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Eleição custará mais de R$ 1 bi

17 de abril de 2010

Do repórter Ivan Iunes, do ‘Correio Braziliense’:
“As duas principais candidaturas presidenciais podem consumir, juntas, quase R$ 1 bilhão até outubro. A estimativa de tesoureiros e coordenadores é de que as eleições de 2010 sejam as mais vitaminadas da história brasileira. Somente os recursos destinados diretamente às campanhas de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) somariam cerca de R$ 500 milhões. Outros R$ 500 milhões seriam repassados aos estados e ao DF para candidaturas majoritárias que garantam palanques aos dois principais postulantes ao Planalto. Para ter alguma chance de vitória, o patamar mínimo de gastos seria de, pelo menos, R$ 100 milhões, valor almejado pelo deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE). “Se você somar as candidaturas presidenciais e os apoios aos estados, dificilmente os dois partidos, juntos, gastarão menos de R$ 1 bilhão”, afirmou o ex-tesoureiro do PT Paulo Ferreira.
Pela previsão dos partidos, a conta final de PSDB e PT nas eleições de outubro sairá, pelo menos, R$ 170 milhões mais cara do que a de 2006. Para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os petistas gastaram R$ 168 milhões. A candidatura do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin custou aos cofres tucanos R$ 161 milhões. Os outros candidatos, somados, apresentaram números mais tímidos, de R$ 2,6 milhões, sendo que apenas Cristovam Buarque foi responsável por R$ 1,7 milhão.
As maiores cifras previstas para outubro serão utilizadas em televisão. Dilma e Serra estudam utilizar cerca de R$ 50 milhões, cada um, para tentar convencer o eleitorado no horário eleitoral. A produção petista ficará a cargo de João Santana, o mesmo da reeleição de Lula, em 2006, e autor dos últimos vídeos publicitários da legenda. Os tucanos também investirão no mesmo marqueteiro utilizado por Alckmin em 2006, Luiz González. Somente com o aluguel de um jato particular, a estimativa de gastos é de até R$ 3,5 milhões por mês. Cada candidato terá, pelo menos, uma aeronave à disposição.
O dinheiro gasto nas duas campanhas também servirá para coordenar os trabalhos em comitês regionais(2). A campanha de Dilma terá um responsável por estado e no Distrito Federal, subordinados ao coordenador nacional. O comitê central ainda não foi definido, mas deve ser instalado em um prédio no Setor Comercial Sul, próximo à sede nacional do partido no DF. “A campanha nos estados tem interação com a eleição para governador e as estruturas acabam se somando, mas teremos um coordenador político responsável por essa interação”, antecipou o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra.
A estrutura da campanha à Presidência dos tucanos terá oito coordenadores regionais distribuídos pelo país. Cada centro de comando ficará responsável, em média, por três estados. Maior colégio eleitoral do país, São Paulo terá escritório próprio, responsável por coordenar também as ações no Rio de Janeiro. O quartel-general será instalado no DF. O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), admite que o orçamento será maior do que o utilizado em 2006, mas trabalha com um teto de até R$ 200 milhões. “Nossa última campanha gastou cerca de R$ 80 milhões (fora os repasses do comitê nacional). Certamente passaremos de R$ 100 milhões nesta campanha, mas acredito que R$ 200 milhões seja um valor superestimado”, avaliou.
Os tesoureiros responsáveis por controlar o caixa de campanha até outubro ainda não foram definidos pelos dois partidos. Os tucanos trabalham com os ex-deputados federais fluminenses Ronaldo Cézar Coelho e Márcio Fortes. O cofre da candidatura petista ainda não tem dono definido. O atual tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, foi descartado pelo envolvimento recente em denúncias de gestão fraudulenta no período em que foi diretor da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop)”.

