande revista.
Carvão e giz e muito mais.
Somos do tempo do show na praça e já giramos muito por aí. No Nordeste, em viagem recente, eu e Moacyr, de um lado pro outro, festa e trabalho.
Moacyr é muito parecido comigo.
A Luz do Moa. Vez em quando vinha o pânico.
Acordava mal humorado, prometia parar de beber. Depois reclamava do uisque e assim passavamos o dia, para de noite cantar de novo.
De repente, a explosão com o cara do som:
- Não mexe em nada. Tá bom assim. Só aumenta a viola e o baixo. E não mexe mais em nada!
Coisas do Moa.
Meu cumpadrer Moacyr isso não é um artigo. Nem artigo 171. é um bilhete. Apenas um bilhete pra você.
Te adoro.
Luiz

Moa para Luiz

29 de julho de 2009

Esse texto foi escrito para Revista Musica Brasileira, número 5, em julho  de 1997.

A música me deu mais esse presente, conviver com Luiz Carlos da Vila. Da camisa só servem un dois botões. As sandálias são antigas no modelo e parecidas com as do Pixinguinha. Gosta de azeitona (uma só: - diz pro garçom) pra chamar a abrideira que ele busca todos os dias no mercadinho perto da casa na Penha. Não tem escadas, pra azedar o itinerário. É  promessa.
Quando ri, os olhos ficam ainda menores e aí começa a história do samba. Acorda cedo, varre o quintal e num canto qualquer desse silêncio, sopram os primeiros versos. O sol levanta..Num azul do céu se admirar. Fizemos juntos o Projeto Pixinguinha pelo Nordeste.
Meus amigos, a dose do uisque importado não passava de dois reais. A gente bebia o que dava na cabeça e ía dormir com o gosto do dever cumprido. No dia seguinte, coisa de seis e meia da manhã, o Luiz já tinha rodado dez quarteirões de praia. Telefonava pra Jane, sua maior inspiração e jurava que aquele tinha sido seu último porre.
NUma dessas ressacas sentamos num bar em Fortaleza.
O camarão era farto.
Um sujeito reconhce no sotaque, o cariocas.
Pra puxar assunto, me pergunta sobre a Galeria Cruzeiro, na Avenida Rio Branco.
- Acabou, meu senhor.
O riso é irônico. Pedi mais uma cerveja e Luiz me conta sobre o samba-enredo Por um dia de Graça. Perdeu na escolha da agremiação e hoje quaquer pessoa de bom senso sabe de cor. Respeito todos os artistas.
Lembrou de Candeia, que conheceu pouco,  da Beth Carvalho cantando Além da Razão e dos parceiros Sombra, Sombrinha e Arlindo Cruz. O sujeito do bar insiste em só elogiar o Zizinho.
- Não vi jogar, meu senhor.
Agora é o Luiz quem ri.
Tá descalço, ligando a cobrar pra casa com saudades do mercadinho, de um samba que deixou pelo meio, da dona Esmerilda, do peixe ensopado com pirão feito pela Jane, saudades da turma de Niterói.
O chato do bar aumenta o volume de uma fita pirata e grita:
- Quer dizer que você não viu o Cartola.
- Não vi, meu senhor. To vendo o Luiz Carlos da Vila.
Já tava na hora do show…E o show tem que continuar.

Viagem

27 de julho de 2009

Chegamos na Paraiba de madrugada. Eram um daqueles vôos corujão com escala as quatro da manhã.
Nosso hotel ficava a beira-mar. Beira mesmo, só um muro nos separava das marolas.
Até resolver a disposição dos quartos, desfazer malas, guardar instrumentos, amanheceu.
Sol do nordeste vem junto com uma brisa hipnotizante.
Fomos a piscina.
De um lado, o mar. Do outro, uma estreita rua e, entre os postes, uma faixa em murim:
- A Embratur se associa a Seagran´s e lança a Temporada Etílica - Preços imbatíveis!
Luiz se coçou:
- Aonde encontro esses preços?
Carlinhos Sete Cordas repara um cardápio. Luiz pega:
- Môa, o Red Label tá custando 1,80. O Black sai por dois e cinquenta e a dose de Smirnoff é oitenta centavos!
- Quem ia gostar disso é o Ronaldo. Pena ele estar no Rio. Falo sussarrando.
- Acorda ele!

Ao meio-dia desembarcava no Aeroporto Presidente Castro Pinto, em João Pessoa, nosso querido Ronaldo a procura das promoções.
Coisa de doido.
A gente na ‘pérgula’ improvisando um partido-alto:

‘…Um red a um e oitenta
o black é só dois e cinquenta
se você tem disposição
aguenta!’

Porre II

24 de julho de 2009

Eu estava hospedado no Crowne Plaza fazendo um show no teatro do própio hotel.
Recebo um telefonema do Luiz:
- Môa, tu tá no Plaza? É o seguinte: aí tem câmbio e eu preciso trocar urgente 200 dólares pra resolver umas pendengas pela manhã. Só hóspede tem autorização. Quebra essa!
Marquei no saguão.
Pego as cédulas e vou em busca da melhor cotação.
Com reais no bolso, Luiz fala admirado:
- Que hotel! Que luxo! Ali atras é o bar?
Apontou puxando a fila.
Sentamos num estofado de couro importado. Decoração irlandesa.
Cardápio na mão, o primeiro pedido:
- Por favor, uma Macieira. Não, espera…Um Black Label.
Duas doses depois, uma conclusão:
-É melhor deixar a garrafa na mesa pra evitar esse vai-e-vem. E traz um carpaccio de salmão.
Ampola enxugada, ele abre a carteira:
- Môa, troca mais 200 dólares.

Anoiteceu e quase fomos nós os ‘cambiados’ para outro lugar, de ambulância.

Detalhe na foto. Dois craques: Zé Luiz do Império e Marquinhos China

Porre I

22 de julho de 2009

Numa dessas noites onde tudo anda dobrado, fomos parar no Villágio Café, clássico bar no Bexiga.
Acho que de uisques foram duas garrafas. O saldo apontava na conta dos ínúmeros choppes no Bar Léo, todos casadinhos com as piores genebras.
Alguém cantava no palco.
Luiz pediu o microfone e gritou:
- Feliz Natal!
Era abril.
Eu sentei na varanda do bar e caí imediatamente da cadeira.
Havia um famoso jornalista observando o movimento, a maré dos nossos corpos.
Levantei. Luiz puxou:
- A chama não se apagou…
Sentei. Caí de novo.
O jornalista levantou a sobrancelha e eu, supliquei:
- Só publica se eu cair de novo, tá?
Ele riu
Também não sentei mais.

No fim:
- Quem duvida e hoje diz, acabou vai se admirar….