O Globo costuma a tratar a sua página 2 como uma segunda capa. Ou seja: é lá que está o que o jornal considera mais importante para colocar diante do frontispício de seu leitor além da portada, no tratamento dos espanhóis. Também é neste espaço que costuma incensar seus repórteres, suas coberturas, suas reportagens e o que julga fora do comum, embora tão comum, insosso e descartável seja às vezes o que é levado aos seus leitores. Tudo fica na sessão “Por Dentro do Globo”, uma espécie de festa de confetes em que o jornal costuma confeitar a si mesmo. É claro que O Globo tem fracos, medíocres,bons e excpcionais jornalistas. Como todos os demais veículos de comunicação. Quando homenageia os bons, faz bem. Ao lustrar os menores, age em nome daquilo que os especialistas em Recursos Humanos chamam de equilíbrio do bom clima empresarial.
Mas se sempre fez assim, já há algum tempo, tratando apenas da sua mão-de-obra, O Globo ao menos mantinha circunscrita ao seu grupo o que era meritório ou exagerado. Transpor as linhas da sua própria redação para, diretamente e da forma mais indireta, atacar, achincalhar e criticar procedimentos jornalísticos de concorrentes, deixa o jornal vulnerável a algumas observações sobre fatos recentes.
Na página 2 desta segunda-feira, ainda no “Por Dentro de O Globo,” o jornal se lança a uma comparação- e o alvo é O Dia- sobre o tratamento dado ao caso do goleiro Bruno, do Flamengo, investigado pelo sumiço de sua ex-namorada Eliza Samudio. Está dito lá que O Globo agiu com ética, prudência, não foi atrás da manchete fácil, etc e tal. Fala, sem dizer, que O Dia agiu ao revés.
Chega ao ponto de dizer que o comportamento do concorrente, dada a irresponsabilidade vista por O Globo, assemelha-se ao episódio da Escola de Base de São Paulo.Para quem não sabe, este foi um caso em que os maiores jornais do país, munidos apenas da versão policial, compraram e publicaram a versão de que diretores do colégio eram responsáveis por abusos contra seus alunos.
Trata-se de uma comparação sem cabeça, sem tronco e sem membros. E sem cérebro.
O Dia, pelo visto e até em prova em contrário, não adquiriu uma fantasia policial. Noticiou um fato (o caso do goleiro Bruno) com elementos consistentes. A cobertura de O Globo no dia seguinte e de seu site corroboram a importância da informação.
Diz o titulinho da seção “Por Dentro de O Globo”: “A ética na notícia”.
É um titulinho com força de titulão. Mas apenas para lembrar questões éticas no jornalismo e em situações ainda frescas e não sepultadas ou revogadas, vale lembrar algumas.
Na campanha de reeleição de Lula, no momento em que a facção criminosa PCC levava São Paulo a um estado de aboluto pânico, foi manchete do jornal alguma coisa parecida como “PT usará PCC” na campanha. Quem leu achava que o facínora Marcola deveria ser, então, candidato do Partido dos Trabalhadores.
Em fato mais próximo, O Globo, quando o Ministério Público ofereceu denúncia contra o casal Garotinho por suposto uso de Ongs em desvio de dinheiro público, estampou manchete com letras monumentais. Quase um out-door na primeira página. Semanas depois, o pleito do Ministério Público foi rechaçado categoricamente pela Justiça. Nem uma linha no no jornal, nem uma nota com letra em corpo de bula de remédio, aquela que ninguém consegue ler de tão diminuta. Correção: apareceu muitos dias depois num pé de página.
Para completar. Há dois ou três domingos, foi manchete do jornal O Globo uma suposta feira de drogas no Complexo do Alemão. Uma incredulidade absoluta. Havia quem vendia um tipo de estupefaciente; quem negociava outro;quem agia no atacado; quem trabalhava no varejo. Nem uma foto, nenhum depoimento mais consistente. Apenas um off (notícia sem fonte explicitada) sem fim.
Certamente foi a compra de uma versão de um ou mais policiais sem cérebro para uma reportagem sem cabeça, tronco ou membros. Dela só sobrou como caldo a palavra do secretário de Segurança José Mariano Beltrame de que uma ação sangrenta, com baixas entre criminosos e bandidos, é inevitável no local.
Ética na notícia, como diz o titulinho com ares de titulão,é desejável e imprescindível. Então, como se diz no jargão jurídico. Cumpra-se e plubique-se. Com todos, em todas as situações e em qualquer caso.