Coração do Agreste
29 de abril de 2009
Zanzar, o verbo, tem se repetido nos meus textos quando escrevo sobre ir as editoras saber das novidades. Quase Xangô.
Mas foi assim por todos os anos 80 quando me ocupei de ser exculsivamente compositor, um sonho antigo. Gravei sim um disco em 88, mas havia um sentimento de registro, apenas.
Parentesis.
Eu queria ser como Paulinho Pinheiro, Aldir, HermÃnio. Se ocupar de pensar a música e deixar o intérprete dar asas a canção, levar à s pessoas.
Impossivel. O direito autoral não paga uma cota extra de condomÃnio.
Assim, quase sempre em parceria, gravei três músicas com a Nana Caymmi, quatro com a Leni Andrade, seis com a espetacular Fátima Guedes, outras tantas com a amiga Beth Carvalho.
Gravei com Elimar Santos, Rosa Passos, lucinha Lins, Dorina, olÃvia Hime, EmÃlio Santiago, Maria Bethânia, Paula Santoro, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, graças a Santa CecÃlia, muita gente boa.
Foi numa dessas “zanzadas” que soube da procura de músicas para se transformar em trilha sonora para novela Tieta. Temas de personagem.
Meu editor, Chico Ribeiro, tinha umas anotações sobre a sinopse, entendendo a importancia de algumas canções necessárias.
Olhei o tÃtulo. ‘Tieta” - papel de Beth Faria.
Era a mulher que sai expulsa da cidade e volta rica, coisa e tal, puro Jorge Amado.
Conversei com o Aldir. Seria uma experiência nova.
Fizemos a música num fim de semana e a canção amanheceu entregue.
Horas depois recebemos um telefonema do Chico:
- Amigos, o pessoal adorou a música, alias, adorou a letra. Acham que a música podia ser mais vibrante.
A conversa seguinte eu já não ouvia. Pedi um dia pra tentar resolver esses agudos, outra cadência, novos acordes, sei lá.
Uma nova leitura no versos do meu parceiro e a música saiu.
A melodia tinha que falar de voltar no curso, rever o percurso.
Essa é a inspiração.
Entreguei a fita cassete as dez da manhã de uma terça-feira. Refiz o ‘percurso’ do Alto da Boa Vista até encontrar o Aldir me esperando na janela da Garibaldi:
- Moa, o Chico ligou. Adoraram a música. Entramos na trilha!
Coração do Agreste.
No dia seguinte o maestro Julinho Teixieira preparou um arranjo inspirado pra voz frondosa da Fafá de Belém.
No último capÃtulo da novela fui a janela respirar da emoção, quando notei na rua a intensa cor azul das tevês refletino na salas de todas casas da rua. E a música tocando nos créditos finais.
Ganhamos o Prêmio Sharp de melhor canção popular em 1889 e, por conta dela, me calei ouvindo mais mil pessoas cantando seus versos numa praça em Tubarão, Santa Catarina.
Regressar é reunir dois lados
À dor do dia de partir
Com seus fios enredados
Na alegria de sentir
Que a velha mágoa
É moça temporã
Seu belo noivo é o amanhã
Eu voltei pra juntar pedaços
De tanta coisa que passei
Da infância abriu-se o laço
Nas mãos do homem que eu amei
O anzol dessa paixão me machucou
Hoje sou peixe
E sou meu próprio pescador
E eu voltei no curso
Revi o meu percurso
Me perdi no leste
E a alma renasceu
Com flores de algodão
No coração do agreste
Quando eu morava aqui
Olhava o mar azul
No afã de ir e vir
Ah! Fiz de uma saudade
A felicidade pra voltar aqui



