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O cardiologista da República

7 de março de 2010

 De Tatiana Farah, de ‘O Globo’:
“Luiz Inácio Lula da Silva, José Alencar, Dilma Rousseff, José Sarney, Fernando Collor, Paulo Bernardo, Paulo Maluf e José Serra. A lista de pacientes de Roberto Kalil Filho tem segredos de três décadas da política brasileira, mas o cardiologista prefere ser visto como médico de família, à moda antiga, do que ser chamado de “médico do poder”.
— É claro que tem um lado bom em ser o médico do presidente, mas há outro lado. Alguns pacientes pensaram “agora ele vai ficar viajando o mundo inteiro e não terá mais tempo para mim”. Não é verdade. Eu atendo a todos e gosto de acompanhar cada caso. Se quebrou o pé, quero saber — diz Kalil, que, para dar conta do recado, começa às 8h e só para à meia-noite.
Aos sete anos, Kalil ganhou um microscópio do pai. Agora, aos 50, já deu estetoscópios e aventais brancos, bordados com os nomes, para estimular nas filhas adolescentes algum gosto pela medicina.
— Elas têm duas opções, podem ser médicas ou médicas — brinca o médico, que começou ao lado do tio, Fúlvio Pileggi, diretorgeral do Instituto do Coração (InCor) nos anos 80.
Foi com Pileggi que Kalil aprendeu a ser rigoroso e cobrar muito dos assistentes: — Meu tio dizia: “Não quer ficar 24 horas trabalhando? Está cansado? Então vá fazer balé, tricô, ficar em casa. Porque médico trabalha 24 horas”. Eu sou mais bonzinho que ele, pelo menos de madrugada, em emergência, eu não faço as assistentes correrem para o hospital. Venho eu mesmo, até porque eu gosto de ver o que está acontecendo com o meu paciente.
Diretor de Cardiologia do Hospital Sírio Libanês, médico e professor do Instituto do Coração, Kalil está arranjando tempo para se dedicar mais à pesquisa.
Quer desenvolver no Instituto do Câncer um trabalho sobre o efeito dos quimioterápicos sobre o coração e as artérias.
— Um médico não pode ficar sem fazer ciência muito tempo.
Este é meu plano para agora.
Para cumprir sua jornada de “workaholic”, Kalil dispensa cinema, teatro, livros, passeios e férias. Em janeiro, “arrastado” pela mulher, a médica Cláudia Cozer, e as filhas, foi esquiar nos Estados Unidos. Resultado: a mão e uma costela quebradas.
Mas não é de hoje que a agenda de Kalil é fechada para o lazer.
— Quando era criança, o melhor dia das férias era o de voltar para casa. Quando era moço e solteiro, nunca fui a uma boate.
Não gosto de festas, se fui ao cinema, fui umas três, quatro vezes na vida (uma delas para ver o filme “Lula, O Filho do Brasil”).
Sou assim. Meu irmão, médico também, é um pouco diferente.
Kalil não para nem para conversar com colegas na lanchonete do hospital e, muitas vezes, passa reto, sem cumprimentar, com a cabeça “a mil”.
— Falam que eu sou chato, mas eu não gosto, nunca gostei de festa, de muita conversa. É só o meu jeito — admite.
O excesso de visibilidade em razão da agenda de pacientes famosos, principalmente do presidente Lula, incomoda um pouco Kalil. Para decidir dar a entrevista ao GLOBO, ele levou duas semanas.
Com a reportagem aguardando no hospital, ligou para o presidente do CRM (Conselho Regional de Medicina), para saber a opinião do órgão.
— Os médicos usam pouco o CRM e, lá, eles estão habilitados a nos orientar nessas questões éticas— justificou.
O melhor amigo de Kalil, também médico, é Lucio Rossini, especialista em endoscopia. Moram em São Paulo, mas passam mais de um ano sem se ver.
— É um amigo daqueles que, pode passar o tempo, será o seu melhor amigo. Devo muito a ele.
Quando começamos com um consultório, eu não tinha dinheiro, e abrimos juntos. Um atendia de manhã e o outro, à tarde.
Dinheiro e consultório hoje não são problema. Em um dos prédios ao lado do Hospital Sírio Libanês, os pacientes ficam cercados de sofisticação. No consultório que Kalil guarda o microscópio da infância e um ritual: sempre ter um vaso com rosas brancas.
— Sou espiritualizado.
Aprendi a acreditar quando vi minha mãe doente. Com fé e medicina ela se recuperou.
É a mesma receita de fé e medicina que Kalil vê como o sucesso do vice-presidente José Alencar na luta contra o câncer. Ele elogia o espírito otimista de Alencar e o jeito regrado de Maluf para cumprir os tratamentos médicos. Para o presidente Lula também sobram elogios, assim como histórias.
Kalil é seu cardiologista há quase 20 anos.
— Na eleição de 2002, o presidente, muito carinhoso, brincou com a minha filha: “Você votou em mim?” Ela respondeu: “não, votei no Serra”. Eu falei: “Filha, como assim? Você não votou em ninguém, você não vota”.
E ela respondeu: “Votei sim, fui votar com a minha mãe e apertei o 45 (número do PSDB)”.
Todos nós demos risada.
Mas política é um assunto que fica fora do consultório.
— Sou médico, não político.
Não tenho vontade de ser”.

