O ‘Estadão’ de hoje reconhece o que todos já sabem: Pezão é o único político que funciona no governo Cabral. Em reportagem assinada por Luciana Nunes Leal, fica claro que o incansável vice-governador “assume cada vez mais atibuições”. Eis o texto:
“Com 1,90m de altura, 130 quilos e sapato número 48, o vice-governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando de Souza Pezão, de 54 anos, não passa despercebido. Por causa do tamanho, mas também pelas atribuições que assumiu na gestão do governador Sérgio Cabral (PMDB).
Secretário de Obras e comandante do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) no Estado, Pezão começou o ano cumprindo a missão de visitar as áreas atingidas por enchentes e deslizamentos que mataram 52 pessoas na Ilha Grande e em Angra dos Reis.
A ausência de Cabral no cenário da tragédia provocou uma série de críticas ao governador, que viu os estragos de perto somente no dia seguinte, 2 de janeiro. Amigo para todas as horas, Pezão assume a responsabilidade: “Eu disse para o Cabral não ir, era muito mais importante ele ficar no telefone, tomando providências, falando com o presidente Lula, com os ministros.”
Formado na política do interior, Pezão foi duas vezes prefeito de Piraí, município de 26 mil habitantes, no sul do Estado, onde nasceu. Começou a militância no PMDB, foi do PSDB, do PDT, do PSB e voltou ao primeiro partido. Durante muitos anos, acompanhou o ex-governador Anthony Garotinho, hoje adversário. Foi dirigente da associação de prefeitos do Estado, da Confederação Nacional de Municípios (CNM) e secretário de Governo na gestão de Rosinha, mulher de Garotinho, hoje prefeita de Campos. “O Garotinho diz que eu o traí. Logo que me tornei vice, ele queria que eu rompesse com o Cabral, porque o governador criticava muito a Rosinha. Tenho uma grande gratidão por Garotinho e Rosinha, mas não havia motivo para romper com Cabral”, diz Pezão.
A briga com Garotinho foi feia. “Antes da posse (de Cabral), descobri que estavam aliciando pessoas do governo e prejudicando a Rosinha. Eu disse ao Pezão que a pior espécie de ser humano é o ingrato. Vi que ele não era meu amigo, mas amigo do governador, independentemente de quem fosse. Foi horrível”, conta Garotinho, que disputará o governo do Rio pelo PR. “Não me relaciono mais com Pezão, mas a Rosinha ficou afastada dessa questão, ele fez campanha para Rosinha em Campos.”
Pezão não quer saber de briga com o antigo aliado. Desde a posse, em janeiro de 2007, o vice-governador ganha cada vez mais visibilidade, por causa das várias tarefas que comanda e por substituir Cabral em um grande número de compromissos - inclusive na primeira atenção às vítimas do drama de Angra dos Reis. Também faz a articulação política com prefeitos e deputados. Sem falar nos quase 150 dias que ocupou o cargo de governador, por causa de viagens de Cabral ao exterior. Nas solenidades, o governador invariavelmente gasta boa parte dos discursos com brincadeiras e elogios ao vice.
Graças à lua de mel do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Cabral, os investimentos da União no Rio de Janeiro foram retomados e, em 2009, Pezão administrou na Secretaria de Obras uma verba de R$ 5,6 bilhões, somando recursos federais e estaduais, investidos principalmente em projetos do PAC. Aproximou-se a ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência e coordenadora nacional do PAC. E também ganhou a simpatia do presidente. Em todas as viagens ao Rio, Lula faz questão de prestigiar Pezão, conversa com o vice e o cita em seus discursos.
Pezão tem guardados os discursos em que Lula citou o programa de inclusão digital adotado em Piraí, durante sua administração. Foram enviados pela assessoria da Presidência. Em julho de 2009, Lula visitou Piraí, onde participou da entrega de computadores a estudantes. “Eu até me surpreendo, o Lula tem um carinho comigo que me marcou muito. E olha que o PT sempre foi meu adversário na minha cidade, me batia muito. O único calo que eu tinha neste pé grande era o PT”, brinca o vice.
Depois da primeira semana tumultuada de 2010, Pezão planeja se recolher por uns dias. Vai se hospedar num spa em Teresópolis. Conta que está acima do peso, ansioso, dormindo mal. “Senão, eu não aguento a campanha. Meu peso ideal é uns 110 quilos”, diz o vice. Os planos são de ficar pelo menos uma semana afastado do trabalho. Mas não inteiramente. Na quarta-feira, Pezão estará em Brasília, em reuniões com Lula”.
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O ‘Estadão’ publica ainda uma entrevista com Pezão, onde ele, por lealdade, tentar livrar a responsabilidade de Sergio Cabral no episódio da tragédia em Angra. Mas sem sucesso:
“Eu estava na casa do Cabral (em Mangaratiba, a 60 quilômetros de Angra dos Reis), passei o réveillon com ele, ia ficar lá os três dias. De madrugada, por volta de 2h30, o prefeito de Angra estava me ligando, a ligação caía. Conseguimos nos falar às 6h30. Sérgio Côrtes (secretário de Saúde e Defesa Civil) e eu pegamos o helicóptero e fomos para lá. Cabral estava dormindo, deixei avisado para o Cabral. Quando a gente estava chegando na ilha, ele ligou. Ele perguntou: “Você quer que eu vá?” Eu disse “não, vamos aguardar”. A gente não sabia se ia ter telefone na ilha, como iam estar as coisas lá. O Cabral ficou se comunicando com o presidente Lula, com Geddel (Vieira Lima, ministro da Integração Nacional). Sou um pouco culpado disso tudo. O presidente Lula disse que vinha, o Geddel disse que vinha, eu disse que não precisava. O Lula falou comigo, falou com o Cabral.
- A informação é de que o presidente Lula procurou pelo governador e não conseguiu falar com ele.
- Mentira. O Lula falou comigo, eu disse que o Cabral estava lá em Mangaratiba e ele ligou para a casa do Cabral. É que lá tem uma dificuldade de pegar celular. Não pega nas horas que a gente precisa. Achei (as críticas) uma injustiça. O Serra apareceu 48 horas depois (das enchentes em São Paulo), estava na Bahia. Ninguém fala nada”.
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Só para lembrar: Cabral divulgou uma nota sobre a tragédia de Angra, 17 horas após o desastre que matou mais de 50 pessoas.
Quando ele apareceu na cidade, disse que não tinha ido antes porque “as autoridades que trabalham já estavam no local”, como se ele não tivesse o que fazer.
Se Cabral estava dormindo, ele não poderia ter telefonado para saber se deveria ir ou não até a Ilha Grande, até mesmo porque o governador disse, no dia seguinte, que não foi pois “não sou demagogo e não faria política em cima de uma tragédia”.
Pezão disse que Lula telefonou para Cabral, mas reconheceu que na casa do governador “tem uma dificuldade de pegar celular. Não pega nas horas que a gente precisa”. O curioso é que o celular de Pezão funcionou.
Quanto a crítica feita a José Serra, de que ele só foi ver as enchentes de São Paulo 48 horas depois, faz parte do jogo, já que Pezão apóia Dilma Rousseff.
A diferença é que Serra estava na Bahia, a quase dois mil quilômetros de distância de São Paulo.
Enquanto isso, Cabral dormia a pouco mais de 60 quilômetros da tragédia de Angra.
Se estivesse ao menos com a televisão ligada, sua nota oficial sairia, o mais tardar, por volta do meio-dia, e não perto das 6 horas da tarde.