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Genética

13 de dezembro de 2011 por Moacyr Luz

Talvez um texto pretensioso.
Entro na cidade de São José do Vale do Rio Preto ainda no impacto das enchentes do início do ano.
O rio margeando a pequena estrada permanece caudaloso, no pé das paredes caídas.
Vestígios da natureza.
Reparo numa loja de comércio e seu nome fantasia: - Águas de Março Ltda.
- Cara de pau! Penso, seguindo no carro que levará ao show do dia.
Paramos na Calçada da Cultura, a rua que recebe os eventos destacados pela prefeitura.
Pendurado sobre cavaletes uma imagem do maestro Tom Jobim. Mais a frente, Pixinguinha e Albino Pinheiro.
Estou impressionado com interesse real sobre a música brasileira.
Mais tarde compreendi a raiz de tudo isso, a genética desse filho serrano.
Nesta mesma região existe o sítio que pertence a família Jobim.
Foi olhando o rio nervoso que o nosso gênio compôs Águas de Março e Dindi.
Confesso, chorei.
***
Ha poucos dias reencontrei a dona do Bar da Portuguesa, bar que eu conhecia pelo nome de Copão de Ouro, em Olaria.
Dona Donzília, assim ela se chama.
Lembro de quando visitei o “butiquim”, perto da estrada do Itararé, quem conhece, sabe.
Estou impressionado com a arquitetura e a beleza do salão.
Dona Donzília me traz uma bebida e um assunto abre o apetite:
- Que beleza! belo bar!
- Ah, MOa. Quem gostava muito daqui era o Pixinguinha. Vinha aqui todos os dias..
- Pixinguinha? Engasgo.
- Ele morava nessa aqui do lado…
Estico o pescoço e avisto a placa do logradouro: - Rua Pixinguinha.
Foi quando compreendi a raiz de tudo isso, a genética desse pé limpo imortal.
***
Na foto estou com o meu filho Arthur.
Convivo pouco com ele, coisas da vida. Estamos distantes quase tres mil quilômetros.
Lembro de uma visita, nós dois no hotel em que eu me hospedara.
Um banho rápido pra mais conversa, a porta entreaberta e escuto ele pegar meu violão.
Fecho o chuveiro e ouço ele fazer acordes parecidos com os meus.
Um susto maravilhoso  “adrenilou” a minha cabeça.
Foi quando compreendi a raiz de tudo isso, a genética de todos nós.
Em tempo: Vaidoso, profundamente comovido, virei cavalete na Calçada da Cultura.
Muito Obrigado, rapaziada.

O Parador

6 de dezembro de 2011 por Moacyr Luz

Ando saudoso da inocência.
Não existia UPP e eu já andava de ônibus, alta madrugada,voltando pra a casa do Meier, desde Copacabana e Botafogo, bairros que comecei a arriscar meu violão profissional.
Péssimo aluno em Ciência e suas apostilas, desconhecia o tal de Ômega-3 e já salivava com as sardinhas da Miguel Couto, quando fritas e, às vezes na lata, sempre duro.
Mais novo ainda, era elétrico, espoleta, travesso.
Hoje eu seria um hiperativo.
Esta semana, abençoada por Nossa Senhora da Conceição  e datas marcantes (morte de Tom Jobim, aniversário do gênio Noel Rosa) o Canal Brasil apresenta uma nova série de programas chamada de Álbum de Retratos.
No mesmo formato do projeto lançado em livro, artistas abrem seus baús de fotografias para contar um pouco a sua história.
Estréia dia 9 de dezembro com a dupla Roberto Menescal e Cesar Vilela.
Por que escrevo esse anúncio? A idealização, modestamente, é do agitado, aqui.

http://canalbrasil.globo.com/programas/album-de-retratos/materias/historia-contada-por-fotos.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No sábado que passou, mais um encontro no Bar Pirajá.
Básico, Para Ver as Meninas é uma mostra dessa tradição brasileira, a voz feminina em nossa música popular.
Dessa vez, Mariana de Moraes e Thais Macedo cutucaram no salto alto.
Mariana, neta no mestre Vinícius, cantando a família, emocionou.
Thais é viço, é natureza, é verdejante folha desse quintal. Não bastasse a minha alegria de conviver, ainda gravou dois sambas meus em seu disco de estréia.