25 anos de democracia

6 de março de 2010

De Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasileira de Notícias, no ‘Correio Braziliense’:
“A passagem do centenário de nascimento de Tancredo Neves, no último dia 4, chamou a uma reflexão sobre os 25 anos contínuos de democracia que estamos vivendo desde que ele foi eleito, em 15 de janeiro de 1985, e que José Sarney tomou posse em seu lugar, em 15 de março, após a espantosa noite em que o presidente eleito acabou sendo operado na véspera da posse, vindo a morrer em 21 de abril. Tinha 75 anos, exercitara a conciliação como saída para as crises e provara sua coragem política nos momentos cruciais. Com Getúlio até o fim, sustentou a posse do vice João Goulart após a renúncia de Jânio, não votou no primeiro general presidente, deu a mão a JK quando a ditadura cassou seus direitos políticos e o empurrou para o exílio.
Na quarta-feira, o Congresso realizou sessão especial em homenagem a Tancredo e na quinta o governador Aécio Neves, seu neto e herdeiro, inaugurou a cidade administrativa que leva seu nome, um novo conjunto arquitetônico de Niemeyer. As duas solenidades, sobretudo a última, reuniram boa parte dos atores ainda vivos daquela memorável passagem: o fim da ditadura, pelo caminho possível, a eleição indireta do primeiro presidente civil, mas com forte e decisiva participação do povo brasileiro. Lá estava Fafá de Belém, remexendo emoções com a interpretação do Hino Nacional que fazia nos palanques. Cristiane Torloni apresentando o evento como nos comícios das diretas e da campanha de Tancredo. Milton Nascimento cantando “Coração de estudante” , música-tema daqueles atos memoráveis. Pude chorar, como naquele tempo em que jornalistas podiam ter sentimento cívico.
No discurso de Aécio, a lembrança dos timoneiros que já se foram, como Ulysses Guimarães, Franco Montoro, José Richa, Brizola. E também os que, rompendo com o partido oficial e apoiando Tancredo, possibilitaram a vitória. ACM e Aureliano Chaves, entre os que já se foram. Muita gente mais jovem que ali estava, entretanto, não entendeu as simbologias reunidas por Aécio para lembrar não apenas Tancredo, mas a gloriosa travessia que fizemos, após 21 anos de arbítrio, usurpação dos direitos civis, prisões, torturas, desaparecimentos, exílios. Não temos conseguido transmitir às novas gerações o que foi a ditadura, não temos contado como saímos dela e, mais importante, não temos reiterado o quanto tem valido a pena a democracia.
A transição concluiu-se com a Constituinte e dela é o legado que tem permitido os nossos avanços. Exercitamos a cidadania como nunca antes em 500 anos. As políticas sociais que têm afortunadamente reduzido nossa desigualdade têm base na Constituição, que fixou as obrigações do Estado e alargou os direitos sociais. As liberdades foram asseguradas e, apesar de algumas fobias, a liberdade de imprensa e de expressão nunca foi tão plena nestas plagas. Muitas determinações a Constituinte deixou para a regulamentação posterior. O Sistema Público de Comunicação, que inclui a TV Pública, assegurando equilíbrio e complementaridade na exploração do bem coletivo que é espectro eletromagnético, tem previsão no artigo 223, embora alguns tentem caracterizá-lo como arroubo estatista. Na semana que vem teremos o centenário do Dia Internacional da Mulher. Elas foram protagonistas importantes na resistência e na ditadura, mas a democracia é que tem permitido a redução, ainda que incompleta, da histórica desigualdade de gêneros. Dezenas de artigos ainda pedem regulamentação.
Este ano haverá eleições e, apesar das mazelas políticas, muito pior é não poder votar e ser votado. Mais uma vez, votarão também os analfabetos e os jovens com 16 anos completos, num sufrágio admiravelmente amplo. A urna eletrônica nos livrou da fraude na contagem. A identificação digital do eleitor, que o TSE testa este ano em alguns municípios, nos livrará de outro tipo de fraude, o voto com título alheio e até de eleitores mortos. Na política, o que falta é a reforma do sistema, tornando-o mais adequado à disputa democrática e à escolha da representação popular. Mas devemos recordar Tancredo festejando a democracia, seu quarto de século que não há de ser interrompido”.

Sarney sobre Tancredo Neves

5 de março de 2010

Do senador José Sarney, na ‘Folha’:
“O tempo se comporta em relação à memória dos homens de maneira contraditória: a de uns desaparece nas garoas do tempo; a de outros vai se tornando mais nítida, liberta das poeiras do cotidiano.
Tancredo Neves tem a sua imagem cada vez mais definida, visto como o maior político da vida brasileira contemporânea.
Em todos os episódios que abalaram as nossas instituições em 1954, 1955, 1961, 1964 e 1985, foi ele o responsável pela engenharia política que nos permitiu conservar o objetivo democrático. Até mesmo os militares diziam em suas intervenções salvacionistas que lutavam contra a realização imperfeita dos valores da liberdade.
Em 1954, Tancredo, falando no sepultamento de Getúlio, vence a comoção, o ódio, a revolta e o desejo de revanche para pregar “que minhas palavras não desejam agitar a opinião pública nem trazer um elemento a mais para a instabilidade política da morte de Vargas”. Usou o caminho contrário de Marco Antônio pedindo vingança pelo assassinato de César.
Em 1955, é ele quem evita que o golpe de 11 de novembro interrompa a eleição de Juscelino. Em 1961, na renúncia de Jânio, costura a posse de Jango e encontra a engenhosa fórmula de um parlamentarismo de avesso. E com a mesma habilidade restaura os poderes da Presidência, no plebiscito que acabou com sua própria criação parlamentarista.
Em 1964, embora amigo pessoal do presidente Castello Branco, nele não vota. Castello, por sua vez, quando a linha dura pede a cassação de Tancredo, sem abrir o processo, risca na capa: “Este não!”.
Em 1985, é ele o estuário para onde correm todas as águas da liberdade. Só ele a história preparou para essa missão de fazer a transição democrática, unindo o país e fundando a Nova República.
Sua arma é a conciliação. Seu ídolo é o marquês do Paraná, que no Império fora o grande conciliador. Mas faz uma ressalva: “Sou o conciliador que prefere fazer um acordo a derrotar o adversário. Sou um tático, mas em matéria de princípios não transijo”.
Tancredo era um estadista que se distinguia dos homens do seu tempo. Ele foge do jogo partidário para ver o país, o interesse de todos. Convivi com ele intensamente, posso testemunhar sobre seu espírito público, sobre sua capacidade de construir pontes.
Afonso Arinos bem o definiu: “Há homens que dão a vida pelo país. Tancredo deu mais, deu a morte”.
E é a relíquia do seu corpo glorioso que reverenciamos nestes cem anos do seu nascimento”.

Lula fará a campanha de Dilma

4 de março de 2010

Diz o colunista Ilimar Franco, de ‘O Globo’, que “o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende se licenciar do cargo, nos meses de agosto e setembro, para participar ativamente da campanha da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência”.  Segundo Ilimar, Lula quer evitar problemas com a Justiça Eleitoral e se dedicar integralmente à tarefa de eleger seu sucessor. Com isso, “o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que não disputa as eleições, voltará temporariamente à Presidência da República. O vice José Alencar e o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), deverão ser candidatos e não poderiam assumir o cargo”.

