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Arquivo para junho, 2009

Dobrando a Carioca

29 de junho de 2009

Em 1999 recebi um convite pra fazer um show dentro da série Seis e Meia do Teatro João Caetano, Rio de Janeiro.
Sempre fui avesso à luzes muito centradas a minha direção. É do meio feitio dividir.

A amizade com Guinga, pra mim abslouto como compositor, vem desde 1973 por conta da convivência com Helio Delmiro, meu mentor e cumpadre do craque violonista.
Anos depois tinhamos outro parceiro comum, Aldir Blanc.
Reuniões de música eram realizadas na minha casa da Tijuca e Guinga era constante desde a primeira hora.
Rapidamente mudando de assunto, outro frequentador assíduo era o querido Betinho.
É isso.

O caminho do samba me aproximou do Ze Renato. Considero Zé um dos nossos maiores cantores. Sua carreira ultrapassa rótulos. Já gravou Silvio Caldas, Jovem Guarda e o imbatível Ze Keti. E foi o autor de Nega Dina quem nos fez mais amigos.

Com Jards Macalé participei de eventos pela Funarte, Projeto Pixinguinha, shows políticos, coisas assim.
A afinidade sempre foi tão grande que tempos depois ainda produzi dois discos seus, ‘Macalé Canta Moreira’ e ‘Amor, Ordem e Progresso’, orgulhos da minha carreira.

Juntar os quatro foi a inspiração.

A primeira reunião pra fechar repertório aconteceu no Bar Luiz. Um amigo passou perguntando o motivo daquele encontro. Explicado a razão, o curioso curvou o corpo procurando pelo teatro quando alguem apontou:
- É ali, Dobrando a Carioca.
A verdade é que na temporada do Seis e Meia o público nos surpreendeu.
O shows encheram o teatro. Tanto que aceitamos mais tres apresentações no Espaço Cultural Sergio Porto.
Ali também lotou. Cadeiras extras, amigos sentados no chão, sentimos o cheiro da pólvora.
Veio o convite pra duas semanas no grande Mistura Fina, da Lagoa, com sessões extras todas as noites.
No balanço do fim do ano, com jornal O Globo elegendo o nosso show como um dos melhores do ano, emendamos uma turnê pelo nordeste, seguindo depois pra São Paulo, Brasilia, Porto Alegre, Vitória e tantas outras cidades que a agenda alcançou as  100 apresentações.

Guardo várias histórias dessas viagens. Vou ficar com um curtinha.
O show era num belo teatro, produção de primeira, a gente sabia que até outdoors foram colocados na cidade. E foi assim, dentro de um ônibus exclusivo, que avistamos na avenida principal o anúncio:
- Não percam hoje o Grupo Dobradinha a Carioca!

Labuta

26 de junho de 2009

Neste fim de semana participo de dois eventos.
Sexta- feira estarei com o Samba do Trabalhador no bela casa Estrela da Lapa e, sábado, no Teatro da Caixa Cultural, um show em homenagem ao compositor Sergio Sampaio.

Nosso samba, nascido no Clube Renascença, tem visitado e muito, o bairro do Madame Satã.
Eu zanzei um pouco por ali quando só se ouvia o canto do Marquinhos de Oswaldo Cruz no pandeiro de Ivan Milanes, os dois sozinhos embaixo de um dos arcos que marcam a região.
O Asa Branca era a única novidade.
Acreditem, o lançamento do disco Saudades da Guanabara, da maravilhosa Beth Carvalho, aconteceu nesa casa de shows.
Hoje na Lapa tudo é música.
Esse ano o Samba do Trabalhador fez ponto no ‘Odisséia’ e recentemente, no Rio Scnera’ium.
Também bati uma bola no recem inaugurado ‘Será o Benedito’.                                                           Isso sem contar o mágico ‘Carioca da Gema’. Devo ter cantado lá umas cem vezes ao lado do Luiz Carlos da Vila.