A internet e seus usos

11 de abril de 2010

Do sociólogo Marcos Coimbra, presidente da Vox Populi, para o ‘Correio Braziliense’:
“É bem possível que a própria internet tenha seus anticorpos para enfrentar a infestação que já estamos vendo e que aumentará até outubro.
A tomar pelo interesse que desperta entre políticos e profissionais, a internet será a grande vedete das eleições este ano. Candidatos, jornalistas, marqueteiros e estudiosos, todos só pensam na rede e no que ela poderá representar.
Nas últimas eleições comparáveis, as de 2006, a internet teve papel modesto. Nenhuma campanha maior, de presidente ou governador, se preocupou muito com ela. De seu uso quatro anos atrás, a principal lembrança é dos vídeos de candidatos bizarros, ridicularizados sem piedade.
Em 2008, a internet subiu de patamar e se tornou destaque em algumas cidades. Entre as capitais, foi fundamental em pelo menos duas, Rio e Belo Horizonte, onde, apesar das restrições legais, assumiu suas feições contemporâneas: sites de relacionamento, comunidades virtuais, campanhas virais (direcionadas pelos comitês ou espontâneas). Para culminar, seu desfecho aconteceu sob o impacto da devastadora paródia de um candidato no YouTube, que, durante dias, permaneceu como campeã brasileira de visualizações.
2008 foi, também, o ano da vitória de Obama, naquela que foi saudada como a primeira grande eleição sob a égide da internet. Ela mexeu com a cabeça dos especialistas em todo o mundo e se tornou referência para a montagem das estratégias de candidatos nos quatro cantos do planeta. Quem quisesse ganhar uma eleição tinha que fazer como Obama: apostar na internet.
Nessa euforia, as particularidades de cada sociedade e de cada sistema político foram desconsideradas, dentre as quais as nossas. Se funcionava lá, funcionaria aqui, mesmo que fôssemos diferentes em aspectos essenciais. Não se deu a devida atenção ao fato de que, na campanha de Obama, a internet tinha como metas básicas a ampliação do registro eleitoral (dos segmentos mais propensos a votar em sua candidatura) e o aumento da arrecadação (por meio da multiplicação de pequenos doadores). Duas coisas que fazem pouco sentido no Brasil, onde o voto é compulsório e o cidadão comum não pode ou não quer contribuir financeiramente com os candidatos.
Assim chegamos a 2010, com uma experiência própria relevante, mas ainda incipiente, e a imagem de que a internet é a modernidade, em função do mal digerido exemplo americano. Tornou-se consenso a ideia de que ela será fundamental nas eleições de outubro.
Quem acompanha o processo de organização das principais campanhas, sejam presidenciais ou estaduais, está vendo como cresceram os investimentos destinados à internet e às equipes que prometem milagres por ela. De itens secundários, eles se transformaram em uma prioridade para quase todas.
Com que objetivos se destinam recursos cada vez maiores aos projetos de internet? De um lado, para sua finalidade oficial, montar o site do candidato, com todos os recursos (blogs, Twitter, etc.) e as ferramentas para torná-lo agradável e útil ao internauta. De outro, no entanto, para ir além, fazendo algumas coisas pouco e outras nada legítimas.
O pacote de internet típico oferece diversos serviços: inventar sites de informação (para depois gerar notícias); fabricar blogs espontâneos de apoio ao candidato; participar de bate-papos e postar comentários, em blogs verdadeiros, favoráveis ao cliente; manipular o tráfego de mecanismos de busca, etc. Sem esquecer que tudo isso pode ser feito em sentido negativo, contra os adversários reais ou imaginários do cliente: notícias falsas, blogs de acusação, postagens hostis, virais de ataque.
É bem possível que a própria internet tenha seus anticorpos para enfrentar a infestação que já estamos vendo e que aumentará até outubro. O antídoto contra as tentativas de manipulá-la não virá do aumento da intervenção de quem quer que seja, mas de seus usuários. Só eles mesmos é que conseguirão separar a informação verdadeira, a troca sincera de opiniões, a crítica honesta e a diversão autêntica que uma eleição pode trazer da atuação dos profissionais que são pagos para fazer o inverso.
Olho vivo, portanto. Quem for navegar achando que a internet é o espaço da liberdade e da autonomia pode ser fisgado quando menos espera”.

FHC será o único anti-Lula

10 de abril de 2010

De Luiz Carlos Azedo, no ‘Correio Braziliense’:
Todos os oradores da convenção do PSDB combinaram atacar Dilma Rousseff e esquecer o Presidente Lula.
O próprio José Serra vai encarnar o candidato pós-Lula, estratégia que seria utilizada por Aécio Neves.
“Quem está fora de controle é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que falará de improviso e é imprevisível nessas horas. Como não pode ser o pós-Lula, será o anti-Lula. Aliás, seu esporte favorito é provocar a ira do petista”.