              * * *
Esse é um sonho antigo de Lula.
No dia 28 de setembro do ano passado, esse blog publicou uma nota com o título ‘Sarney Presidente’, comentando uma notícia de Lauro Jardim, da ‘Veja’:
“Pode ser, é claro, balão de ensaio, mas efetivamente Lula tem dito privadamente a alguns de seus ministros que vai licenciar-se do cargo por três meses para fazer a campanha de Dilma Rousseff como se fosse a sua própria”, disse Jardim.
O comentário do blog:
“Mais uma vez pra firmar: caso isso se concretize, e o vice José Alencar não esteja bem de saúde, a Presidência da República será ocupada, durante 90 dias, pelo senador José Sarney, já que Michel Temer estará impedido pela lei das inelegibilidades”.
No dia 9 de novembro, esse blog publicou:
“Lula pensa em pedir licença - O Presidente Lula disse, a pelo menos uma pessoa, que se o vice-presidente José Alencar estiver bem de saúde em maio, ele pedirá uma licença de 90 dias da Presidência, e vai andar por todo o país com Dilma Rouseeff a seu lado.
 - Garanto que assim a elejo minha sucessora, diz ele”.

             * * *
A novidade, portanto, é que Dilma está mais forte do que o Presidente imaginava no final do ano passado.
Na época, ele falava em pedir licença de 90 dias. Agora, já acha que em 60 dias ele liquida a fatura.

Só 14% acreditam no Congresso

1 de março de 2010

“A avaliação popular do desempenho do Congresso Nacional continua mais negativa do que positiva, mas a percepção se mantém estável em relação ao levantamento mais recente realizado pelo Datafolha”, informa a ‘Folha’.
De acordo com levantamento do instituto, 14% dos entrevistados consideram o desempenho dos congressistas ótimo ou bom, 39% acham que é apenas regular, e outros 39% dizem que a performance dos parlamentares brasileiros é ruim ou péssima.
Nesta pesquisa, foram ouvidas 2.623 pessoas acima de 16 anos nas cinco regiões geográficas do país, entre os dias 24 e 25 de fevereiro. A margem de erro para o total da amostra é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Os pesquisados que manifestaram preferência pelo PSDB, partido que faz oposição ao governo federal e cujo pré-candidato, José Serra, lidera a corrida presidencial, foram os mais duros na avaliação do Congresso: só 7% o consideraram ótimo ou bom, enquanto 56% disseram que é ruim ou péssimo.
Os que preferem o PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (e da ministra Dilma Roussef, candidata da sigla à Presidência), foram mais condescendentes: 17% consideram o Congresso ótimo ou bom, e 35%, ruim ou péssimo.
A melhor avaliação do Congresso, porém, partiu dos pesquisados que têm maior simpatia pelo PMDB, justamente o partido dos presidentes tanto da Câmara, Michel Temer (SP), quanto do Senado, José Sarney (AP), e que tem forte presença quantitativa no parlamento.
Entre eles, 20% consideram o desempenho dos parlamentares federais como ótimo ou bom, e 37%, ruim ou péssimo.
Na rodada anterior, feita entre 14 e 18 de dezembro do ano passado, o resultado foi bastante semelhante: 15% de ótimo e bom, 39% de regular e 40% de ruim e péssimo. Também naquela pesquisa a margem de erro era de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Apesar da estabilidade no cômputo geral do levantamento, a reprovação dos congressistas aumentou de 47% para 51% entre os mais escolarizados e foi de 48% para 55% entre os que declaram renda familiar de cinco a dez salários mínimos.
Dos entrevistados que ganham acima desse valor, mais da metade (53%) considera o trabalho do Congresso ruim ou péssimo.
Os números que estão sendo publicados hoje mostram uma cristalização da avaliação geral do Congresso, que mantém suas taxas nos dois extremos, com poucas oscilações, desde março de 2007, data da primeira sondagem do tipo realizada pelo Datafolha.
A variação de ótimo e bom ficou entre 13% a 19% no período, enquanto a de ruim e péssimo sofreu uma oscilação, em três anos, entre 30% e 45%”.

O drama de Brasília

26 de fevereiro de 2010

Esse é o título do artigo que José Sarney assina hoje na ‘Folha’:
“Fui a Brasília pela primeira vez em 1958, há 52 anos, a convite de Israel Pinheiro, herdeiro de uma tradição que vinha de seu pai, o notável João Pinheiro. Israel, acima de qualquer suspeita, apoiado pela oposição, fora escolhido para presidente da Companhia Construtora da Nova Capital, a célebre Novacap. Era meu colega no Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, comandando a temida Comissão de Finanças.
Pessoalmente, mostrou-me as obras. Vi, fascinado, uma Babel: homens, caminhões e máquinas cruzando só estradas de poeira, um burburinho de máquinas, gentes, cimento, pedras em contraste com o silêncio das árvores sofridas e contorcidas de um cerrado ainda não derrubado. Evoquei a página de Afonso Arinos sobre o “buriti perdido, [...] testemunha sobrevivente do drama da conquista, [...] venerável epônimo dos campos”.
O pequi galhudo e verde, não desconfiando que em breve a motosserra cortar-lhe-ia o pescoço.
Barracos, jardineiras nordestinas e no ar um cheiro de suor e poeira cobrindo a aventura da cidade que se levantava. Israel descrevia tudo com olhos de quem já estava vendo o que apenas nascia nas fundações.
Os prédios cresciam nas superquadras. Eu lera a poética memória de Lúcio Costa que acompanhava o projeto. A descrição “das luzes baças” que iluminariam as áreas de residência, igualando os homens e humanizando o conviver. Três homens a sonhar. Juscelino, objetivo, olhando os dividendos políticos, Lúcio, o poeta-urbanista, imaginando que a cidade criaria um novo cidadão, e Oscar Niemeyer, o artista-escultor das linhas belas e curvas dos monumentos.
Os construtores eram sempre os mesmos: a peãozada, mão de obra da miséria, vindos das áreas rurais pobres do Nordeste e de Minas.
Não dava tempo para pensar na concepção institucional.
Brasília, nesses 50 anos, viu as árvores e os homens chegarem de outras plagas. A espatódea africana de flores vermelhas e belas a expulsar a agaroba, e depois o exotismo dos canteiros de rosas, primaveras, gerânios a competir com as flores do cerrado.
Brasília foi se formando com duas faces. Uma, burocrática, alienada da cidade, hóspede apenas.
Outra crescendo no clima de aventura, a construir seus valores de fronteira, sem amarras nem limites, que seria a verdadeira, com suas qualidades e defeitos, cultura e modo de viver. Com os dramáticos e inacreditáveis acontecimentos de hoje, vive as contorções de suas fraturas. Não seria o momento de pensar em novos rumos para a cidade, grande metrópole, realidade dolorosa, longe do sonho e da utopia primeira?”
Não há o que pensar, senador.
É preciso que o senhor, como presidente do Congresso, proponha já o fim da autonomia política do Distrito Federal.
Para dar uma chance aos políticos, isso poderia fazer parte das Disposições Transitórias da Constituição, para os próximos 50 anos.
Quem sabe no centenário, Brasília já não tenha mais aventureiros, mas sim filhos nascidos na Capital, que a amem e, por isso, a tratem com o carinho que ela merece, como o senhor faz, por exemplo, com a sua querida São Luiz do Maranhão.

