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Arquivo para julho, 2011

Faça a coisa certa

31 de julho de 2011

                                   Marcos Coimbra*
              Com seu habitual bom senso, as pessoas comuns sabem que o problema da saúde não tem uma causa única ou um só culpado. O relevante é saber o que cada político faz para resolvê-lo.
Dizendo o óbvio: os governantes não são julgados pelo tamanho dos problemas que enfrentam, mas pelas respostas que a eles dão.
As pessoas não avaliam quem tem função no Executivo segundo a gravidade dos problemas existentes. Isso só acontece em situações excepcionais, quando elas se convencem que alguma coisa errada foi causada por alguém. Aí sim a conta é cobrada.
Na maior parte das vezes, não é isso que ocorre. Os problemas são de responsabilidade difusa, ninguém tem paternidade clara. Muitos são antigos e é impossível saber quando surgiram. São tão disseminados que parecem nascer por geração espontânea.
O problema da saúde pública, por exemplo. Hoje, para a vasta maioria dos brasileiros, é o mais grave e urgente do país. Do Oiapoque ao Chuí, nas pesquisas de opinião, sempre aumenta a proporção de entrevistados que o apontam como sua maior preocupação. Está se tornando uma obsessão nacional.
Alguém pode ser individualmente responsabilizado por ele? Mesmo o mais petista não teria coragem de dizer que os tucanos são culpados e só um oposicionista muito mal informado diria que a culpa é do “lulopetismo”.
Com seu habitual bom senso, as pessoas comuns sabem que o problema da saúde não tem uma causa única ou um só culpado. Que, a rigor, nem é tão importante discutir como se originou. O relevante é saber o que cada político faz para resolvê-lo. É assim que eles são avaliados, não pelo fato de haver o problema.
Foi, fundamentalmente, pela sua passagem pelo Ministério da Saúde, no segundo governo de Fernando Henrique, que Serra se tornou candidato a presidente em 2002, permaneceu no páreo em 2006 e emplacou uma nova candidatura presidencial em 2010.
A gravidade do problema da saúde impediu que fosse candidato? Alguém jogou a responsabilidade por ele em seu colo? (A campanha Lula até tentou, em 2002, sem necessidade ou sucesso). Foi porque ele resolveu o problema da saúde que teve, nas duas vezes, um desempenho razoável e chegou, em ambas, ao segundo turno?
Sabemos que não. Serra foi um bom ministro da Saúde e se tornou um candidato presidencial respeitável ao conseguir fazer boas coisas, apesar da gravidade da situação. E não foram ações que solucionaram as carências mais sentidas.
Pouco melhorou, por exemplo, a qualidade do atendimento oferecido no sistema público e pouco aumentou a oferta de equipamentos básicos, como hospitais e postos de saúde.
Iniciativas como a criação dos genéricos e a distribuição do kit anti-Aids ficaram como símbolos do que é possível fazer para diminuir problemas complicados. Um “pouco” que é “muito”. Isso é que foi relevante na formação da imagem de Serra.
Há algo parecido na briga de Dilma para moralizar o Dnit. É lá, no foco de problemas de corrupção que existem há anos no setor, que ela se propôs a mexer e a não descansar enquanto não terminar uma faxina em regra.
O que mais chama atenção é quão sozinha ela está na empreitada. No Congresso, seu partido lhe dá apoio apenas discreto, temendo indispor-se com as outras bancadas da “base”. Nessas, ninguém defende medidas que podem se voltar contra elas.
A oposição finge espanto com o que vê e se recusa a contribuir para que tenha sucesso. Na mídia, seus porta-vozes preferem o papel de vestais escandalizadas em vez de reconhecer o valor do que Dilma está fazendo.
Fazer uma limpa no Dnit resolve a corrupção no Brasil? Talvez não, mas é um passo fundamental. E é dando um passo de cada vez que se anda. Pelo menos, na vida real, onde promessas grandiosas e onipotentes costumam ser sinônimos de fazer nada.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Voz Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

Novais, ilustre “ineficiente”

31 de julho de 2011

       Trecho de uma reportagem da ‘Zero Hora’ deste domingo:
“Novais (Pedro Novais, ministro do Turismo) faz parte do rol dos considerados  “ineficientes” e “inadequados”. Dilma chegou ao encontro 30 minutos atrasada e tentou descontrair:
– Dizem que não nos falamos.
– Mas é verdade – retrucou Novais.
– Então, me diga o que o trouxe aqui – ordenou Dilma.
Com uma ladainha, o ministro do Turismo despejou a pauta. Ao final da palestra, a presidente olhou para o subordinado e disparou:
– Se era esse o assunto, realmente, não havia motivo para ter pressa em recebê-lo”.