O show de sábado é todo dedicado à Sergio Sampaio.
Pra quem estranhe a minha participação no palco, explico: - Fui músico desse craque um bom tempo no início dos anos 80. Autor do sucesso ‘Eu quero é Botar meu bloco na Rua’, Sampaio morreu cedo e ainda falta muito pra ser reconhecido pelo seu trabalho.
Pra contar uma história e não transformar esse blog em agenda, lembro de uma viagem que fizemos prá Ubá, interior de Minas.
Produção enxuta, partimos, os dois, numa Del Rey prateada, estrada a dentro para um show nessa cidade de Ary Barroso. A viagem era longa e uma parada fez-se necessária.
O bar estava completamente vazio, oficialmente chamado de Às Moscas.
Sampaio entrou, acordou o dono, pediu uma cerveja e tres copos. Eu ainda olhei em volta sem entender, mas ele reparou num display do Agnaldo Timóteo no fundo, perto de uma vitrola de fichas.
Sentamos e o Sampaio trouxe pelo braço o Agnaldo em papelão. Ajeitamos nós ‘tres’ na mesa e nosso querido compositor gritou:
- Um brinde ao botafoguense!
O proprietário quase chamou a polícia, mas optou por um ambulância, veículo que não faria feio às nossas cabeças.

Holanda

24 de junho de 2009

Alguns amigos comentaram a foto com o Lula. Recorro ao tema.
Em maio de 2008, junto com Luiz Carlos da Vila e Nilze Carvalho, fizemos um show na Holanda dentro de um cerimonial oferecido pelo governo brasileiro a Rainha Beatrix, soberana dos países baixos. Participavam também os queridos Tiago Prata, Paulino Dias e Mestre Trambique.
O show aconteceu dentro de uma igreja restaurada aonde, atualmente, só é aberta em eventos especiais.
Nossa estadia foi maravilhosa. Eu e Luiz no auge da carreira etílica sentávamos em tabernas wikinguianas bebendo os mais graduados steinhaegers suportados a um ser humano.
Um dia acordamos cedo e encaramos um trem para Amsterdã.
Cidade das mais livres no mundo, é formada por ruas entre os rios que dobram os moinhos dos nossos souvenirs.  Em todas elas,  bares exclusivos pra você curtir sua marijuana.
Eu, careta ao extremo, resolvi me entorpecer de Heineken, a cerveja deles, e abri uma super lata na primeira esquina que encostei. Quase de imediato uma senhora com cara de louça, me interrompe:
- Mister, é melhor esconder essa bebida senão o senhor acaba preso por maus modos na rua!
Enquanto tentava entender o dialeto que ela se comunicava, a calçada inteira baseava.
Me escondi numa delicatessem enquanto meu cumpadre Luiz ria da situação.
Mais.
Eu tinha prometido ao meu outro presidente, Jorge Ferraz, autoridade máxima do Clube Renascença, um empenho para presentear o Lula com o DVD do Samba do Trabalhador afinal, o homem é do Partido dos Trabalhadores, tudo a ver.
Mirei nesse alvo.
Terminado o espetáculo, com o primeiro protocolo quebrado pela própria rainha ensaiando passos de destaque, fomos convidados a participar do coquetel realizado na ‘cave’ do santuário.
Autoridades num canto, músicos do outro, vi a possibilidade do encontro Lula & Moa se evaporar feito um Uroco, absinto espanhol.
Perto do desânimo, o Ministro das Relaçoes Exteriores, Celso Amorim, se aproxima e diz a senha:
- O presidente pede a presença de todos.
Foi uma festa.
Conversamos muito, a rainha no alto pedestal da simpatia e eu pude enfim oferecer o presente que veio do Andaraí.
O resto é tamanco.

João Nogueira

22 de junho de 2009

O amigo Sergio Moreno pergunta da minha convivência com o João Nogueira e a primeira recordação vem do Meier.
Eu zanzava no bairro junto com meu mestre Helio Delmiro. Os intervalos entre shows e gravações realizados por ele, Helio, eram ocupados em tardes maravilhosas no Rei do Bacalhau, no antigo Só na Brasa e numa taberna perto da estação chamada Dom Rodrigues. Ali o João bebia umas fartas canecas de vinho. Também existia o El Chopp em frente ao prédio que ele morava, mas na taberna o João era mais vibrante, sei lá.
O tempo passou.
Com o parceiro Paulinho Pinheiro eu arriscava umas ‘enxeridas’ no campo do Chico Buarque. Se eu joguei uma vez, foi sonho. Minha concentração era nas mesinhas que emolduravam a cantina, um churrasco vez por outra e muitas histórias boas contadas por João e seu empresário.
Um dia, comemoração no Bar Luiz para o querido Sergio Cabral, pai, quando sentados na mesma mesa, eu e João, senta o Albino Pinheiro:
- Ô João, dá uma força pro Moa. Por que não fazem juntos o Seis e Meia?
Meia hora depois, data marcada, fui prum canto me beliscar pra acreditar no momento.
Só lembro o ano, 1995.
O show se desdobrou e fomos parar em Santos, São Paulo, capital e Curitiba.
Consumista dos bons, me dizia que quando bebia umas a mais escondia o cartão de crédito, no tempo do 1406, assim que anunciavam as facas Ginzu. Já tinha uns tres jogos.
A nossa temporada paranaense no quesito compras não podia ser diferente.
Foram tantos pratos, louças diversas, que uma kombi foi alugada pra transportar os volumes.
Fora um ganso de cerâmica de total inutilidade.