Agaciel Maia, o caipira modernoso

22 de fevereiro de 2010

  O Sr. Agaciel Maia, o antes todo poderoso chefão do Senado, responsável por tudo o que foi safadeza praticado na Casa, com o apoio, óbvio, de um grupo de senadores, à frente José Sarney, está agora em busca de uma imunidade.
Brasília amanheceu repleta de cartazes de Agaciel, embora ele negue que seja candidato.
Na internet, ele fez um blog, digno de um preguiçoso.
Seus últimos post estão datados de 10 de fevereiro. O primeiro é sobre “8 habilidades essenciais para um bom administrador” - imaginem. O segundo é de comemoração: “Hoje faz 33 anos que ingressei na carreira de servidor efetivo do Quadro de Pessoal do Senado Federal”.
No blog, o que existe de mais informativo, e verdadeiro, é um enorme relógio - já ajustado para o horário de Brasília.
Como administrador moderno que é, Agaciel abriu uma conta no Orkut, sem foto, sem recados, sem perfil. Também não tem amigos e está filiado apenas a uma comunidade: ‘Agaciel Maia Community’, criada em 19 de novembro de 2009 e, até hoje, passados mais de tres meses, com um único membro: ele próprio. Poderia pelo nomes colocar a esposa e os filhos.
Ele sugere ainda que o sigam no Twitter. Desde o dia 22 de janeiro ele postou nove mensagens. Seguidores? Zero.
Além de um link para o Facebbok, Agaciel tem outro para o YouTube. Caso você digite o seu nome, aparecerão alguns vídeos:
1. O diretor do Senado é suspeito de omitir da Declaração de Bens uma mansão avaliada em R$ 5 milhões…
2. Ouça os diálogos que ligam a família Sarney a favores de Agaciel. As gravações foram realizadas pela Polícia Federal com autorização judicial e …
3. O senador Arthur Virgílio Neto (do PSDB de José Serra e FHC), pulou dentro do caldeirão de escândalos no Senado. O senador passeou em Paris e pegou dinheiro emprestado com Agaciel Maia para pagar a…  
4. O cometário de Alexandre Garcia sobre o caso do senador Agaciel Maia…
5. O presidente do Senado, José Sarney, pediu ao TCU que investigue Agaciel Maia, que admitiu ser dono de uma mansão em Brasília, declarada no nome de …
E por aí vai. É vídeo que não acaba mais. Todos contra.
Agaciel Maia é mais o mais belo exemplo da necessidade de uma intervenção federal no Distrito Federal e, mais do isso: é preciso que o Congresso reveja a autonomia política da Capital.
Para se ter uma idéia, de 1994 para cá foram eleitos seis senadores, entre eles José Roberto Arruda, Luiz Estevão, Joaquim Roriz e Paulo Octavio.
Não há como resistir a isso.

Lula revolta o PT gaúcho

20 de fevereiro de 2010

Do diário gaúcho ‘Zero Hora’:
“Ao afirmar que não fará corpo-a-corpo eleitoral em Estados onde há palanque duplo para a ministra Dilma Rousseff – pré-candidata do PT à Presidência –, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva causou revolta entre petistas gaúchos ontem.
Figura ausente na campanha à prefeitura de Porto Alegre em 2008, o presidente sinaliza que poderá frustrar novamente as expectativas e não se engajar à candidatura a governador de Tarso Genro, uma vez que o ex-ministro da Justiça vai disputar com o prefeito da Capital, José Fogaça (PMDB). No plano federal, PT e PMDB deverão abraçar a candidatura de Dilma.
Quando fez a declaração, Lula estava ao lado do governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), que concorrerá à reeleição e pode enfrentar Zeca do PT. Em Três Lagoas, o presidente citou os casos de Mato Grosso do Sul, de Santa Catarina, de Pernambuco e do Rio Grande do Sul como exemplos de locais onde as negociações estão difíceis.
– Se em algum Estado não houver possibilidade de construir uma aliança política, o que vai acontecer é que o presidente da República não participará da campanha naquele Estado – disse Lula, em referência à campanha eleitoral de Dilma Rousseff (PT).
Se Lula não aparecer no Estado, o maior beneficiado é Fogaça, uma vez que Tarso terá seu cabo eleitoral de luxo neutralizado. Inconformados com a eventual ausência de Lula, dirigentes gaúchos do PT demonstraram irritação com as declarações do presidente e reconheceram possíveis prejuízos a Tarso. À frente do PT estadual, o deputado Raul Pont considerou “dispensável” a manifestação presidencial:
– O palanque prioritário é o nosso, o do PT. É o partido que sustentou as campanhas e a eleição. É um equívoco. Tarso trabalhou e sustentou sete anos de governo. Lula deveria estar junto conosco.
Disse também que não se pode cobrar um preço impagável do PT:
– Não é porque José Sarney (presidente do Senado) ajudou o governo, que deixaremos de ter candidatura, por exemplo, no Maranhão.
Coordenador da pré-candidatura de Tarso, Luiz Fernando Mainardi defende que Lula apoie abertamente todos os candidatos do PT:
– O presidente não é candidato. Ele vai exercer o direito de militante do PT e não do PMDB. Por que isso? O partido é construção de Lula, e ele é construção do partido.
Rebelião nos Estados não será tolerada este ano. Ontem, o 4º Congresso Nacional do PT deu ao comando do partido poderes totais para fechar as alianças eleitorais que quiser e para intervir em qualquer seção estadual que as contrariar. O objetivo é não criar obstáculos para a construção da coligação de Dilma.
– Esse poder da direção, sendo usado com ponderação e conhecimento da situação local e não sendo usado de maneira arbitrária, mas com sensibilidade das questões políticas locais, é correto, porque dá predominância à questão nacional – avaliou Tarso no encontro petista.
O ex-ministro voltou a dizer que a disputa com Fogaça não trará prejuízos a sua candidatura. Para ele, o duplo palanque será favorável a Dilma:
– Não sei porque acham que eu perderia votos com o apoio do Fogaça para Dilma. É o reconhecimento da legitimidade do PT. A eleição para a Presidência é mais importante”.