Lei da anistia na pauta do STF

9 de abril de 2010

 De Alana Rizzo, Diego Abreu e Josie Jeronimo, para o ‘Correio Braziliense’:
“A ação que questiona a Lei da Anistia em vigor no Brasil desde 1979 pode tumultuar os últimos meses de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trazendo de volta à cena as divergências entre alguns ministros. A análise pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) dos quatro volumes do processo está marcada para a próxima quarta-feira. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), autora da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº153, questiona a concessão da anistia para todos os crimes, inclusive a tortura, no período da ditadura militar. O julgamento terá um valor histórico, pois pode reabrir, após mais de 30 anos, o debate sobre a ação de militares durante o período.
Cabe observar que uma manifestação tolerando os abusos cometidos pelo regime de exceção pode ameaçar o próprio legado do presidente, eclipsando os palpáveis avanços alcançados, diz o relatório da Secretaria de Direitos Humanos, ligada à Presidência da República, incluído na ação.
Recentemente, Lula orientou os ministros a evitarem polêmica e, adotando um tom mais conciliador, o ministro Paulo Vannuchi, responsável pela secretaria, pregou o bom senso na discussão. Não é justo que os integrantes das Forças Armadas carreguem o peso por violências que foram praticadas somente por algumas dúzias. Segundo o ministro, o voto do relator do caso, Eros Grau, pode não resolver de maneira direta a questão, mas deve indicar o dever de o Estado fazer uma narrativa oficial sobre os fatos ou permitir a abertura dos arquivos secretos. Ele (Eros Grau) é uma pessoa que foi preso político, foi torturado. Ele não terá uma posição do tipo: esse assunto vai ser encerrado. Não é pão, pão, queijo, queijo, mas tem um rumo, incorpora argumentos à demanda.
Vannuchi e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, protagonizaram o racha no governo sobre o assunto. Parecer jurídico da pasta que comanda os militares diz que, caso o Supremo julgue procedente a ação, poderá conduzir a resultado oposto àquele buscado e a Corte estaria criando divergência atualmente inexistente no que se refere à lei. No entendimento do ministério, os crimes cometidos àquela época já estariam prescritos”.

Cabral briga com os pobres

7 de abril de 2010

 Do colunista Luiz Carlos Azedo, do ‘Correio Braziliense’:
“Como nunca antes, choveu a cântaros no Rio de Janeiro nas últimas 48 horas. A reação do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, foi tardia, perplexa e acaciana: ninguém deve sair de casa, disse nas primeiras horas de ontem, quando muitos já estavam na rua. Voltaram para casa aqueles que estavam na rua e não conseguiram transporte. Muitos permaneceram no local de trabalho na segunda à noite, sem poder voltar para casa.
O governador Sérgio Cabral não fez muito diferente: ao ser entrevistado por uma emissora de TV, ao ver moradores do Morro da Mangueira uma das favelas mais antigas do Rio na beira de um barranco que havia desabado, deu uma bronca coletiva nos incautos, ao vivo e em cores. Mas não havia ninguém da Defesa Civil para interditar a área.
Cabral chamou de irresponsáveis os moradores do local do deslizamento, que ocupam edificações de três a quatro andares construídas em área de risco cuja ocupação está sendo consolidada pelo Minha Casa, Minha Vida. Há 10 mil cariocas morando em áreas de risco, por onde deveria começar o programa”.

