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Nova bossa na nossa bossa

5 de março de 2010

De João Donato, no ‘Globo’:
“Em 1962, voltei ao Brasil para gravar um disco, depois de dois anos morando nos Estados Unidos. Era uma tarde quente e um produtor entrou no estúdio falando em voz alta: “Mas isso não é Bossa Nova”. Retruquei: “Eu não disse que é, só estou gravando um disco.” Era o meu primeiro 12 polegadas: João Donato e seu Trio Muito à Vontade, com os saudosos Milton Banana (bateria) e Tião Neto (baixo).
Um ano depois retornava à América, em seguida o disco foi lançado pela Pacific Jazz com o nome de “Sambou Sambou” e se tornou o responsável pelo meu ingresso definitivo no mercado fonográfico americano. No auge da Bossa Nova, eu, que desembarcara na terra de Frank Sinatra antes da chegada dos meus amigos João Gilberto e Tom Jobim, assistia à euforia dos músicos de jazz com a novidade.
O jornal “São Francisco Chronicle” chegou a anunciar que o novo gênero musical brasileiro era a melhor coisa que tinha acontecido na música americana.
Cansados de tocar a música exageradamente popular da época, os músicos passaram a usufruir do prazer de viajar pelos ricos acordes do samba-jazz e da sua versão mais suave, a Bossa Nova.
O improviso andava solto e por caminhos nunca antes percorridos. A carreira de Stan Getz, estacionada, ganhou fôlego com a chegada da Bossa Nova. Bud Shank e Chet Baker, meus parceiros de estrada, queriam tocar, gravar e se aprofundar nos ritmos deste país da América Latina que contribuía com algo diferente do mambo, da salsa e da rumba dos imigrantes da América Central.
Mais de meio século depois do marco da exportação da Bossa Nova para o mundo, após fazer música com parceiros de tantas gerações e estilos musicais variados, e de ver minhas canções interpretadas por brasileiros do samba, do bolero e do hip hop, pela Orquestra Sinfônica da Rússia, por um grupo vocal de cubanas, de tocar na Líbia e de ser tratado como um artista popular no Japão, tais lembranças me fazem refletir sobre como talvez eu tenha dado ouvidos àquele produtor e passado a vida resistindo à minha participação e influência no ritmo que veio a se chamar Bossa Nova.
Hoje, tenho consciência de que negar minha participação na história da Bossa Nova seria deletar um trecho da história da música popular brasileira e de minha história pessoal. Em 2002, quando a Dubas relançou “Muito à Vontade” em CD, o escritor Ruy Castro lembrou que o disco me abriu novos horizontes e, nas palavras dele, “devolveu a Donato, sem ele saber, um movimento que ajudara a construir”.
Em 2008, nas comemorações dos 50 anos da Bossa Nova, convidado pelo meu parceiro musical Nelson Motta a receber uma homenagem da nova geração de intérpretes da música, já cansado do peso das viagens — rodei 11 países em quatro continentes, fui duas vezes a Cuba no mesmo ano — acabei desabafando em uma entrevista: “Não aguento mais falar em Bossa Nova.” Eu sou mesmo assim.
Para lembrar um grande músico brasileiro, Eloir de Morais, “envaideçome” ao ser convencido de integrar uma história tão bonita pelo desenrolar da própria história. Mas devo confessar que, como acreano-pianista-compositorintuitivo, o que me encanta são as infinitas possibilidades que a música me oferece de experimentar novos sons, novos rumos, novas combinações, novos acordes, novas vozes, numa constante renovação.
Algo que foi percebido há muito tempo por gente como Stan Kenton, Miles Davis, mais recentemente por Diana Krall e — por que não? — Black Eyed Peas. Algo que o mundo inteiro reconhece e modernamente aprecia. Percebo que na atualidade há um improviso do improviso.
Uma nova bossa dentro da Bossa e é um patrimônio que, quanto mais se transforma, mais herdeiros faz ao longo do caminho e de uma estrada rumo à imortalidade.
Faltava o Rio, berço da Bossa, valorizar e dar o suporte para que novos compositores, músicos e intérpretes possam fazê-la ecoar e ser recriada a partir da sua maternidade. Um bom começo é o Circuito da Bossa Nova que a prefeitura lançou na segunda-feira, na festa dos 445 anos do Rio, no Espaço Tom Jobim do Jardim Botânico.
Agora, Leny Andrade, Joyce, João e Bebel Gilberto, Pery Ribeiro, Carlos Lyra, Milton Nascimento, Os Cariocas, Emílio Santiago, Roberto Menescal, Cris Dellano, Zé Renato, Mariana Aydar, Wanda Sá, Thaís Fraga, Mário Adnet, Augusto Martins, Miúcha, Sérgio Mendes, Sandra de Sá, Fernanda Takai, Johnny Alf, Adriana Calcanhoto, Marcos Valle, Francis e Olivia Hime, Jaques e Paula Morelenbaum, Roberta Sá — nosso catálogo é infinito — poderão mostrar com ternura, amor e sem temer contradições que a boa música é celestial, é de todos, é nossa e se re-NOVA”.

Johnny Alf (1929 - 2010)

4 de março de 2010

  A semana vem sendo dura com a música.
Hoje morreu Johnny Alf,  80 anos, o mais inventido compositor e intérprete da Música Popular Brasileira.
Alf, se cantasse 10, 20 vezes seguidas uma mesma canção, daria uma interpretação diferente a cada uma delas, e sempe com uma divisão melódica diferente.
Ele era um dos últimos gênios - junto com João Gilberto e João Donato - em atividade.
Antonio José da Silva, seu nome de batismo, era filho de um cabo do Exército, que morreu quando ele tinha apenas três anos. Sua mãe foi então trabalhar como doméstica, em uma casa de família, que o criou e custeou seus estudos.
Aos 9 anos, começou a apreender piano clássico e, no Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, participou de um grupo artístico. Foi lá que uma amiga norte-americana sugeriu que ele adotasse o nome artístico de Johnny Alf.
Autor de inúmeros sucessos, Alf foi o mais jazzístico de todos os compositores brasileiros. Por conta disso, e mais o nome em inglês, foi acusado inúmeras vezes de ser americanizado.
Uma semana após a queda das Torres Gêmeas, em 2001, Johnny Alf viajou para Nova York.
Durante o vôo, pouco antes da aterrisagem, ele foi reconhecido pelo violonista Marco Pereira. Pouco conversam, Ele explicou que estava indo aos Estados Unidos,  atendendo ao convite de uns amigos que queriam gravar com ele.
Marco então perguntou:
- Você vem sempre para cá?
E o americanizado Alf, na época com 71 anos, respondeu:
- Não. Essa é a minha primeira vez.
O autor de ‘Ilusão a Toa’, ‘Eu e a Brisa’, ‘Rapaz de Bem’, ‘O que é amar’, ‘Olhos Negros’, ‘Seu Chopin, desculpe’ e inúmeros outros sucessos, merecia muito mais honras do que recebeu em vida.
Existe uma coleção, em CD, e que agora, aos poucos, vem saindo em DVD, intitulada  ‘Ensaio’,  onde o artista responde e canta, sem que o expectador ouça a pergunta.
A única exceção até hoje foi com Johnny Alf.
As perguntas foram feitas por um fã, que decidiu mostrar a cara para fazer sua entrevista: o nada americanizado Paulinho da Viola - um sambista amante da musicalidade desse genial rapaz de bem chamado Johnny Alf.