***

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pra frente tem a companhia do Samba do Trabalhador, dia 9 de dezembro em São José do Vale do Rio Preto. Dia 11, com o meu querido Dudu Nicácio, em Belo Horizonte, na quadra da Escola de Samba Cidade Jardim.

***

O blog anda com notinhas curtas. Do tempo da inocência, o sorriso.
A reboque, muito trabalho.
O vinho é bom, mas uma boa cachaça não tem preço!

Dia 2

2 de dezembro de 2011 por Moacyr Luz

Escrevi esse texto ha exatos 365 dias para o jonal O Dia.

Amanhece dia 2 e nem é fevereiro, dia de Iemanjá.
Os versos de meio de ano ainda estão na garganta, a quadra lustra o cimento na cor da escola.
No pagode improvisado, as mesas fazem trincheira interditando a porta do bar.
O cavaco arranhado a palheta, dá o tom:
- Hoje é dia de 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba!
  Agô, João da Baiana, “bença” Clementina
  Salve Monarco, Sargento e Zeca Pagodinho!
Um bem imaterial, o samba pulsa forte no Rio de Janeiro.
O trem lotado abre na roleta o riso escancarado do passista anônimo. Ele vem desfilando desde a gare, interrompe o trânsito na Presidente Vargas e cadencia o hino deste enredo:
- Samba, agoniza, mas não morre…
Um bandolim emprestado dos choros cariocas sola a melodia de “Feito de Oração”, o ritmo aumenta a caminho de Oswaldo Cruz quando a percussão repica o início de “A Batucada dos Nossos Tantãs” e a comunhão está formada.
A data é pra comemorar, já é quase feriado, o mapa da cidade ganha forma de pandeiro, onde as platinelas refletem o alto das comunidades.
Na verdade, o samba se ajeita cotidiano. Domingo tem Cacique de Ramos, tem Tia Doca. Segunda é Samba do Trabalhador, na terça, Serginho Meriti e, quarta-feira, o cozido é o prato de resistência de uma roda no Recreio dos Bandeirantes.
Todo o sábado tem feijoada na agremiação, a velha guarda entra com chapéu de aba curta, o repertório é nobre, clássicos que emocionam grisalhos e meninas com sandálias de dedo.
Salve, Candeia:
- Vem pra roda menina, mexer com as cadeiras vem sambar…
Canta, Zé Kéti:
- Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo sim, senhor…
Sim, hoje é o Dia Nacional do Samba, samba que doeu nas costas de Donga, da Tia Ciata. Samba hoje coroado no Itamarati.
No abre-alas de Ismael, Cartola e Paulo da Portela, um surdo de marcação conduz a história desse sentimento. O alfabeto  de Ary ,Arlindo e  Almir Guineto,  segue Bide, Bezerra e Bira Presidente, avança com Cartola, Casquinha,  Dona Ivone, Diogo, Elton Medeiros, Franco, Guilherme de Brito, até se curvar por Luiz Carlos da Vila, Leci, Marçal e Zuzuca.
É a força popular de medalha no peito.
Dia da Consciência Negra.
Dia Nacional do Samba:
- Cabô, meu pai. Cabo!

Novembro

29 de novembro de 2011 por Moacyr Luz

Procuro um assunto. O blog bate na porta, reclama do meu atraso e eu tento me justifcar.
Novembro foi forte nesse coração suburbano.