O poderoso decano do Planalto

31 de julho de 2011

      Do repórter Paulo de Tarso Lyra, do ‘Correio Braziliense’.
      “Gilberto Carvalho não é alto. Também não tem uma voz retumbante e nem gosta de púlpitos para desfilar pérolas políticas e filosóficas. Torce pelo Palmeiras, considerado o principal rival do time do coração de um de seus principais amigos e mentores — o corintiano Luiz Inácio Lula da Silva. Com uma
formação teológica, não faz questão de ostentar poder ou demonstrar prestígio.
Mas Gilberto amplificou o seu grau de influência nos últimos meses, após a queda do então chefe da Casa Civil, Antonio Palocci. Tornou-se decano do Planalto e principal conselheiro da presidente Dilma Rousseff e das ministras Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil).
Até nisso, Gilberto contraria a lógica. “Ele é o “bendito é o fruto” em um palácio comandado por mulheres”, brincou o senador Delcídio Amaral (PT-MS). Ninguém na sede principal do Poder Executivo tem tanta quilometragem de governo quanto ele. A presidente Dilma Rousseff está na equipe desde 2003, mas ela ocupava antes o Ministério de Minas e Energia. Gilberto já estava no Planalto, em um gabinete colado com o do presidente Lula. Uma proximidade que vem de muito tempo. Responsável pela agenda do petista durante a campanha, acostumou-se a ser xingado pelo ex-chefe do Executivo, mas devolve os palavrões no mesmo tom — é bem verdade que, em alguns casos, o revide vinha em outro momento, para não romper a liturgia do cargo. “Por esse homem, eu posso morrer”, admitiu o ministro, em seu discurso de posse.
Quando Dilma assumiu, em janeiro, não pensou duas vezes: convocou “Gilbertinho” para, segundo ele, no mesmo discurso, “dizer as verdades, falar das coisas como elas acontecem e me trazer a sensibilidade e o sofrimento do povo e dos movimentos sociais”. Gilberto incorporou o papel, agregando a sua conhecida
humildade. Uma companheira de quarto andar do Palácio do Planalto não lembra de nenhum momento em que tenha cruzado pelo corredor com o secretário-geral da Presidência sem que ele tenha lhe dado bom-dia ou perguntado como estava. “Ele olha nos olhos da pessoa.” Segundo a interlocutora, não aquele olhar lançado por algumas pessoas com o intuito de seduzir. “Não, ele tem um interesse cristão pelo bem-estar dos outros”, confirmou essa assessora palaciana.
Em conversas com jornalistas no início do ano, Gilberto admitiu que ainda não estava acostumado com o “figurino de ministro”. Em tom de brincadeira, disse que duas coisas o incomodavam. “Como ministro, eu tenho de dar entrevistas.
Antes, como chefe de gabinete, podia passar mais discretamente.” A segunda coisa é ainda mais curiosa: “De vez em quando, me dá vontade de entrar no gabinete presidencial e ver o que está acontecendo”. Questionado se ele não teria autonomia para fazer isso na gestão Dilma — afinal, despacha com a
presidente diariamente, na primeira agenda matinal — esquiva-se: “Posso, mas só quando ela me chama”, disse, com um sorriso fácil no rosto.
Hoje, os tempos mudaram. O todo poderoso ex-chefe da Casa Civil Antonio Palocci não despacha mais no quarto andar. Sua sucessora, Gleisi Hoffmann, é debutante até mesmo no Senado — assumiu o mandato em fevereiro deste ano. Foi pega de surpresa para assumir a pasta, topou o desafio, mas não abre mão de
consultar Gilberto Carvalho nos momentos de dificuldade. Ao Correio, Gleisi lembra de uma cena que considera comovente vivida ao lado de Gilberto. “Eu o visitei em 2003, quando Lula tomou posse e ele se transformou em chefe de gabinete. Parecia incomodado”, recorda. Ela indagou se havia algo errado. “Ele
me respondeu que achava o gabinete grande demais. Tempos depois, fui visitá-lo e a sala tinha sido reduzida pela metade. O Giles (Giles Carriconde Azevedo, chefe de gabinete de Dilma) despacha apertado por culpa do Gilberto”, brincou a ministra.
A relação de Giles com Gilberto também é franca. O atual secretário-geral da Presidência elogia muito seu sucessor na chefia do gabinete, considerando-o leal e competente. E sai em sua defesa quando a presidente Dilma Rousseff “solta os cachorros” sobre o auxiliar. Nessas horas, segundo Gilberto, não
existem diferenças entre Lula e Dilma. “Sentou naquela cadeira, grita mesmo. Mas eu falo para o Giles responder no mesmo tom. Nossa classe (de chefes de gabinete) precisa ser unida”, diverte-se Gilberto, pai de cinco filhos — dois deles adotivos.
Lula também não se cansava de provocá-lo sobre uma pequena chácara que Gilberto mantém nos arredores de Brasília. “Gilbertinho, aquela terrinha nunca vai dar nada não?”, cutucava o presidente. Hoje, Gilberto comemora a plantação de tomates sem agrotóxicos, que será até tema do programa Cidades e soluções, da Globonews. Mas o ministro demonstrou preocupação, recentemente, durante audiência com representantes dos movimentos sociais. “Espero que o novo Código Florestal não me dê dor de cabeça”, declarou, meneando a cabeça e segurando a gargalhada.
Nos tempos de chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho sofria com a pressão corintiana do ex-presidente, fanático pelo esporte bretão. Quando o Corinthians foi campeão da Copa do Brasil em 2009, Gilberto espezinhou: disse que o gabinete presidencial estava “irritantemente alvinegro e lamentavelmente pouco verdejante”. A rivalidade futebolística entre os dois sempre foi levada na brincadeira”.

