youPode

Posts com a tag ‘Florestan Fernandes’

Maria Buarque, Memélia

6 de maio de 2010

O jornalista Cláudio Renato publicou, em seu blog Passavante, certamente o melhor de Maria Amélia Buarque de Holanda, morta hoje, aos 100 anos.
Aqui vocês verão um resumo do que foi postado nos dias 13, 19 e 26 de novembro, apenas com o tempo verbal no passado.Mas vale a pena dar uma lida no seu site, para quem quiser saber mais sobre Memélia.
Peço desculpas ao autor, se não estiver assinalado os principais pontos de seus post - todos baseados em apurações feitas para a reportagem ‘A construção do clã” (no Caderno ‘Fim de Semana’, da Gazeta Mercantil, em 2000), “Dossiê Sérgio Buarque de Hollanda” (na Revista Bravo, em 2002) e “Os 60 anos de Chico Buarque” (para os telejornais da TV Globo, em 2004).
                       * * *
“O segredo estava guardado, delicadamente, no sétimo andar do Edifício Alcazar, construído na década de 1930, na pequenina rua Almirante Gonçalves 4, em Copacabana, ao lado do botequim Bip Bip. Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Hollanda completara 100 anos em 25 de janeiro. Ela garantiu, com temperamento estoico e simplicidade franciscana, a união e a prosperidade intelectual da família Buarque de Hollanda (…)
                      * * *
Austera e sensível, Maria Amélia trabalhou à moda antiga para perpetuar a família. Ajudou nas pesquisas e datilografou os originais do clássico ‘Raízes do Brasil’ (1936). Viajava de trem com os filhos, na ponte ferroviária Rio-São Paulo, ensinava-lhes a cantar sambas, frequentava com eles o Maracanã e até participava de coros em gravações. Para quem não sabe, a voz de Maria Amélia está ao fundo de ‘O Meu Guri’, no registro de Cristina Buarque, anterior ao disco Almanaque, de Chico Buarque (1981). Raras vezes precisou pôr os pés fora de casa para receber o carinho incondicional dos sete filhos, 14 netos, 13 bisnetos, intelectuais, compositores, poetas e políticos.
Em comum com a musa do saudoso amigo Mario Lago, a Amélia em questão desdenhava luxo e riqueza. Era um ser alegremente monástico em” cujo templo se aceitam, eventualmente, uma cachacinha, um chope, e manifestações entusiasmadas a favor da Mangueira e do Fluminense.
Era aconselhável, no entanto, que não a chamasse de viúva do historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Hollanda (1902-1982). Seria gafe imperdoável. O telefone emudecia, a conversa murchava, ela ficava uma fera.
                     * * *
Quando fazia reservas em restaurantes, a mãe de Chico Buarque era lacônica. Pedia “uma mesa para a dona Maria” ou, no máximo, “para dona Maria Buarque”. Gostava mesmo era do apelido Memélia, inventado pela neta Bebel Gilberto, filha da primogênita Heloísa Maria, a Miúcha, com o cantor e compositor João Gilberto.(…)
Foi Bebel, xodó da casa, quem também criou o apelido familiar de Sérgio: Papioto, corruptela de “papai outro”, como ele preferia ser chamado por todos os netos.
                    * * *
O Partido dos Trabalhadores era a paixão política de Maria Amélia.(…) Sérgio Buarque de Hollanda assinou a ficha número 2 do PT em 1980. A número 1 é do crítico de arte pernambucano Mário Pedrosa (1900-1981). “Minha mãe sempre acompanhou o velho, mas não é muito entusiasmada com o PT do Rio”, dizia Chico Buarque. “Meu marido atendeu a um convite do Mário Pedrosa e foi ao Colégio Sion para fundar o PT”, lembra Maria Amélia. Para eleições proporcionais, sempre votou em amigos como Chico Alencar ou Eliomar Coelho. Quando o partido do coração fazia algo que não concordava, como, por exemplo, rejeitar a candidatura de Vladimir Palmeira, ela votava em Leonel Brizola.
                   * * *
Maria Amélia foi a primeira pessoa a contribuir com a campanha presidencial de Lula em 1989, com um cheque da pensão de viúva a que tem direito. Quem nos contou a história, em 2002, foi o próprio Lula. Ele disse que, no aniversário de 90 anos de Maria Amélia, tentou, com o escritor Frei Betto e o crítico literário Antônio Candido, fazer-lhe uma surpresa. Ela preferiu jantar com os filhos no Jardim Botânico, no Rio. “Um metalúrgico de São Bernardo filiar-se ao PT é quase obrigação, mas uma pessoa como dona Maria Amélia só faz isso por solidariedade.”, dizia Lula. O ex-petista Chico Alencar, de 60 anos, amigo de Maria Amélia e atualmente deputado federal pelo PSOL, testemunha tamanha boa vontade. “Memélia, ativíssima, comparecia à sala alugada pelo PT no Rio para conversar com eleitores e envelopar cartas.”