10 perguntas para Dilma

20 de fevereiro de 2010

Da revista ‘Veja’:
“A entrevista que se segue com a ministra Dilma Rousseff foi feita por e-mail e precedida de uma rápida conversa por telefone. Dilma respondeu a todas as perguntas enviadas, mas não aceitou réplicas a suas respostas

- John Maynard Keynes, que a senhora admira, dizia alguma coisa equivalente a “se a realidade muda, eu mudo minhas convicções”. Como sua visão de mundo mudou com o tempo e com a experiência de ajudar a governar um país?
- O Brasil superou uma ditadura militar e está consolidando sua democracia. A realidade mudou, e nós com ela. Contudo, nunca mudei de lado. Sempre estive ao lado da justiça, da democracia e da igualdade social.
- Henry Adams, outro autor que a senhora lê com assiduidade, escreveu que “conhecer a natureza humana é o começo e o fim de toda educação política”. A senhora acredita que conhece o bastante da natureza humana, em especial a dos políticos, mesmo sem ter disputado eleições antes?
- Conheço bem o pensamento de Henry Adams para saber que nessa citação ele se refere à política no seu sentido amplo. Falando no sentido estritamente eleitoral da sua pergunta, acredito que minha experiência de mais de quarenta anos de militância política e gestão pública permite construir um relacionamento equilibrado com as diferentes forças partidárias que participarão desse processo eleitoral.
- Os brasileiros trabalham cinco meses do ano para pagar impostos, cuja carga total beira 40% do PIB. Em uma situação dessas, faz sentido considerar a ampliação do papel do estado na vida das pessoas, como parece ser a sua proposta?
- O que defendemos é a recomposição da capacidade do estado para planejar, gerir e executar políticas e serviços públicos de interesse da população. Os setores produtivos deste país reconhecem a importância da atuação equilibrada e anticíclica do estado brasileiro na indução do desenvolvimento econômico. Sem a participação do estado, em parceria com o setor privado, não seria possível construir 1 milhão de casas no Brasil.
- Não fosse a necessidade de criar slogans e conceitos de rápida assimilação popular nas campanhas, seria o caso de superar esse debate falso e improdutivo sobre “estado mínimo” e “estado máximo”, correto? Afinal, ninguém de carne e osso com cérebro entre as orelhas vive nesses extremos fundamentalistas. Qual o real papel do estado?
- Nos sete anos de nosso governo, ficou demonstrado o papel que vemos para o estado: induzir o desenvolvimento dos setores produtivos, priorizar os investimentos em infraestrutura em parceria com o setor privado, fortalecer e impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento científico-tecnológico, assegurando ganhos de produtividade em todos os setores econômicos. Modernizar os serviços públicos buscando responder de forma eficaz às demandas da população nas áreas da saúde, educação, segurança pública e demais direitos da cidadania. Chamo atenção para a comprovada eficácia dos programas que criamos. O Bolsa Família, o Luz para Todos, o Programa Minha Casa Minha Vida, as obras de sanea-mento e drenagem do PAC, entre outros, produziram forte impacto na melhoria de vida da população e resultaram também no fortalecimento do mercado interno. Finalmente, gostaria de destacar o papel do setor público diante da crise recente, o que permitiu que fôssemos os últimos a entrar e os primeiros a sair dela. Garantimos crédito, desoneração fiscal e liquidez para a economia.
- O presidente Lula soube manter aceso o debate ideológico no PT, mas rejeitou todos os avanços dos radicais sobre o governo. Como a senhora vai controlar o fogo dos bolsões sinceros mas radicais do seu partido - em especial a chama da censura à imprensa e do controle estatal da cultura?
- Censura à imprensa e controle estatal da cultura estão completamente fora das ações do atual governo, como também de nossas propostas para o futuro.
- O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso definiu a senhora como uma lua política sem luz própria girando em torno e dependente do carisma ensolarado do presidente Lula. Como a senhora pretende firmar sua própria identidade?
- Não considero apropriado discutir luminosidade com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
- A oposição certamente vai bater na tecla da personalidade durante a campanha, explorando situações em que sua versão de determinados fatos soaram como mentiras. Como Otto von Bismarck, o chanceler de ferro da Alemanha, a senhora vê lugar para a mentira na prática política?
- Na democracia não vejo nenhum lugar para a mentira. Como já disse em audiência no Congresso Nacional, em situações de arbítrio e regimes de exceção, a omissão da verdade pode ser um recurso de defesa pessoal e de proteção a companheiros.
- Qual o perfil ideal de vice-presidente para compor sua chapa?
- Um nome que expresse a força e a diversidade da nossa aliança.
- O presidenciável Ciro Gomes, aliado do seu governo, afirma que a aliança entre o PT e o PMDB é um “roçado de escândalos semeados”. A senhora não só defende essa aliança como quer o PMDB indicando o vice em sua chapa. Não é um risco político dar tanto espaço a um partido comandado por Renan Calheiros, José Sarney e Jader Barbalho?
- Não se deve governar um país sem alianças e coalizões. Mesmo quando isso é possível, não é desejável. O PMDB é um dos maiores partidos brasileiros, com longa tradição democrática. Queremos o PMDB em nossa aliança.
- O Brasil está cercado de alguns países em franca decomposição institucional, com os quais o presidente Lula manteve boas relações, cuidando, porém, de demarcar as diferenças de estágio civilizatório que os separam do Brasil. Como um eventual governo da senhora vai lidar com governantes como Hugo Chávez ou Evo Morales?
- Lidaremos com responsabilidade e equilíbrio com todos os países, respeitando sua soberania e sem ingerência em seus assuntos internos. É esse, também, o tratamento que exigimos de todos os países, em reciprocidade.