Dilma constrange Nelson Jobim

30 de julho de 2011

                Dos repórteres Natuza Nery, Fernando Rodrigues e Marcio Falcão, da ‘Folha’:
                “A presidente Dilma Rousseff constrangeu ontem o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao tratá-lo de forma protocolar durante evento oficial no Palácio do Planalto.
Ela avalia a possibilidade de demiti-lo da pasta após Jobim declarar publicamente à Folha e ao UOL ter votado no tucano José Serra na eleição presidencial de 2010.
Dilma ficou irritada com a declaração. Cogitou demitir Jobim, mas preferiu não fazer isso já. No governo avalia-se que, se o ministro tivesse pedido demissão, ela teria aceito na hora.
Ontem, em um evento no Planalto, Dilma tratou o auxiliar com frieza ostensiva. Não o citou no discurso, como é praxe. O cumprimento entre ambos foi protocolar. Dilma já sabia da opção eleitoral do ministro por Serra desde o ano passado. Ainda assim, decidiu reconduzi-lo ao cargo por influência de Lula. Pesou a
favor de Jobim seu reconhecimento no meio militar e seu trabalho para institucionalizar o Ministério da Defesa, criado há 12 anos.
Ministro de Lula e Fernando Henrique, Jobim perdeu espaço sob Dilma. Deixou de ser mediador em negociações com o mundo jurídico e não conseguiu concluir a compra dos caças Rafale.
O próprio Jobim confidenciou a amigos que não ficará por muito tempo no posto. A recente polêmica, porém, pode precipitar sua saída.
Além de revelar o voto em Serra, o ministro afirmou que o tucano teria tomado as mesmas atitudes de Dilma se tivesse vencido a eleição. Essa foi a segunda controvérsia a incomodar o Planalto. Em junho, numa
homenagem a FHC, o ministro havia dado declaração ambígua: “Os idiotas perderam a modéstia”. Isso foi interpretado como uma referência à atual gestão. Ele negou.
O Planalto registrou que Jobim revelou o voto em Serra na terça de manhã mas não antecipou a declaração, que seria publicada no dia seguinte, na reunião que teve com Dilma naquele dia.
Ontem, integrantes do alto escalão tratavam da demissão sem cerimônia. Dilma chegou a ouvir de diversos interlocutores que o melhor seria demiti-lo de imediato.
Na segunda, o ministro dará entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura”.

