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Arquivo para maio, 2009

Renascença

29 de maio de 2009

Em maio de 2005 eu voltava de uma turnê pelo Projeto Pixinguinha cego de saudade dos amigos mais vagabundos. O Renascença estreara uma roda de samba aos sábados e a gente, com uma sede de anteontem, chegava cedo, antes do primeiro tamborim, pra saborear alguma novidade etílica, inventar um tira gosto, até o samba roncar no cair da tarde.
O clube entre outras tradições, servia um feijão na lenha que nem os deuses ousavam imitar. Jorge Ferraz, nosso presidente, tratava os salgados feito caviar de um banquete elegante e o resultado era sempre o mesmo na abertura dos trabalhos: - Um suspiro de prazer.
Lembro de uma festa feita na quadra em homenagem ao meu querido Nei Lopes por conta da entrega da Medalha Pedro Ernesto. Feijão na lenha e muito samba eram a base do cerimonial. Foi em 1999, guardo a data por motivos profissionais: - Eu vinha de São Paulo com o jornalista João Pimentel depois de uma longa entrevista sobre o primeiro Esquina Carioca. Na viagem, de carro, paramos na estrada quando notamos uma barraca vendendo goiabada cascão em caixa, bem descrito pelo Nei: - É coisa fina, Sinhá, que ninguem mais acha!
No sábado da nossa história corria solto o aniversário do Ivan Mobílio, amigo e parceiro, meu padrinho na ala de compositores da Unidos de Vila Isabel.
Pra variar, preparei uma panela de jilós.
Sentado embaixo da caramboleira que protege o clube, a fruta servindo de abrideira, notei o Jorge, nosso presidente, de longe, em pé na porta da cozinha olhando o movimento do clube.
Melancólico da viagem, desejei que aquele momento de confraternização durasse para sempre. Essa combinação de amigos, uma purinha, algo saboroso de se provar e um samba de cadência elegante daria , entre carbonos, a química ideal de felicidade.
Como somos feito de idéias, nasceu uma: - Fazer uma roda de samba pra se comemorar  a amizade. Algo despretensioso, feito, quem sabe, numa segunda-feira e, de preferência, cedo, pra não dar problema em casa.
Encostei no Jorge:
- Mestre, tu abriria o clube pra uma roda de samba feita numa segunda-feira começando as duas da tarde?
- Já é! Faço uma costela com batata, quer?

E assim, vinte dias depois, nascia o Samba do Trabalhador. Dia 30 de maio de 2005.
Segunda agora, o samba completa 4 anos.
O que essa história virou, conto nesse santo dia, segunda que vem.

Na Galeria

27 de maio de 2009

A convivência com o meu querido Guilherme de Brito na época da gravação do ‘Samba Guardado’, nosso primeiro projeto juntos, me aproximou de um repertório pouco conhecido de grandes autores brasileiros.
Preciso também registrar a presença do jornalista e amigo Braulio Netto nesse movimento.
Eu estava apaixonado pela Araci de Almeida e sua personalidade. Guilherme lembrava uma dupla de compositores  que a ele ajudara no inicio de carreira: Waldemar Gomes e Afonso Teixeira.
Araci tinha gravado deles um samba lindo chamado ‘Coberto de Ouro’.
Construindo o mosaico, participei de um almoço de adesão à campanha do presidente Lula dando a sorte de sentar na mesma mesa do eterno Mario Lago.
Voltei encantado com a conversa. À noite, assistindo na tevê um programa antigo do cantor Gilberto Alves, escuto um samba do Mario com outro craque que eu admiro muito, Roberto Martins.
Uma declaração de amor, dessas que não precisa introdução, ‘Leva Meu coração” assinada pela dupla, fica definitivamente rondando minha cabeça, uma dessas canções que passam dias assobiando dentro dos nossos ouvidos, a gente cantarolando até em velório.
Mais pedaços de uma idéia.
Lan, o cartunista, me chama de raspa do tacho, um último grande amigo.
Ele me conta da época que varava noite nas estreitas ruas de Mangueira com o Cartola e Carlos Cachaça, ouvindo ainda inéditos, os famosos sambas chamados de meio-de-ano.
Lembra, saudoso, do Verdes Periquitos, bloco dessa época.
Guinga é um dos maiores compositores que já conheci na vida. Não bastasse, toca violão como poucos e esteve presente como intrumentista em históricas gravações do João Nogueira, Clara Nunes e também do Cartola. Me fala de uma tarde passada com Candeia e da música ‘Prece ao Sol’ feita logo após o incidente que o pôs para sempre numca cadeira de rodas.
Tudo isso se arquiva como um caleidoscópio pra se formar o disco ‘Na Galeira’ gravado pela Lua Discos em 2001.
Ainda recordando a idéia do projeto, uma história de carinho vivida na Serrinha, berço do Império Serrano.
Participei de uma homenagem a Dona Ivone Lara dentro de uma série de shows promovidos pelo MIS no Rio De Janeiro. Cantei junto com a Velha Guarda do Império o samba ‘Anjo da Velha Guarda’ e a emoçao tomou conta do número.
Fim do show, dois amigos, Zé Luiz e Cizinho, me chamam num canto:
- Moa, amanhã vai rolar um feijão na Serrinha. A gente faz questão da presença.
Minha ansiedade me fez acordar em Madureira, entre as ruas Mano Decio e Silas de Oliveira.
Recebido pelo inesquecivel Toninho Fuleiro, bebi tudo que havia na redondeza até sentar no quintal maravilhoso da família imperiana pra ouvir mais sambas e me enfeitiçar com o tempero do feijão.
Já era noite quando foi cantado  ’Tantas Primaveras’ obra prima de Mestre Fuleiro, um samba dos mais nobres de toda uma época.
Era o que faltava pra minha galeria.
O disco foi gravado em dois dias no estúdio da Lua Discos em Moema, São Paulo.
Meus queridos Beto Cazes e Carlinhos Sete Cordas são os únicos músicos nesse trabalho.
Preciso agradecer muito a Juliana Amaral, super cantora que fez a voz guia dos sambas enquanto a gente, do ‘aquário’ construia os acordes dessa história.
Disco pronto, fui beber um choppe no Pirajá e o destino fez o mestre Elifas Andreato estar em  mesma sintonia de paladar. As cartelas muravam nossa mesa quando a coragem chegou de peito aberto:
- Meu amigo, fiz um disco inspirado no teu cumpadre Paulinho da Viola. Quer ouvir?
Com o nome escolhido, Na Galeria, recebi a capa uma semana depois a tempo de passar o Natal com o CD na vitrola.
É um dos meus favoritos.