Lula: Dilma terá dois mandatos

19 de fevereiro de 2010

O presidente Lula disse em entrevista exclusiva ao ‘Estadão’ que não escolheu Dilma Rouseff como candidata à Presidente, pensando já em voltar ao poder em  2014:“Ninguém aceita ser vaca de presépio e muito menos eu iria escolher uma pessoa para ser vaca de presépio.Todo político que tentou eleger alguém manipulado quebrou a cara.” Na entrevista aos repórteres Vera Rosa, Tânia Monteiro, Rui Nogueira, João Bosco Rabello e Ricardo Gandour, Lula disse que uma eventual gestão Dilma, não será mais à esquerda do que o seu governo, mas afirmou que as diretrizes do programa petista podem ser mais “progressistas”: “O partido, muitas vezes, defende princípios e coisas que o governo não pode defender”.
Veja a entrevista de Lula:
- Na entrevista ao ‘Estado’, em agosto de 2007, perguntamos se o sr. já pensava em lançar uma mulher como candidata à sua sucessão. Sua resposta foi: “No momento em que eu disser isso, uma flecha estará apontada para esse nome, seja ele qual for.” Naquela época, o sr. já tinha decidido que seria a ministra Dilma? Quando o sr. decidiu?
- Quando aconteceram todos os problemas que levaram o companheiro José Dirceu a sair do governo, eu não tinha dúvida de que a Dilma tinha o perfil para assumir a Casa Civil e ajudar a governar o País. Na Casa Civil ela se transformou na grande coordenadora das políticas do governo. Foi quase uma coisa natural a indicação da Dilma. A dedicação, a capacidade de trabalho e de aprender com facilidade as coisas foram me convencendo que estava nascendo ali mais do que uma simples tecnocrata. Estava nascendo ali uma pessoa com potencial político extraordinário, até porque a vida dela foi uma vida política importante.
- Mas a escolha da ministra só ocorreu porque houve um “vazio” no PT, como disse o ex-ministro Tarso Genro, com os principais candidatos à sua cadeira dizimados pela crise do mensalão, não?
- Não concordo. Não tinha essa coisa de “principais candidatos”. Isso é coisa que alguém inventou.
- José Dirceu, Palocci…
- Na minha cabeça não tinha “principais candidatos”. Estou absolutamente convencido de que ela é hoje a pessoa mais preparada, tanto do ponto de vista de conhecimento do governo quanto da capacidade de gerenciamento do Brasil.
- Naquele momento em que sr. chamou a ministra de “mãe do PAC”, na Favela da Rocinha (Rio), ali não foi apresentada a vontade prévia para fazer de Dilma a candidata?
- Se foi, foi sem querer. Eu iria lançar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na verdade, antes da eleição (de 2006). Mas fui orientado a não utilizar o PAC em campanha porque a gente não precisaria dele para ganhar as eleições. Olha o otimismo que reinava no governo! E o PAC surgiu também pelo fato de que eu tinha muito medo do segundo mandato.
- Por quê?
- Quem me conhece há mais tempo sabe que eu nunca gostei de um segundo mandato. Eu sempre achei que o segundo mandato poderia ser um desastre. Então, eu ficava pensando: se no segundo mandato o presidente não tiver vontade, não tiver disposição, garra e ficar naquela mesmice que foi no primeiro mandato, vai ser uma coisa tão desagradável que é melhor que não tenha.
- O sr. está enfrentando isso?
- Não porque temos coisas para fazer ainda, de forma excepcional, e acho que o PAC foi a grande obra motivadora do segundo mandato.
- O sr. não está desrespeitando a Lei Eleitoral, antecipando a campanha?
- Não há nenhum desrespeito à Lei Eleitoral. Agora, o que as pessoas não podem é proibir que um presidente da República inaugure as obras que fez. Ora, qual é o papel da oposição? É criticar as coisas que nós não fizemos. Qual é o nosso papel? Mostrar coisas que nós fizemos e inaugurar.
- Mas quem partilha dessa tese diz que o sr. praticamente pede votos para Dilma nas inaugurações…
- Eu dizer que vou fazer meu sucessor é o mínimo que espero de mim. A grande obra de um governo é ele fazer seu sucessor. Não faz seu sucessor quem está pensando em voltar quatro anos depois. Aí prefere que ganhe o adversário, o que não é o meu caso.
- Há quem diga que o sr. só escolheu a ministra Dilma, cristã nova no PT, com apenas nove anos de filiação ao partido, porque, se eleita, ela será fiel a seu criador. Isso deixaria a porta aberta para o sr. voltar em 2014. O sr. planeja concorrer novamente?
- Olha, somente quem não conhece o comportamento das mulheres e somente quem não conhece a Dilma pode falar uma heresia dessas. Ninguém aceita ser vaca de presépio e muito menos eu iria escolher uma pessoa para ser vaca de presépio. Não faz parte da minha vida nem no PT nem na CUT. Eu já tive a graça de Deus de governar este país oito anos. Minha tese é a seguinte: rei morto, rei posto. A Dilma tem de criar o estilo dela, a cara dela e fazer as coisas dela. E a mim cabe, como torcedor da arquibancada, ficar batendo palmas para os acertos dela. E torcendo para que dê certo e faça o melhor. Não existe essa hipótese .
- O sr. não pensa mesmo em voltar à Presidência?
- Não penso. Quem foi eleito presidente tem o direito legítimo de ser candidato à reeleição. Ponto pacífico. Essa é a prioridade número 1.
- O sr. não vai defender a mudança dessa regra, de fim da reeleição com mandato de cinco anos?
- Não vou porque quando quis defender ninguém quis. Eu fui defensor da ideia de cinco anos sem reeleição. Hoje, com a minha experiência de presidente, eu queria dizer uma coisa para vocês: ninguém, nenhum presidente da República, num mandato de quatro anos, concluirá uma única obra estruturante no País.
- Então o sr. mudou de ideia…
- Mudei de ideia. Veja quanto tempo os tucanos estão governando São Paulo e o Rio Tietê continua do mesmo jeito. É draga dali, tira terra, põe terra. Eu lembro do entusiasmo do Jornal da Tarde quando, em 1982, o banco japonês ofereceu US$ 500 milhões para resolver aquilo. A verdade é que, para desgraça do povo de São Paulo, as enchentes continuam. Eu não culpo o Serra, não culpo o Kassab e nenhum governante. Eu acho que a chuva é demais. No meu apartamento, em São Bernardo, está caindo mais água dentro do que fora. Choveu tanto que vazou. Há dias o meu filho me ligou, às duas horas da manhã, e disse: “Pai, estou com dois baldes de água cheios.” Eu fui a São Paulo no dia do aniversário da cidade e disse que o governo federal está disposto a sentar com o governo do Estado, com o prefeito, e discutir uma saída para ver se consegue resolver o problema, que é gravíssimo. Não queremos ficar dizendo: “Ah, é meu adversário, deu enchente, que ótimo”. Quem está falando isso para vocês viveu muitas enchentes dentro de casa.