Cadeias lotadas

30 de julho de 2011

                                                                Drauzio Varella*
                Lugar de bandido é na cadeia, diz o povo. Concordo, não tem cabimento deixar solto alguém que mata, assalta ou estupra, mas faço um reparo ao dito popular: lugar de bandido é na cadeia desde que haja lugar.
No sábado passado, o jornalista André Caramante publicou na Folha um relato sobre a superpopulação nos presídios: “Diariamente cem pessoas deixam as prisões paulistas, enquanto outras 137 são encarceradas”. Não é preciso ser gênio em matemática para avaliar as dimensões da bola de neve: se a cada dia a massa carcerária sofre um acréscimo de 37 presos, em um mês serão 1.110 a mais.
Os técnicos recomendam que as cadeias não tenham mais de 800 detentos, para evitar indisciplina, fugas, dificuldade de vigilância, perda de controle e aparecimento de facções dominadoras. Com 1.110 presos a mais a cada mês que passa, deveríamos construir três presídios novos de dois em dois meses, ou seja, 18 por ano.
Sem levar em conta as dificuldades logísticas e a má vontade dos municípios que movem montanhas para impedir a instalação de prisões nas proximidades, analisemos apenas os custos de construção: se uma cadeia nova não sai por menos de R$ 30 milhões, para levantar as 18 gastaríamos R$ 540 milhões por ano. Quantas escolas faríamos com esse dinheiro?
Para não aborrecê-lo com mais números, caríssimo leitor que resistiu até agora, vou deixar de lado as despesas com a folha de pagamento dos funcionários e todos os custos de manutenção.
Graças às medidas tomadas pela Secretaria da Segurança nos últimos anos, a polícia de São Paulo ganhou mais competência. A continuar assim, à medida que esse processo de modernização e moralização se aprofundar, mais gente será presa. Vejam o paradoxo: a sociedade quer polícia atuante e todos os bandidos atrás das grades, mas não terá recursos para aprisioná-los em condições minimamente civilizadas. Como sair do impasse?
Ainda que mal compare: quando um produto abarrota o mercado, o que fazem os produtores? Diminuem a produção.
Violência urbana é doença multifatorial e contagiosa, que nas camadas mais pobres adquire características epidêmicas. Em sua gênese estão implicados fatores tão diversos como escolaridade, consumo de drogas ilícitas, desemprego, impunidade, condições de moradia, falta de espaço para lazer e muitos outros
aspectos.
Os estudos mostram que correm mais risco de se tornar violentos aqueles que viveram pelo menos uma das seguintes situações: 1) falta de afeto e abusos físicos ou psicológicos na primeira infância; 2) falta de orientação familiar e de imposição de limites durante a adolescência; 3) convivência com pares envolvidos em atos de violência. Na periferia das cidades brasileiras, milhões de crianças vivem nessas três
situações de risco. São tantas que é de estranhar o pequeno número que envereda pelo crime.
Nossa única saída é oferecer-lhes alternativas de qualificação profissional e trabalho decente, antes que sejam cooptadas pelos marginais por um salário ridículo e sem direitos trabalhistas. Espalhadas pelo país há iniciativas bem-sucedidas nessa área, mas o número é tímido diante das proporções da tragédia social. Há necessidade de um grande esforço nacional que envolva as diversas esferas governamentais e mobilize a sociedade inteira.
Como parte dessa mobilização, é fundamental levar o planejamento familiar para os estratos sociais mais desfavorecidos. Negar-lhes o acesso ao controle da fertilidade é a violência maior que a sociedade comete contra a mulher pobre.
Toda vez que faço essa afirmação recebo e-mails de religiosos e de acadêmicos revoltados com ela. O argumento dos religiosos é o de sempre, o dos acadêmicos é a ausência de pesquisas que demonstrem a relação entre número de filhos e violência urbana.
Pergunto a você, leitor, e precisa? Há necessidade de evidências científicas para uma conclusão tão óbvia? Na penitenciária feminina em que atendo, é mais fácil achar uma agulha no palheiro do que uma menina de 25 anos que não tenha três ou quatro filhos, quase sempre indesejados. Algumas têm sete ou oito,
espalhados em casas de parentes e vizinhos, morando na rua ou sob a tutela do Estado.
*Drauzio Varella é médico e escreve para a ‘Folha’.

Coronéis cercam Kassab

30 de julho de 2011

     Do jornalista Claudio Humberto, em sua coluna no ‘Jornal do Commercio’, do Recife:
      “O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, gosta de ordem unida: tem 29 coronéis comandando as subprefeituras da capital paulista”.