Poucas vozes no samba me emocionam quanto a dele. Suas músicas estão definitivamente no repertório dos melhores shows. O Samba do Trabalhador, desde a estréia,  encerra a roda com o samba ‘O Poder da Criação”, João e Paulinho Pinheiro.
Tenho um dado histórico que me estristece, mas. O disco “Esquina Carioca’ é a última participação fonográfica do craque.
João faleceu em junho de 2000. Falei com ele muito pouco antes quando ele mostrou interesse em gravar  o samba ‘Pra Que Pedir Perdão’.
Procurando fotos do meu aniversário dessa época quando ele foi o primeiro a chegar e o último a sair (perguntem ao Didu), achei esse registro ao lado do Lula.
Nosso presidente, então candidato,  demonstrou interesse em conhecer os sambistas do Rio de Janeiro. Quis o destino que ele escolhecesse a minha casa da Tijuca.
Foi uma festa de quebrar todos os protocolos.
E João no primeiro plano.

Camunga

17 de junho de 2009

Confesso que muito da minha fé por São Jorge aumentou na convivência com Camunguelo.
Não conseguia participar da alvorada organizada por ele na garagem em Vista Alegre, achando mais prudente aguardar o malandro depois do amanhecer no botequim da calçada oposta a igreja de Quintino, pra refazer o percurso.
Numa dessas festas, regada a caldo de siri e angu com quiabo, calor forte, tirei a camisa mantendo os colares no pescoço. Um convidado, achando que eu era o pai de santo do homem, se ajoelhou e me cumprimentou com tamanha reverência que um cineasta que gravava a festa registrou a cena e a incluiu num documentário em homenagem ao anfitrião, Camunga.
Fizemos um show em Niterói, eu, ele e Aldir. O encontro nos rendeu maravilhosos momentos de convivência, desde os ensaios, ao espaço lotado da Cantareira, arena do espetáculo.
Quando organizei o  projeto Samba Falado, um encontro entre palavra e música, Camunguelo fez dueto com Fausto Fawcett. No primeiro papo, ainda no terreno da cerimônia, ele, com seus dois metros de altura, dispara:
- Ô Fausto, não vem com essa conversa de zona sul porque eu também tenho meus instintos básicos!
Foi a deixa pra show ser repetido em São Paulo. Era muito vanguarda.
Da série Esquina Carioca que eu tanto rememoro, participou ao lado do Feilpão do Quilombo na terceira edição do projeto cantando “Comida Brasileira’, parceria com Silvio da Silva.
Depois tem a  história do Samba do Trabalhador, nossa roda das segundas-feiras no Renascença.
Camunguelo já chegava puxando a cadeira solando e improvisando como poucos aquela flauta imortal.
Quem notasse no tamanho daquelas mãos de estivador, não imaginava a destreza nas chaves do instrumento.
Participou no DVD do Renascença Clube cantando ‘Gurufim’, samba de Jorge Carioquinha, mas clássico do seu repertório.
Nesta série de músicas que venho fazendo com meu parceiro Aldir Blanc homenageando essas grandes figuras da nossa vida carioca, temos um samba ainda inédito chamado ‘Camunga’ que, infelizmente, por conta do destino, ele não pode ouvir.

Quando uma flauta cruza a noite igual a um dardo,
ferindo o peito do bardo
com um som humilde, mas belo,
eu já sabia que só poderia fazer melodia
desse jeito singelo:
era o meu Camunguelo.

Era o meu Camunguelo magro, de boné branco,
torcida na ativa,
e sempre zangado,
um São Jorge da Estiva
.Figuraço, que em nossas noitadas tanto perdura.
E não tem esse papo
“bonito, enquanto dura”.

Aí palhaços: não julguem a obra futura,
nós é que sabemos o que dói quando quebra a dentadura

Camunga, comunga com a gente esse samba
que eterniza você de boné, flauta – um bamba!
Camunga, caminha no rumo da lua
que ela faz dengo pra ti e murmura:
- Peraí, que eu tô nua!