Agenda

25 de maio de 2009

Debulhando um pouco a agenda, o show em Belo Horizonte nesse fim de semana foi muito especial. Um platéia de quase dez mil pessoas participou intensamente do repretório apresentado cantando os versos de Peito Vazio, Estácio Holly Estácio e Cabô, Meu Pai, diferentes instantâneos da música brasileira. Quero resgistrar esse momento com um sentimento único de agradecimento e muito a Elton Medeiros e Luiz Melodia por me deixarem dividir esse quadro.

Nesta terça 26 acontece no MAM-SP um evento pelas comemorações dos 10 anos da revista Almanaque organizada pelo genial Elifas Andreato.

Participo do show ao lado dos grandes Rolando Bondrim, Antônio Nóbrega, Celso Viáfora e Vicente Barreto.
Tive a honra que trabalhar com Elifas nos tres projetos Esquina Carioca quando aprendi difinitvamente a importância de observar pra se entender melhor as sutilezas de um grande espetáculo.
Foi bebendo uma garrafa inteira de ‘snapper‘, espécie de stanheger caseiro, que nasceu a idéia de ter o mestre Nelson Sargento como único bis no encerramento do primeiro Esquina ressaltando a importância da resistência do samba como o resultado daquela apresentação.
O convívio com esse artista me deu outro grande presente.
É dele a arte da capa e do encarte do disco ‘Na Galeria’ que gravei em 2001 aonde, corajosamente, cantei músicas de outros autores.
O disco revelava a influência do craque Paulinho da Viola na minha formação musical  e Elifas vem sendo o criador de vários projetos gráficos nas inúmeras capas de outros tantos discos desse espetacular compositor portelense.

Como nem desfiz a mala do Comida di Buteco e  já estou me arrumando pro Almanaque dando ainda uma sentada no Samba do Trabalhador, falarei sobre o Na Galeira no próximo post.

Comida di Buteco

22 de maio de 2009

Uma caravana de amigos estará neste sábado/23 participando das comemorações dos dez anos do festival Comida Di Buteco, em Belo Horizonte. O evento é uma homenagem a esses butiquins mais vagabundos que vêm transformando pés de porco e jilós cozidos em raros tira gostos pras diferentes graduações alcoólicas de nossas bebidas.
O show será dividido com dois craques do nosso enredo: Luiz Melodia e Elton Medeiros, além de um grande talento em evolução, Aline Calixto.
Conheci o Elton através de um amigo comum, Marcelo Sá Correia. Eu fazia um show no teatro da Cândidos Mendes, faculdade, bem no início do anos 90 e ele foi carinhosamente me assistir. Um detalhe: - Já nesse espetáculo meu parceiro Beto Cazes estava presente no placo. E o Leandro Braga também. Em 98, com toda a honra do mundo, fizemos em duo um show em São Paulo num projeto Antenas do Ipiranga. Confesso que na ocasião me senti gente grande. Outro detalhe: - Nesse show um grande amigo se destacava no surdo - Cabelinho.
Quem me apresentou o Luiz Melodia foi o inesquecivel Sergio Sampaio. Isso aconteceu em 1984. A minha admiração por ele é grande, como do mesmo tamanho, a timidez diante de um carisma marcante.
Em 2000, junto a idéia do projeto Guilherme de Brito, convidamos dois artistas para participação especial: Cassia Eller e Luiz Melodia. Junto com o Paulão 7 Cordas e o Guilherme, varamos a madrugada num pé-sujo na Lapa.
Escrevendo agora um neurônio piscou: - Quando apresentávamos o Dobrando a Carioca, show aonde me incluia ao lado do Guinga, Jards Macalé e Ze Renato, fizemos um belo espetáculo no Tom Brasil com o Paulo Moura Nei Lopes, e, Elton Medeiros e Luiz Melodia, como convidados.
Era O Esquina Carioca 2, motivo pra outror post.
Pra fechar essa série de encontros, lancei esse ano o ‘Batucando’, CD com vários amigos dividindo as faixas e parcerias. E ‘Banguelas’ feita com meu mestre Hermínio Bello de Carvalho, contou com o timbre especial do nosso Luiz Melodia.
Que maravilha!
Quero registrar a presença dos músicos no show inédito desse sábado: Paulão 7 Cordas, Carlinhos Sete Cordas, Alessandro Cardozo no cavaquinho, Beto Cazes, Trambique e Zero, percussões, Florindo no trombone e Gabriel Cavalcante com Analimar no coro.
Dá orgulho ser músico no Brasil.