As pesquisas brasileiras

4 de abril de 2010

Do sociólogo Marcos Coimba, presidente do Vox Populi, para o ‘Correio Braziliense’:
 ”Até agora, as eleições presidenciais de 2010 já bateram dois recordes: a) são as que mais cedo começaram em nossa história política e b) são, de todas as que fizemos, aquelas onde mais tivemos pesquisas. Desde sua largada, há mais de três anos, não deve ter havido um só mês em que pelo menos uma não tenha sido divulgada.
Daqui para frente, esse ritmo só tende a aumentar. De abril a junho, quando serão realizadas as convenções dos partidos, a frequência se intensificará, com periodicidade cada vez menor. Depois de julho e, especialmente, do dia 18 de agosto em diante, quando se inicia a propaganda eleitoral na televisão e no rádio, uma verdadeira enxurrada de números vai desabar sobre o eleitorado. Sem contar que as eleições nos estados também estarão quentes e merecerão as próprias pesquisas.
A maior parte das pessoas fica confusa com tantas porcentagens, tabelas, análises por segmento e cruzamentos de dados. O que parece claro a um estatístico ou especialista chega a ser incompreensível para o cidadão comum, a quem, em última instância, as pesquisas de divulgação pública se destinam.
Como são normais as variações entre as pesquisas, o quadro se complica. Os resultados do mesmo instituto podem variar de um levantamento para outro, nem sempre em sentido igual. Entre institutos, as oscilações de resultados são ainda mais comuns.
Quem torce por um candidato olha qualquer pesquisa em que ele não aparece bem como se tivesse sido deliberadamente falsificada. Assim, ora acha que um instituto é ótimo, ora péssimo, em função de como seu preferido se sai. Volta e meia, vê-se alguém tecer uma longa argumentação para provar que um instituto foi “comprado” e ser desmentido a seguir, quando uma nova divulgação põe por terra sua hipótese conspiratória.
Parte dos problemas decorre do modo como algumas pesquisas são apresentadas. É o caso, tipicamente, das que são feitas por institutos ligados a veículos. Por interesse comercial ou solidariedade da redação com os colegas do departamento de pesquisa, seus levantamentos são divulgados pela empresa patrocinadora como se fossem melhores, mais verdadeiros que outros. Não o são, e o pior é que fingir que só um é “bom” prejudica a credibilidade de todos.
Um dos mais importantes pesquisadores das pesquisas políticas no Brasil (senão o maior), o professor Marcus Figueiredo, do IUPERJ, do Rio de Janeiro, vem avaliando o desempenho do setor nos anos após a redemocratização. Seus estudos nos ajudam a visualizar melhor o que é o trabalho dos institutos e o que a opinião pública pode esperar deles.
A primeira coisa é que, de 1989 até agora, o desempenho médio dos principais institutos que se dedicam ao tema (Ibope, Vox Populi e Datafolha, até 2002, junto com a Sensus, daí em diante), nas eleições presidenciais, é melhor que dos congêneres americanos, entre 1956 e 1996. Nossa margem de acerto é significativamente melhor que a deles. A média das diferenças entre as intenções de voto estimadas pelos institutos para os candidatos e os resultados oficiais foi, no Brasil, nas cinco eleições que fizemos, de 1,4 ponto percentual, enquanto lá foi de 1,9. Eles foram bem, mas nós fomos muito bem.
Em segundo, que as variações de desempenho entre os institutos, nesse período, nas eleições para presidente, foram irrelevantes. Em 1989, a média das diferenças entre o que os três institutos previam, candidato a candidato, e o que aconteceu na urna foi de 1,6 ponto, sendo que nenhum dos três se afastou dessa média em mais que 0,8 ponto. Ou seja, todos previram a mesma coisa e todos tiveram o mesmo nível de acerto. Em 1994, a discrepância média foi ainda menos relevante, situando-se em 0,9 ponto percentual, com números quase idênticos para os três. E assim em 1998 (diferença média de 1,6 ponto), 2002 (de 1,1) e 2006 (de 1,9).
Não é fácil convencer pessoas apaixonadas de que o trabalho dos institutos é desapaixonado. Mas é certo que a opinião pública pode esperar deles, nas eleições de 2010, o mesmo que mostraram nas últimas: um trabalho bem feito, que ajuda o cidadão a saber como andam as intenções de voto a cada momento.
Serão muitos números, nenhum mais correto que outro, alguns até incoerentes. Mas todos pintando o mesmo quadro, o longo processo através do qual 135 milhões de pessoas formam suas escolhas a respeito de quem querem que governe o Brasil nos próximos anos”.

