Anjo da Velha Guarda
30 de março de 2009Seria uma noite erudita. A frisa especial no Theatro Municipal me proporciona a oportunidade de viver uma emoção diferente ao assitir o arranjo original da cantata Carmina Burana, de Carl Off. Com um coro de 70 vozes entre os instrumentos fundamentais de uma orquestra, a abertura me arrebatou de vez. O teatro no Rio fica na Cinelândia, quase uma praça que divide espaço com poucos cinemas, alguns bares de mesas na calçada e a Câmara de Vereadores (também tem a Biblioteca Nacional, eu sei).
Descrevo esse mapa pra justificar minha cegueira após o concerto. Corri dos smokings sem notar pelas passadas um destino traçado: na rua da Lapa, um sobrado na esquina em frente a ACM, uma roda de samba comandada pelo mestre Monarco.
Escada em caracol, subo ouvindo os acordes de Tantas Lágrimas na voz clássica de Cristina Buarque, a convidada da noite.
Já me bastava pra voltar a realidade, mas chegam dois maravilhosos sambistas: Almir Guineto e Zeca Pagodinho.
O ano é 1996.
Monarco anuncia a presença e insinua nas palavras que o Zeca, apesar da idade, é o padrinho da Velha Guarda da Portela.
Se abraçam no palco. Eu com a cantata na cabeça, me emociono.
Dia seguinte, num dos telefonemas matinais com o meu parceiro Aldir, falo de raspão sobre Carl Off e gasto todos os meus impulsos descrevendo a imagem que guardei no cumprimento Monarco & Zeca.
Veio à memória um desfile da Portela, na Sapucaí. Eu, rondando as concentrações, fui ao Balança Mas Não Cai apresentar meus respeitos a Azul e Branco. A última ala pertence a Velha Guarda. Encosto na grade e aceno pras dois amigos: Zeca e meu querido Camunguelo, elegantes num terno branco e brasão no peito.
É outra imagem que marcou pela humildade, acima de tudo.
O samba precisa insinuar um desfile.
Essa é a inspiração.
Acho que música e letra, moa & aldir, ficaram prontas no mesmo dia.
Anjo da Velha Guarda.
Gravei primeiro no CD Mandingueiro - Dabliú. Depois, Vânia Abreu, Dorina e Roberto Mendes também registraram em seus discos. Incluí o samba no CD Moacyr Luz Violão & Voz, pela DeckDisc e outro dia li no verbete Zeca Pagodinho apresentado no espesso livro Enciclopédia da Musica Brasileira de A a Z, que o samba foi feito em homenagem a ele.
Meu amigo Nei Barbosa providenciou uma visita a Xerém pra uma cerveja bem informal. Chegamos antes das dez horas da manhã, meu horário preferido e o freezer foi renovado algumas vezes.
Cantei o Anjo pra ele, uma ocasião especial pra mim.
Dez anos depois de composta recebo um telefonema do craque:
- Moa, vou gravar o Cabô, Meu Pai.
A música está no disco Acústico Gafieira e, com a ajuda dos anjos, entrou no repertório do show, deixando seus versos mais suingados e bem perto do público.
Não bastasse o presente, Batucando,o novo CD que saiu pela Biscoito Fino abre com a faixa Vida da Minha Vida,minha parceria com Sereno, e a voz que divide o samba comigo é de Zeca Pagodinho.
O terno branco parece prata
E a fita em meu peito diz que eu sou
Daqueles que vão pra Maracangalha
Rever Anália
Eu vou
No vento que leva o chapéu de palha
Também sou de fibra e pau-brasil
O samba é tudo que eu sei
E Momo é o único rei que amei
Sou a sétima corda e passo devagarinho
Com Rodouro no coração
Meu nome em letras de ouro
É parte do tesouro de qualquer agremiação
De cuíca eu manjo
Também vou de banjo
Fiz das avenidas meu salão…
Fidalguia esbanjo
E danço com meu anjo
Eu sou da velha guarda, meu irmão!