- Pelas diretrizes do programa do PT, um eventual governo Dilma Rousseff parece que será mais à esquerda que o seu…
- Eu ainda não vi o programa, eu sei que tem discussão. Mas conheço bem a Dilma e, como acho que ela deve imprimir o ritmo dela, se ela tomar uma decisão mais à esquerda do que eu, eu tenho que encarar com normalidade. E, se tomar uma posição mais à direita do que eu, tenho que encarar com normalidade. Tenho total confiança na Dilma, de que ela saberá fazer as coisas corretas para este país. Uma mulher que passou a vida que a Dilma passou - e é sem ranço, sem mágoa, sem preconceito - venceu o pior obstáculo.
- A experiência de poder distanciou o sr. do pensamento mais utópico do PT, não?
- Veja, o PT que chegou ao poder comigo, em 2002, não era mais o PT de 1980, de 1982.
- Não era porque houve a Carta ao Povo Brasileiro…
- Não é verdade. Num Congresso do PT aparecem 20 teses. Tem gosto para todo mundo. É que nem uma feira de produtos ideológicos. As pessoas compram o que querem e vendem o que querem. O PT, quando chegou à Presidência, tinha aprendido com dezenas de prefeituras, já tínhamos as experiências do governo do Acre, do Rio Grande do Sul, de Mato Grosso do Sul… O PT que chegou ao governo foi o PT maduro. De vez em quando, acho que foi obra de Deus não permitir que eu ganhasse em 1989. Se eu chego em 1989 com a cabeça do jeito que eu pensava, ou eu tinha feito uma revolução no País ou tinha caído no dia seguinte. Acho que Deus disse assim: “Olha, baixinho, você vai perder várias eleições, mas, quando chegar, vai chegar sabendo o que é tango, samba, bolero.” O PCI italiano passou três décadas sendo o maior partido comunista do mundo ocidental, mas não passava de 30%. Eu não tinha vocação para isso. E onde eu fui encontrar (a solução)? Na Carta ao Povo Brasileiro e no Zé Alencar. Essa mistura de um sindicalista com um grande empresário e um documento que fosse factível e compreensível pela esquerda e pela direita, pelos ricos e pelos pobres, é que garantiu a minha chegada à Presidência.
- Mesmo assim, o sr. teve de funcionar como fator moderador do seu governo em relação ao partido…
- E vou continuar sendo. Eu não morri.
- Mas a Dilma poderá fazer isso?
- Ah, muito. Hipoteticamente, vocês acham que o PSTU ganhará eleição com o discurso dele? Vamos supor que ganhe, acham que governa? Não governa.
- As diretrizes do PT, que pregam o fortalecimento do Estado na economia, não atrapalham?
- Quero crer que a sabedoria do PT é tão grande que o partido não vai jogar fora a experiência acumulada de ter um governo aprovado por 72% na opinião pública depois de sete anos no poder. Isso é riqueza que nem o mais nervoso trotskista seria capaz de perder.
- Os críticos do programa do PT dizem que o Estado precisa ter limites como empreendedor. Por que mais Estado na economia?
- Vou fazer uma brincadeira: o único Estado forte que eu quero é o Estadão (risos). Não existe hipótese, na minha cabeça, de você ter um governo que vire um governo gerenciador. O governo tem dois papéis e a crise reforçou a descoberta deste papel. O governo tem, de um lado, de ser o regulador e o fiscalizador; do outro lado, tem de ser o indutor, o provocador do investimento, que discute com o empresário e pergunta por que ele não investe em tal setor.
- Por que é preciso ressuscitar empresas estatais para fazer programas como a universalização da banda larga? O governo toca o Luz Para Todos com uma política pública que contrata serviços junto às distribuidoras e não ressuscita a Eletrobrás.
- Mas nós estamos ressuscitando a Eletrobrás. O Luz Para Todos só deu certo porque o Estado assumiu. As empresas privadas executam sob a supervisão do governo, que é quem paga.
- Não pode fazer a mesma coisa com a banda larga?
- Pode. Não temos nenhum problema com a empresa privada que cumpre as metas. Mas tem empresa privada que faz menos do que deveria. Então, eu quero, sim, criar uma megaempresa de energia no País. Quero empresa que seja multinacional, que tenha capacidade de assumir empréstimos lá fora, de fazer obras lá fora e fazer aqui dentro. Se a gente não tiver uma empresa que tenha cacife de dizer “se vocês não forem, eu vou”, a gente fica refém das manipulações das poucas empresas que querem disputar o mercado. Então, nós queremos uma Eletrobrás forte, para construir parceria com outras empresas. Não queremos ser donos de nada.
- A banda larga precisa de uma Telebrás?
- Se as empresas privadas que estão no mercado puderem oferecer banda larga de qualidade nos lugares mais longínquos, a preço acessível, por que não?
- Mas precisa de uma Telebrás?
- Depende. O governo só vai conseguir fazer uma proposta para a sociedade se tiver um instrumento. Não quero uma nova Telebrás com 3 ou 4 mil funcionários. Quero uma empresa enxuta, que possa propor projetos para o governo. Nosso programa está quase fechado, mais uns 15 dias e posso dizer que tenho um programa de banda larga. Vou chamar todos e q-uero saber quem vai colocar a última milha ao preço mais baixo. Quem fizer, ganha; quem não fizer, tá fora. Para isso o Estado tem de ter capacidade de barganhar.
- O sr. teme que o PSDB venha na campanha com o discurso de gastança, de inchaço da máquina, que o seu governo contratou 100 mil novos servidores?
- Vou dar um número, pode anotar aí: cargos comissionados no governo federal, para uma população de 191 milhões de habitantes. Por cada 100 mil habitantes, o governo tem 11 cargos comissionados. O governo de São Paulo tem 31 e a Prefeitura de São Paulo tem 45.
- Deixar o governo de Minas para o PMDB de Hélio Costa facilita a vida de Dilma junto à base aliada?
- A aliança com o PMDB de Minas independe da candidatura ao governo de Estado. O Hélio Costa tem me dito publicamente que a candidatura dele não é problema. Ele propõe o óbvio, que se faça no momento certo um estudo e veja quem tem mais condições e se apoie esse candidato. Acho que os companheiros de Minas, tanto o Patrus Ananias quanto o Fernando Pimentel se meteram em uma enrascada. Estava tudo indo muito bem até que eles transformaram a disputa entre eles em uma fissura muito ruim para o PT. Como a política é a arte do impossível, quem sabe até março eles conseguem resolver o problema deles.