A eleição em marcha

31 de março de 2010

Do sociólogo Marcos Coimbra, presidente da Voz Populi, para o ‘Correio Braziliense’:
“Aliviados de suas responsabilidades cotidianas, espera-se que Dilma e Serra possam se concentrar na formulação do que pretendem fazer na Presidência
Depois de uma longa jornada, que começou ainda em 2007, as próximas eleições presidenciais entram em uma nova fase. De hoje ao fim da semana, Serra e Dilma, os principais contendores, deixam seus cargos. Daí em diante, nos seis meses que nos separam do pleito, a disputa entre eles fica diferente.
Com Serra agora no papel de candidato e Dilma fora do Planalto, acabam-se os embates prévios. Até 3 de outubro, ambos estarão em condições parecidas, dedicando-se, em tempo integral, às suas campanhas. Nenhum dos dois pode dizer que tem outros compromissos.
Na longuíssima pré-campanha que vivemos, tivemos algumas coisas demais e outras de menos. Sobraram, por exemplo, pesquisas, enquanto faltaram ideias. Tanto o governador quanto a ministra se esmeraram em inaugurações e palanques festivos. Quase nada se ouviu a respeito de propostas para o Brasil.
A avalanche de cerimônias de entrega de obras a que assistimos sugere como tende a ser a disputa: uma briga de imagens na televisão. De um lado, sobre aquilo que o governo Lula fez e que dá corpo à proposta básica da candidatura de Dilma, de continuar o que está em curso. De outro, do que Serra fez em São Paulo, das obras e iniciativas que o qualificam como administrador e que mostram que é um governante de grandes feitos e preocupação social.
Se ficar nesse campo, a eleição será regida pelo verbo fazer, tornando-se uma briga em torno das realizações (e omissões) de um contra as do outro. Como nos embates que alguns vetustos personagens da cena política brasileira travaram nos últimos anos, nos confrontos entre tratores, quem faz mais?.
Por mais importantes que sejam as obras, seria uma pena se o debate sucessório se restringisse a essas comparações. No fundo, salvo uma ou outra diferença de ênfase, há muita concordância sobre o que o país precisa e o que deve ser feito na infraestrutura, na energia, no saneamento e na habitação, assim como no que toca as grandes necessidades que temos em áreas como saúde publica, educação e segurança.
Em outras palavras, os dois PACs do governo Lula (mudando o nome) seriam parecidos com o que o PSDB faria se estivesse no poder. Como não são grandes as discrepâncias entre o que se chamou de Brasil em Ação no governo Fernando Henrique e o que Lula fez no seu, considerando-se que um sucedeu ao outro e quanto as condições do Brasil mudaram de lá para cá.
Aliás, o Brasil em Ação e o PAC se assemelham até nos problemas, pois ambos enfrentaram as dificuldades que existem no país na transição entre as intenções e os resultados das políticas públicas. Cobrar do atual governo por ter feito menos que o prometido (ou por ter prometido demais) só seria justo se a cobrança fosse estendida à administração anterior.
É claro que ainda falta tempo até a eleição e que, aliviados de suas responsabilidades cotidianas, espera-se que Dilma e Serra possam se concentrar na formulação do que pretendem fazer na Presidência. Que o façam logo e que não creiam que basta mostrar suas ações na televisão para satisfazer a necessidade que os eleitores têm de saber o que propõem.
Estamos nas comemorações dos 25 anos da Nova República, celebrando um quarto de século de normalidade democrática. Apesar de vários percalços e do muito que deixou de ser feito, podemos nos orgulhar, como sociedade, de ter conseguido enfrentar três grandes desafios com razoável sucesso. A consolidação da democracia foi o primeiro, permitiu que os outros fossem alcançados e foi obra do conjunto das forças políticas do país. A normalização da economia veio a seguir e foi o maior legado do governo Fernando Henrique. Com Lula, enfrentamos o terceiro, a incorporação pacífica de uma imensa massa de desprivilegiados à cidadania e à economia.
As três agendas estão superadas e o país precisa de uma nova. Com a palavra, Serra e Dilma, assim como Marina e Ciro (que, mesmo se não emplacar a candidatura, pode contribuir em muito para o debate)”.