Escravos da Mauá

20 de maio de 2009

Mesmo com os neurônios se cutucando em escandaloso declínio, veio a memória a tarde-noite quando, andando enfeitiçado pelas pequenas ruas do Morro da Conceição, me deparei com uma roda de samba no largo que ‘ilha’ a imagem de Nossa Senhora da Conceição.
Era o Fabuloso Grupo eu Canto Samba, uma turma de apaixonada pelo Rio, pelo carnaval e, principalmente pelo bairro e sua preservação, tocando de forma sincera sambas de todas épocas, com todos autores, de Candeia a Chico Buarque sem distinção de tribo.
Naquele dia lançavam um CD-Rom sobre todo o entorno da Gamboa e mantinham no mesmo evento os encontros que esquentavam os tamborins para o desfile do Escravos da Mauá, o bloco do mesmo grupo fazendo história no Largo de São Francisco da Prainha, bem no pé do morro.
Dias depois visitei a delicada capela na Rua do Jogo da Bola, sentei no bar do seo Odílio, zanzei pela Travessa do Sereno, comi sardinha na Pedra do Sal e quase me mudei pra Sacadura Cabral quando bebi o chope do Penafiel, extinto bar da região.
Todo esse trajeto ficou tatuado no meu coração.
Conversei com o Aldir sobre o casario do Largo, mapeei a conversa citando a Rádio Nacional como bússola e o encanto da novidade fez nascer um samba chamado ‘Praça Mauá: Que Mal Há?’ que eu gravei no disco ‘Samba da Cidade’.
O música não cedeu a euforia.
Conheci a Eliane, ponta de lança do Escravos e do Fabuloso.
Agora me falha o momento desse encontro. Confesso que, inspirado nas tradições do bairro, eu era marinheiro de primeira viagem no bloco, desconhecendo o tamanho de foliões que a agremiação ali já somava.
Eu estava produzindo o disco do grande mestre Casquinha. Minha cabeça se dividia entre os acordes de “leva o Recado’, parceria dele com o Paulinho da Viola, e a beleza do ensaio, vivido numa dessas mágicas sextas-feiras que o ‘Escravo’ produz.
Essa foi a inspiração.
O troço mexia tanto na cabeça que fiz o samba todo sentado num bar na Tijuca com os amigos caçoando da minha traição ao Nem Muda Nem Sai de Cima, o bloco da casa.
Enredo de homenagem, consegui localizar a amiga Eliane que logo foi me visitar no estúdio com o Casquinha.
Entreguei a fita, acreditando em fechar ali o meu respeito pelo presente da convivência.
Não esperava dois meses depois ver o bloco Escravos da Mauá desfilar com os meu versos, carregando uma pequena multidão de cariocas num movimento de navio humano singrando as ruas do bairro até, em poucas milhas, cruzar o mar da Avenida Rio Branco.
Quem ganhou o presente fui eu.
Nesta sexta/22 tem ensaio ‘na’ São Francisco da Prainha. O bloco agora se aproxima do Bola Preta na importância dos foliões. Naquele recanto uma realidade nova se instalou, com o Trapiche Gamboa, O Sacadura, a descoberta do Gracioso, o crescimento do Batucadas Brasileiras, até a fama de outra roda de samba na Pedra do Sal.
Tudo na inspiração do Escravos, de quem também sou acorrentado.

Na foto, além da Eiane e amigos, a presença do querido Pedro que a  cada semana emplaca uma frase carinhosa nos autos da agremiação.
Escravos da Mauá
Busquei do mar
O Som do Rio de Janeiro…
Depois são pedras preciosas
Ciatas, Gamboas e Rosas,
O “Fabuloso” abre  alas no terreiro
É São Francisco da Prainha
Passarinho, passarinha
Demorei pra te encontrar
Escravos da Mauá
Me diz aí o que é que há!
Escravos da Mauá
Eu vim aqui me libertar!

Memórias, acenando da janela
Uma lua sentinela
Prateando a lua cheia
Ramos de pandeiros, platinelas
Conceição abre a capela
Pra manter a chama acesa.
Vim chorar por ti
Uma samba fez me emocionar
Escravos a Mauá
Me diz ai o que é que há!
Escravos da Mauá
Eu vim aqui me libertar!