“O Globo” não se emenda.
Seu oportunismo continua a mil.
O jornal publica, diáriamente, uma página de opinião. Poderiam ser duas, três, mas seus editores acreditam que dois editoriais por dia estão de bom tamanho. Isso ocorre por falta de assuntos, ou de articulistas, ou para economizar papel, ou para não chatear os leitores – a razão mais plausível, já que o jornal sabe, e sabe muito bem, que sua liderança no Rio deve-se, única e exclusivamente, a qualidade de seus repórteres e colaboradores. E não de seus editoriais. Há anos, a ‘voz do dono’ não forma a opinião de absolutamente ninguém, embora isso não seja um fenômeno exclusivo de jornal carioca.
Como ninguém lê seus editoriais, o jornal decidiu editorializar algumas reportagens. E raro o dia em que ele não encontra nada para criticar o Presidente da República. E sempre em meio ao noticiário, o que não é bom para uma publicação que, há 85 anos, luta para conquistar credibilidade.
O interessante é que, apesar de fazerem parte de uma mesma organização, a linha editorial do jornal, nada tem a ver com a da televisão, que é diferente linha adotada na radio. Mas isso não é assunto para hoje. O fato é que ‘O Globo’ é atualmente o jornal mais reacionário do país e, por conseqüência, o maior crítico do Presidente,
Ulysses Guimarães tinha uma bela imagem sobre o seu MDB. E Lula poderia se utilizar dela, para ironizar as críticas que recebe do jornal:
- Assim como o PMDB de Ulysses, Lula é igual a pão-de-ló. Quanto mais ele apanha, mais ele cresce.
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O Presisente esteve ontem em Santiago - em “uma visita relâmpago” - para encontrar-se com Michelle Bachelet, e conhecer suas reais necessidades, depois que parte do Chile foi devastado por um terremoto que matou centenas de pessoas, e feriu outras milhares, além de destruir cidades inteiras no interior do país.
‘O Globo’ não gostou da viagem de Lula, e decidiu reclamar, na primeira página e, também, num ‘box’ na página 26, de sua ausência nas “tragédias domésticas”.
Vejam a reportagem:
“A prontidão com que o presidente Lula se dispôs a se deslocar para o Chile para prestar solidariedade às vítimas do terremoto que atingiu o país no sábado se contrapõe à atitude que adotou em outras catástrofes no Brasil. Em dois acidentes aéreos, por exemplo, que vitimaram cerca de 350 pessoas, o presidente sequer foi ao local para prestar condolências aos familiares.
No caso do voo 1907, da GOL, que em setembro de 2006 caiu após se chocar com um Legacy da Embraer pilotado por dois americanos, Lula divulgou uma nota de pesar. No acidente da TAM, em julho de 2007, o presidente demorou três dias para fazer um pronunciamento na TV, lastimando a tragédia e prestando solidariedade às vítimas. Ele só recebeu uma comissão de familiares em agosto.
Com enchentes, ocorreu o mesmo. Em novembro de 2008, por exemplo, 84 pessoas morreram em Santa Catarina.
As cheias atingiram 14 cidades. O presidente demorou pelo menos uma semana para ir ao estado e sobrevoar as áreas. Isso também ocorreu em maio do ano passado, quando a chuva deixou mais de sete mil famílias desabrigadas em 21 municípios do Piauí e também no Maranhão”.
Vamos lá.
O Presidente Lula foi ao Chile, e prometeu enviar um hospital de campanha, além de quatro equipes de resgates para tentar salvar sobreviventes, muitos ainda embaixo dos escombros. E mais: ajudará na reconstrução do Chile.
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Agora vejam os exemplos do ‘Globo’.
Primeiro ele reclama da ausência do Presidente em dois episódios de desastres aéreos, um da Gol e outro da TAM, quando, como se sabe, lamentávelmente, não houve sobreviventes. Mas o que ‘O Globo’ queria? Que o Presidente descesse, por uma corda, no meio da selva amazônica para ajudar no regaste dos corpos? O que ele iria fazer lá? E em São Paulo, no desastre da TAM onde os corpos foram carbonizados? Será que o jornal queria que o Presidente participasse do reconhecimento das arcadas dentárias ou ele deveria prometer ajuda a TAM na reconstrução do galpão onde o Airbus caiu?
Há quem possa argumentar que Sarkosy apressou-se a ir ao Aeroporto Charles De Gaulle, quando soube do desaparecimento do vôo da Air France, que havia saído do Rio, e não pousara em Paris. Mas esse é um caso totalmente diferente.