Petista do MA ameaça com greve de fome

31 de março de 2010

De Luiz Carlos Azedo, do ‘Correio Braziliense’:
“O líder do governo na Câmara, CândidoVaccarezza (PT), artífice do acordo que levou o deputado Michel Temer(PMDB-SP) à Presidência da Câmara, defende a tese de que o PT não tem do que se queixar do PMDB em relação ao apoio da legenda aliada à candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), a presidenta da República. Muito pelo contrário, quem anda criando problemas para a aliança são os quadros do PT que não subordinam seus projetos pessoais à política de alianças do governo Lula e ao projeto nacional do partido, cuja prioridade é a vitória de Dilma.
Vaccarezza fez essa avaliação no começo da tarde de ontem, no gabinete de líder do governo. Minutos depois, o deputado Domingos Dutra(PT-MA) subiu à tribuna da Câmara para um discurso inflamado contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que teria procurado o presidente Lula para reclamar do apoio do PT do Maranhão à candidatura do deputado Flávio Dino (PCdoB), pré-candidato ao governo do estado. Afinal, a governadora Roseana Sarney (PMDB), que disputará a reeleição, apoia Dilma.
No discurso, Domingos disse que entraria em greve de fome no plenário da Câmara se a executiva nacional do PT, a pedido do presidente Lula, fizer uma intervenção no diretório regional, como seria previsível pelas resoluções adotadas até agora no plano nacional.O parlamentar é um dos fundadores do PT no Maranhão e adversário figadal do clã Sarney”.

Lula coloca Cabral de joelhos

24 de março de 2010

   Do colunista Luiz Carlos Azedo, no ‘Correio Braziliense’:
“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou de joelhos o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), ao pôr a participação especial do Rio de Janeiro (e demais estados produtores) nos royalties de petróleo na moagem do novo marco regulatório da camada pré-sal. Agora Lula diz que não tem nada a ver com isso, pois pretendia deixar essa discussão para depois das eleições. Cabral conta com o veto do presidente Lula à emenda Ibsen Pinheiro(PMDB-RS)-Humberto Souto(PPS-MG), que distribui igualmente os royalties entre todos os estados e municípios, para evitar um colapso econômico e administrativo em seu estado e o próprio desastre eleitoral. Lula negaceia o veto.
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A posição de Lula alimenta o fogo amigo contra Cabral.
O bombardeio vem da Bahia, que abriga um grande polo petroquímico,explora petróleo e começa a concorrer com a indústria naval do Rio de Janeiro. Amigo do presidente da República, com quem viajou para o Oriente Médio, o governador Jaques Wagner (PT) juntou-se aos governadores de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e do Ceará (PSB), Cid Gomes, para contestar a participação especial do Rio de Janeiro, do Espírito Santo e de São Paulo na distribuição dos recursos do pré-sal.O petista defende a tese de que os royalties devem ser distribuídos de acordo com a população e a riqueza ou a pobreza de cada estado, medidas pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
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Wagner diz que São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo querem ficar com a maior parte dessa riqueza. Eu não vejo o porquê, já que o petróleo foi descoberto por uma empresa que pertence a todos os brasileiros, argumenta. Segundo ele, o petróleo está afastado da costa e, portanto, não implica em nenhum prejuízo ambiental. Minha posição é essa desde o começo: uma distribuição que seja justa para todo o povo brasileiro e não apenas para três estados. Agora tem essa discussão sendo feita no Senado e eu espero que o bom senso prevaleça de tal forma que a gente possa ter essa riqueza fazendo bem para todos os brasileiros, dispara.

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Ontem, o presidente Lula colocou em xeque a estratégia eleitoral do governador Sérgio Cabral(PMDB) para a reeleição ao pressioná-lo a entregar uma das vagas de candidato ao Senado a Marcelo Crivella (PRB). O senador é aliado do presidente Lula, disputou e perdeu as eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro. A outra vaga seria do PT, a ser ocupada pelo prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, ou a ex-governadora Benedita da Silva. Cabral não pode atender o pedido de Lula sem cortar uma das pernas. A vaga está prometida ao presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani (PMDB), peso pesado da política fluminense”.