- A desistência da pré-candidatura do deputado Ciro Gomes (PSB-CE) facilitaria a vida de Dilma?
- O Ciro é um companheiro por quem tenho o mais profundo respeito. Eu já gostava do Ciro e aprendi a respeitá-lo. Um político com caráter. E, portanto, eu não farei nada que possa prejudicar o companheiro Ciro Gomes. Eu pretendo conversar com ele, ver se chegamos à conclusão sobre o melhor caminho.
- Ele diz que o “santo Lula” está errado.
- É preciso provar que o santo está errado. É por isso que eu quero discutir.
- O sr. ainda quer que ele seja candidato ao governo de São Paulo?
- Se eu disser agora, a minha conversa ficará prejudicada.
- O senador Mercadante pode ser o plano B?
- Não sei. Alguém terá de ser candidato.
- O Ciro tem dito que a aliança da ministra Dilma com o PMDB é marcada pela frouxidão moral.
- Todo mundo conhece o Ciro por essas coisas. Mas acho que ele não disse nada que impeça uma conversa com o presidente.
- O que se teme no Temer? Ele é o nome para vice?
- O Michel Temer, neste período todo que temos convivido com ele, que ele resolveu ficar na base e foi eleito presidente da Câmara, tem sido um companheiro inestimável. A questão da vice é uma questão a ser tratada entre o PT, a Dilma e o PMDB.
- O sr. não teme que Dilma caia nas pesquisas após sair do governo?
- Ela vai crescer.
- Mas sozinha?
- Ela nunca estará sozinha. Eu estarei espiritualmente ao lado dela (risos).
- Há quem tenha ficado assustado com a foto do sr. abraçando o Collor, depois de tudo o que passou na campanha de 1989.
- O exercício da democracia exige que você faça política em função da realidade que vive. O Collor foi eleito senador pelo voto livre e direto do povo de Alagoas, tanto quanto foi eleito qualquer outro parlamentar. Ele está exercendo uma função institucional e merece da minha parte o mesmo respeito que eu dou ao Pedro Simon, que de vez em quando faz oposição, ao Jarbas Vasconcelos, que faz oposição. Se o Lula for convidado para determinadas coisas, não irá. Mas o presidente tem função institucional. Portanto, cumpre essa função para o bem do País e, até agora, tem dado certo. Fui em uma reunião com a bancada do PT em que eles queriam cassar o Sarney. Eu disse: muito bem, vocês cassam o Sarney e quem vem para o lugar?
- O sr. acha que o eleitor entende?
- O eleitor entende, pode entender mais. Agora, quem governa é que sabe o tamanho do calo que está no seu pé quando quer aprovar uma coisa no Senado.
- O governo depende do Sarney no Senado? O único punido até agora foi o Estado, que está sob censura.
- O Sarney foi um homem de uma postura muito digna em todo esse episódio. Das acusações que vocês (o jornal) fizeram contra o Sarney, nenhuma se sustenta juridicamente e o tempo vai provar. O exercício da democracia não permite que a verdade seja absoluta para um lado e toda negativa para o outro lado. Perguntam: você é contra a censura? Eu nasci na política brigando contra a censura. Exerço um governo em que eu duvido que alguém tenha algum resquício de censura. Mas eu não posso censurar que os Poderes exerçam suas funções. Eu não posso censurar a imprensa por exercer a sua função de publicar as coisas, nem posso censurar um tribunal ou uma Justiça por dar uma decisão contrária. Deve ter instância superior, deve ter um órgão para recorrer.
- O sr. e o PT lideraram o processo de impeachment de Collor e nada, então, se sustentou juridicamente porque o STF absolveu o ex-presidente. O sr. está dizendo que o jornal não deveria publicar as notícias porque não se sustentariam juridicamente? Os jornais publicam fatos…
- Não quero que vocês deixem de publicar nada. Minha crítica é esta: uma coisa é publicar a informação, outra coisa é prejulgar. Muitas vezes as pessoas são prejulgadas. Todos os casos que eu vi do Sarney, de emprego para a neta, daquela coisa, eu ficava lendo e a gente percebia que eram coisas muito frágeis. Você vai tirar um presidente do Senado porque a neta dele ligou para ele pedindo um emprego?
- O caso da neta é o corporativismo, o fisiologismo, os atos secretos…
- O que eu acho é o seguinte: o DEM governou aquela Casa durante 14 anos e a maioria dos atos secretos era deles. E eles esconderam isso para pedir investigação do outro lado. É uma coisa inusitada na política.
- O sr. acha que os fatos do “mensalão do DEM”, no Distrito Federal, são fatos inverídicos também?
- No DEM tem um agravante: tem gravação, chegaram a gravar gente cheirando dinheiro.
- No mensalão do PT tinha uma lista na porta do banco com o registro dos políticos indo pegar a mesada…
- Vamos pegar aquela denúncia contra o companheiro Silas Rondeau, que foi ministro das Minas e Energia. De onde se sustenta aquela reportagem dizendo que tinha dinheiro dentro daquele envelope? Como se pode condenar um cara por uma coisa que não era possível provar?
- O sr. tem dito, em conversas reservadas, que quando terminar o governo, vai passar a limpo a história do mensalão. O que o sr. quer dizer?
- Não é que vou passar a limpo, é que eu acho que tem coisa que tem de investigar. E eu quero investigar. Eu só não vou fazer isso enquanto eu for presidente da República. Mas, quando eu deixar a Presidência, eu quero saber de algumas coisas que eu não sei e que me pareceram muito estranhas ao longo do todo o processo.
- Quem o traiu?
- Quando eu deixar a Presidência, eu posso falar.
- Por que é que o seu governo intercede em favor do governo do Irã?
- Porque eu acho que essa coisa está mal resolvida. E o Irã não é o Iraque e todos nós sabemos que a guerra do Iraque foi uma mentira montada em cima de um país que não tinha as armas químicas que diziam que ele tinha. A gente se esqueceu que o cara que fiscalizava as armas químicas era um brasileiro, o embaixador Maurício Bustani, que foi decapitado a pedido do governo americano, para que não dissesse que não havia armas químicas no Iraque.
- O sr. continua achando que a Venezuela é uma democracia?
- Eu acho que a Venezuela é uma democracia.
- E o seu governo aqui é o quê?
- É uma hiper-democracia. O meu governo é a essência da democracia”.