1 – Além de ter a sua bandeira, o Airbus era de fabricação francesa. Sarkosy foi ao aeroporto menos pelas vítimas, e mais pela indústria francesa.
2 – Na hora que Sarkosy foi ao aeroporto, ainda havia a esperança de sobreviventes, já que o avião estava desaparecido e não se tinha noticia da explosão do aparelho.
Lula, ao contrário do que pensa ‘O Globo’, não foge de seus cadáveres, embora saiba que, como todo mortal, ele é impotente diante deles. Mas não se furta a homenageá-los e reverenciá-los.
Há dias, ele fez isso com o grupo de soldados e oficiais do Exército mortos no terremoto do Haiti. Antes já havia ido ao velório da Dra. Zilda Arns, em Curitiba. Ao longo de seus dois mandatos, ele compareceu ao velório dos governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes, dos deputados Carlos Wilson e João Hermann Filho – os dois no mesmo dia, um no Recife e o outro em Campinas – se emocionou, às lagrimas, no de Dona Ruth Cardoso, compareceu a outros protocolares, como o do Papa João Paulo II, e até mesmo de adversários, como foi o caso do Dr. Roberto Marinho, que ainda ganhou luto oficial por três dias.
O que ‘Globo’ quer mais? Que o Presidente fosse a cada um dos 350 sepultamentos dos que morreram na Gol e na TAM? Por que deveria comparecer? Porque viajavam de avião? Por que não cobram a presença do Presidente em enterros dos que morrem em naufrágios em rios da Amazônia, em acidentes de ônibus nas estradas brasileiras (normalmente ônibus de excursões), ou nos de motoboys atropelados diariamente no país?
Reclamam que o Presidente demorou uma semana para sobrevoar áreas que sofreram enchentes em Santa Catarina. Mas ao que se saiba, no primeiro dia não houve enchente, houve uma chuva forte, assim como no segundo. Os rios foram enchendo e aos poucos transbordando. Lula esteve lá quando as enchentes estavam no seu ápice. Ele não foi nem na cheia, nem quando o problema estava diminuindo. O mesmo vale para as chuvas do Piauí e do Maranhão.
Lula viajou para o Chile, pois lá existem sobreviventes, e muitos ainda estão debaixo dos escombros. E é preciso encontrá-los e resgatá- los.
Lula viajou para o Chile, pois o país perdeu quatro mil leitos hospitalares, e eles precisam de um hospital de campanha para que possam continuar salvando vidas.
Lula viajou para o Chile, pois parte do país precisa ser reconstruído. E ele não poderia reconstruir nem o Boeing da Gol que se espatifou na Amazonia, e muito menos o Airbus da TAM que ardeu em Congonhas. O Presidente não tinha o que fazer em nenhum desses lugares.
É pena que ‘O Globo’, jornal editado no Rio de Janeiro, não tenha a mesma disposição para criticar as ausências do governador Sergio Cabral, em muitas das tragédias que assolaram o Estado nesses três anos de seu governo. Mesmo quando o jornal trata de assuntos corriqueiros da cidade, a preocupação de preservar o chefe do Executivo é notória e, na maioria das vezes, desavergonhada. Aqui, Cabral não tem nada a ver, com absolutamente nada. E esse é o único ponto que une ‘O Globo’ e o Presidente Lula. Os dois estão unidos, de mãos dadas, para preservar Cabral.
No Rio, o que não falta é a ausência do governador do Estado, mas ‘O Globo’ finge que não vê.
Haverá o dia em que, por puro entusiasmo, ‘O Globo’ publicará um editorial reclamando, por hipótese, da ausência de Lula na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde morreram 90 toneladas de peixes, num dos maiores acidentes ecológicos do Rio, enquanto o governador continuará sem ser entrevistado sobre o assunto. Nem sobre esse, nem sobre nenhum outro.
São poucas as vezes que Cabral emite alguma opinião. Mas, nessas horas, ele manda avisar àqueles a quem ele patrocina.
Lula, por sua vez, continuará apanhando pelo o que fez, pelo o que deveria ter feito, pelo o que deixou de fazer, pelo o que pensou em fazer e não fez, pelo o que fizeram por ele em seu nome, ou mesmo sem o seu conhecimento, e por tudo o mais.
E o pão-de-ló continuará crescendo – deixando perplexos àqueles que ainda se julgam poderosos, e se imaginam capazes de dominar corações e mentes.