 

 

 

 

 

 

 

 Encontrei Martinho da Vila na festa do Bar Samba. Cantamos o “Samba dos Passarinhos” e eu voltei pro hotel voando…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Ainda pelas curvas de São Paulo, conheci Piracicaba e um grupo de bandeirantes fazendo samba como gente grande. Guloso, comia peixes na brasa desde a agora que acordava…

 

 

 

 

 

 

 

 

O Renascença, minha inspiração carioca, abriu as portas pra duas mil pessoas na véspera do ferido da República. Confesso que bambeei quando os versos de “Vida da Minha Vida” voltavam em mil vozes à  cabeça desprotegida…

 

 

 

 

 

 

 

 

 A noite terminou na Fundição Progresso, aniversário do Flamengo, outra religião.
Ainda com a cortina fechada, ouvindo o anúncio do show na euforia da platéia, olhei o Samba do Trabalhador e o meu semblante era de um náufrago, querendo respirar…

 

 

 

 

 

 

 O grupo  seguiu, mês a fora,  pra Quissamã e São João de Meriti, estrada e boa companhia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não posso esquecer a Casa Rosa…

RioScenarium as quartas dessa primavera doida…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nem mesmo o carinho do grupo Tradição, de Belo Horizonte, traduzindo o meu repertório no Bar Gamboa, um luxo mineiro.

Novembro foi alucinante pra um compositor que não toca no rádio.
Convidado, participei na gravação do primeiro disco do Batucadas Brasileiras, um maravilhoso trabalho com os nossos ritmos fundamentais. Compus com o lendário Luiz Galvão, letrista do Novos Baianos, oito músicas pra esse projeto…
Recebi de presente do amigo Abel Duerê, nascido angolano, coração carioca, seu mais recente disco “Meu Semba, Teu Samba”.
No repertório, “Ecumenismo” parceria Moa & Nei Lopes.

Dezembro chega abrindo as portas.
Nesta sexta, a convite do craque Carlinhos Sete Cordas, vamos inaugurar o Espaço Maestrina, novo palco no outro lado da baía, Niterói.
Sábado, tem Pirajá e o projeto Para Ver as Meninas.
O blog entende e me oferece água.
Aceito um vinho.

Quilombola

15 de novembro de 2011 por Moacyr Luz

O Blog hoje é em homenagem a uma cidade paulista, Piracicaba.
Nome do rio que corta a região, tem uma urbanização horizontal inlcuíndo a Escola de agricultura, e, na mesma latitude, a Rua do Porto, fechando de bares na margem  daquelas águas.
Enormes churrasqueiras assam peixes em cortes impressionantes. Ironicamente chamados de “filhotes”, cada posta parece um “steak” dos desenhos animados.
A apertada agenda de trabalho me fez aproveitar esse paladar na primeira hora possivel do domingo, dez da manhã.
O sábado foi dedicado a apresentação ao lado da Comunidade Quilombola.
A roda de samba formada num casarão que pertence ao Divino Espírito Santo, emociona.
A quadra tem o chão de cimento, mas o que você sente nos pés é a terra das raizes desse enredo.

 

 

 

 

 

 

 

Chego cedo pra assistir o Mestre Dado, a vida dedicada em manter a tradição dos tambores feito o jongo da Serrinha, no couro da região.
Estou arrepiado. A juventude dança um balé do passado com passos no futuro.
Os músicos ensaiaram com a público. Todos receberam as letras dos meus sambas e os refrões brilhavam nos acordes afinados.

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma aula de intenção, manter a chama acesa.
O projeto se chama 14 Sambas, mas o repertório correu solto na alta madrugada.
Me escondi mais cedo sentindo o coração descompassado à tanta consideração.
Agradeço as fotos da Lu Pololi, uma loura-quilombola.

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Em tempo:
A presença do parceiro e craque Martinho a Vila no aniversário do Bar Samba, coroou essa casa de batucada.
Andamentos diferentes pra mesma reza, da bateria da Padre Miguel a Gera; Grupo Dose Certa e outras vozes dessa música chamada resistência.