Pirajá
No dia 24 de março de 1999, há exatos dez anos, foi realizado em São Paulo o show Esquina Carioca.
A história começa antes.
Conheci o Bar Pirajá em 98, comemorando um show ao lado do mestre Elton Medeiros no Sesc Ipiranga. Um registro: entre os músicos do show, Beto Cazes, Carlinhos Sete Cordas, Pedro Amorim e Cabelinho!
Havia uma resistência minha. Eu frequentava direto o Villaggio Café, no Bexiga, e guardava um certo receio por coisas novas na capital paulistana.
Pois é, meus amigos. O bar prendia na parede dezenas de quadros e, sobre a minha mesa, um em particular se destacava: - Seo Rubens, garçom já falecido do Bar da Dona Maria, o buteco da minha rua na Tijuca.
Olhei em frente, e, na coluna, outro retrato, agora de corpo inteiro, do Vieira, craque veterano do Lamas, centenário bar carioca. - Puxa vida, meus amigos já bebiam aqui e não avisaram nada! No cardápio, um sanduíche nominado Aldir Blanc, sardinhas estilo Miguel Couto, empadas e mais fotos do Salete, clássico tijucano. Um sonho. Chegou à mesa uma carne seca na farinha, pura intuição do Amendoeira, aqui de Bonsucesso e, num copinho americano, um consistente caldinho de feijão com direito a torresmos que emolduravam a tijela. Enlouqueci.
Por sugestão e a contra-gosto, levei uma caixa do Mandingueiro, recente CD na época, discos , todos, que vendi em dez minutos.
Fui tocar um violão quando o lugar já fechava, no exato momento em que nos tornamos amigos íntimos e definitivos.
Comecei a levar parceiros cariocas pra testemunharem nossa nova embaixada. Primeiro foi Luiz Carlos da Vila. Depois, Beth Carvalho, Walter Alfaiate e João Nogueira.
Lá servem um bacalhau desfiado que deve ser preparado por Salvador Dali. É surreal.
Esse era o prato preferido do João. Meu grande trunfo quando queria convencê-lo a sair do hotel:
- E o Bacalhau, João?
- Nem me fale, meu cumpáaaaaaadi!
É preciso um estudo sobre o Pirajá. Tenho uma convicção de que esse bar mudou a história dos butecos do Brasil. Exagero?
Viro móveis e utensílios do lugar.
Edargd, um dos sócios, me conta ser amigo do Elifas Andreato, grande artista brasileiro. Jaguar acabara de criar o Zé do Pira, personagem animado pra decorar as cartelas do chope, meu amigo Lan já dava as caras tomando uma farta caipirinha mexida num palito de picolé, tudo pedindo uma comemoração.
Num sábado de 99, início, sentados em volta de uma garrafa de genebra amarela, pensamos em criar um show com aquele espírito que nos rodeava, o estado de espírito carioca.
Elifas imagina o palco na platéia, eu sugiro engraxates e vendedores de amendoim servindo o público e a máquina de realizar idéias chamada Pirajá ajeita o carro pra em março de 1999, há dez anos, nascer o show Esquina Carioca, o primeiro de uma série de eventos que marcaram muito positivamente um momento de samba na cidade de São Paulo.
O assunto é longo.
Na foto, Walter Alfaiate, Ziraldo e meu amigo Zé Luiz, do Villagio, dando o tom de mais um ‘Encontros-Pirajá’. Um detalhe para os iniciados: ao fundo, Luizinho Drink’s nos ajudando com discos e livros.
Por enquanto no link, uma dica do que os craques Edgard, Fernando, Mario, Ricardo e Sergio vêm inventando por aí:
Tags: Elifas Andreato, Villaggio, Walter Alfaiate

24 de março de 2009 às 9:27
O Luizinho tá em todas!
24 de março de 2009 às 13:17
Ainda diz que tijucano que sossego!!!! Vai gostar de bar assim láááá´…em Vila Isabel. Abração de Londres e se um dia tiver um tempinho, venha saborear um gin aqui na terra da Rainha.
24 de março de 2009 às 15:54
Moa,
Artistas e bares sempre formaram parcerias importantes. Essa nossa nos enche de orgulho. Que venham novos Esquinas,
Puta abraço,
Ricardo do Pirajá
24 de março de 2009 às 21:51
Moa, o conhecia apenas de encartes de CD’s e de vinal. Sempre fui um devorador disso. Ano passado vi uma entrevista tua no Jô e o teu nome me veio novamente na memória. Agora, junto com o novo youpode, tu nos brinda com histórias maravilhosas sobre o melhor do samba.
Lendo as tuas linhas fui em busca de outras referências, como o samba do trabalhador e algo que já tivesses publicado. Como bom cervejeiro, cachaceiro e bêbado de bar, comprei, via internet num sebo, o teu Boteco de Bêbado tem dono.
Estou louco pra ler e saber mais sobre tudo.
Um grande abraço do teu novo fã
Jorge Jr.
Florianópolis - Terra do Já Teve
25 de março de 2009 às 15:34
O Pirajá sem dúvida mudou a história dos butecos, se não do Brasil, com certeza de São Paulo! Fui frequentadora assídua daquela esquina, mas de lá pra cá muita coisa mudou, infelizmente pra pior, principalmente no quesito serviço (mais especificamente garçom), diferentemente dos outros estabelecimentos dos mesmos donos que seguem muito bem. Uma pena!Fui ao grande show esquina carioca entre outros eventos que por ali rolaram, e fiquei feliz com o Ricardo acenando aqui “que venham novos Esquinas”. Que venham mesmo! Quem sabe assim o Pirajá retoma o que um dia a Beth Carvalho chamou de “esquina mais carioca que existe”! Que saudades…
No mais, delícia de BLOG! Vou indicá-lo no meu!
Beijo.