Coimbra: o piso de Serra

22 de março de 2010

Do sociólogo Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, ontem no ‘Correio Braziliense’:
“A principal pergunta que a pesquisa do Ibope coloca é sobre o piso de Serra. Até onde ele cairá transferindo intenções de voto para a candidata de Lula? Qual é sua intenção de voto real, a que não decorre apenas de haver muitas pessoas que ainda não a conhecem?
Divulgada na quarta-feira, a mais recente pesquisa nacional do Ibope sobre a sucessão presidencial confirmou o que se sabia e o que se imaginava: a forte redução da diferença entre Serra e Dilma e um quadro de aparente estabilidade desde meados de janeiro. No cenário com Ciro Gomes, o governador fica com 35% e a ministra com 30%.
Com essa, são agora quatro pesquisas que apontam para o mesmo quadro, com variações insignificantes nos resultados. A primeira, feita entre 13 e 17 de janeiro pela Vox Populi, mostrava uma diferença de sete pontos percentuais. A segunda, feita pela Sensus entre 25 e 29 domesmo mês, falava em cinco pontos. O Datafolha, com campo nos últimos dias de fevereiro, era quase igual, com quatro pontos a mais para o tucano. Agora, na do Ibope, realizada entre 6 e 10 de março, cinco pontos.
O tamanho da redução varia em função da data de realização da pesquisa anterior de cada instituto. Assim, quem fez a pesquisa comparável mais cedo registra a maior mudança: segundo o Ibope, de 21 pontos de vantagem em novembro (quando Serra tinha 38% e Dilma 17%),passamos a cinco. Todos os outros levantamentos mostraram reduções parecidas, mas não idênticas.
Não seria, portanto, possível projetar tendências para o futuro combase apenas no que diz cada instituto. Erraria feio quem supusesse, por exemplo, que, se em três meses (dezembro, janeiro e fevereiro) Dilma subiu 13 pontos e Serra caiu oito, como diz o Ibope, então, nos próximos três, ela iria para 43% e ele para 27%. Nada, hoje, sugere que é isso que teremos em meados de junho, quando estivermos já no período das convenções partidárias.
O que as quatro pesquisas indicam é que houve uma mudança importante na virada do ano, entre meados de dezembro e de janeiro. O que a provocou é difícil dizer, pois é sempre complicado apontar causas singulares para fenômenos de opinião que afetam dezenas de milhões depessoas. Não devemos esquecer que cada ponto nas pesquisas equivale aperto de 1,35 milhão de eleitores. Ou seja, os 21 pontos percentuais de mudança, segundo o Ibope, poderiam ser lidos como indício de que mais de 28 milhões de pessoas mudaram de opinião sobre os candidatos no período.
Muito provavelmente, uma conjugação de fatores aconteceu, dos quais um dos mais relevantes foi a aparição de Dilma nos comerciais e no programa nacional do PT, secundada por sua presença também na mídia estadual de seu partido. Vale descartar que, enquanto ela aumentava sua visibilidade, Serra permanecia em seu canto.
A mudança fundamental foi no nível de conhecimento de Dilma, o que quer dizer de sua associação com Lula. Os dados do Datafolha já permitiam pensar em uma relação linear, pois, comparando seus levantamentos de dezembro e fevereiro, enquanto o conhecimento dela aumentava sete pontos, suas intenções de voto cresciam cinco pontos e as de Serra caiam cinco.
Agora, algo muito parecido é captado pelo Ibope, quando se comparam seus resultados de novembro e março. O conhecimento de Dilma foi de 32% para 44%, maior em 12 pontos. Puxadas por isso, suas intenções de voto aumentaram 13 pontos. A queda concomitante de Serra não foi tão intensa, mas chegou a oito pontos. Foi, portanto, mais uma pesquisa que reitera quão importante é acompanhar a evolução dessa variável para entender o que vem pela frente.
Mas, de janeiro para cá, entramos em uma fase de estabilidade. A rigor, são dois meses sem qualquer mudança perceptível. O que é bom para Serra, pois sua vantagem produz consequências políticas, inibindo,por exemplo, a ampliação da aliança que deverá lançar a ministra. Como seguro morreu de velho, tem muita gente nos partidos de porte médio esperando para ver o que vai acontecer.
Mas a pesquisa do Ibope, como as outras, é muito mais favorável a Dilma que a ele. Pensando nos próximos meses, a principal pergunta que ela coloca é sobre o piso de Serra. Até onde ele cairá transferindo intenções de voto para a candidata de Lula? Qual é sua intenção de voto real, a que não decorre apenas de haver muitas pessoas que ainda não a conhecem?”