Itamaraty compra obras de arte

30 de julho de 2011

    Do repórter Silas Marti, da ‘Folha’:
    “Quase 30 anos depois de abandonar seu programa de aquisições de obras de arte, o Ministério das Relações Exteriores quebra esse jejum nesta semana, anunciando a compra de 16 trabalhos de artistas brasileiros para compor seu acervo permanente.
Uma lista de 82 finalistas já foi elaborada por uma comissão julgadora, primeira peneira de 2.000 candidatos inscritos, que se estreita na próxima quinta com a escolha das obras que passarão a integrar a coleção, num investimento de R$ 150 mil.
Na primeira etapa do edital, a seleção ficou a cargo de brasileiros, representantes de instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte Moderna da Bahia e dos centros culturais do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.
Estão na lista de finalistas, à qual a Folha teve acesso, jovens artistas, como Ana Elisa Egreja, Gui Mohallem, Matheus Rocha Pitta, Rafael Carneiro e Rodolpho Parigi, e trabalhos de autores consagrados, como Marepe, Carlito Carvalhosa e Paulo Monteiro.
Também há um grande contingente de artistas ainda pouco conhecidos ou sem expressão no mercado nacional e no circuito institucional.
É provável que os escolhidos sejam mesmo os nomes mais famosos, já que a decisão final será de uma comissão com curadores estrangeiros, entre eles Tanya Barson, da Tate Modern, em Londres, e Alison Greene, do Museum of Fine Arts, de Houston.
São profissionais reputados no circuito global, mas que têm contato limitado com a produção mais emergente realizada agora no país.
Segundo o diretor do departamento cultural do ministério, George Torquato Firmeza, resgatar “uma política sistemática, planejada, de aquisição” é um dos objetivos da atual gestão da chancelaria, a cargo do ministro Antonio de Aguiar Patriota.
“No exterior, a expansão de nossa rede de consulados e embaixadas tornou mais aguda a demanda por obras de arte”, diz Firmeza. “Uma embaixada do Brasil não pode ser considerada completa sem algumas poucas obras de artistas brasileiros.”
Mas o valor investido por enquanto, e que pode ser duplicado na próxima edição do concurso no ano que vem, fica aquém da realidade do mercado nacional, em plena ebulição e com valores de obras em alta exponencial. Também é um tanto anacrônica a divisão das peças escolhidas em quatro categorias, pintura, escultura, fotografia e obras em papel, deixando de fora vídeo, instalação e a produção contemporânea mais experimental.
Grafite deve ser o próximo suporte a entrar para o edital, a partir do ano que vem. Talvez por esse funil estreito demais dos suportes ou valores ainda modestos, as obras finalistas se restringem a peças que podem figurar num canto de sala ou penduradas nas paredes dos prédios oficiais mundo afora”.

Dilma enfrenta Mantega com soco na mesa

30 de julho de 2011

            Da repórter Eliane Oliveira, de ‘O Globo’:
            “A presidente Dilma Rousseff enquadrou ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e determinou que a área econômica trabalhe no fim de semana, se necessário, para buscar formas de promover a desoneração de investimentos do setor produtivo. Dilma deixou claro que não admite adiar o anúncio da nova política industrial, marcada para a próxima terça-feira, devido a divergências dentro do governo por causa do tamanho da renúncia fiscal.
Segundo uma fonte que presenciou a conversa, Dilma chegou a bater com força na mesa, ao dizer que não haveria mais uma postergação. “Receita Federal não manda no meu governo”, teria afirmado a presidente, segundo a fonte.
A reunião foi convocada ontem por Dilma, de Lima, onde estava para a posse do presidente do Peru, Ollanta Humala, e ocorreu pela manhã, no Palácio do Planalto. Também participaram os ministros do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, e de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, e o presidente do
BNDES, Luciano Coutinho.
Além da questão fiscal, a área econômica argumenta que, com o agravamento da crise nos EUA e a turbulência na Europa, talvez este não seja o melhor momento para anunciar medidas de incentivos fiscais. A possibilidade de adiamento surgiu na última quinta-feira, quando os convites enviados para pessoas
ligadas ao governo foram cancelados. Preocupado em anunciar um pacote medíocre, com apoio financeiro exclusivo do BNDES, e o estabelecimento de metas ambiciosas de exportações, investimentos e gastos com inovação tecnológica, a serem atingidas até o fim de 2014, Fernando Pimentel sugeriu que o anúncio
fosse postergado por duas semanas.
Nos bastidores, a informação é que Pimentel, com apoio de Mercadante e outros integrantes do governo, preferiria não anunciar a política industrial da forma como estava. Na reunião, quando a presidente disse que era preciso um esforço maior para evitar que o setor produtivo brasileiro se frustrasse com a
ausência de benefícios tributários que lhes dessem um fôlego maior na competição com os importados, Mantega teria endossado a sugestão de adiamento de seu colega, o que incomodou Dilma.
- Estamos sob pressão do setor privado e, com a carga tributária elevada e o real se valorizando do jeito que está, o que podemos fazer? - indagou uma fonte que também acompanha as discussões”.