                    * * *
Mulher altiva, que recusava ajuda até para carregar pacotes de compra em supermercados, Maria Amélia jamais abandanou a fé religiosa, nem mesmo pelo marido, irreverente e ateu. Miúcha, aliás, adora falar sobre a união aparentemente improvável de Memélia e Papioto. “Papai era um intelectual boêmio; e mamãe, católica, de uma família mineira tradicional de Ubá.” Eles se conheceram no carnaval de 1934, embalados pelos sambas e marchinhas de Noel Rosa e Braguinha, em frente à sede do Jockey Club do Rio. Foram apresentados por Afonso Arinos de Mello Franco, primo-irmão de Maria Amélia e amigo de Sérgio. Para Miúcha, “não fosse a admiração e a organização de minha mãe, papai não teria escrito ‘Raízes do Brasil’.” A própria Memélia confirma que, “para bancar a noiva boazinha, datilografava o que Sérgio escrevia à mão.”
A casa de 600 metros quadrados na Rua Buri, construída em 1929, foi a primeira que a família conseguiu comprar (a prestações). Sérgio e Maria Amélia recebiam nela os amigos Vinícius de Moraes, Antônio Candido, Caio Prado Jr, Manuel Bandeira, Prudente de Moraes Neto, Carybé, Jorge Amado, Paulo Vanzolini, Florestan Fernandes, Clóvis Graciano, Dorival Caymmi, Fernando Sabino e tantos outros que aportavam em São Paulo.(…)
                    * * *
O casarão dos Buarques de Hollanda em São Paulo foi de festa na era de ouro, mas, também, de resistência, nos anos de chumbo. Nos períodos negros da ditadura, a casa da rua Buri se transformava em “aparelho.” Sérgio pedira aposentadoria da universidade, a USP, em solidaridade a Florestan Fernandes e outros professores afastados. O telefone da família foi grampeado. Maria Amélia conhecia as senhas. “Fulano no hospital” significava prisão de alguém. Nos confrontos de estudantes com a polícia na rua Maria Antônia, em São Paulo, levava comida para a meninada. E ajudava os proscritos, como o deputado cassado Márcio Moreira Alves, cujo discurso anódino contra os militares fora, em 1968, o pretexto para a decretação do AI-5, que restringiria todas as liberdades constitucionais dos cidadãos brasileiros. Maria Amélia é uma católica esclarecida, que frequentava a igreja São Paulo Apóstolo, em Copacabana, bairro carioca onde morava. A simpatia contagiava a vizinhança. Alfredo Jacinto Mello, o Alfredinho, de 66 anos, proprietário do botequim Bip Bip, era fã de carteirinha. “Memélia é a mãe e a avó que todos gostaríamos de ter: uma ativista da esquerda católica que jamais se entrega à depressão”, conta Alfredo, que frequenta a mesma igreja da mãe de Chico. Além do Bip Bip, Maria Amélia, sempre que pode, faz uma propaganda subliminar do Carioca da Gema, uma das principais casas de espetáculo da Lapa, no centro do Rio, administrada por um dos sobrinhos, Carlos Thiago Cesário Alvim. Filha do desembargador mineiro Francisco de Cesário Alvim e da paulista Maria do Carmo da Costa Carvalho, Maria Amélia nasceu em 25 de janeiro de 1910 - no mesmo ano de Noel Rosa, da passagem do cometa Harley e da Revolta da Chibata, na qual marinheiros se amotinaram contra a semiescravidão imposta pelos oficiais da Armada aos subalternos e quase bombardearam toda a cidade. Ela veio à luz no elegante bairro do Cosme Velho, no Rio. Era a mais velha de dez irmãos. O avô paterno, José de Cesário Alvim, foi o primeiro presidente de Minas Gerais e o materno, Álvaro de Carvalho, senador e ministro. Quando Memélia tinha 6 anos, a família mudou-se para Copacabana. A menina estudou no Sacré Couer de Marie. Depois, fez curso de enfermagem. Aprendeu a falar francês, italiano e inglês. Para a educação dos filhos, exigiu colégios excelentes: o Des Oiseaux, o Santa Cruz e o Caetano de Campos.      Socialista de corpo e alma, Maria Amélia procurava distribuir o afeto equitativamente por cada filho, neto, bisneto ou amigo. “Sucesso é palavra de consumo externo e o importante é o amor que sentimos por cada um deles, não que saiam ou deixem de sair na imprensa. Até porque o amor de verdade dificilmente é publicado nas páginas dos jornais.”