Sucessora para Ellen Gracie

30 de julho de 2011

     Do Painel da ‘Folha’:
     “Com a confirmação de que Ellen Gracie deixará o STF em agosto, ganhou corpo no mundo jurídico a avaliação de que a ministra do Superior Tribunal Militar , Maria Elizabeth Rocha tem boa chance de herdar o posto. Rocha trabalhou com  Dilma na subchefia de assuntos jurídicos da Casa Civil e advogou para petistas antes de ingressar no STM”.

Duros aprendizados

27 de julho de 2011

                                                                    Marcos Coimbra*

       O fortalecimento de partidos de direita na Europa é a parte visível de um movimento mais profundo, de xenofobia e preconceito, que se dissemina por todo o continente, dos maiores aos menores países.
Não há nada de bom em tragédias como a que aconteceu na Noruega. Foi uma coisa estúpida, que causou a morte de quase 80 pessoas e trouxe dor a todo um país.
Alguém teria coragem de dizer que foi boa, em qualquer sentido que seja?
A respeito das tragédias, só uma coisa se sabe. Que, quase sempre, poderiam ser piores. Em chacinas e atentados como esse, mais gente poderia morrer, mais destruição advir, maiores os custos humanos e materiais. Nos desastres ambientais, como o recente no Japão, maior o impacto e o tempo de recuperação.
No morticínio na Noruega, tudo seria pior se o assassino não fosse um nórdico louco de direita. Se não tivesse as características exteriores de um “legítimo” cidadão de seu país.
Quem viu o manifesto deixado por ele terá notado o paradoxo do ato que cometeu  à luz das ideias em que acreditava. Diz que a Europa precisa se proteger de três forças que ameaçam destrui-la: o “marxismo cultural”, o “multiculturalismo” e o “islamismo”. Era um militante de extrema direita, um convicto defensor do “monoculturalismo” (segundo sua definição) e um devoto do extremismo cristão.
O paradoxo está em que, por suas mãos, a morte veio de dentro, e não de fora da sociedade. Dizendo-se defensor, foi o verdadeiro agressor. Quem matou não foi “o estrangeiro”.
E se tivesse sido? Se estivesse certo e fosse real uma ameaça como aquela que imaginava? Se as 76 mortes tivessem sido causadas por um outro louco, só que imigrante? Árabe? Africano? Sul-americano? Se fosse esquerdista? Anarquista? Ecorradical?
O fortalecimento de partidos de direita na Europa é a parte visível de um movimento mais profundo, de xenofobia e preconceito, que se dissemina por todo o continente, dos maiores aos menores países. São cada vez mais frequentes os episódios de conflito social e racial, que só fazem subir as tensões entre
europeus de diferentes origens.
Se um radical islâmico, por alguma razão maluca, matasse 68 jovens noruegueses, na festa alegre de uma sexta feira de verão, um tsunami de intolerância varreria a Europa. É difícil imaginar o que aconteceria, mas é certo que as fogueiras estariam queimando.
O governo social-democrata norueguês reagiu ao massacre de forma exemplar. O primeiro-ministro prometeu que enfrentaria suas consequências andando para diante e não recuando. Seria com mais democracia e mais liberdade que seu país responderia, e não aumentando controles e reduzindo direitos civis.
Trata-se de receita inversa à que mistura paranoia e vingança (na base do “olho por olho”), tão típica nas reações de vários países quando passam por traumas parecidos, a começar pelos Estados Unidos.
A experiência brasileira com esse tipo de tragédia é pequena. Não que sejamos uma sociedade menos violenta (ao contrário), mas, no Brasil, são raros os casos de assassinos com motivações e comportamentos semelhantes.
No evento mais grave de nossa história, o da escola de Realengo, em abril deste ano, a reação do sistema político e da sociedade foram tão elogiáveis quanto agora na Noruega. Por mais chocados que tenhamos ficado com a morte de 12 crianças, a tragédia não nos levou a retroceder em opções fundamentais. Não
mudou, por exemplo, a política de abertura das escolas, por mais que, logo após o tiroteio, tivesse havido quem pedisse que fossem cercadas e contratados guardas armados para servir de porteiros.
No fundo, não há mais o que fazer em tragédias. É possível encontrar algum conforto imaginando que poderiam ser piores. E torcer para que tenhamos sabedoria para não afundar com elas.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o
‘Correio Braziliense’.